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Já passou todo um fim de semana sobre a leitura da decisão instrutória da Operação Marquês, mas José Manuel Fernandes não podia fugir ao tema José Sócrates no "Contra Corrente". Escreveste uma crônica este sábado e ainda ficaste com muito pra dizer, é isso? Bom dia, José Manuel.

Bom dia. É verdade, eu de facto escrevi uma crônica aqui no Observador e vou ser sincero contigo, não dediquei o meu fim de semana a ler as quase 7 mil páginas do acórdão, porque aquilo foi um fim de semana, uma sexta-feira à noite e um sábado intensos, mas depois chega. Se quiseres, aquilo que eu gostava de ter lido, se tivesse podido, era o livro que o antigo primeiro-ministro escreveu e que tivemos um vislumbrezinho dele no "Dia de Notícias" ontem. Parece que ele já o tinha pronto em 2018, mas quando soube que era Ivo Rosa o juiz que vinha, resolveu guardá-lo na gaveta e esperar por este momento. Vou ser sincero, desse livro não me interessam muito os capítulos em que ele volta à narrativa das explicações sobre a sua vida, da vida que levava e aquelas coisas todas sobre os detalhes da acusação. Eu já conheço essa versão de trás pra frente e da frente pra trás. Aquilo que achei mais interessante, ou pelo menos aquilo que me interessa mais a mim nesta altura, é o que ele conta sobre a sua relação com o PS.

E aí a frase que ele escolheu é: "A política ama a traição, mas despreza o traidor." É uma frase forte.

Exato. Ele gosta sempre de ter algum teatro. É uma frase de um político brasileiro, Lucio Guimarães, e vê-se como Sócrates gosta sempre de obter belos efeitos. Infelizmente, os bocadinhos que ontem vieram transcritos na imprensa parecem-me apenas um aperitivo, mas seja lá como for, ficamos a saber um pouco mais daquilo que já sabíamos. No fundo, o ódio que ele tem à direção de António José Seguro e aquilo que foi a desilusão com a direção de António Costa, em que ele apostou. Ele trabalhou pra que Costa substituísse Seguro e também a forma como ele ataca Carlos César. Até porque em defesa de Manuel Pinho parece até ser uma coisa menor, mas percebe-se que Sócrates, sobretudo, não perdoou Costa, por Costa não o ter defendido. Na cabeça de Sócrates, há uma coisa que é clara: o PS tinha que ter tomado a sua defesa. Para Sócrates, Costa devia ter ido pelo menos a Évora tantas vezes como Mário Soares, por exemplo, que passava lá todas as semanas.

Foi várias. Mas António Costa, se bem me recordo, só foi uma vez.

Sim, e recordas-te bem, António Costa só visitou José Sócrates uma vez. Uma visita muito rápida. Todos nos lembramos muito bem que ele estava vestido de uma samarra aos quadrados que é inesquecível. E depois fez aquela espécie de cerca sanitária em torno de José Sócrates. Desde o início do processo, Costa percebeu que não podia deixar que o caso Sócrates contaminasse o PS.

E isso Sócrates não lhe perdoa.

Pois, ele acha que isso é uma traição e nas suas palavras, e cito: "A direção do partido não honrou a sua declaração de princípios. O Partido Socialista considera primiciais a defesa dos direitos, liberdades e garantias fundamentais dos cidadãos. Ao negar esses valores, e não apenas por omissão, o PS abandonou conscientemente a principal referência da sua cultura política." Ora bem, Sócrates sempre se achou uma vítima, uma vítima do Ministério Público, uma vítima dos jornalistas e por isso sempre exigiu solidariedade. Ora, Costa percebeu que se tivesse dado solidariedade, era associar o PS ao processo e era associar o PS aos crimes do antigo primeiro-ministro e, por isso, naturalmente, optou pelo silêncio.

Mas tu achas que num caso como estes, o silêncio é suficiente?

Sinceramente, acho que o silêncio não é suficiente. O chamado socratismo, chamemos-lhe assim, de uma forma muito esquemática, eu diria que tem três componentes e que uma era pessoal. E tem a ver com essa teia de corrupção que temos falado nos últimos dias e que estes anos de investigação revelaram. É bom não esquecermos que até o juiz Ivo Rosa acha que Sócrates foi corrompido. Atenção, ele não foi ilibado de tudo. Obviamente que este primeiro aspecto mais pessoal envolvia mais gente, alguma gente do PS, mas sobretudo, é hoje evidente que muita gente à volta de Sócrates via a vida de luxo que ele levava e optou por não fazer perguntas, optou por fechar os olhos. Nisso há muitos socialistas e muita gente que hoje está no governo que tem de ser considerada, no mínimo, cúmplice. Pelo menos, no mínimo, ou então pessoas com problemas de visão. Uma segunda componente do socratismo era a megalomania dos grandes projetos, aquele estilo de governar. Dessa doença o PS curou-se, pelo menos em parte, porque sabe hoje que os portugueses exigem contas certas aos partidos. Mas há uma terceira componente do socratismo, e eu continuo a falar de uma forma muito esquemática, que na minha opinião continua a confundir-se com o próprio Partido Socialista, e essa componente é a forma de exercer o poder pelo poder, de ocupar sôfrego todos os lugares e uma obsessão com a propaganda e a narrativa, sobretudo a obsessão com a propaganda e a narrativa. Foi esta cultura que permitiu a ascensão de Sócrates, pois Sócrates era, não nos esqueçamos, o menino doido do PS. Sócrates era quem abria as portas do poder. Por isso, os socialistas fecharam os olhos a tudo o resto. Só isso pode explicar o que aconteceu. E no fundo, o partido E isto é que é a questão importante, o partido nunca fez o luto do socratismo, fez silêncio sobre o socratismo.

Sim, como ele diz, mesmo traindo Sócrates.

Isso, pode haver muitos traidores de Sócrates, mas no fundo, também eu diria que há muitos herdeiros da cultura de Sócrates. O que conta, como te disse, é o poder, é a narrativa, é a propaganda. Eu vou dar um exemplo, porque acho que é um exemplo que mostra isso. Daqui a uns dias, 26 de abril, o primeiro-ministro e o ministro das Obras Públicas, Costa e Pedro Nuno Santos, vão inaugurar a ligação elétrica da via férrea na Linha do Minho até Valença. Problema número um: vai haver eletricidade até Valença, mas faltam composições, porque é preciso lá pôr umas composições improvisadas e, sobretudo, falta automatizar a sinalização dessa linha. Resultado: a viagem vai continuar a demorar as duas horas que hoje demora com as composições a diesel do Porto até Valença. Problema número dois: há dois anos, os mesmos dois governantes já tinham realizado uma inauguração de eletrificação da mesma linha, só que só até Viana. Tinham feito uma coisa muito pomposa. Na realidade, a obra vai ficar concluída com três anos de atraso e se calhar ainda teremos uma terceira inauguração com os mesmos dois governantes, desta vez para automatização. Isto é o mesmo estilo da abertura de um jardim na Madeira e isto tornou-se a imagem de marca do socratismo e agora está a tornar-se a imagem de marca do costismo, que é narrativa, propaganda, propaganda, narrativa, narrativa, uma obsessão com a narrativa, que aliás se vê no artigo do Público, que ainda há pouco citaram no noticiário. No PS de hoje o estilo é diferente, mas o resultado é mais ou menos o mesmo. É por isso que eu digo que muitos podem ter traído Sócrates, pelo menos na cabeça de Sócrates, mas no fundo governa-se ainda muito como socratinhos e socratinhas, socratetes ou socratetas, muito naquele estilo de um socratismo revisto à moda do costismo. Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7 na Grande Lisboa ou 98.4 no Grande Porto.