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José Manuel Fernandes quer falar no Contra Corrente da medalha de ouro de Telma Monteiro, mas não é só por causa dela, é também por causa de António Costa. E parece que não gostaste de o ver no sábado, no Altice Arena.
Sinceramente mesmo, acho um enjoo este oportunismo dos políticos de se pendurarem em todo e qualquer êxito desportivo. Quer dizer, ganha-se uma coisa qualquer e lá está um político pendurado ao lado da equipa, do jogador, do corredor, do que seja. E devo dizer que, sem perceber nada de judo, tenho também imensa admiração pela Telma Monteiro e, por isso, acho mesmo desprezível aquilo que se passou no sábado. E pesa as palavras que estou a dizer. Ainda os campeonatos estavam a decorrer, ainda havia outros judocas a competir, havia atletas que ainda podiam ganhar medalhas e foram ganhar medalhas, e lá foi uma delegação de políticos. Não foi um, foi uma molhada deles, porque para eles não há confinamento, não há distância social. Lá estava o Primeiro-Ministro António Costa, o Ministro da Educação, que é essa inutilidade do Tiago Brandão Rodrigues, mais o Secretário de Estado do Desporto e, inevitavelmente, o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, que agora não pode perder uma oportunidade para aparecer na televisão, e não sei quem mais ainda, porque ainda havia mais gente ali naquele molho. Eu acho isto tudo absolutamente miserável. Em Portugal não pode haver ajuntamentos, a não ser de políticos e de políticos do PS, pra aparecerem nas televisões. Acho tudo lamentável.
José Manuel, mas tu não achas que a Telma Monteiro merecia a medalha que recebeu?
A medalha de mérito desportivo? Quer dizer, eu não sei, não lhe perguntei, mas tenho a certeza que a medalha que ela valoriza mesmo é a medalha de ouro que tinha acabado de conquistar. Acho que essa ela não vai deixar de guardar no sítio certo. Como já te disse, eu não percebo nada de judo, mas interessei-me o suficiente pela vida da Telma Monteiro para que há uns anos, quando foi os últimos Jogos Olímpicos, tirei a autobiografia dela. E vale a pena, porque é uma lição de vida, e é uma lição de vida porque ela escreve lá coisas que poucas pessoas, penso eu, se atreveriam a escrever. Como por exemplo, que nascer num bairro social, que foi onde ela nasceu, pode aparentemente ter muitas desvantagens, mas também permite ganhar coisas que não têm preço.
Essa ideia é muito forte, realmente.
Sim, a Telma nasceu num daqueles bairros de Almada que falámos aqui há umas semanas, quando foi aquela polémica do bairro do Pica-Pau Amarelo. O bairro dela é um bairro que fica um bocadinho abaixo, que é o Bairro Branco. A vida dela nunca foi fácil, porque o pai era pintor de automóveis, a mãe era cozinheira. Não me lembro, acho que era num restaurante em Lisboa. Ela vivia numa casa onde não havia dinheiro, mesmo não havia mesmo dinheiro, mas ela não se envergonha desses dias. Eu vou citar umas linhas do livro que acho que valem a pena: "Quem vivia naquele meio podia ter dificuldades monetárias na sua família, como era o meu caso. Podia não poder comprar os ténis de marca. Teria até de presenciar situações a que não é normal uma criança assistir. Mas uma coisa era certa: para nós, havia todo um mundo por explorar, montes de espaço para descobrir, mil aventuras a nossa espera, e estava tudo ali, à nossa porta."
É o que diz a Telma Monteiro. Bom, mas podia ter corrido mal.
Podia, mas acho que aquilo que fez a diferença foi a maneira de ser da Telma e também da sua família. Ela conta no livro coisas que hoje parecem difíceis de acontecer, mas ela andava sozinha nos transportes, por exemplo, entre a escola e o Estão, para o que ela começou a treinar. Mas depois, mais tarde, fez uma coisa que também poucas pessoas fazem, que é não desistiu de estudar numa universidade pública, que lhe complicou a vida. E não desistiu de estudar, mesmo quando já começava a ganhar dinheiro no judo, porque lhe pagavam, quando ela começou a ter uma vida de atleta profissional. Conta também que um dia fez uma festa com a irmã, no regresso de uma prova internacional, uma festa apenas porque dividiu no aeroporto, e volto a citar o livro, "um Toblerone daqueles pequenos, porque era só para isso que dava o euro que tinham no bolso, enquanto os colegas da seleção iam comer a algum lado." Estás a ver? Tudo coisas simples, e que ela conta na autobiografia, que é atravessada toda ela por uma ideia forte: a vida não é determinada pelo sítio onde nascemos. Que é um princípio que hoje às vezes parece que esquecemos. Mas não só, há um outro ponto em que ela insiste muito, e volto a citá-la, e que é este: "Atribuir a culpa do nosso insucesso a outros guia-nos ao próprio fracasso." Eu acho que é uma frase que encaixa tão bem no discurso desta maioria que nós temos e que nos governa, no discurso que está sempre a ser repetido, que a culpa é do Passos. E acho que depois daquela cerimônia, era de enviar um exemplar da autobiografia com um marcador e aquela frase delineada ao nosso primeiro-ministro, pra ver se ele, ao menos, tomava nota disso.
Lá vens tu com a tua provocaçãozinha, José Manuel.
Já te disse. Achei mesmo aquela cerimônia de um enorme oportunismo. Nem sequer houve respeito, como te disse, pelos outros atletas. Só pensaram mesmo em aparecer ao lado da Telma para ficarem com os louros da Telma. Eu sei que não são os primeiros políticos a fazer isso e infelizmente não serão os últimos, mas o que é demais é mesmo demais. Depois, acho sempre bom recordar essa máxima de que estamos sempre a culpar os outros pelos nossos erros e que isso só nos conduz a mais fracassos. Infelizmente, é um mal muito português. Aliás, já o Alexandre O'Neill dizia que entre os portugueses, uma das frases mais vezes repetida é: "A culpa não foi minha, a culpa não foi minha." E ele acho que mesmo assim. Quer dizer, Alexandre O'Neill já morreu há uns 35 anos, salvo erro. Acho que ele morreu em 1986, mas continua a ter toda a razão. O nosso primeiro-ministro, no fundo, não faz mais do que repetir hábitos nacionais. A culpa nunca é dele, mas os portugueses perdoam-no, porque os portugueses também acham que a culpa nunca é deles. Eu acho que é em boa parte por isto que não temos mais Telmas Monteiros ou, se quiseres também, mais Cristianos Ronaldos. Nenhum deles nasceu em berço de ouro, mas eles trabalharam muito pra chegar onde chegaram. No caso da Telma, até continuando a estudar e sem ganhar aquelas fortunas imensas, mas sabendo dar bons exemplos e, novamente no caso dela, ser a força de uma equipa e de uma seleção que conquistou o que conquistou este fim de semana. O que nós precisamos de aprender é com ela. E é que há em Portugal algo melhor do que o choradinho, do que o desgraçadinho, e que mesmo quem nasce em bairros pobres pode fazer uma vida, pode ir pra frente. O que nós precisamos de aprender com ela é a não desistir. O que nós precisamos de aprender com ela é a ser responsáveis pelos triunfos, mas também pelos fracassos. Por tudo isso, ainda me irritou mais aquela molhada de políticos oportunistas a mostrarem-se nas televisões. É porque eu acho mesmo que ela não merecia aquilo. Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou 98.4, no Grande Porto.