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Queria morrer de repente e não queria deixar palavras destrutivas. Queria que fossem elevadas, uma palavra de esperança. Eu acho que a filosofia pensa a morte por causa da vida e não pensa a morte por causa da morte.

A filosofia é uma atividade que procura descobrir a verdade sobre as coisas, o mundo, os outros, enfim, sobre si próprio. Não se tem uma filosofia, faz-se filosofia. Quem o diz é António de Castro Caeiro, professor, ensaísta, tradutor, provocador, especialista em filosofia antiga, com ênfase nas tradições grega, latina e alemã. Escreve livros, ensaios e artigos, dá aulas e cursos, grava podcasts. É responsável por aproximar o grande público da filosofia através de cursos e palestras muito acessíveis, uma espécie de stand up filosófico, mas sério, quase sempre. O seu entusiasmo pela filosofia é contagiante, como disse na televisão Ricardo Araújo Pereira. Mas este filósofo de Alcântara, como lhe chama a namorada, Joana Gomes Cardoso, é muito mais do que isso. Não fuma, não bebe, foi músico punk rock, já mudou de clube e gosta de andar à pancada. Por isso pratica Muay Thai depois de três décadas de caratê. Vem então falar dos seus cursos que deram podcasts que se viram em livros: "O que é filosofia" e "Sobre os sentimentos". Vamos conhecer melhor este homem que acredita mesmo que a filosofia não é um luxo intelectual, mas uma ferramenta para viver melhor. Olá, António, e bem-hajas por ter aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador.

Muito obrigado, João Paulo.

É um grande prazer estar aqui a falar contigo. Tu, daqui a cinco meses, vais mudar de década. Tens noção disso?

Tenho.

E só te assusta deixar de dar aulas aos 70, mas podes continuar a dar aulas depois dos 70.

Penso que sim.

Mas assusta-te os 60 que aí vêm?

Não, assusta-me se tivesse de repetir os 40. Testei a década de 40.

Foi? Dos 40 aos 50.

Os 50 foi fantástico, tem sido fantástico.

Ok.

Tenho amigos que já estão no big six, como dizem.

Exatamente.

Agora um grande amigo meu fez 60 anos e estava bastante feliz e com todas as razões para o estar, e eu acho também.

Claro que sim. É verdade que tu eras gordo quando eras miúdo?

Era, eu era o Obelix. Eu fiz natação em Algés da fundo.

Exato, sempre que passavas lá, tinhas uma recordação de Algés.

E então chamavam-me o Obelix. Ainda tenho amigos desse tempo que me dizem: "Apresento-me à mulher: olha, este era o Obelix."

Mas depois, interessante. O que te fez mudar de repente de vida pra ficares o homem, o modelo, o manequim elegante que tu és?

Bom, quer dizer, eu luto.

30 anos de caratê, claro, isso eu sei.

Não, porque o treino não te tira necessariamente nem o peso, nem te emagrece.

Ok, não sabia.

Podes ter, por exemplo, vontade.

Mas tu treinavas intensamente, tu eras de terceiro dano.

Sim, mas mesmo assim.

Ok.

Eu acho que ao ir pro Muay Thai, treinar com a Dina Pedro e com a Carolina Silva, na DynamiTeam, mudou a minha vida, porque eu não conseguia ter o estilo de vida que tinha: comer, beber, fumar e praticar Muay Thai. Os caratecas, aqueles que eu conheci, os meus mestres na Alemanha e os japoneses que viviam na Alemanha algum tempo, bebiam imenso, fumavam. Era um tipo de atividade completamente diferente.

Ok.

Não, mas eu mudei. Eu não queria ser gordo e dos 13 aos 14 anos acho que dei um salto, como se diz, um pulo no tamanho. E nessa altura emagreci.

Foi só força de vontade?

Foi só força de vontade.

E fechar a boca?

Fechar a boca. Aliás, um médico disse-me: "Tu engordaste pela boca, tens que emagrecer pela boca." É engraçado. E essa é a estratégia. E eu, se não presto atenção.

Tens que ter força de vontade. Tens que ter vontade política. Não é fácil, às vezes.

Mas quer dizer, é pôr propósitos, uma imagem de si diferente daquela que se tem e depois perceber. No meu caso, agora, eu tenho artroses degenerativas nas ancas. Eu levantar-me do carro e sentar-me no banco custa-me e dói. E, portanto, o controle do peso é obrigatório.

É quase obrigatório, pro teu bem. Exatamente. Tu passas as férias em Vila Nova de Famalicão, vais sempre com a tua mãe? Todos os anos, uma semanita que seja.

Vou todos os anos, uma semana, vou só eu e a minha mãe. A nossa família de base só temos três: meu irmão, eu e a minha mãe.

Teu irmão é mais novo?

Meu irmão é mais novo e vive no Dubai. Mas levo-a sempre e é uma forma de matar saudades e ela anda como uma galinha no campo.

Gosto. Giro. Tu, em miúdo, eras um bicho do mato, ou não?

Não.

Eras assim daquele gênero muito curioso, estava sempre na dúvida dos porquês?

É nesse sentido um bicho do mato.

Não, era no sentido de não ser animal social.

Eu acho que era social. Aliás, o meu pai tinha uma teoria que os gordos eram bem-dispostos.

Isso é verdade. Também acho que sim.

E eu era bem-disposto. Eu sempre fui, acho que embora calado, e a minha cabeça, eu agora vejo, estava cheia de personagens, de entidades, mas eu era muito curioso. Ou seja, eu lembro-me de olhar fascinado para a caixa de botões da minha avó, porque tinha muitas cores, muitas formas, e lembro de estar embevecido a olhar pra esses botões. Portanto, eu era assim.

Eu te perguntei isso por causa da filosofia, obviamente. Há pessoas, António, que são naturalmente mais filósofas que outras?

Sim, é uma questão de sensibilidade. Começa por ser uma questão de sensibilidade. Há pessoas que são sensíveis a problemas filosóficos. Que pode ser os chamados cientistas, os nerds têm qualquer coisa dessa motivação. Pode ser uma pessoa de causas, um miúdo de causas ou uma miúda de causas, sei lá, da mudança da alteração.

Das climáticas.

Exato. E pode ser alguém com noção de que há muita gente a habitar a sua própria cabeça. E, portanto, aquelas personagens da infância com quem nós lidamos. E pode ser uma pessoa com isso tudo. E eu acho que sim. Há outras pessoas, não, que têm uma relação com a realidade bastante objetiva.

E isso basta-lhes, não é?

Basta-lhes.

São felizes assim.

Exato.

Felizes. Já vamos lá à felicidade. À obsessão moderna da felicidade, como tu dizes. Há dois tipos de pessoas, eu acho, as que dizem: "Ai, eu adoro filosofia". E aquelas que fogem em sete pés da filosofia. Tu evitas hoje em dia, porque tu és um mestre na divulgação, e é uma cruzada que tu tens, divulgação de filosofia também. Passas a vida a combater este segundo grupo?

Não.

Os que fogem, que não querem saber.

Não.

Ou és tranquilo com isso?

Sou. A minha ideia com os mestres que eu tive era não darem a volta aos alunos que eram renitentes. Mas a minha ideia é que tudo pode ser apresentado de tal maneira que há de pelo menos haver alguém que perceba o que nós estamos a dizer e fique interessado por isso. Eu lembro-me de um professor, agora não me lembro do nome dele. Ele era, penso, imunologista. Tinha uma especialidade que não era muito seguida na medicina e era o professor Coutinho, acho que era assim o nome dele. E ele dizia que dava aulas pra 1000 pessoas, se só haver uma que se interesse pelo que ele está a fazer, já valeu a pena.

Já quis.

Eu não tenho esta estatística, mas a minha ideia é que a divulgação não é um bem em si. É uma maneira de eu me tornar claro. Se eu conseguir tornar clara uma mensagem filosófica críptica.

Tu falas disso nesses livros, da clareza. Havia um filósofo que falava nisso.

Wittgenstein. "Tudo o que pode ser dito pode ser dito claramente."

É muito curioso isso. Não achas, ao mesmo tempo, António, que a filosofia tem um grande problema de marketing?

Em que sentido?

No sentido que não se sabe anunciar como deve ser, as pessoas não aderem, se calhar por desconhecimento.

Depende do país.

É? Na Alemanha é muito mais, por exemplo?

Na Alemanha tu tens grandes vultos que estão na televisão, o Peter Sloterdijk tinha um programa na televisão. O Safranski, o grande biógrafo de Heidegger e de Nietzsche, tinham programas na televisão.

A BBC também tinha uma coisa dessas. Grande entrevistador.

A BBC tem um entrevistador absolutamente fabuloso.

Só sobre essa área.

Só sobre. Perguntas a filósofos conceituados. E como uma categoria à parte, França tem os cafés-

Com audiências boas e as pessoas sabem.

Audiências boas, sem dúvida.

Tu tentaste isso com o Nuno Artur Silva, foste ter com ele: "Nuno, vamos fazer uma coisa com ele".

Sabia.

Sabia? Na RTP.

E ele arranjou uma coisa interessante com a Silvia Reike, que tem a Le Voix, acho que é assim que se chama a editora dela, e que publicou "Pensadores", uma obra por pensador. E foi isso, eu estive a divulgar, hoje faria de maneira completamente diferente.

Farias notas biográficas.

Na RTP era um minuto, dois minutos. Isso foi um grande exercício, que eu apresentei.

Mas isso não é mau.

Não, eu apresentei à Teresa Pais.

Eu achava que era maiorzinho, Teresa Pais é do canal dois. Eu achava que era uma coisa maior, pra ir maior ao máximo, com conversas, com o tempo que tu tivses.

Exato, isso era diferente. Não, foi muito pouco tempo e foi um ótimo exercício.

Mas só esse apontamento, acho uma ideia muito gira.

Era. Foi bom.

E por que acabou?

Acabou porque foi um episódio por livro. Uma parceria público e RTP, e depois acabou.

Ok. Mas é curioso. Qual é a ideia mais batida que toda a gente repete sobre a filosofia e que tu imediatamente tens vontade de desmontar? Aquilo do amor pelo conhecimento?

Essa pode ser uma, mas há uma que eu tenho em que eu desmonto antigamente, agora é diferente. Mas as pessoas vinham com a ideia que Platão tinha a teoria das ideias e que havia dois mundos. Isso é logo a primeira coisa a abater.

Os dois mundos têm a ver com a caverna, o viver dentro da caverna e viver fora?

Não, há o mundo da realidade e depois há o mundo das ideias. Enfim. Essa é uma forma.

Tu tumbas, desmontas logo.

Platão nunca tem essa teoria. Mas a outra pode ser essa, é aquela com que eu começo normalmente os cursos de filosofia antiga, a tentar explicar o que quer dizer filosofia e que não é amizade ou amor, também pode ser, mas quer dizer uma obsessão compulsiva pela transparência, que também é uma construção.

Isso é muito curioso.

Porque Sophia quer dizer transparência.

Pois é, não sabia.

E Philia-

Hagia Sophia.

Essa é santa. Santa Sofia. Poderia quer dizer santa transparência, mas na altura, provavelmente no tempo do Novo Testamento, que também os autores utilizam grego, se calhar já quer dizer isso, mas Sophia, por exemplo, no tempo de Platão, pode querer dizer só uma perícia, ou seja, um sofós, é um perito.

Eu tinha a ideia que era sabedoria.

Pode ser também.

Há quem diga até a teoria de que, por causa de Hagia Sophia, não era ninguém, não era uma pessoa, é um monumento ou uma igreja à santa sabedoria, à sabedoria divina.

Sim, faz sentido. Mas quer dizer, o campo semático vai desde a sabedoria como nós podemos entender, até uma atividade muito prática. Um perito que resolve um problema em casa, um canalizador, é um sofós.

Ok, pronto, um sábio.

Um sábio.

O que um miúdo de 10 anos percebe sobre filosofia que um adulto já perdeu?

Eu acho que o segredo está na infância e existe uma grande dificuldade. Há aqueles entre nós que conseguem reconstituir a primavera da infância, como Bernardo Soares, o heterónimo de Pessoa, no "Livro do Desassossego". Ele diz que há duas primaveras, a primavera da meteorologia e a primavera da infância.

Sim.

E portanto, há aqueles de nós que conseguem reconstituir às vezes, não se sabe bem como, ou porque vêm até nós essas manhãs da infância, o primeiro mergulho no primeiro dia de férias.

As várias epifanias que tiveram ao longo da vida.

Exato. Por exemplo, eu aprendi isso com um autor alemão, Hermann Schmitz, a véspera de Natal, os aniversários da infância. São impressões que ficam, deixam num determinado estado. E há outros que não conseguem reconstituir isso ou pros quais não vêm de forma avassaladora como era a infância.

Sim. E há pouco tempo eu vi uma teoria extraordinária que é: hoje os psicólogos e pedopsiquiatras dão muita importância aos mil dias. Dizem que os primeiros mil dias da vida de uma pessoa formatam 80 e tal por cento do seu caráter para sempre. E os primeiros mil dias incluem a gravidez, portanto, aqueles nove meses mais os dois, três anos quase da vida dele. É extraordinário, as pessoas não tinham noção disso, mas é muito importante.

Acredito, sim.

O filósofo, vou te chamar filósofo, és professor de filosofia, mas pronto. Mas um animal gregário, tu és uma pessoa de pessoas, isso é muito curioso. Vai contrariar um bocadinho aquela coisa que eu te perguntei se eras muito misto mato. És uma pessoa de pessoas. Quando pensaste, e são palavras tuas, que podias ser um lobo solitário. Aliás, no primeiro e-mail que mandaste, gostei muito que diz: "Tenho todo o gosto em ir ao teu encontro." Muito bonito isto do encontro, do cruzar, do olhos nos olhos. É extraordinário. E tu és, afinal, uma pessoa de pessoas. Quando uma pessoa pensa: "Um filósofo, se calhar, gosta de morar sozinho, a pensar no sentido da vida e no sentido deste planeta, o que estamos cá a fazer a caminho da morte."

Eu acho que retornas sempre à caverna, voltas à caverna. Eu acho que há o momento da ascensão, que é sempre descrito de uma forma violenta por Platão. És empurrado e arrastado até vires cá para fora. E és confrontado com a luz. Platão diz que é como uma mármara eugue, uma forma de ofuscação. Mas depois tens de regressar. Nós podemos pensar esta forma de ascensão ou de desvio como ficar sozinho, mas depois tens que regressar. Os momentos da solidão são momentos que depois queres partilhar com os outros. Porque estar sozinho e ser solitário parece que são coisas completamente diferentes. Eu posso estar cheio de gente, num sítio cheio de gente.

No meio do metrô, com milhares de pessoas e estar completamente sozinho.

Completamente sozinho.

Solidão. É verdade.

Eu lembro de estar na Alemanha a pensar, por exemplo, no 10 de junho. Hoje é 10 de junho, Dia de Portugal, e eu estou aqui. Estava com a nação. Estava com aquela ideia.

Estavas acompanhado.

Estava acompanhado.

Toda esta ideia de país, nação.

O lobo solitário, a figura do solitário, pode seduzir-te. E os momentos em que tu passas, aqueles anos em que tu estás sozinho ou que achas que estás sozinho, podem ser altamente sedutores, mas eu acho que é uma ilusão, porque cria uma ilusão de prazer, porque tu estás a sobreviver. Mas eu acho que ninguém sozinho faz outra coisa senão sobreviver. Viver é um acontecimento social e nós somos constitutivamente sociais. Eu sou com outros.

Democrático.

Os meus antepassados, a minha descendência, os meus contemporâneos.

Estás sempre aos ombros de gigantes, aos ombros de antepassados, quanto mais não seja.

Estamos.

O que é curioso. Quem revelou isto foi, claro, a tua namorada Joana Gomes Cardoso, já cá passou duas vezes ou três, antropóloga maravilhosa, gestora e mãe, que aliás, teve um desempenho extraordinário em Osaka, na exposição que houve e que acabou ano passado, onde ela foi a nossa comissária, nomeada pelo governo. Não disse na altura, mas ela depois revelou isso, sem me pedir ordenado, que foi extraordinário, foi a pro bono, um trabalho extraordinário que ela fez. E eu até disse: "Por que não disseste antes, Joana? Eu fazia questão de dizer na entrevista." Está agora dito no ar e ficou gravado. Estou a fazer isto porque ela disse que tu levantas de manhãzinha, às 6:00 a.m., para ler grego clássico e latim clássico. Todos os dias, quase todos os dias, quando podes, lês grego clássico e lês dois historiadores, um grego e um latino, todas as manhãs. Para quê? Para te acalmar?

Não, é porque eu lembro-me de ler que o Einstein dizia: "Falta-me matemática." Ou com Newton, que vai inventar cálculos porque não tinha matemática suficiente. Eu tenho de ler o grego mais difícil, o latim mais difícil que há para não me esquecer do outro. Se eu ler aqueles, Tácito, por exemplo.

Já nada dói depois daquilo.

Já nada dói. Este ano, este semestre, particularmente, com as atividades do CCB, tenho de ler muitas outras coisas que não estou a ler. Estou a aprender imenso. Leio coisas que não sabia, saio um bocadinho para fora da minha zona de conforto. Só tenho os cursos de latim e de grego, estou a ensinar.

Também continuas a ensinar.

Continuo a ensinar.

Grego clássico, latim.

À segunda e quarta-feira. Segunda-feira estamos a traduzir Platão, os meus estudantes e eu. Tenho 17 alunos interessantes e têm vindo.

Isto na Nova?

Na Nova, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. E latim, estamos a traduzir Santo Agostinho.

Mas por que às 6:00 a.m. acordas para ler?

Eu alterei um bocadinho esse hábito, que o primeiro semestre dei sete cursos e ainda estou a recuperar. Tenho acordado mais tarde, mas isso quer dizer também que o dia acaba mais tarde. Eu percebi, de uma forma inteligente, que gasto o mesmo número de horas a trabalhar. O que acontece é que às 6:00 a.m., eu aprendi isso com o professor Fernando Gil. Ele dizia que começava às 5:00 a.m., acabava ao 12:00 e já tinha sete horas de trabalho. E depois o Luc Poerson.

O Poerson também dizia isso.

É um pensador canadiano e que é um grande tradutor dos neoplatônicos. Ele também dizia isso: "A manhã gasto a trabalhar, depois à tarde estou com os estudantes." O motivo foi aquelas horas da manhã, de facto, ninguém no-las tira e tudo quanto é doloroso a aprender, tudo quanto é difícil, passa mais depressa de manhã. Mas hoje em dia é indiferente.

Tens o cérebro já muito acordado a essa hora?

Tenho. Agora não, porque estou cansado. Acho que estou a ficar velho. Mas acaba o dia mais tarde.

Muito bem. Karatê, aprendi contigo, quer dizer só mão.

Como karaokê é só orquestra.

Não sabia. É extraordinário. Fizeste 32 anos de karatê.

É verdade.

E depois mudaste então pro muay thai. Ia te perguntar isso, mas acho isso lógico, nem vou perguntar. A questão do que o karatê e o muay thai trazem para a tua vida, mas de facto, não é só a vontade de bater.

Não.

Esta parte da camaradagem, da pontualidade, espírito, corpo. Tenho dois filhos que andaram no karatê uma série de anos e portanto também sei. Isso ganharam com o karatê. De facto, é uma história.

É um laboratório sociológico e social. Valores.

Valores. Completo.

O meu mestre do Judo Clube Portugal, o saudoso mestre Raul Cerveira, tinha essa capacidade. Tinha estudantes de todas as áreas profissionais, todas as idades e dos dois sexos, e provavelmente todas as orientações. E eu depois treinei com um aluno dele, o mestre João Henriques, que é comentador, especialista no Médio Oriente. E eles ensinaram-me, de facto, isso tudo, quer dizer, a puxar por aqueles que são tecnicamente ou estão num estádio técnico Menos avançado que nós.

Inferior, exactamente.

Porque nós também somos puxados pelos outros que são melhores que nós. No Muay Thai existe também essa camaradagem. Existe a camaradagem das pessoas. De facto, eu nunca poderia andar à pera com os meus jovens companheiros de treino.

Já precisaste de usar golpes teus pra te defender de alguma coisa?

Nunca. Acho que tiraria uma pistola.

E aquela coisa curiosa da pontualidade que tu dizes. Se nós falhássemos um treino de karaté, por exemplo, e como depois treinam e combatem aos pares, alguém ficava sem treinar por causa de mim. Então obrigava-me. Isso é muito curioso e é muito giro. Cá está, valor.

Força de pressão.

Lições de vida. Exactamente. Muito bem, António Caeiro, temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com António de Castro Caeiro, ele é professor, ensaísta, tradutor, provocador, ex-músico punk e praticante de Muay Thai. É especialista em filosofia antiga, com ênfase nas tradições filosóficas grega, latina e alemã, e vem nos falar dos seus cursos, que são podcasts, que são livros. O que é filosofia sobre os sentimentos? Temos ainda na tua carreira, no teu crescimento, nas coisas extraordinárias que tu foste fazendo. Muito bem, és abstêmio, não bebes álcool, não fumas. Que prazer oculto é que tu tens, António?

Chocolates.

Adoras?

Adoro chocolate.

Ok, faz bem.

O meu sistema dopaminíco está completamente wired pelo doce, pelo chocolate.

Não vou falar do teu passado com a banda Mata Ratos, quando era do punk rock. Tu já não entraste neste rock radioativo, já não é contigo.

Não, eles começam a ter sucesso quando eu saí.

Aquela demo sogra é um boi já é depois de ti.

Já é depois de mim, não tem nada a ver comigo.

E o Armando é os Comando e o Xavier e com os Temas. Ok, que bom. Boas memórias isso. Como tu dizes, os móveis, as roupas, as coisas carregam memórias.

Carregam.

É incrível. E depois começa este teu livro, "Os Sentimentos", um bocado também a dizer isso. A pessoa vai pra uma casa onde já teve outra família, as coisas mudam, mas têm vivências ainda dos outros, depois passas a pôr as tuas e a vestires com as tuas memórias aquela casa, que passa a carregar a tua história. É muito bonito isso.

A nossa relação com o tempo enquanto humanos, embora se pretenda cortar para o presente e para um contínuo renovar através do presente, nós somos portadores de memórias do passado, daquelas que tivemos, mas também de um passado ao qual não temos acesso, mas sabemos que houve. E é importante. E da mesma forma que quando nós falamos do futuro, não é apenas o nosso, mas é também o futuro dos outros. Portanto, o tempo para o humano está distendido pro passado, pro presente e pro futuro. Não está circunscrito só ao que está dado a ver.

Tu dizes que bate bolas com a minha aplicação de inteligência artificial. Como é que tu lidas com esta escrita sem mente? Não se pode dizer, por exemplo, que o ChatGPT escreve bem, porque aquilo não é uma pessoa, não é uma intenção. Nem todo o progresso é bom, claro, pode ser mal usado, mas o que é que regula esta inteligência artificial? Como é que tu te dás com esta máquina que está a responder-te a coisas e não tem ninguém atrás?

De facto, é uma apostasiada, é uma criatura. Eu nunca joguei xadrez online. Nunca fiz jogos, mas deve ser essa mesma experiência. Eu ponho textos, faço perguntas e há uma formulação que depois parece bastante escorreita, e depois eu reformulo a partir dali o que está dado a ler. Percebe-se. Quem lê de fora percebe que aquilo não fui eu.

Gostas mesmo de perguntar, ouvir a resposta e comentar.

É muito rápido.

E nunca te engana? Nunca te enganou?

Por exemplo, ontem, pra sessão do CCB dia 30 de abril, eu quis saber: há um momento no livro terceiro das Metamorfoses de Ovídio, em que Tirésias é transformado em mulher e depois passa de novo a ser transformado em homem. E perguntam-lhe, ele é trazido como teve as duas formas, perguntam-lhe quem é que teve mais prazer. E ele diz que é a mulher do que o homem, duas vezes mais.

Diz?

Diz. E depois, há versões antigas que diz que se o ser humano tem 10 partes, a mulher tem nove vezes mais prazer do que o homem. Mas aquilo, a Perplexity, que é o que eu utilizo, apresentou-me aquilo como sendo Ovídio e formula em latim. E eu sabia, eu conhecia o texto.

Tu consegue ler.

Isto não está no original. E então, depois a verdade não está no original, e então demos os textos todos da Antiguidade. Inventou, mas demos os textos da Antiguidade onde estava isto citado.

Incrível.

E que está em grego, e depois ela dá a tradução latina.

Vem aí, a 17 de julho, estreia Odisseia, o novo filme do Christopher Nolan, com Matt Damon, o Tom Holland, a Annette, o Pattinson, a Zendaya. Deve ser um filme extraordinário, em que ele revisita a história do Ulisses. Os clássicos continuam muito mais atuais do que parece. Há quem diga que as histórias estão todas inventadas desde os gregos, e nós o que fazemos é: sempre que criamos um drama ou uma comédia, estamos é a reinventar, a adaptar, a atualizar essas coisas.

Acho que sim.

O Odisseia é um bom exemplo disso, uma narrativa de viagem extraordinária, onde tudo acontece, as coisas mais maravilhosas e mais incríveis. Dizem que os clássicos são importantes também por causa disso. Esse passado é essencial pra nós conhecermos hoje.

Eu acho que nós conseguimos perceber que os clássicos, se chamarmos clássicos à Ilíada.

À Odisseia.

À Odisseia, porque estão cheios de futuro Todas as gerações podem ler aquela história. O professor Fernando Gil dizia: "A 'Ilíada' é um livro que escaqueira tudo, a 'Odisseia' é um livro em que toda gente chega a casa." Os gregos não têm palavra para nostalgia, embora tenham a palavra nostos, que é regresso, mas não têm a palavra nostalgia, que foi inventada no século XVIII. Mas dizem que não precisam da palavra porque eles próprios, por defeito e finitude, não percebem que são nostálgicos. E esta ideia de que estar vivo não é uma teodisseia, mas é uma odisseia para si. E eles têm essa ideia.

De viagem?

De viagem, porque estar vivo para eles é estar a caminhar às arrecuas em direção à morte. A runaway path to the future.

Porquê às arrecuas? Não é o "Benjamin Button", não regredimos na idade.

É nesse sentido. Exatamente, é um ótimo livro, "The Curious Case of Benjamin Button", porque eles têm a ideia de que o passado está à nossa frente e o futuro está atrás das costas. E à medida que nós vamos recuando, vamos tendo mais passado à nossa frente e vamos tendo menos futuro atrás de nós. E a odisseia para si, essa forma de descoberta que está sempre presente na "Odisseia".

A filosofia nasceu-- atenção, tu eras para estudar engenharia e depois eras para ir para o ESEF. Eras para ir para o ESEF também, não era? Para desporto, educação física. Tinhas 15 anos. E quando é que se deu esta tua epifania? Se não me engano, o teu fascínio pela filosofia vem por causa do grego, por causa da língua. Ou não?

Não. Eu vou para filosofia por mero acaso.

Foi?

Foi por mero acaso.

Incrível. Moldou a tua vida toda.

Foi, porque eu cheguei ao 11º ano e não sabia bem o que havia de fazer.

Eras para aí 15 anos, na altura?

16.

16, ok.

16. E eu percebi que não ia para engenharia, de certeza absoluta. Eu acho que só deprimi nessa altura. Eu chegava a casa, puxava as persianas, ficava na escuridão, por infelicidade, e eu sabia que a minha vida se jogaria a fazer qualquer coisa que eu gostasse.

E o teu pai não dizia: "Filho, vai para o que queres."

Não, ele ajudou-me nesse sentido. Porque ele disse-me: "Tu sempre leste, escolhe um curso, História, por exemplo, ou até Direito." E eu despistei essas possibilidades. Eu percebi que Direito não era para mim, embora depois revesse talvez a minha posição, mas Direito não era para mim na altura. História punha-se o mesmo problema, eu tinha que repetir o liceu, mas eu também não queria História. Filosofia era a possibilidade em aberto. E eu falei com um amigo do meu pai, que era um grande pensador.

Agostinho da Silva, quer dizer?

Não. Era o doutor Fernando Tomás, que era o gestor de Recursos Humanos do Banco Toto & Só em Paris. Era um tipo que tinha feito Histórico-Filosóficas, tinha uma cultura geral avassaladora.

O homem do Renascimento.

E ele disse-me que se voltasse atrás, teria feito na mesma Histórico-Filosóficas ou Filosofia. E fez uma coisa muito simpática, teve um gesto simpatiquíssimo comigo, ofereceu-me os livros de Platão em francês, os diálogos de Platão. E eu comecei por ler isso. E quando fui para a Nova, para a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, eu tive os melhores professores que se pode ter. E abriram-me avenidas, todos os dias era uma abertura de avenida atrás de avenida. E foi assim que entrei.

Como tu dizes, só nessa altura começaste a estudar.

Foi só nessa altura que comecei a estudar.

A sério. Falávamos agora da finitude da vida, essa ideia do ser no encaminhamento da morte, e que como tu dizes, toda a arte, poesia, filosofia, pintura, arquitetura, tem a ver com a nossa vivência na Terra, com a complexa compreensão de que ficamos para morrer. Não estamos aqui para sempre. Muito bonito isto. Como é que tu gostavas de morrer e de ser lembrado?

O ser lembrado é relativamente indiferente, exceto que todos os nossos gestos, já não digo pensamentos, palavras, talvez pensamentos e omissões não, mas todos os nossos gestos e todas as nossas palavras não se esgotam no tempo que demoram a pensar e que demoram a proferir. E podem criar uma impressão no outro, podem deixar o outro num determinado estado. E eu dou importância às palavras, eu não queria que as palavras fossem destrutivas, deitar-se abaixo.

Tu és quase obsessivo com as palavras, é muito curioso.

Fossem de despeito. Eu acho que a palavra salva.

Sim. E tu dizes que quando a pessoa se engana nas palavras, pensa pior.

Pensa pior e pode causar dano. Eu não queria causar dano, nesse sentido. Depois, queria morrer de repente.

Ok.

Ou seja, queria estar morto.

Acordar morto como dizia o outro. Ir para a cama e acordar morto.

Por quê? Porque agora tenho estado a ler coisas e o Philip Roth diz: "A morte é um massacre, a velhice é um massacre". E eu tenho estado a acompanhar pessoas a envelhecer. Os meus pais, a minha tia.

És cuidador da tua mãe, por exemplo. Informal.

Informal no sentido em que estou lá sempre, tenho ajuda, o meu irmão ajuda.

Assusta-te, preocupa-te, entristece-te?

Sim, porque não quero ser peso a ninguém. E eu próprio não queria. Às vezes tenho falhas de memória e por isso é que a internet é muito importante, porque vou teclar e vou perguntar. Mas queria morrer de repente e não queria deixar palavras destrutivas, queria que fossem elevadas, uma palavra de esperança. Eu acho que a filosofia pensa a morte por causa da vida e não pensa a morte por causa da morte.

Exatamente. Muda o sentido.

Os genocidas pensam na vida por causa da morte. Eu não quero isso.

Muito bem. Tu lecionaste em Filosofia Antiga. Por que é assim tão diferente da Filosofia Moderna ou Contemporânea? Eles pensavam mais, tinham mais tempo, pensavam melhor?

Eu acho que são os momentos iniciais, e os momentos iniciais é como as primeiras vezes, como a primeira vez das primeiras vezes.

Os fundadores.

Criam livre iniciativa, autodeterminação e abrem, escancaram portas. Eu tenho trabalhado com o professor David Charles, que é um grande especialista em Aristóteles, e eu penso que ele não lê Aristóteles como se fosse um antigo, é como se tivesse publicado na semana passada.

Cá está, a atualidade.

Uma coisa é fazer história da filosofia, eu faço as vênias todas à história da filosofia, outra coisa é pensar com os antigos. O comentador é o que se lembra com, é o que rememora com a ajuda de. Esse é um primeiro aspecto. O segundo aspecto é, porque um professor de filosofia antiga demora uma data de tempo a formar-se, pelo menos pra os mínimos, tem que saber grego, se se dedicar aos filósofos gregos, depois tem que saber o mínimo de Aristóteles, o mínimo de Platão, e há uma data de gente que eu não sei. Eu acho que esse tipo de projeto é interessante na filosofia antiga. Mas eu sou formado na escola fenomenológica, então Husserl, Heidegger, Scheler, e esse eu leio, embora sejam, digamos assim, a bateria que me permite a interpretação.

Tu consegues mesmo ler grego do mais clássico e antigo. Ias à Biblioteca de Alexandria e conseguias ler quase tudo?

Não.

Se fosses.

Não.

Porque o grego mudou muito?

Dou-te um exemplo. Imagina um jovem que venha da Alemanha e lê português, até pode ler o Saramago, não vai ler Camões. Imagina a diferença entre Platão e de Aristóteles, não é um século, é muito menos tempo.

Mas é muito diferente a escrita?

Não direi a escrita, mas as formulações, a maneira como escrevem, é diferente.

Tu como tradutor, tradutor, traditor, o traidor. Traduzir filosofia não é traduzir palavras, é traduzir pensamentos. E por isso, às vezes, quando tu traduzes, és conhecido por algumas traduções importantes que fizeste, podes dar um significado completamente diferente do que a gente tinha ou que o autor queria.

Podes.

Porque com essa interpretação muito pode mudar.

Uma tradução tem uma tradição de pensamento. Se nós lemos depois também conforme a língua de acolhimento da tradução, nós vemos que há uma diferença entre a maneira como os alemães e os ingleses trabalham, e como os franceses, e nós.

Metodologia diferente.

Pronto, temos escolas diferentes.

Sim, mas partem do mesmo original.

Partem do mesmo original. O professor Frederico Lourenço dizia que qualquer pessoa pode traduzir Homero. Tem que ter uma sensibilidade científica, mas nem todas as pessoas conseguem traduzir um diálogo como o "Parmênides" de Platão. Pode ser completamente ao lado. Imagina, a palavra ideia, a palavra "idea" quer dizer manifestação, ou a palavra "eidos", que a tradição traduziu Sêneca e Cícero por forma, em grego quer dizer aspecto. Se eu traduzir um aspecto por forma, sim, todo o aspecto tem uma forma e um perfil, mas é completamente diferente. Não é toda a forma e perfil que são o aspecto de uma coisa. São conceitos dos médicos, dos hipocráticos, que são utilizados pra diagnóstico. Nós dizemos: "Estás com bom aspecto, estás com boa cara ou má cara". E é assim que eles depois aplicam às coisas. Ou o estratega, o general diz: "Tem boa cara, tem má cara, vamos descer, vamos subir, vamos contra-atacar, vamos atacar".

Ou até o tempo, e não sei o quê.

O tempo. Nós temos que tentar perceber que é isso que está a ser traduzido.

Se te dessem um convite como fizeram ao Frederico Lourenço pra traduzir a Bíblia, ele traduziu também do grego original. Tu aceitavas no caso de éssas?

Não.

O que isso quer dizer?

Ele tem uma capacidade de trabalho.

Sim, minuciosa.

Para traduzir a Ilíada, a Odisseia, para traduzir a Bíblia, tem que ser uma arregimentação da quotidianidade como só ele consegue fazer. Eu tenho múltiplos interesses, não quer dizer que ele não tenha múltiplos interesses, mas é um tipo de disciplina que não me interessa fazer. Ou seja, fiz tradução, é serviço público, acho eu, mas interessa-me muito mais agora explorar a especulação, mesmo que não seja uma filosofia científica como muitos querem, como os meus colegas pretendem.

Tu lês textos gregos que não estão ainda traduzidos para português?

Leio.

E portanto, o que é que te continua a surpreender nesses textos que tu vais descobrindo e vais lendo?

São formulações.

2000 e tal guiz e 500 anos depois.

A maneira como nós nos aproximamos da realidade nas diversas formulações filosóficas, tem sempre a maneira como o autor vê o mundo àquelas horas do dia e que depois fica consignado pra posteridade. Isso interessa-me sempre. Normalmente eu leio várias vezes os mesmos textos e não deixa de me surpreender.

Por que é tão importante a filosofia, António?

Eu responder-te-ia como Kant. Ele diz que há uma disposição natural no humano pra metafísica. Eu acho que o humano, por natureza, é filosófico. Porque nós importamo-nos com o que vai acontecer. Nós preocupamo-nos, mesmo quando não nos preocupamos, é uma reação à preocupação, a despreocupação, o não querer saber. Pode constituir-se, agora ouvi o professor Fernando Rosas falar num operador social de indiferença, da constituição de uma indiferença generalizada e que temos de contrariar.

Como se fala na dessensibilização das pessoas.

Exatamente.

Pra dor, pra guerra.

Estamos anestesiados e não pode ser.

Socialmente, é muito mau.

Nós não podemos conviver com boa consciência com o que se passa.

Com o genocídio todos os dias.

Com guerra. Acho que uma pessoa deve ouvir o observador uma vez por dia, mais não. Por quê? Porque quando eu digo observador, digo os média.

Sobre a verdade da mentira, é uma coisa que tem muito a ver com estes assuntos.

Tem muito a ver com estes assuntos.

Com os deep fakes, com estas mentiras, com esta administração americana que inventa histórias e que inventa imagens e que inventa coisas e depois diz que não inventou e que não é nada do que a gente pensa, o que todos vimos. É incrível isto. Não te assusta este crescimento destes populismos, destes fundamentalismos no mundo inteiro, a jogar com a verdade, o que é que é verdade e a pós-verdade, seja lá o que isso for? Temos de voltar ao básico. A pergunta: o que é a verdade? Tem de haver um critério baseado na realidade.

Já Pilatos perguntou isso a Cristo, mas é uma resposta tremenda: "Eu sou o caminho, a vida e a verdade." E nesse sentido, nós estamos a perceber que somos contaminados de uma forma tóxica com aquilo que nos é dito e nós temos de ver se o que nos é dito corresponde à realidade ou não. Temos de ter serenidade e não podemos ser primários, ou seja, não podemos responder às coisas com uma reação primária, ou pela esquerda, ou pela direita, ou por uma sensibilidade ou outra. Temos de ter cuidado com aquilo que nos está a ser dito e responder. Não é apenas estar a ouvir sem fazer nada, temos que responder de alguma forma.

Como é que seria o mundo e a história da humanidade sem filosofia?

Nós conseguimos reconstituir o que seria em vários momentos, do ponto de vista histórico, antes do advento do espanto. Imaginemos que houve um momento na história da humanidade que era ou contaminada pelo espanto e que todos os dias eram espantosos, ou neutra, indiferente relativamente ao espanto. Mas há um momento em que o espanto é tematizado como uma possibilidade, em que de fato as pessoas: "Estou espantado." Não estou apenas a reagir às coisas espantosas, o pôr do sol, uma pessoa, enfim, tudo aquilo que nos espanta. E nós podemos perceber que a vida sem filosofia não teria qualquer espécie de relação com o espanto, nem com a indiferença, seria nada. Mas nós podemos também perceber na nossa própria vida, os momentos em que não houve despertar de consciência. Nós não podemos dizer que éramos inconscientes. Não tínhamos era uma relação com essa forma de consciência. Ou seja, a nossa relação com a filosofia é uma relação com a consciência, com o despertar, com o recuperar os sentidos, com essa forma específica de acordar. E é isso.

Muito bem. Então, o que é filosofia e sobre os sentimentos, são já os dois livros que eu tenho aqui na mão. Engraçado, os livros são grossos, são já em meio formato de bolso.

Da Tinta da China.

Da editora Tinta da China, tem a ver com os nomes destes cursos que António do Castro e Queiroz deu ali no CCB. Tu tens algum site para as pessoas te seguirem ou basta ir ao CCB?

Eu uso Instagram, eu uso Facebook.

Muito bem. António Castro e Queiroz.

Está no Spotify.

Se é bom para as pessoas saberem os teus cursos, quando é que vai ser o próximo? Está a correr já este.

Está no CCB, isso sem dúvida. E está a começar o próximo.

Se uma pessoa ouvir esta conversa e ficar com a sensação de que afinal não percebe nada de nada, isto é um bom sinal?

Depende. Se for querer anular esse nada de nada, se disser: "Não percebo nada de nada" e ficar inerte, é mau. Esperemos que cutuquemos a onça.

António de Castro e Queiroz, quero agradecer muito a tua disponibilidade em vir aqui à Rádio Observador.

Obrigado, eu é que muito agradeço.

Muito obrigado e vais voltar com certeza. Bem-hajas!