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Ilvo Mascarenhas na Rádio Observador. À Judite França juntam-se hoje o Anselmo Crespo e a Helena Garrido. A Helena é jornalista e o Anselmo também. O Anselmo é diretor de novos conteúdos da TV CNN Portugal. E temos muitos temas para discutir nesta edição. Vamos tentar apertá-los para caberem todos, pelo menos até às 18h50. Bem-vindos, Helena, Judite. Anselmo, bem-vindo. Uma das notícias que estão a marcar esta tarde é a da operação da Polícia Judiciária, Check-In. Eu não sei se a Judiciária se inspirou no podcast da Rádio Observador chamado "Check-In", que na primeira série analisou a situação da TAP. E na segunda se dedicou ao Novo Banco, não sei se foi por acaso ou não. Agora, Helena Garrido, depois de uma comissão parlamentar de inquérito, depois de um inquérito da Inspeção-Geral das Finanças, temos o Ministério Público em campo, neste caso da indenização paga a Alexandra Reis. Isto já vem um pouquinho fora de tempo, ou não, Helena?

Eu diria que sim. E obviamente que é certamente uma coincidência, mas estas buscas já acontecem dois anos e oito meses depois do Ministério Público ter anunciado que tinha aberto o inquérito. Foi em janeiro de 2023 que tivemos essa notícia.

A notícia foi no Natal, não é?

Exatamente, na véspera de Natal. Dia 24 de dezembro de 2022. Portanto, passaram dois anos.

Foi naquela semana em que os jornalistas dizem que não acontece nada. Foi mais ou menos nessa altura.

O que foi bom para os jornalistas, não foi assim tão bom para o governo, em agitação total. Portanto, o que nós tivemos nestes dois anos e oito meses é a extraordinária quantidade de acontecimentos. Demitiu-se logo a secretária de Estado, que era a Alexandra, que tinha sido administradora da TAP, que recebeu a indenização. Fernando Medina convidou-a a sair e obviamente que ela saiu. Logo a seguir, ainda antes do fim do ano, demite-se o secretário de Estado Augusto Mendes, demite-se o ministro das Infraestruturas. Temos a Inspeção-Geral de Finanças, o relatório da Inspeção-Geral de Finanças. Temos uma comissão parlamentar de inquérito. Temos o anúncio da privatização da TAP, ainda com o governo de António Costa, que depois não foi para frente. Temos o governo de António Costa a demitir-se. Ou seja, temos três governos, e no terceiro governo é que o Ministério Público dá sinal de vida e nos mostra que está a avançar com este inquérito, com buscas e com vários tipos de suspeita.

E é legítimo pensarmos se estas buscas ainda vão a tempo de alguma coisa.

Por causa das prescrições?

Por causa do tempo que passou.

É o ruído do vento que pode ter levado alguma coisa. E a maior perplexidade é vermos-

Se eu tivesse um papel desse, já o tinha deitado fora

Já tinha desaparecido ...é vermos que estão à procura de e-mails quando nós sabemos que a autorização, por exemplo, do pagamento da indenização foi dada por WhatsApp. Não percebemos que e-mails é que estão à procura, que documentação é que ainda estão à procura. Seja como for, nós estamos perante vários tipos de suspeita, como a administração danosa, recebimento ou oferta indevido de vantagem, participação econômica em negócios, abuso de poder. Eu diria que isto parece estar muito focado em Pedro Nuno Santos e no seu secretário de Estado. Não percebemos muito bem por que também não está na CEO, embora a empresa era pública, foi a presidente executiva, na altura, Christine, que assinou essas autorizações. Portanto, há ainda muita coisa para esclarecer, mas aqui a questão essencial é: o Ministério Público não pode levar tanto tempo a fazer este tipo de investigações. É verdade que ele tem de ser cego em relação aos acontecimentos, mas também não pode ficar completamente fora da realidade. E avançar para um processo destes assim não me parece uma boa ideia e não me parece, sobretudo, que não seja possível ser mais rápido, porque se nós, por este andar, a TAP estará privatizada e não temos conclusões.

Anselmo Crespo, achas que o Pedro Nuno Santos já ativou as mensagens temporárias no WhatsApp?

À primeira toda gente cai, à segunda só quem quer. Eu, para complementar isto que a Helena estava a dizer, diria o seguinte: por um lado, pelo menos desta vez, estas buscas não acontecem em véspera de eleições.

Vá lá.

É porque nós vimos de um ciclo infamoso. Diz?

Aconteceram no dia seguinte. É uma coincidência, deve ser.

Seguramente.

Helena, tens que falar um bocadinho mais para o microfone.

No dia seguinte à publicação do caderno de encargos da TAP.

Certo. Pronto, é uma coincidência, como muitas neste país, mas nós vimos de um ciclo infernal de investigações, buscas e operações especiais da Justiça em vésperas de períodos eleitorais. Aconteceu na Madeira, aconteceu cá. Durante a campanha eleitoral, o Ministério Público já estava a investigar a Spin 活 , depois também começou a investigar as casas que Pedro Nuno Santos andou a comprar Pelo menos é a única coisa positiva que eu vejo neste timing e leva-me também a pensar que para o Ministério Público, ao fim deste tempo todo, estar agora a fazer buscas, é porque efetivamente encontrou.

Depois de uma longa reflexão.

Depois de uma longa reflexão, encontrou ali matéria para poder aprofundar esta investigação, caso contrário, já teria arquivado e já ninguém se lembrava disto. Isto é a propósito do que a Helena dizia do tempo que a Justiça demora. Agora imaginem que em vez de Luís Montenegro, o país tinha eleito Pedro Nuno Santos pra primeiro-ministro.

Exatamente.

Imaginem.

Muito bem visto.

Pedro Nuno Santos foi candidato duas vezes. Depois deste episódio, depois da Justiça começar a investigar, Pedro Nuno Santos foi duas vezes a eleições candidatando-se ao cargo de primeiro-ministro. Por acaso, os eleitores não o escolheram, mas podiam ter escolhido. Quando nós andamos aqui a falar da politização da Justiça e da judicialização da política, eu imagino que não acreditem em bruxas, mas que elas ai, ai. Agora, muitas vezes eu acho que não tem sequer a ver com um direcionamento da Justiça em relação ao político A, B ou C, ou em relação ao partido A, B ou C, é só mesmo inoperância, ineficácia, incapacidade. Se calhar não tem meios, se calhar não consegue. Quando era o tema dos bancos era porque era muito complexo, as offshores, demorava muito tempo. Isto é aqui uma empresa, em Lisboa, é aqui, é um contrato.

Com boa parte da documentação recolhida.

Já houve uma comissão de inquérito. A visada é portuguesa, não é estrangeira sequer, quer dizer, toda a gente cá está. Por que este tempo todo? Alguma coisa nos está a escapar.

Era exatamente isso. Eu não percebo por que se demora tanto tempo a fazer uma investigação deste tipo e sinceramente cai completamente em descrédito, porque já ninguém se lembrava do caso, a não ser que já tinha sido visto por diversos ângulos, nomeadamente numa comissão de inquérito. E por que agora o Ministério Público decidiu? Foi alguma coisa que de repente, foi uma denúncia? Enfim, não sabemos, mas que me parece a destempo, isso parece.

Vamos a notas, Helena, queres dar uma nota a este caso?

Eu vou até dar a nota ao Ministério Público, nomeadamente ao procurador-geral da República, Amadeu Guerra. Vou dar um nove, na expectativa que levem-

Vou deixar a minha nota para o meu tema.

Anselmo, tens nota pra isto?

Eu dou um seis ao Ministério Público, porque de facto é incompreensível e se há razões atendíveis, eu acho que o Ministério Público devia explicar ao país quais são.

E já vamos falar dos mares agitados que se fazem sentir no Bloco de Esquerda com a líder Mariana Mortágua embarcada a caminho de Gaza. Antes, Anselmo, queres ir ao governo-sombra do Chega? Tu achas que daqui a uma semana ainda se fala disto ou não?

Eu acho que André Ventura ficaria muito satisfeito que nós parássemos de falar disto.

Porém...

Porém, eu não lhe vou fazer a vontade, porque ele esteve tanto tempo a alimentar-nos esta expectativa do governo-sombra, que agora seria injusto que nós não analisássemos este governo-sombra.

E não víssemos os ministros.

E não víssemos os ministros em todas as suas dimensões. Porque foi o que nós fizemos com todos os outros líderes partidários que se atreveram a apresentar governo-sombra. Não houve muitos, é verdade, já não acontecia há algum tempo em Portugal, é verdade, mas eu lembro-me, por exemplo, de António Costa, quando chegou a secretário-geral do PS, não criou bem um governo-sombra, mas era uma coisa parecida, era aquela comissão de economistas, dos quais saíram, aliás, Mário Centeno, vários secretários de Estado, João Galamba, secretários de Estado e ministros. Nós temos que levar isto mais ou menos a sério, porque podemos estar a olhar pro próximo elenco governativo, seja lá isso quando for. E eu trago isso aqui por dois motivos. Primeiro, porque objetivamente André Ventura teve que despachar este governo-sombra rapidamente ali numa sexta-feira à noite no "now", numa entrevista. Disse dois ou três nomes, num deles até se enganou e despachou aquilo só pra ver se paravam de o chatear quando é que ele apresentava o governo-sombra, sendo que foi ele que colocou uma data pra apresentar, ninguém lhe exigiu nenhuma data. Não disse os nomes todos, se calhar porque não os tem todos, apesar de ele ter dito que tinha entregue ao partido, mas num partido que é tão aberto e tão transparente, continuamos todos aqui pacientemente à espera que André Ventura e o Chega apresentem o resto dos ministros. Depois há uma terceira coisa que é: nós temos um governo-sombra, mas não temos o primeiro-ministro sombra, porque nós neste momento temos um presidente da República, não um candidato a presidente da República. Não temos um candidato a primeiro-ministro. Neste momento, fazemos aqui um intervalo. Senhores telespectadores, já voltamos. Neste caso aqui é senhores ouvintes. Senhores ouvintes, nós já voltamos. Daqui a uns meses voltamos a ter um candidato a primeiro-ministro. E depois a coisa mais extraordinária, independentemente da avaliação de cada um destes membros, há alguns nomes que me parecem até bastante respeitáveis e pessoas com carreiras e pessoas com pensamento próprio. Tanto quanto percebemos até agora, não necessariamente o mesmo pensamento de quem as escolheu, de André Ventura, mas a coisa extraordinária é André Ventura ter lançado estes nomes cá pra fora, pura e simplesmente sem cuidar minimamente de saber o que estas pessoas defendem. Nem o padrinho de casamento, Rui Gomes da Silva

Hoje de manhã alguém assinalava a coincidência de André Ventura ter andado a criticar as relações familiares nos governos de António Costa e de agora ter ido buscar o padrinho de casamento. Eu como nunca tive nenhum problema com as relações familiares, também não tenho com o padrinho. Mas nem Rui Gomes da Silva concorda com aquilo que é o programa de André Ventura e do Chega. Se isto não é atirar areia para os olhos dos eleitores, eu não sei o que é, mas como eu acho que André Ventura está num estatuto político de inimputável, em que ele pode fazer rigorosamente tudo, que os eleitores perdoam-lhe tudo, eu acho que ele vai passar entre os pingos da chuva, neste caso, entre os pingos da sombra.

Helena, nós enquanto jornalistas não deveríamos largar o governo sombra de André Ventura?

Não deveríamos, porque se levarmos a sério, André Ventura faz isto um pouco como PS e PSD quando estavam muito tempo fora do governo, nós tínhamos tendência de dizer: "Não têm quadros." Depois da era Cavaco, 10 anos, dizíamos: "O PS não tem quadros." E o António Guterres fez os Estados Gerais. Quando foi com António Costa, António Costa fez a equipa.

E Durão Barroso fez um elenco de governo sombra. Lembro-me que os deputados eram supostos ministros e cada um tinha a sua área. Estava muito bem dividido até, na altura.

E tudo isto fazem para se credibilizar, para mostrar que são uma alternativa. Em princípio, seria este o objetivo racional de André Ventura.

Porque um governo sombra deve apresentar propostas. Cada deputado, no fundo, é um porta-voz daquela área.

Se levarem isto a sério no modelo inglês, cada um destes ministros deve ser o porta-voz para essa área e nós jornalistas vamos ter muito que fazer para entrevistar aqueles ministros sombra a todos. Qual é o risco que corre André Ventura e daí a hipótese que o Anselmo Crespo estava a colocar disto tudo? Ele gostaria muito que isto caísse no esquecimento. O risco é que André Ventura tem aqui um conflito. Ele precisa de se credibilizar para mostrar que é alternativa, mas se se credibilizar e institucionalizar demasiado, pode alienar aqueles que são os seus eleitores, os revoltados, o nós contra eles.

Os descontentes.

Os descontentes. E desse ponto de vista, obviamente que ele pode cair muito na tentação e o seu maior desejo é que nós nos esqueçamos do governo sombra.

Judite.

Eu acho incrível termos personagens como Rui Gomes da Silva, que não acredita em três pontos absolutamente essenciais da matriz do Chega: a pena de morte, a prisão perpétua e a castração química. Logo aqueles três pontos que o Chega utiliza como bandeiras até ad nauseam, Rui Gomes da Silva diz que por motivos civilizacionais não acredita em nenhuma delas. Depois também temos Rui Teixeira Santos nas finanças, que tem um passado de dívida ao fisco e de dívida ao fisco de IVA, ainda por cima, que é uma coisa particularmente complicada. O fisco não gosta nada.

É uma coisa que chateia o fisco.

Chateia, porque o IVA não é da pessoa, o IVA é uma passagem. A pessoa é só um intermediário do IVA. Chama-lhe coisas chatas.

Será que André Ventura, quando trabalhava na Autoridade Tributária, investigou Rui Teixeira? Porque ele trabalhou lá.

É verdade. Este ministro não sei se é uma grande escolha, mas pelo menos tem aqui um passado um pouco complicado. Dito isto, eu acho que André Ventura também não quer um grande escrutínio ao seu governo, exatamente por aquilo que se pode descobrir entretanto.

Vamos só ouvir a nota do Anselmo para este governo sombra.

Eu vou dar um 10, porque eu dou o benefício da dúvida. Eu gostava primeiro de conhecer o resto do governo sombra. E depois gostava mesmo de ouvir estes putativos ministros que André Ventura apresentou. Eu para já dou um 10 até saber mais.

Fica um 10. Helena, tens alguma nota para o governo?

Um 10 também, na expectativa.

Um 10 também para o governo sombra. E já voltamos para a segunda parte do "E o Vencedor é", aqui na Rádio Observador. Ainda vamos falar sobre a ausência de Mariana Mortágua e o desconforto que está a causar no Bloco de Esquerda. Judite, agora queres falar das aventuras e desventuras de um partido liderado por uma embarcadiça?

Eu estava à espera de uma figura náutica da tua parte, mas não estava à espera de embarcadiça, confesso.

Embarcadiça, por acaso é um-

É uma bela expressão. Sim, a embarcadiça é muito em desuso

Temos que recuperar as nossas palavras bonitas.

Também acho. Acho que a embarcadiça finalmente tomou uma decisão certa que foi ser substituída.

No Parlamento?

Sim, substituída no Parlamento. Estamos a falar de Mariana Mortágua, que talvez não tivesse a noção, não tinha de certeza a noção que ia demorar tanto tempo a fazer o percurso até Gaza, mas tendo em conta que já atracou mais do que uma vez, acho que podia ter tomado a decisão de regressar a Portugal e de regressar ao Parlamento. Não o quis fazer, quer levar a empreitada até ao fim. Também é justo dizer-se que para quem se meteu nisto, provavelmente é importante chegar ao último dia em que terá um confronto mais ou menos amigável com as Forças Armadas realistas que não a vão deixar entrar, como é evidente. Já sabemos o que é que vai acontecer. Mas quer marcar essa posição. Entretanto, enquanto isso acontece, há uma cadeira vazia no Parlamento Sabemos que vai ser substituída agora por Andreia Galvão. Sabemos que vai ser substituída durante as eleições por Marisa Matias, porque entretanto há eleições autárquicas. Sabemos que o Bloco de Esquerda não liga muito a estas eleições, mas a verdade é que há três semanas que não há qualquer tipo de vislumbre de combate político por parte do Bloco de Esquerda e eu acho que isso é mau para um partido. Mariana Mortágua, não sei se não tinha noção de que era deputada única, esqueceu-se, porque deixou ao desderá o partido no Parlamento e não só, e fora dele também.

Até porque a viagem nem está a ter o acompanhamento, ou pelo menos a mobilização mediática que se calhar Mariana Mortágua antecipava.

Provavelmente não, mas se há tema que já tem mediatização suficiente é Gaza. Portanto, não é a flotilha que vai fazer a diferença. Isso parece mais ou menos óbvio. Não acho que tenha o efeito que era tão desejado, porque o tema já está no top dos temas mundiais. Não é a flotilha que faz aqui a diferença. Eu acho que se Mariana Mortágua acha que não é importante estar no Parlamento, então eu não sei onde é que o Bloco de Esquerda acha que pode continuar a sobreviver, porque é ali naquela deputada que está ancorado, já agora, a possibilidade do Bloco de Esquerda continuar a sobreviver. Não sabemos sequer se Mariana Mortágua consegue chegar a tempo das eleições autárquicas, da campanha que começa agora, não chega de certeza. Mas temos a cara de um partido, e deputada única, ausente do combate político, acho que foi tudo muito mal calculado.

Helena Garrido, o Bloco de Esquerda conseguirá retirar alguma coisa desta odisseia, já que estamos a falar de clássicos e do mar, desta odisseia de Mariana Mortágua?

Estás muito forte hoje.

Eu e as metáforas náuticas. É o facto de ter carta de marinheiro.

Exato.

Eu não tenho a certeza, porque embora a causa palestiniana seja uma causa que é muito do Bloco de Esquerda, que o Bloco de Esquerda abraçou.

Parece a única agora disponível.

Exatamente. E que mobiliza algum do seu eleitorado mais urbano e intelectual. Eu diria que foi um erro de avaliação de Mariana Mortágua, como disse a Judite, provavelmente não teve consciência do que é ser a deputada única e dos riscos que corria. E penso que mesmo a própria viagem em si não está a correr bem, porque deixa espaço para quem os quer atacar, nomeadamente dizer que agora vão ficar na Grécia. A própria Greta que abandonou o barco onde estava a Mariana. Portanto, além de ter sido uma decisão pouco sensata para uma deputada única, num país com tantos problemas como aqueles que nós vemos na saúde, depois também já não conseguiu acompanhar os incêndios devidamente, não consegue acompanhar as autárquicas, independentemente do Bloco não ter uma presença muito ativa nas autárquicas, não esteve no início da sessão legislativa. Tudo isso penso que tem que ter custos para o Bloco de Esquerda e penso que para o próprio eleitorado, que não estará a gostar do que se está a passar, mas nós verdadeiramente também não sabemos, mas foi um erro da parte de Mariana Mortágua, sim.

Mário Crespo, estas águas agitadas vão-se sentindo já no próprio Bloco de Esquerda, mas será o suficiente ou o Bloco tem demonstrado que a substituição de um líder ou a contestação interna não têm força suficiente para agitar as direções e para agitar o partido?

O Bloco, nesse sentido, tem se aproximado muito daquilo que é o PCP. Não é igual, mas se tem aproximado? Tem. A verdade é que tudo que era vozes críticas e vozes que contestam a direção, e não tem nada a ver com o tema da flotilha, foram sempre derrotadas, por um lado, internamente, o que não tem mal nenhum, a democracia é mesmo assim, ganha-se e perde-se. A parte estranha é que depois de derrotadas, afastam-se. E muitos deles saem do partido. E alguns nomes relevantes dentro do partido. Estou a pensar, por exemplo, em Pedro Filipe Soares, mas ainda há pouco tempo, há um mês, coisa que o vale, 13 ou 14 membros do Bloco, salvo erro, de Santarém, mandaram uma carta à direção a afastar-se. Eu não sei se quem nos está a ouvir já alguma vez tinha assistido ao suicídio político de um partido político em tempo real, mas eu nunca tinha assistido e estou a assistir. E não tem só a ver com o tema da flotilha, isto vem de trás, vem desde a altura da polêmica da amamentação e das mães que foram dispensadas do partido. Não por causa disso, mas pela forma como o partido geriu esse dossiê, pela forma como reage a primeira vez a isso e depois tem que vir pedir desculpa, mas eram umas meias desculpas. E daí pra frente foi sempre a descer. O tiro no pé monumental de candidatar Francisco Louçã, Luís Fazenda nas últimas legislativas. E este tema da flotilha é de facto um erro de avaliação, como dizia a Helena

Mas aqui chegados, eu percebo que Mariana Mortágua não volte para trás. Já que foi, o erro não está em ela não vir agora, o erro está em ter ido.

Em ter ido.

E não porque a causa não seja meritória. Se calhar há pessoas que acham que a causa não é meritória, mas enfim, o que se está a passar em Gaza é um crime, não tem outro nome, é um horror, devia nos envergonhar a todos. Como é evidente. Agora, há uma diferença grande entre esta flotilha, por exemplo, e o Lusitania Expresso quando foi em tendência a Timor. Há várias diferenças.

Já agora, para os nossos ouvintes mais novos, se quiserem situar, foi o barco que tentou chegar a Timor.

Um barco que tentou também furar o bloqueio indonésio durante a ocupação indonésia de Timor. Estavam lá jornalistas, estavam lá ativistas da causa timorense, mas do ponto de vista político, e é essa a comparação que eu quero estabelecer, o país estava todo a debater Timor. Todo o país.

E o resto do mundo não.

E o resto do mundo não.

Exato.

E, portanto

E esse barco servia para isso.

Portugal já estava convencido da causa, era alertar o mundo. O que Mariana Mortágua faz, fá-lo numa altura em que vêm autárquicas. É que o início dos trabalhos parlamentares é importante, mas do ponto de vista da líder de um partido, à beira das autárquicas, com uma candidata presidencial acabadinha de anunciar, e a líder do partido vai numa flotilha para Gaza, com o argumento, que eu acho muito discutível, de isto é tão mais importante se cá estiverem deputados e eurodeputados, porque isso, do ponto de vista até da proteção da própria flotilha, é importante eu cá estar, que eu acho que é um argumento bastante discutível, no mínimo.

Para isso tinha a Catarina Martins.

Pois, claro, ou outra pessoa qualquer. Portanto, eu acho que o erro de avaliação não está em não ter voltado agora, o erro de avaliação está em ter ido. E eu acho que nenhum eleitor português, por muito que simpatize com a causa palestiniana, conseguirá compreender que a única deputada do Bloco de Esquerda não esteja no Parlamento e não esteja neste momento a fazer campanha para as autárquicas.

Eu quando estava a dizer em regressar, estava a dizer porque eu acho que ela não calculou que demorasse tanto tempo.

Não, isso evidentemente.

Devia ter consultado as cartas melhores.

Maritimo, acho que o mar é mau.

Vamos só à tua nota para ainda irmos às urgências.

Por ter escolhido uma número três na lista, que não é de fação Mariana Mortágua, dou-lhe um 10.

Helena, ainda temos aqui dois, três minutinhos para falar sobre as urgências na região de Lisboa.

As urgências, sobretudo na Península de Setúbal. Eu gostava de dar destaque ao explicador de hoje de manhã aqui no Observador

Está disponível em podcast.

Que recomendo vivamente que oiçam, porque aprendemos muito com o presidente da Comissão Nacional da Saúde da Mulher, que é Alberto Caldas Afonso, e que é também diretor do Centro Materno-Infantil do Norte, em que percebemos muito bem o problema. Ele diz-nos várias coisas. Primeiro, diz-nos que obviamente temos de concentrar os serviços de obstetrícia, porque não há médicos, portanto, contra factos não há argumentos, que a melhor solução na Península de Setúbal é Almada e Barreiro, e que esta concentração já se fez no Norte. Já existem urgências partilhadas que conseguiram fazer isso no Norte sem que os médicos pedissem que lhes fosse pago qualquer adicional, ou seja, há médicos a deslocarem-se em urgências partilhadas que não recebem mais por isso e que eventualmente agora, com o diploma que o governo vai fazer, vão receber mais. E lembra uma coisa que parece-me esquecido, pelo menos entre alguns médicos, e que as palavras são um bocadinho minhas, citando livremente, é que isto é uma profissão que está ao serviço da comunidade e que se deve preocupar com o bem-estar dos cidadãos. Eu recomendo vivamente, primeiro já porque eu fui completamente apanhada de surpresa. Sabia que o Norte funcionava muito melhor. Nós sabíamos isto desde o primeiro CEO do SNS.

Exatamente.

Agora falha-me o nome.

Araújo.

Fernando Araújo. Tínhamos uma grande expectativa porque ele tinha reorganizado bem o Norte. Não se percebe por que aqui parece existir muitas quintas, parece ser muito difícil. Como nós sabemos, está a tentar-se fechar a Maternidade Alfredo da Costa desde que o Correia de Campos era ministro, não se consegue fazer nada. E eu penso que alguns médicos têm de tomar consciência que se querem ser médicos, é para servir os cidadãos.

Helena, vamos à tua nota?

A minha nota é um 18 para o Alberto Caldas Afonso e um 8 para estes médicos que não sabem ser médicos.

Obrigado, Helena Garrido, obrigado, Anselmo Crespo, Judite França. Foi a edição vespertina do "E o Vencedor É..." que regressa amanhã, depois das 08h30 da manhã, nas manhãs "360" da Rádio Observador. Já a seguir, vamos ao "Ideias Feitas".