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Encontro com pesos pesados do CDS no Largo do Caldas, esta segunda-feira à noite, e há outro previsto para amanhã, quarta-feira. Já de olho nas legislativas de março, que podem ser a oportunidade para o partido voltar à Assembleia da República. É hoje nosso convidado no "Direto ao Assunto", Luís Nobre Guedes, militante do CDS, ex-vice-presidente do partido. Vai aqui direto ao assunto com a ajuda da Judite França, Bruno Vieira Amaral e Vanessa Cruz.
Dois encontros no Largo do Caldas, como há muito não se via. Um deles está para acontecer amanhã. Vai contar, por exemplo, com Assunção Cristas, mas ontem outros grandes nomes rumaram a Lisboa: Paulo Portas, António Monteiro, Lobo Xavier, Cecília Meireles, Adolfo Mesquita Nunes, entre outros nomes. E foi Paulo Portas a liderar esta reunião. Luís Nobre Guedes, bem-vindo. Isso não fragiliza o atual líder, Nuno Melo?
Não, acho que não fragiliza de todo e acho que a nossa estrita obrigação é de podermos contribuir com aquilo que possamos fazer e que tenhamos condições de fazer. Portanto, acho que não fragiliza nada.
Vimos os ilustres, dentro e fora, dizerem que querem um CDS não a pedinchar, mas também não escondem que seria a melhor estratégia uma coligação pré-eleitoral com o PSD. Luís Nobre Guedes é a favor desta estratégia?
Sabe, eu tenho uma história no partido e a história no partido passa muito por aquilo que eu sempre lutei, que foi a união deste centro-direita. Foi assim em condições muitas vezes muito adversas e, portanto, sempre entendi que devia haver no centro-direita dois ou mais partidos, mas que em termos eleitorais, em muitas circunstâncias, faria todo sentido que fossem de facto coligados.
E seria esta uma dessas circunstâncias?
Na história do CDS e na história do nosso país que foram marcantes, que foi a AD em 80 e o Para a Frente Portugal, com o professor Francisco Louçã Amaral. Esses foram momentos que eu acho que guardo como referências que tenho naquilo que eu entendo que este espaço de centro-direita deve fazer.
Mas nessa altura foram pré-coligados. Depois há outras duas eleições em que coligaram a posteriori.
Sim, mas atenção, se é pré-coligados ou não, isso depende das circunstâncias concretas de cada momento. No caso concreto, eu acho que é estrita obrigação que vão pré-coligados, ou seja, em coligação pré-eleitoral.
É mais vantajoso para o CDS.
Não é para o CDS, é para o país. O problema é este, e esta é a razão pela qual eu irei ao Caldas amanhã. Só vou porque realmente sou daquelas pessoas que estou extremamente preocupado com a situação em que nós vivemos. E tenho muitas dúvidas desta solução encontrada das eleições antecipadas e acho que corremos aqui um risco enorme. A verdade é que a última sondagem dá à esquerda 42%. Portanto, vai ser uma disputa de voto a voto. Vai ser uma disputa em que cada voto vai contar.
Mas a direita tem 54%, de acordo com esta sondagem, incluindo o Chega. Exclui o Chega desta equação?
Excluímos o Chega desta equação. E portanto, a verdade é que a esquerda tem 42%. Isto vai ser disputado voto a voto, e cada voto vai importar. E por isso, para além da aritmética, eu acho que é uma questão de apresentar ao país e aos portugueses uma alternativa em termos de um projeto nacional.
E como é que o CDS pode apelar ao voto útil?
Não pode apelar a nenhum voto útil. O CDS tem que se apresentar, tem que ser muito claro. O meu modesto entender é aquilo que eu vou dizer, aquilo que eu penso, e isto posso dizer, porque o resto direi no Caldas. Mas isto posso dizer. Ou seja, o CDS deve ser claramente a favor de uma coligação pré-eleitoral. Claramente. E portanto, se essa coligação pré-eleitoral não tiver lugar, não é por responsabilidade do CDS, muito pelo contrário. Se não houver coligação, tem que tentar ter o melhor resultado possível. Tão simples quanto isso. Para isso, o que é que é preciso? É preciso que tenha uma ideia de um projeto para Portugal.
Mas o PSD não parece estar muito interessado nisso, Nobre Guedes. O PSD não parece estar muito interessado nisso.
O problema é que o PSD não é eu. Já fiz uma coligação com o professor Marcelo Rebelo de Sousa e foi muito difícil. Era num pós-independente em que o Paulo Portas era um demónio que era ali naquele partido e fez-se um entendimento porque havia essa vontade de fazer, de facto, um entendimento entre os dois partidos. Portanto, isso é possível. O PSD eu espero que olhe para o exemplo do Carlos Moedas, em Lisboa. Todos os votos contaram, do PPM, daquele grupo de cidadãos, na AD de 80, a importância que tiveram aqueles cinco reformadores. Eram cinco personalidades, não eram mais, mas tiveram uma importância enorme. Portanto, eu acho que é um esquema semiparecido com esse que se deve apresentar e que tem condições de poder ganhar as eleições e ter uma maioria e governar.
O que sabemos à partida é que a Iniciativa Liberal não quer entrar nessas contas.
Eu espero que compreenda, que entendam que não estão certos, que estão profundamente errados e que é um ato de um enorme egoísmo não entender que é preciso fazer um esforço coletivo, um esforço de todos, para chegar a um projeto comum e para ter melhores condições para ganhar à esquerda. A esquerda está forte, vai estar forte, e estão iludidos aqueles que pensam que vai ser um passeio mais ou menos tranquilo, porque as sondagens podem ser, de uma certa perspectiva, favoráveis. Estão enganados. Portanto, vai ser uma disputa, como lhe digo, vão ser maiorias de dois ou três deputados à direita ou à esquerda. E, portanto, todos os votos contam. E repare, o que é preciso que os portugueses querem, a última coisa que querem, é ver, de facto, partidos neste espaço de centro-direita a disputar entre si eleitorado
Mas e isso não é importante também para a clarificação do eleitorado? Apresentarem as suas propostas, as propostas de cada partido.
Com certeza, isso é o que é normal em democracia, mas perante circunstâncias excepcionais, têm que se ter soluções excepcionais. Eu acho que o país está numa situação crítica. O mundo está numa situação crítica. Repare, tem o que se passa em Taiwan, tem o que se passa em Espanha, tem o que se passa em França, tem este pesadelo que é esta possibilidade da vitória do Trump na América. O mundo está numa situação delicadíssima. Portugal tem uma oportunidade como nunca mais vai ter, pelo menos na nossa geração, não vai com certeza ter as condições que hoje tem. E portanto, é uma estrita obrigação nacional patriótica as pessoas se unirem, darem o melhor que têm e tentarem apresentar ao país um sucesso.
E o CDS, Luís Montenegro também está numa situação delicada, tendo em conta que perdeu o lugar que tinha no Parlamento.
O CDS está numa situação delicadíssima, mas eu acho que tem todas as condições para voltar ao Parlamento e vai voltar, seja qual for a solução, sobre isso não tenho dúvidas nenhumas.
Mas disse nas últimas legislativas que o seu partido cometeu erros.
Foi um deslize enorme, cometeu um erro, acontece, vamos andar pra frente. Eu sou do tempo em que fiz parte da direção do CDS, com o Manel Monteiro, onde as sondagens nos davam 1% e onde a verdade é que conseguimos ter 9 ou 10%. O presidente do partido nem sequer licenciado era e conseguimos ultrapassar todas essas dificuldades que havia.
E qual é que devia ser o objetivo agora? Se não houver coligação e o resultado do CDS até foi poucochinho, será sempre mais responsabilidade do partido ou também do PSD que não deu a mão, caso não dê a mão ao CDS?
Não, nós não precisamos de nos dar a mão. É uma questão de acreditar que esta é uma boa solução em termos daquilo que é preciso apresentar ao eleitorado e que pode ter o acolhimento do eleitorado. Portanto, não é para nós uma má solução. O CDS, eu não tenho dúvidas nenhumas, tem todas as condições de voltar ao Parlamento, não sei se com três, com quatro, com cinco, não faço ideia, isso depois se verá. E a nossa obrigação, como ex-dirigentes do partido, a quem devemos muito como instituição, é realmente contribuir com aquilo que a gente pensa que é a melhor forma de apresentar um projeto para o país. É aquilo que é preciso, é aquilo que o país não tem.
Acha que a relutância do PSD tem a ver com essa contabilidade depois de número de deputados?
Acho que também tem a ver, mas repare, vamos olhar para a parte boa das coisas, não é? Não a parte negativa. Vamos olhar para as pessoas que, acima dos seus interesses pessoais mais imediatos, têm em vista o interesse do país. O interesse do país é que se apresente um projeto alternativo ao Partido Socialista, que vai estar forte nas eleições, e a esquerda vai estar forte. E portanto, é um erro pensar que se pode desperdiçar um voto que seja. É um erro. Agora, esse erro já foi cometido no passado mais recente, mas houve na história da democracia alturas em que pessoas, de facto, de alto gabarito e com alto sentido patriótico souberam unir e entender. E não era fácil, repare. A rivalidade que havia em 1980 entre o PSD e o CDS era enorme. Havia pessoas no PSD que não aceitavam. O doutor Sá Carneiro teve três ocasiões em que foi chumbada a ideia de fazer uma AD, mas conseguiu fazer. Por quê? Porque entendeu que era a melhor forma de ter um projeto, na altura, alternativo ao PS do doutor Mário Soares, que era mais ou menos hegemônico em termos do país. Portanto, há alturas onde há pessoas que têm a visão e têm o patriotismo de dizer: "Vamos nos unir, porque é a forma de conseguirmos aquilo que é o nosso objetivo." E o nosso objetivo é ter um bom governo para Portugal, é ter um bom projeto para Portugal. Não é só ser alternativo ao PS, é alternativo ao PS com um projeto concreto.
E para alcançar esse primeiro objetivo de regressar ao Parlamento, quais devem ser os temas prioritários do CDS na campanha? E pergunto-lhe também que alvo preferencial: o Chega, a Iniciativa Liberal ou o PS?
Não, é assim. Em relação aos temas de campanha, eu vou, como lhe digo, modestamente, amanhã contribuir com aquilo que eu penso que é mais importante em termos de contribuir para o CDS apresentar um projeto. E não é para debater ideias. Já não estamos em tempos de debater ideias. Estamos em tempos de apresentar ao eleitorado aquilo que é um projeto para o país. E portanto, essa é a preocupação número um. Em relação a outros partidos. Eu tenho simpatia pela Iniciativa Liberal, porque acho que é um ato de alguma ousadia em Portugal assumir-se como um partido liberal, só por isso. E por isso não é considerado nosso adversário. Em relação ao Chega, como digo, eu espero amanhã no CDS e espero que de facto a campanha não seja monopolizada sobre fazer um acordo ou não com o Chega. A gente tem que se apresentar com o melhor que sabe e que pode e não viver obcecado com o Chega. Portanto, o Chega vai ter os votos que tiver, que as pessoas confiarem, nós respeitamos e andamos pra frente.
E esse projeto que diz que é preciso apresentar agora, que a questão do debate de ideias já vem sendo feita, é Nuno Melo a melhor pessoa para o protagonizar?
É o presidente do partido com quem todos devemos, com a maior honestidade, a maior franqueza e a maior transparência, ajudar e poder contribuir para que tenha o melhor resultado possível. E portanto, podemos ter divergência ou pudemos no passado ter divergências nos partidos. Eu sempre defendi que quando chega a eleições, temos que nos unir. E portanto, não é a altura para estarmos agora a discernir isto ou aquilo. Não. O Nuno Melo é o presidente do partido, vamos ajudá-lo, vamos contribuir, vamos fazer tudo aquilo que estiver ao nosso alcance para ter o melhor resultado possível. Pronto, é tão simples quanto isto.
Acha que a Iniciativa Liberal ainda pode mudar de ideias?
Acho E tenho esperança que mude ideias. Tenho esperança que compreenda que é um erro tremendo este de não fazer parte de uma grande coligação de centro-direita pré-eleitoral. É um grande erro. E mais, acho que vai ser mesmo punido em termos eleitorais, porque o eleitorado é isso que quer. É a minha convicção. É que este eleitorado de centro-direita o que quer é que apareça uma frente tão alargada quanto possível. E portanto, não vai premiar quem põe alguns egoísmos partidários à frente daquilo que é o interesse do país. Não vai. Mas nós faremos.
No encontro de ontem não estiveram presentes os ex-líderes Francisco Rodrigues dos Santos e Ribeiro e Castro, não acederam ao convite de Nuno Melo. O que é que isto nos diz sobre a união do CDS? Continua fraturado?
Se foram convidados, acho que deviam ter ido. É a minha opinião, tão simples quanto isto. E se não foram, é pena. Deviam ter ido e deviam contribuir. Como lhe digo, quando estamos em períodos eleitorais, não há lugares para divisões e para quaisquer coisas que não seja: como é que podemos contribuir para o nosso partido ter o melhor resultado possível? E com certeza que não é evidenciando divisões e algumas mágoas que possa haver. E portanto, acho que se foram convidados e não foram, é pena.
Estas eleições são determinantes para a sobrevivência do CDS, caso não consiga eleger deputados?
Absolutamente determinantes, não tenho dúvidas nenhumas, mas também estou muito tranquilo, porque lhe digo que a probabilidade ou a possibilidade de não ter representação parlamentar é quase inexistente, é mínima. E portanto, sobre isso não estou o mínimo preocupado. Acho que o partido tem muita gente boa, é um partido nacional, é um partido que tem estruturas por todo o país, é um partido que participa na Câmara de Lisboa, participou na Câmara do Porto, tem câmaras municipais, nos governos regionais. É um partido nacional. Teve, de facto, um período muito mau por circunstâncias muito extraordinárias. Tão extraordinárias quanto foi a maioria absoluta do PS, que também ninguém esperava. Não é assim? E portanto, de facto, as últimas eleições foram anómalas, mas o CDS vai voltar ao lugar que sempre teve. Não tenho sobre isso dúvidas nenhumas, não tenho receio nenhum de ir sozinho ou coligado. Vai coligar por uma estrita obrigação patriótica e nacional. É tão simples quanto isto.
Ontem ficou traçada uma linha mais ou menos ténue na reunião que é, se pode utilizar essa expressão, coligados, mas não desesperados.
Claro, com certeza. Como lhe digo, eu estou muito tranquilo em relação que o CDS vai voltar a ter o lugar que sempre teve. Acho que tem todas as condições para isso e é com esse propósito, com esse intuito e esse estado de espírito que amanhã vou ao Caldas e outras pessoas têm ido para tentar contribuir com aquilo que possamos ter, para como é que é possível que o CDS possa recuperar o lugar que sempre teve. É evidente que tem algumas realidades novas. A Iniciativa Liberal e o Chega são coisas novas e evidentemente que foram ao eleitorado do CDS.
E se não conseguir recuperar esse lugar, Nobre Guedes? Atira a toalha ao chão, o CDS?
Eu acho que fica muito difícil, efetivamente. Mas como lhe digo, eu acho que essa probabilidade é uma probabilidade mínima. O problema não é esse. O problema é o que é que representa uma coligação pré-eleitoral face a uma não coligação. E portanto, é tão simples quanto isso. Mais, eu acho que para apresentar ao país um projeto, faz todo o sentido que haja o máximo de contribuições de vários partidos, várias sensibilidades, várias personalidades do passado, do presente e do futuro, que possam contribuir para aquilo que falta a Portugal, que é um projeto. É um projeto tão simples quanto isto. Portugal não tem um projeto como país. Saberemos governar, mas não sabemos ter um projeto, não temos um projeto. Não sabemos o que é que vamos fazer amanhã.
Muito obrigada por ter vindo ao "Direto ao Assunto", o ex-vice-presidente do CDS-PP, ele que já manifestou aqui que amanhã vai estar no Largo do Caldas, esse segundo encontro, parte dois deste reencontro com nomes de peso do partido na sede em Lisboa.