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Junta-se a esta emissão o jornalista José Alberto Carvalho. É o nosso convidado de hoje, que não está, como é habitual, a preparar-se para apresentar o jornal das 20:00 na TVI, está a cumprir o plano de contingência da empresa e, portanto, nesta altura, está também em isolamento. José, boa tarde, bem-vindo.

Olá, boa tarde, obrigado. Sim.

Bem-vindo, José.

Obrigado. Viva, João. A iniciar aqui um período de descanso, depois de duas semanas intensas, como têm sido todos estes dias.

Gostava de lhe perguntar: este período é especialmente difícil também nas escolhas das palavras certas, como temos que comunicar algo sobre a Covid-19. Acha que esta pandemia veio trazer, de facto, esta carga extra sobre quem aparece todos os dias a comunicá-la também, como faz o José Alberto todas as noites?

Acho que sim. Acho que mais do que ter aparecido essa carga, talvez tenha acontecido aqui um certo sentimento de corresponsabilidade. Falo por mim. Ninguém mo atribuiu, é verdade, mas julgo que talvez o tenha sentido por saber que a esmagadora maioria das pessoas está em casa, limitada nos seus movimentos, nas suas rotinas, e há alguém, que neste caso eu, que continua a fazer aquilo que muita gente se habituou a que eu faça. E, portanto, acho que a responsabilidade que eu falava é a responsabilidade de partilhar e de tentar partilhar com os espetadores e com os cidadãos em geral, que a circunstância absolutamente limitadora que vivemos nos atinge a todos de alguma forma. Mais isso, portanto, uma tentativa de demonstrar que isto toca a todos.

Mesmo correndo o risco de não ser bem entendido.

Mesmo correndo esse risco. Sim, sobretudo nestas alturas, corre-se muito esse risco. É verdade.

Sendo que nós somos formatados a pensar numa linguagem jornalística muito sem emoções, muito isenta, muito factual, mas sem essa parte emocional. Portanto, fazer um noticiário que todas as noites termina com esse lado também e existindo também algumas críticas a essa opção, o que tem a dizer sobre isso?

Que acho legítimas. Não há manual de instruções nem para viver, nem para trabalhar nestas circunstâncias. Portanto, acho que todos estamos a aprender ao mesmo tempo.

E sente que nesta circunstância, nesta realidade... Sim.

Acho que vale sempre a pena arriscar, mesmo correndo esse risco.

E corremos o risco também de os erros que cometemos ganharem outra dimensão também neste período, não é assim?

Sim, naturalmente, mas eu quero acreditar que o jornalismo, seja ele qual for a forma que assumir, sai um pouco mais reforçado desta pandemia do que quando entrámos nela. E isto porque independentemente dos erros, que são sempre indesejáveis, naturalmente, as fake news não pedem desculpa. Não há registro de uma notícia posta a circular, daquelas que nós recebemos por WhatsApp, nas redes sociais, no e-mail, seja onde for, e que ajudam a formar uma grande parte, infelizmente, digo eu, daquilo que é a opinião pública hoje em dia. Quando essas informações se revelam erradas, nunca há ninguém que peça desculpa por elas. E isso é sinal de como falta uma vacina.

Até porque estamos a falar muitas vezes de fake news que não têm um rosto.

E como não têm rosto, nunca há pedido de desculpas. Portanto, aquilo é sempre verdade e mesmo quando é pura mentira. Eu não gosto de chamar fake news porque isso é destruir o nosso trabalho. Portanto, aquilo são informações falsas, não são sequer notícias. A expressão ganhou peso e toda a gente percebe hoje em dia o que ela significa, mas eu francamente detesto-a, porque não são notícias, são informações que ajudam a construir um pretenso alegado conhecimento do mundo que nos rodeia, baseados em coisa nenhuma. "O amigo disse-me", "eu conheço alguém que trabalha com" e "que disse que". Nunca há citação de fonte, nunca há verificação de fontes e nunca há pedidos de desculpa, nem correção dessas informações. Mas são essas que hoje em dia conformam e estruturam uma grande parte daquilo que é o entendimento de cada cidadão, aquilo que ele faz, o entendimento que ele faz do mundo, dos políticos, dos circuitos econômicos, da corrupção, das notícias boas ou das notícias menos boas. A opinião pública, com o fim do jornalismo enquanto referência de informação séria, implica a decadência da opinião pública. E é isso que nós estamos a assistir, por paradoxo que seja, porque a opinião pública, cada um de nós tem hoje em dia mecanismos para consumir informação com a profundidade que entender, sobre os assuntos que quiser e tem a liberdade de o fazer, a possibilidade e a liberdade de o fazer. Na verdade, o que eu verifico é que a maior parte das pessoas se contenta com uma ilusória sensação de saciedade. Aquilo que elas sabem é suficiente para perceberem o mundo. E não é, na maior parte dos casos.

Como é que tem funcionado a redação da TVI? Se calhar, para quem nos está a ouvir, não faz ideia. Nós por aqui, por exemplo, no Observador, eu olhando para a nossa redação, agora está praticamente vazia. Como é que tem funcionado no caso da TVI? Que cuidados é que estão a ter também nesta altura, para quem nos está a ouvir, perceber a dinâmica do trabalho, que é muito diferente nesta altura.

Dividimos a redação em grupos de trabalho, seja por editorias, seja por funções. Algumas delas fazem períodos de 15 dias consecutivos de trabalho e 15 dias de descanso, para tentarmos respeitar aquelas duas semanas de isolamento e de quarentena, para não aumentar o risco de contágio no local de trabalho. Outras pessoas fazem semana sim, semana não. Porque é mais difícil arranjar um esquema alternativo a este. E eu diria que pelo menos 50% da redação, entre várias tarefas, desde jornalistas a editores de imagem, por exemplo, estão a trabalhar a partir de casa, comunicando através de uma VPN externa, que permite acompanhar muito do material que chega à redação, através das nossas fontes eletrónicas, das agências com que trabalhamos, por exemplo, e o material que é recolhido pelos jornalistas que saem à rua, que são muito menos do que acontecia regularmente, e que digitalizam o seu trabalho, transportam-no para um servidor central comum e a partir daí há várias pessoas que em casa, a partir dos seus computadores, têm acesso a esse material e com o telefone, o computador, o software de gestão da redação que nós utilizamos, conseguimos trabalhar de forma colaborativa e permanente, quase como se estivéssemos na secretária ao lado.

E tendo em conta essas alterações, essas mudanças, já houve algum dia que o José Alberto e a redação da TVI sentiu que não conseguiu contar uma história como queria ou que sentiu que não conseguiu contar uma história na totalidade por causa destes condicionalismos inerentes a esta questão da pandemia, das alterações das redações e das redações mais vazias?

Não, não senti esse condicionalismo. Aquele que existe e que nos toca a todos jornalistas é a dificuldade e a impossibilidade de estar na rua, de estar onde as coisas acontecem, porque na verdade não acontece grande coisa a não ser nos hospitais e nos locais onde se mantém a atividade, as atividades essenciais para os outros cidadãos. E eu acho que a reportagem e o acesso às fontes diretas, ao testemunho de quem faz, de quem executa, de quem decide, é a essência do jornalismo e isso fica um bocadinho mais debilitado. A outra grande característica, essa eu acho que nós podemos e devemos desenvolver e reforçar nesta fase, é contribuir com a humildade e o empenho possíveis para fornecer às pessoas, aos cidadãos em comum, no caso da TVI, aos nossos espetadores, uma grelha de leitura que nos parece ser adequada e pela qual nós respondemos. Respondemos com as nossas ações, respondemos com as nossas escolhas, respondemos com as nossas opções. Ninguém nos paga por isso, como se sabe. O jornalismo broadcast, tanto na rádio como na televisão, não depende do pagamento de ninguém. Vivemos numa sociedade de escolha livre e consciente. Aquilo que nós queremos e que nós temos feito nestes dias é apresentar uma grelha de análise que corresponde a algumas das nossas preocupações e fazemo-lo com a total abertura e transparência de uma empresa que está no mercado, que é escrutinada pelas suas opções e, como aliás já mencionámos, o erro. Nós conseguimos passar sempre muito facilmente do muito bom para o do peixe ao povesta, em frações de segundo.

Agora, José Alberto Carvalho, queria aproveitar também essa deixa, até porque falámos disso aqui há uma semana, duas, creio. Aquela questão relacionada com a TVI e a região Norte, a questão de uma reportagem em que se dizia a certa altura que a população do Norte seria menos educada. Houve esse lapso, houve esse reconhecimento também por parte da TVI. Gerou-lhe muitos dissabores, recebeu muitas mensagens de desagrado também por parte de muitas pessoas também da região Norte do país?

Naturalmente. O desagrado que me provocou a mim foi o facto de nós termos feito um erro. A reação é completamente legítima. O que eu posso dizer? Acho que a ausência de reação é que não seria aceitável, seria aliás um péssimo sinal. O essencial, no entanto, não é o erro. O essencial é chamar a atenção para o triplo da incidência da doença no Norte do país, ao mesmo tempo que depois chamamos a atenção para o dobro da letalidade da doença na região Centro do país, de onde eu sou natural, e um país, ainda que pequeno, e que mostra estas diferenças regionais, exige ou deve exigir, na minha opinião, que os seus cidadãos, de cada uma das regiões, reivindique das autoridades o tratamento e a atenção adequada à gravidade das circunstâncias. No caso do Centro, por que a letalidade é tão elevada? Eu tenho ideia porquê, mas ainda não ouvi ninguém debater isto. E no caso do Norte, por que a incidência tem sido tão diferente do resto do país? É como se nós comparássemos a Itália, nós analisamos a Itália, mas o problema maior da Itália foi o Norte da Itália também, por razões muito concretas e que já se percebam em larga medida. É preciso fazer essa análise. O Alentejo atualmente tem um desempenho completamente diferente ao nível da doença, um desempenho completamente diferente de outras regiões do país. A estatística e a média e as simplificações, incluindo as jornalísticas, são muitas vezes ilusórias e podem-nos convidar a ter uma perceção da realidade que não é adequada, justa, aquela que mais se aproxima do que de facto acontece. E esse foi o nosso objetivo. Aquilo começou com uma reunião de manhã em que eu, através de videoconferência, levantei a minha indignação e preocupação, nomeadamente com a distribuição dos equipamentos médicos que estavam sendo adquiridos pelo Estado e que num primeiro momento, se bem se lembram, tinha sido dito que iriam ficar maioritariamente na região de Lisboa. O que me parece, à falta de melhor explicação, dito só assim, isto parece-me muito débil de justificação, no mínimo, mas muito questionável.

E ainda assim, depois desse trabalho todo de investigação e de reunir números e de fazer um trabalho que tentava, no fundo, mostrar uma realidade e mostrar um lado da informação que poderia estar a ter menos atenção, um lapso ou um erro que depois foi reconhecido.

É isso que é frustrante.

Sentiu que foi trabalho deitado por terra, no fim de contas, porque tudo no final quase se resumiu a uma troca de argumentos entre o autarca do Porto e a direção da TVI

Não houve troca de argumentos com a TVI, porque o presidente da Câmara do Porto fez um comentário nas redes sociais, na minha opinião, completamente desajustado, nomeadamente ao momento, à gravidade e às funções. E pronto, nada mais do que isso. Fiquei frustrado pelo aproveitamento irresponsável e pateta de um erro, também ele irresponsável.

Falamos há pouco da questão da empresa estar no mercado, falávamos dessa instabilidade deste momento. Queria lhe perguntar também como é que viu o negócio desfeito entre a Prisa e a Cofina, e como é que isso se traduziu também no vosso trabalho, o dia a dia da redação.

Acho que não é sensato expressar-me publicamente sobre isso. Não é a melhor situação haver um negócio de transferência de acionista de uma empresa com a dimensão que tem o grupo Media Capital e depois de várias incertezas, culminar com um desfecho que era imprevisível, não havia nada que o apontasse nesse sentido, sobretudo no momento em que foi, que foi uma semana antes da pandemia se ter instalado de uma forma indizurável no nosso país. Mas se isso pode ser usado de alguma forma, a única coisa que eu gostaria de invocar é que os profissionais da TVI, neste caso, têm mostrado uma capacidade de resiliência e de profissionalismo que tem sido notável.

José Alberto Carvalho, queria lhe perguntar também, já estamos quase a aproximar-nos aqui do final desta conversa. Falava dos profissionais da TVI. A TVI conta neste momento também com pessoas que podemos considerar pesos pesados da área da comunicação. Queria lhe perguntar por dois em particular, Miguel Sousa Tavares e Paulo Portas. Começo, se calhar, por Miguel Sousa Tavares. Como é que é essa experiência de dividir um jornal com Miguel Sousa Tavares? Tem sido recompensador? Tem sido gratificante? Tem sido um trabalho árduo todos os dias? Conte-nos tudo.

Esta parceria e esta decisão do Miguel Sousa Tavares editar e comentar o jornal de segunda-feira, já tem mais de um ano. Na nossa organização interna, essa tarefa ficou atribuída, sobretudo ao Pedro Pinto, durante este período, e alteramos isso agora recentemente, por causa desta rotação de 15 dias. Eu já trabalhei com o Miguel há muitos anos na SIC. De resto, co-apresentamos o jornal da noite há muitos anos na SIC. Eu sei que talvez já ninguém se lembre, mas isso aconteceu e, portanto, foi um reencontro. O Miguel é uma pessoa com ideias muito fortes sobre algumas coisas.

Ideias coincidentes ou nem por isso?

Não, nem por isso, mas isso é ótimo. Não necessariamente, algumas sim, outras não, como é evidente. Mas eu que já fui diretor de informação durante 10 anos da minha vida em duas redações muito grandes, na RTP e na TVI, tenho uma abordagem da diferença das pessoas, profissionalmente falando, claro, que é muito trabalhosa, mas que eu continuo a defendê-la. Apesar de ela ser altamente cansativa, o que se calhar ajuda a que eu não tenha propriamente saudades do tempo em que exerci essas funções, apesar de todo o prazer e recompensa que me deram, que é: se eu tiver uma redação com 100 jornalistas, eu quero que sejam 100 pessoas diferentes, porque se houver uma igual à outra, uma delas está a mais. Eu não quero 100 pessoas a pensar da mesma maneira.

E com Paulo Portas, como é que é trabalhar com Paulo Portas? Falamos de alguém que muitos podem não se recordar, mas foi alguém também muito importante num certo período do jornalismo português. Foi diretor também de um jornal com grande predominância também no que diz respeito ao mundo da política portuguesa. Como é que é ter Paulo Portas agora de volta ao jornalismo, num espaço também dedicado a esta análise desta pandemia da Covid-19?

Não me parece que o Paulo Portas esteja a desempenhar uma tarefa exclusivamente jornalística, portanto, ele não é apresentado como tal. Aquilo é um espaço de opinião de uma pessoa que além de ter tido essa carreira no jornalismo, isso já foi há várias vidas atrás, e aquilo que lhe é reconhecido recentemente é a carreira política longa também e, neste momento, a consultoria empresarial. O que tem sido fascinante de ver, e também aí de uma forma em que não me sinto obrigatoriamente comprometido em concordar com tudo o que diz o Paulo Portas, mas essa é a maravilha da liberdade, e essa é a maravilha das pessoas diferentes, como eu acabei de dizer. Só é mau quando alguém quer impor a sua vontade de uma forma não profissional e não transparente. Isso sim, em nome de agendas pessoais, isso é dramático. Mas com o Paulo Portas tem sido fascinante de acompanhar. Uma pessoa que tem uma capacidade de análise e de raciocínio invulgares, como se lhe reconhece, uma capacidade de expressão muito grande e uma capacidade de trabalho igualmente extraordinária. E acho que temos todos aprendido bastante com o estudo que o Paulo Portas faz e que depois partilha em antena durante 15 a 20 minutos, quase todos os dias. Tem sido muito interessante. Ele conseguiu arranjar uma maneira de as pessoas o ouvirem, não porque concordam com aquilo que ele diz, mas porque sentem interesse naquilo que ele diz.

José Alberto Carvalho, estamos mesmo quase a terminar, mas como é que se ocupou os dias agora neste período de descanso? Ontem ficamos a saber que é um fã de Legos, portanto, imagino que eles façam parte também dos planos nestes 15 dias.

Naturalmente.

Mas de que forma é que vai organizando também o seu dia a dia agora neste isolamento?

Vou tratar da casa, porque sobretudo há muita coisa para fazer em casa e com filhos a partilhar o mesmo espaço, com idades diferentes e com ritmos diferentes também. Tem sido difícil, e eu a trabalhar.

Tem estado atento à tele escola também ou nem por isso?

Também, sim. E sou consultor de Microsoft Teams e Zoom durante as manhãs.

Ora bem. É isso mesmo. Obrigada, José Alberto Carvalho, foi o nosso convidado de hoje. Até à próxima.

Muito obrigado.

Obrigada.

Adeus, boa tarde. Boa trabalho.

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Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Muito obrigada.