Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Olha a cabeçada! Gol! Ronaldo! Não há português que não sinta. Diário do Mundial. Mundial que já chegou aos oitavos de final. Finalmente entramos no mata-mata, na zona a eliminar, e já tivemos os dois primeiros jogos destes oitavos de final. Ao início da tarde, Países Baixos 3, Estados Unidos 1 e agora Argentina 2, Austrália 1. É precisamente no estádio onde aconteceu este Argentina e Austrália que está o nosso enviado especial, no Estádio Ahmad Bin Ali, em Al Rayyan, o Bruno Roseiro, nosso editor de desporto. Bruno, muito boa noite, bem-vindo. Deixa-me adivinhar, estás à espera dos protagonistas?

Agora sim, estou na zona mista. Aqui de um lado pro outro, há uma fronteira que se chama ar condicionado. Portanto, eu tenho que passar pro lado de lá para ver quando é que aparece alguém. Depois passo pro outro lado, que é para ver se consigo sair daqui vivo do Qatar. Mas a esta altura só passou o Molina, portanto, estamos à vontade para fazer aqui um programa à maneira.

Não vamos ter em direto Lionel Messi na Rádio Observador?

Não, o Messi, a princípio, não vai falar aqui, porque quando existe os prêmios de jogo, ou seja, o jogador que ganha o prêmio de MVP, passa sempre pela sala de conferência e depois passa pela flash interview da Budweiser. Portanto, ele não está obrigado a parar para falar. E depois também há sempre um problema que é as televisões que têm direito, como estão à frente, acabam sempre por ter vantagem, porque depois os próprios jogadores também começam a cansar um bocadinho de andar sempre a falar em muitas paragens. Pronto, agora, através dos ecrãs, eu estou aqui a ver que chegou agora à conferência de imprensa. Não sei se vai ou não parar. Também sou sincero, se não parar, não há problema, não é a primeira pessoa com quem eu quero falar, porque também se tentar, sei que vou levar com 100 pessoas em cima de mim e, portanto, não conta. Pode ser que os outros que eu queira falar, pode ser que me deixem sossegado.

Hoje estás a apostar mais num Enzo Fernández, que com as costas fez o 2x1 da Austrália, um Otamendi que entregou a bola precisamente aos avançados da Austrália nesse lance. Ou vamos ter aqui algo fora do campeonato português?

Não. Marcos Acunha, Di Maria.

Di Maria que hoje não jogou.

E o Mabille.

Muito bem.

E o Mabille também. Se parasse um, já fazíamos a festa. É um bocado por aí.

Então e o jogo em si, Bruno, mais uma vez tivemos um festival na bancada. Notou-se a apreensão dos adeptos argentinos no momento em que o Cuol teve aquela grande ocasião, o último momento do jogo e uma grande defesa do Martinez?

Acho que não se notou tanto, mas deixa-me dizer que eu hoje já achei menos piada à euforia, porque quando são distribuídos os bilhetes, ou seja, tu pedes um bilhete para cada jogo, para a bancada de imprensa, e depois tens de ir imprimir os bilhetes. E quando tu imprimes os bilhetes, não sabes ainda o que é que vais ter. Tens duas hipóteses, que é ou tens mesa, portanto, tens bilhete desk, ou tens bilhete seat, que é basicamente vais para uma cadeira como se fosses um adepto e pões o computador ao colo se quiseres e trabalhas ali porque não cabe toda a gente. Problema: hoje os argentinos estavam à frente de quem estava sentado nas cadeiras. Ou seja, bastava a bola chegar ao último terço e automaticamente ou tu te levantavas com o computador ou então tinhas que estar a olhar pro ecrã do estádio para tentar perceber o que é que estava a acontecer. Isto, ponto um, foi chato pra mim e pra vários outros jornalistas. Ponto dois, mostra também a loucura e euforia crescente que os argentinos vivem. Daquilo que eu vim a falar com eles no metrô antes do jogo, ali à volta, há sempre ali um momento que eu gosto de andar um bocado na conversa com adeptos. Claramente não estavam à espera de tantas dificuldades. Eu diria mais que pra eles não existe nenhum adversário, nem sequer o Brasil, que os possa fazer temer não ir a uma final em Losail. A atenção está completamente já centrada nesse dia 19 e nesse jogo final. Antes ainda dessa bola do Cuol, notou-se a bipolaridade que esta massa fanática de gente tem, porque convenhamos que até aos 35 minutos de Lionel Messi não foi zero, foi abaixo de um, foi perder bolas, foi não fintar e foi andar onde ele não gosta, quase encostado ao meio-campo. E essa bipolaridade notou-se porque nunca ouvi o estádio tão em silêncio, nunca ouvi aquele broado, quem já está a sentir também a ansiedade. E é aquele tal binômio bancada-equipa que se nota muito, ou seja, toda a emoção que se vive dentro e fora é quase uma espécie de prolongamento, digamos assim.

Certo.

E depois apareceu aquele remédio do costume, que se chama Lionel Messi, no jogo mil, mais uma vez a ser Messi. Ou seja, eu diria que podemos continuar naquela onda das comparações. Eu acho que cada vez menos vale a pena estar a comparar o que é incomparável. Também acho que este mundial está a mostrar algo, colocando também o Mbappé à conversa. Não há nenhum jogador com a capacidade desequilibrada do Messi.

Certo.

Porque não há. Não há, até por uma razão: porque se o Mbappé tivesse a primeira meia hora de jogo que ele teve, muito provavelmente nunca na vida iria marcar aquele gol, porque começa a perder o foco Começa a entrar naquela espiral de ansiedade. Aliás, o próprio Ronaldo, eu acho que muito daquilo que não tem jogado e daquilo que não tem feito também tem muito a ver com isso. Quer tanto fazer as coisas que muitas vezes não controla a ansiedade e parece que tudo que podia correr mal, corre ainda pior. O Messi, não. O Messi tem essa vantagem. Mesmo não estando a aparecer no jogo, ele sabe que quando tiver uma bola, ele vai aproveitar aquela bola. E foi isso que voltou a acontecer, sendo que na segunda parte abriu o livro de uma maneira que a Austrália teve muitas dificuldades no jogo da apanhada, e depois houve essa bola que foi festejada como se fosse um gol do Emiliano Martínez, mas tu não chegaste sequer a sentir propriamente o barulho da parte da claque argentina e de todos os adeptos argentinos, porque eles já estavam a cantar como se o jogo estivesse a acabar. Aquilo que tu sentiste foi os gritos dos milhares de adeptos australianos, que também cá estavam em duas zonas do estádio, uma mais central, uma atrás da baliza. Essa parte do entusiasmo de poder haver o empate, sim. Sobre os argentinos, não. Desde os 90 minutos, desde que o Lisandro falha aquela bola isolada, que eles já estavam em festa, porque isto é tudo muito assim, é a bipolaridade. Isso são os mesmos que uma hora antes estavam caladinhos porque viam que a Argentina não conseguia sequer arrematar à baliza. E no final, ainda o jogo não tinha acabado e já estavam a fazer a festa, que estavam parados para os quartos de final, podendo sofrer o empate no final. Argentina é isto. Argentina vai ser sempre isto. E deixa-me acrescentar, ainda bem que a Argentina é isto, porque o futebol assim tem muito mais piada.

Claro, é muito mais interessante.

Desde que não estejam a levantar-se à minha frente.

Claro. Bruno, já sabes que tens carta branca para nos interromperes e nos mandares também para casa assim que tiveres os teus afazeres com algum jogador a passar.

Nada, hoje o banho está demorado.

Está. Vamos aproveitar então. Vamos aproveitar e gostava de perguntar, durante o resto do dia, o que é que estiveste a fazer? Estiveste a preparar este jogo, foste também ao País Basco e Estados Unidos. Como é que foi esse dia no primeiro dia dos oitavos de final, não é? Porque foi o primeiro dia.

Sim, primeiro dia dos oitavos de final. Eu hoje estava a falar com uma pessoa que provavelmente está muito ansiosa também que eu volte para casa, e estava a reconhecer uma coisa, que é o fato de não haver nenhuma pausa entre a fase de grupos e os oitavos de final, fez com que eu hoje acordasse e pensasse: "Ok, pronto, a partir de agora quem perder vai para casa". Ou seja, é uma mudança completa de chip, até a maneira como tu vês o jogo é completamente diferente. A festa que existe no final do relvado, vale muito mais a pena esperar um bocadinho mais até virar à zona mista, porque há, de facto, uma festa que não havia na fase de grupos. E só fui a este jogo porque a partir de agora só se pode fazer um jogo por dia. A FIFA alterou as regras e se na fase de grupos nós podíamos fazer um dos jogos das 18h e outro dos jogos das 22h, agora só podemos fazer ou um ou outro. Portanto, eu acabei por optar pela Argentina. Não que não achasse que o País Basco e Estados Unidos fosse um jogo desinteressante, nem pouco mais ou menos, e a zona mista seria muito melhor, garantidamente, mas é sempre Messi. E quer queiramos, quer não, a partir de agora, um jogo mau da Argentina e um eclipse pouco provável, mas pode acontecer, de Messi, pode significar o fim de um sonho e o seu último jogo na seleção. Daí também ter escolhido a Argentina. Antes fiz algo, não sei se estás preparado, não sei se estás a fazer isto de pé ou sentado.

Eu estou em pé para casa. Devo sentar-me?

Então, cuidado, que vais ter agora uma experiência nova. Antes fui assistir ao primeiro dia do campeonato de camelos em Al Shaarian.

Então e que é que viu esse primeiro dia?

Posso dizer que o Soda, que é o número 23, é um grande talento e daqui a seis anos vai dar cartas.

Acabo por dizer, é um grande camelo, não é? Esse Soda.

Sim, o Soda é mesmo grande camelo. Não, isto foi um campeonato que começou hoje, que vai até dia 14 de dezembro. Hoje foram, digamos assim, os juvenis, foram camelos que tinham só quatro anos. No início, aquilo é giro por novidade, depois começa a se tornar um bocado aborrecido, porque quando acaba uma corrida, que demora sempre à volta de seis minutos e dois segundos, seis minutos e cinco, seis minutos e 10, passados 10 segundos, começa logo a outra. Para tu perceberes o quão surreal é aquilo. A corrida em si, não vou dizer que é uma corrida normal, mas é quase como se fosse uma corrida como nós estamos habituados a ver nos cavalos, com uma diferença: é que os jóqueis são robôs. Ou seja, em cima dos camelos está um pequeno robô que tem uma espécie de um braço pequenino.

Isto já era bizarro, agora ainda ficou mais...

Não, mas há muito mais do que isso. Há o robô muito pequenino que está inserido no equipamento, ou seja, existe um equipamento de cores diferentes que assinala a equipa, entre aspas, do seu proprietário. Aquilo que é anunciado na televisão, porque isto é tudo transmitido na televisão e é um canal específico só para transmitir estes campeonatos, é sempre o nome do camelo e o seu proprietário, ou seja, o tratador, aquele que passa o tempo todo com ele, que cuida dele, que o treina, é olímpicamente ignorado, porque provavelmente não é qatari. Qatari ou de outra nacionalidade, porque temos Camelos que são de pessoas abastadas do Koweit, ou seja, de vários países do Golfo Pérsico e que também podem entrar neste campeonato. Depois, aquilo que tu tens é a parte chata. Eu comecei a ficar aborrecido, porque aquilo é sempre um bocado a mesma coisa, e eu estava numa zona onde basicamente não se via a corrida. Ou seja, sendo uma corrida dos camelos mais novos, dos 4 anos, é feita num circuito de 4 km interior, onde a única coisa que tu percebes que está a haver uma corrida é pelas buzinas dos carros que estão a andar em pistas laterais para comandar os robôs.

Os robôs são comandados por carros.

Por carros, sim. Imagina uma pista central, que é onde correm os camelos, e depois de um lado e de outro andam carros a buzinar, alguns com os seus donos dos camelos com a cabeça de fora e no tejadilho a gritar com os camelos, mas têm de andar sempre a ir pra frente, porque estão a comandar o robô que está no camelo.

Ou seja, o robô move-se com o movimento dos carros, de certa forma.

Não, eles vão ali ao lado e depois provavelmente estão a mexer o robô para apertar um bocadinho mais ou para aliviar um bocadinho mais. Para fazer isso. Agora, qual é que foi o problema? Eu quando comecei a ver isto, estava em frente a uma televisão e tinha a perceção, ou seja, eu estava numa espécie de tribuna daquele que é o circuito principal, que tem três plasmas gigantes e tem à volta de 60 cadeiras para emires, não é para o Bruno Roseira. O Bruno Roseira é que aproveitou e se fez de emir hoje. E a certa altura eu comecei a me cansar um bocadinho e comecei a andar lá, dar umas voltas, a ver se eu conseguia ver um bocadinho mais de ação. Passei por uma zona que, entretanto, mais tarde soube que era proibido andar a passar, mas andei ali todo divertido no meio dos camelos, e a certa altura disse: "Isto assim está um bocado aborrecido, eu se calhar vou-me embora". E uma espécie de guia que esteve sempre comigo e que me foi explicando as coisas todas, disse: "Então, espera só um bocadinho, que eu vou aqui já tratar da situação". E então acompanhei duas corridas dentro de um dos carros. Ou seja, aqueles carros que andam pela zona lateral, não era nenhum dos proprietários, porque esses estão em competição e eles disseram que não era possível, mas fui a andar no carro que estava a passar ao lado dos camelos a correr e fiz uma série de vídeos. Para ti posso já mandar daqui um bocadinho.

Manda.

Para o resto da reportagem eu hei de ver como é que vou montar aquilo. E aí já sentes muito mais a questão da corrida. Isto para mim é tudo estranho, como é óbvio, nunca tinha visto uma coisa assim. Para os cataris é uma coisa que é levada muito a sério, é uma coisa que tem muita gente a ver na televisão. O André Maia e o João Cruz do Catar que relatam a corrida dos camelos têm de se revezar.

De mão dada também.

Chegam a perder a voz, ou seja, ficam com a boca seca. Aquilo não é fácil.

Ainda por cima com o calor.

Ainda por cima com o calor. Se bem que eu acho que isto vai baixar um bocadinho, que esta noite hoje já está um bocadinho mais fresquinha.

Exato.

Mas é engraçado porque como o tom de voz é completamente diferente, tu tens noção que passou a ser um outro relatador, digamos assim.

Claro. Olha, Bruno, e quando é que podemos ver essa reportagem? É o que eu mais quero neste momento, é ler sobre isso.

Olha, se correr tudo bem, vai ser amanhã.

Ok.

Sai no jornal amanhã e vou pôr o Senhor das Pérolas mais durante a semana.

Muito bem.

Acho que foi contigo que eu falei do Senhor das Pérolas.

Foi sim, senhor.

Aquele senhor que me ia escangalhando o braço.

Exatamente, ficaste quase sem braço.

Exatamente. Entretanto, também foi contigo que disse que estava lesionado do pé. Deixa-me dizer que já estou a 100%.

Não foi comigo, mas eu ouvi dizer. Foste até assistido, não foi? No estádio.

Sim, teve de ser. No estádio, não, foi no posto médico.

No media center.

Do media center, sim. Aliás, não fui para ser assistido, fui lá explicar: "Olhe, desculpe, isto está a se tornar aqui um bocado complicado, porque agora está o tornozelo a começar a ceder" e protegeram aquela zona.

Os jornalistas também se lesionam.

Sim, também se lesionam, mas estou a 100% para os oitavos de final.

Muito bem.

Eu hoje, se tivesse tempo para fazer um treino, que é uma coisa que eu não tenho, já não teria de fazer treino condicionado de ginásio, já podia ir pro relevado à vontade, porque já estou a 100%.

É um alerta para o Fernando Santos. Bruno, estamos quase a ficar sem tempo e também, espero eu, já estarás perto de receber os artistas que queres receber. Portanto, muito rapidamente.

Já passou um jogador da Austrália, mas não era o que eu queria.

Muito rapidamente então saber, amanhã, dia 4, vamos ter esse terceiro e quarto jogo dos oitavos de final. França-Polónia às 15h, Inglaterra-Senegal às 19h. Qual é que é o escolhido desta vez?

Amanhã vou à França. Ainda não fiz nenhum jogo, a França é campeã mundial. Provavelmente, na teoria, vai ser o adeus de Lewandowski àquele que, a princípio, será o seu último campeonato do mundo. E, portanto, mais uma vez, parece-me que o Inglaterra-Senegal, enquanto jogo, vai ser muito mais interessante, mas vou estar na França com a Polónia.

Muito bem. Então amanhã cá te receberemos de novo para esse rescaldo e para o diário e para os bastidores do França-Polónia, às 15h, relembro para os nossos ouvintes, 15h de Portugal, aí no Catar horas diferentes, e às 19h, também de Portugal, Inglaterra-Senegal. Bruno Roseira, muito obrigado. Boa sorte aí com o Mabille ou com os outros artistas que queres apanhar. A ver se tens alguma sorte. Cuida desse calcanhar, desse tornozelo e boas corridas de camelos, se lá voltares.

Exatamente, pronto. Camelos. Posso já dizer que a próxima vai ser falcões. Mas todos os dias há qualquer coisa boa.

É só animal, traz um animal diferente.

Amanhã é para escrever só os camelos.

Muito bem. Aí esperamos por essa reportagem, Bruno. Um forte abraço e até amanhã.

Um abraço, até amanhã.

Olha a cabeçada! Gol! Ronaldo! Não há português que não sinta.