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E no Direto ao Assunto desta manhã, o nosso convidado é Fernando Maltez, diretor do Serviço de Infectovirologia do Hospital Curry Cabral. Dr. Fernando Maltez, muito bom dia. Bem-vindo à Rádio Observador.
Bom dia, muito obrigado pelo convite.
No Direto ao Assunto de hoje, vamos olhar este processo de vacinação, também a resposta dos serviços de saúde à pandemia, numa entrevista conduzida por Judite França e Carla Jorge de Carvalho.
Fernando Maltez, bem-vindo à Rádio Observador. Ontem foi vacinado contra a Covid-19. Como é que está a decorrer o processo no Hospital Curry Cabral?
O processo no Hospital Curry Cabral está a decorrer normalmente, conforme aquilo que era esperado. Houve uma programação do número de profissionais de saúde a serem vacinados, houve um agendamento dessas vacinações distribuídas por dois dias e meio, e portanto, hoje penso que ficarão terminadas as imunizações de todos os profissionais de saúde daquele hospital.
E sem qualquer resistência à vacina por parte destes profissionais?
Não. Logo de início, quando colocados perante a possibilidade de vir a ser vacinados, manifestaram de imediato disponibilidade total, acederam de imediato à calendarização das respetivas imunizações e ninguém faltou essas imunizações. E portanto, a afluência foi de 100%. Todos foram vacinados e tanto quanto sei, também até ao momento, não há relatos de nenhum efeito adverso inesperado.
Professor Fernando Maltez, sabemos que, pelo menos em relação à vacina da gripe, tirando este ano, havia sempre uma espécie de resistência, os profissionais de saúde não aderiam muito à vacina. Há uma disponibilidade diferente para esta?
Eu penso que sim. Estamos a falar de patologias diferentes. Estamos a falar de patologias que do ponto de vista de repercussão clínica, são completamente diferentes, de gravidade completamente diferentes, muito mais ameaçadora esta, a infeção por SARS-CoV-2, que, como sabemos, mais de 91% dos internamentos são indivíduos com mais de 50 anos. E portanto, há, de facto, muito receio de se contrair a infeção e perante a disponibilidade de uma vacina que nos ensaios já realizados mostrou eficácia e segurança, as pessoas devidamente informadas estão a aderir bem à vacinação, de modo a que consigamos, de facto, ultrapassar esta fase tão difícil das nossas vidas.
A vacina já está a representar um momento de esperança para passar este ano tão difícil. É possível aligeirar medidas de contenção nos próximos meses?
Não, de maneira nenhuma. Nós estamos a falar de uma vacina, que já tive a oportunidade ontem de o dizer, representa um marco na história da medicina, uma vacina que se desenvolveu num período de tempo tão curto, em menos de 12 meses. Tirando a vacina que foi desenvolvida para a gripe A H1N1 em 2009, para a pandemia por influenza H1N1, que essa foi uma vacina que se desenvolveu em seis meses, mas já havia plataformas preparadas para vírus influenza e, portanto, foi só uma questão de adaptá-la ao novo vírus influenza. Tirando essa, não me lembro de mais nenhuma na história da medicina que tenha sido desenvolvida em tão curto espaço de tempo. É um marco histórico. Contudo, importa lembrar que ainda não conhecemos os resultados em ensaios de fase três. Estamos a basear-nos em resultados de ensaios que já envolveram um número significativo de doentes e até cobrindo várias faixas etárias, mas há muitos aspetos da vacina que ainda não se conhecem. Nomeadamente, não sabemos se ela é mais eficaz a prevenir a transmissão, se é mais eficaz a prevenir a doença grave, se é mais eficaz a prevenir a doença em determinados grupos etários do que noutros, em determinadas patologias do que noutras, e sobretudo, não se sabe ainda ao certo o nível de imunogenicidade que ela induz e, sobretudo, a duração de proteção que ela confere. E por isso, até termos a certeza que temos 60% a 70% da nossa população imunizada, é conveniente, de facto, que mantenhamos todas aquelas regras que já foram divulgadas para prevenir a transmissão, todas aquelas regras não farmacológicas, que passam pelo uso da máscara, que passam pela etiqueta respiratória, pela higiene pessoal, pelo distanciamento físico, pelo evitar aglomerados populacionais, enfim, todas aquelas medidas que reduzem o risco de contrairmos a infeção. Até, de facto, termos uma proporção significativa da nossa população já imunizada, até porque, entretanto, até lá, vamos também ter mais conhecimento daquilo que são os resultados relativamente aos ensaios que estão a decorrer e provavelmente até esses resultados irão permitir, ao longo deste tempo que se avizinha, irmos acertando também as estratégias de Imunização, inclusive a priorização dos grupos que estão neste momento devidamente escalonados. Enfim, há todo ainda um processo de conhecimento por fazer e, portanto, até atingirmos esse grau de proteção que se deseja, convém que se mantenham todas as outras medidas. Desculpe interrompê-la, mas tal como eu também já afirmei, de fato, isso deve ser um estímulo para as pessoas, porque essa é a solução que está à vista para a resolução de um problema que nos afetou durante todo este ano. Portanto, isso deve ser um estímulo para nós, mais do que nunca, cumprirmos todas essas regras para, de fato, ver se chegamos ao fim do segundo trimestre deste ano, a entrarmos a pouco, na nossa vida normal.
E esse fim do segundo trimestre que falava para o ano, pode ser uma altura em que tenhamos uma porcentagem da população de quantos vacinados?
Peço desculpa, se calhar fui demasiadamente otimista nesta parte. Segundo trimestre, não diria. Eu diria lá para setembro. Penso que início de setembro estaremos.
Podemos chegar aos tais 60%?
Sim, tendo em conta aquilo que se prevê. O que está previsto no Programa Nacional de Vacinação é que no primeiro trimestre venham à volta de quatro milhões de doses de vacinas, para no segundo trimestre, à volta de sete milhões e meio, terceiro trimestre mais outros sete milhões e meio. Portanto, eu presumo que lá para setembro, de fato, nós estejamos já a poder entrar numa fase de vida próxima do normal.
Professor Manuel Maltez, mas não é exatamente por causa dessa expectativa que há o risco de poderíamos começar todos a relaxar um pouco mais em relação às preocupações que temos tido nestes últimos meses? Como é que se encontra aqui o equilíbrio entre a esperança que é ter a vacina, mas ao mesmo tempo, a mensagem de que é preciso continuar a ter os mesmos cuidados?
Exatamente, concordo inteiramente consigo. Esse é um grande risco, de fato. As pessoas têm à sua frente a possibilidade de serem vacinadas, têm no seu horizonte a possibilidade de resolver o problema, mas têm que ter consciência que até poderem ser imunizadas e até haver uma parte significativa da população imunizada, é necessário que tomem todas as outras medidas, porque aqueles aspectos que eu há pouco mencionei ainda não estão completamente clarificados. Nomeadamente, se estas vacinas protegem essencialmente contra a infecção ou se protegem essencialmente contra a transmissão. Provavelmente, essas vacinas protegerão um bocadinho das duas coisas ou cobrirão as duas coisas. Mas temos que ter certezas que ainda não existem. Portanto, as pessoas devem olhar para esta vacinação não como a resolução dos problemas e como um sinal para relaxarem, mas sim como uma via para a resolução do problema e que nesta fase, mais do que nunca, têm que manter todas as outras medidas para dar tempo a que esta vacina funcione.
Depois é preciso também equilibrar o problema da situação econômica das pessoas. E como dizia, essa esperança na vacina pode, de fato, levar a que haja uma ânsia de voltar à vida normal.
Pois, com certeza. Como digo, de fato, as pessoas ao verem que a vacina é segura, ao começarem a ver que as pessoas que são vacinadas, porventura, não contraem infecção, poderá de fato ganhar um grande entusiasmo, uma grande expectativa e relaxarem nas outras medidas. Mas não o devem fazer, até de fato termos uma população vacinada que nos dê a tal imunidade cruzada, que diminua ao mínimo a possibilidade de qualquer pessoa se infectar e, sobretudo, que diminua ao mínimo o estabelecimento de cadeias de transmissão. Para que isso aconteça, é preciso que tenhamos uma 70% da população vacinada. E até lá, é preciso que se mantenham todas as outras regras.
É preciso manter as regras, até porque depois há uma questão, que agora até com a chegada da vacina, pode ter perdido um bocadinho de impacto e por isso que gostávamos de saber. O número de internados em Portugal continua a ser alto. Como é que está o seu serviço? Podemos dizer que já passou pior em termos de pressão ou a situação ainda merece preocupação?
Não, de maneira nenhuma. Nesta fase, repare, nós temos dois, três dias, hoje é o terceiro dia de vacinação, que incidiu essencialmente os profissionais de saúde, ou quase exclusivamente os profissionais de saúde, naqueles que trabalham nos hospitais. Não podemos, de maneira nenhuma, para já estabelecer qualquer tipo de relação, nem positiva, nem negativa, entre estes três dias de vacinação e o aparecimento, obviamente, de casos de doentes. No hospital, neste momento, nós mantemos níveis elevados de internamento, a pressão de procura de camas para doentes é elevada. Nós temos o serviço cheio, nós temos um elevado número de doentes internados. Não assistimos, até o momento, a nenhum abrandamento no número de doentes que requerem cuidados em meio hospitalar e, portanto, para já, ainda não há qualquer tipo de repercussão, nem se vai sentir este tipo de repercussão a curto prazo
Até porque tivemos o aligeirar de medidas na altura do natalício.
Exatamente, houve esta abertura no período natalício, mas deixe-me também dizer que eu tenho alguma confiança que as pessoas, tendo em conta a redução do número de casos diários que se estava a verificar antes do período natalício, isto é, depois da implementação do estado de emergência, que é a adesão que a população teve ao apelo que foi feito para a necessidade de cumprirmos criteriosamente as regras que estavam estabelecidas, de modo a reduzir aqueles números que eu lembro em determinados dias atingiram os valores dos 6000, 7000, quando atingimos o pico. E, de facto, com esse apelo verificou-se uma descida do número de casos. E eu entendo que esta abertura que o governo deu às pessoas para aligeirarem as medidas, de alguma forma, no período natalício, terá sido cumprida rigorosamente também por parte das pessoas. Eu penso que as pessoas terão entendido este voto de confiança que lhes foi dado para poderem aligeirar um bocadinho com o compromisso de não voltarem a comportamentos anteriores àqueles que se verificavam antes da implementação do estado de emergência. Portanto, eu penso que a repercussão, isto é uma opinião muito pessoal, deste aligeiramento no período natalício não vai ser tão grande como aquilo que as pessoas temem.
Portanto, aquela ideia de uma terceira vaga da pandemia para janeiro, parece-lhe que não há nesta altura razões para pensarmos que pode acontecer?
Isto é tudo muito subjetivo e eu não tenho nenhum argumento sólido para fundamentar esta opinião. Isto é apenas uma opinião muito subjetiva, baseada naquilo que eu tenho visto ao longo destes últimos quatro, cinco dias, ou seja, no período natalício, relativamente ao comportamento das pessoas, isto é, aquilo que nós esperávamos todos, que pudesse haver aqui um reagravamento dos números, em resultado de comportamentos menos cautelosos neste período natalício, eu, sinceramente, daquilo que eu observei, não os verifiquei. Daí eu dizer que poderá não haver um agravamento tão grande como aquele que se esperava, mas não tenho nenhuma base sólida para estar a afirmar isto e posso estar completamente errado.
A nova variante do coronavírus é um novo fator de preocupação?
Eu penso que sim. Neste momento, é aí que devo dizer que situo a minha preocupação. De facto, nós estamos perante um vírus que tem uma capacidade replicativa muito grande, um vírus RNA, com uma capacidade replicativa muito grande. Portanto, todas estas variantes que já existem, desde que o vírus apareceu, a maioria, ou na generalidade dos casos, ou como regra, não têm vantagem seletiva relativamente às outras variantes, mas aqui e ali pode surgir alguma com capacidade seletiva, como foi o que aconteceu com esta no Reino Unido. Portanto, não se sabe ainda bem, penso que esta e outras não estarão ainda completamente estudadas. Esta parece que terá um nível de transmissibilidade 70% acima daquele que era o conhecido com as variantes anteriores ou com os tipos anteriores. Portanto, levanta sempre alguma preocupação se, para além da transmissibilidade, não traz também com ela um risco acrescido de doença mais grave. Mas mais preocupante ainda, do meu ponto de vista, é se estas novas variantes não podem trazer com elas mutações suficientemente profundas que possam provocar uma diminuição na resposta à vacina e obrigar a que a vacina seja afetada, que a vacina seja modificada, como aliás se é feito com a vacina da gripe anualmente, uma vez que este tipo para o vírus da influenza também muda anualmente e é por isso que as vacinas mudam anualmente. Portanto, isto levanta alguma preocupação, mas até agora, isso ainda não foi demonstrado. Até agora, parece que essas variantes ou as que foram identificadas, só influenciam a transmissibilidade.
E essa variante, pelo que sabemos, já chegou à Madeira, ainda não há dados que digam que já está no continente. Haverá alguma forma de os serviços de saúde se anteciparem a uma eventual chegada desta variante e a um aumento do número de casos?
Eu penso que é fundamental, tendo em conta aquilo que se está a verificar com esta disseminação dessas variantes que trazem com elas, se não trazem outras coisas, pelo menos maior transmissibilidade. Repare que foi na Madeira, mas já apareceu na Bélgica, já apareceu na Dinamarca, já apareceram em vários países da Europa. Essa salvo o estirpe do sul da Inglaterra, é fundamental que se tomem medidas nas fronteiras de forma a evitar que esta variante entre no nosso país e que se possa disseminar e agravar aquilo que é hoje a epidemia da doença no nosso país. Portanto, é fundamental que nas fronteiras se tomem essas medidas. Aliás, o governo, tanto quanto sei, já só autoriza a entrada no nosso país de residentes em Portugal, de portugueses. Não sei exatamente o que se passou no Funchal. Penso que terão sido turistas ingleses que entraram no Funchal, sendo portadores dessas variantes e provavelmente esses turistas não terão sido devidamente testados relativamente a essas estirpes.
Portanto, estas medidas devem continuar e devem ser até apertadas. Professor Fernando Maltez, estamos a chegar ao fim do ano com esta boa notícia de que começámos a falar da vacina, mas também com os riscos que agora enumerou para o próximo ano. Fazendo uma espécie de balanço, qual foi o período mais difícil que atravessou e no serviço que dirige no Hospital Curry Cabral?
O período mais difícil talvez tenha sido há dois, três meses, porque de facto os números não baixavam, os números aumentaram. Há mais ou menos um mês atingimos o pico e sobretudo não tínhamos à disposição nenhuma arma, nenhuma ferramenta que pudesse inverter ou que prometesse inverter esta situação grave. E o pior de tudo é, de facto, a incerteza. Portanto, vivermos na incerteza daquilo que vai acontecer, sem saber para onde é que esta pandemia ia caminhar, sem saber se de facto alguma vez chegaríamos a ter uma vacina. A vacina começou de imediato a desenvolver-se no mês de março. E eu devo dizer que no princípio fui muito cético relativamente à possibilidade de irmos a ter uma vacina, na medida em que até à data não tinha sido desenvolvida nenhuma vacina para nenhum dos coronavírus conhecidos. O homem já foi infetado. Até à data, este será o sétimo coronavírus que infeta o homem e até à data nunca nenhuma vacina tinha sido desenvolvida para um coronavírus, pelo que eu achava extremamente difícil e pouco provável que se viesse a desenvolver. Mas de facto a ciência é isto mesmo, a ciência é surpreendente. A investigação científica surpreende-nos todos os dias. Como não me canso de dizer, isto vai ficar para a história da medicina. E portanto, antes de termos a certeza que íamos ter uma vacina, de facto, essa terá sido para todos os profissionais de saúde, provavelmente, a fase mais difícil, pela incerteza, por não saber para onde é que estávamos a caminhar. E porque o vírus não mostrava sinais de querer abrandar, de querer facilitar a vida para as pessoas. E, portanto, esse terá sido provavelmente o período mais difícil.
Muito bem, Fernando Maltez, diretor do Serviço de Infeciologia do Hospital Curry Cabral. Muito bom dia e muito obrigado por estes esclarecimentos.
Obrigado, Leo. Bom dia.
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