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E o vencedor é... Começa agora o programa da Rádio Observador de análise aos frente a frente das eleições presidenciais. Vai ser assim em todas as manhãs a seguir aos debates. Hoje vamos manter o foco no debate da RTP entre Marcelo Rebelo de Sousa e Marisa Matias e também no debate da TVI entre João Ferreira e André Ventura. Nos próximos minutos vamos ter em antena o publisher do Observador, José Manuel Fernandes, o diretor-executivo Miguel Pinheiro, o editor de política Rui Pedro Antunes e o editor-adjunto de política Miguel Santos Carrapatoso. Bom dia a todos. E na condução deste debate vai estar o jornalista Diogo Teixeira Pereira.

E a partir de agora vamos tentar perceber quem ganhou cada um dos debates de ontem. Vamos fazer não só uma avaliação qualitativa, como também uma avaliação quantitativa. Para além da análise, vamos pedir aos elementos do nosso painel que deem uma nota à prestação de cada um dos candidatos presidenciais. No fim, somamos tudo e vemos quem é que ganhou. Como nos jogos de tabuleiro, as regras percebem-se melhor à medida que vamos avançando no jogo, por isso não percamos mais tempo. Marisa Matias ou Marcelo Rebelo de Sousa, José Manuel Fernandes, o vencedor é?

Marcelo Rebelo de Sousa.

Muito bem. Por quê?

É Marcelo Rebelo de Sousa, basicamente porque Marisa Matias quase que abdicou de dirigir o jogo e o jogo travou-se no terreno de Marisa Matias. Foi um debate quase todo travado para convencer o eleitorado mais à esquerda, o eleitorado de direita que tivesse a ouvir aquele debate sentir-se-ia um pouco órfão, porque Marcelo Rebelo de Sousa pura e simplesmente abdicou de defender posições mais liberais, mais abertas. Deixou-se ficar no terreno quase do Bloco de Esquerda, mas aí foi cativante, fez charme e Marisa Matias cedeu a esse charme. Deixou-se enredar no jogo de Marcelo Rebelo de Sousa.

José Manuel Fernandes, de zero a 20, quanto é que merece Marisa Matias e quanto é que merece Marcelo Rebelo de Sousa?

Eu acho que Marisa Matias não vai além de um 12 e Marcelo Rebelo de Sousa eu dou-lhe um 15.

Muito bem, ficam com notas positivas. Vamos tentar perceber se a avaliação do Miguel Pinheiro vai no mesmo sentido. Miguel, o vencedor é?

Sim, o vencedor é Marcelo Rebelo de Sousa e eu não sou tão generoso quanto o José Manuel Fernandes com Marisa Matias. Aqui o grande objetivo de Marcelo é consolidar uma coisa que as sondagens têm mostrado, é que o eleitorado do Bloco de Esquerda é um dos eleitorados onde Marcelo Rebelo de Sousa consegue ir buscar votos muito substanciais. Não é só à esquerda, não é só no PS, onde já se esperaria, mas é também no Bloco de Esquerda. E o que ele esteve a fazer ali foi seduzir o eleitorado do Bloco de Esquerda, dizer que tem pena que o Bloco não tenha aprovado o orçamento. Nós sabemos que uma parte substancial do eleitorado do Bloco ficou desgostoso com esta opção da direção do partido. Escapou bem à armadilha do Serviço Nacional de Saúde e elogiou Marisa Matias. Eu também concordo que ele talvez tenha exagerado um bocadinho na coagem para a direita. Os eleitores de direita que estivessem a ouvir aquilo a dada altura estariam à espera que eles trocassem cartões de militante, mas apesar de tudo, Marcelo Rebelo de Sousa teve ali uma fase, quando falou da ministra da Justiça, em que estava a falar para a direita. Mais uma vez, foi o terceiro ministro deste governo, em poucas semanas, que Marcelo Rebelo de Sousa estraçalhou em direto e ao vivo. A ministra da Justiça sai dali a precisar de fazer contas à vida dela e portanto, nessa parte, Marcelo Rebelo de Sousa acho que conseguiu falar para o eleitorado que não gosta deste governo. E depois teve ainda um ponto que foi importante, que foi a primeira vez que fez uma autocrítica em relação àquilo que fez no caso do ucraniano morto nas instalações do SEF, admitindo a decisão de não falar com a viúva do ucraniano morto. A frase foi: "Admito que seja criticável". Portanto, pela primeira vez, Marcelo Rebelo de Sousa faz o óbvio e admite que talvez não tenha feito tudo bem.

Vamos às notas, Miguel Pinheiro, zero a 20.

Marcelo Rebelo de Sousa 16, Marisa Matias, sem nenhuma generosidade, eu estou assim, dou-lhe um cinco, acho que aquilo foi uma desgraça, foi completamente monotemática na questão do Serviço Nacional de Saúde e ainda acabou a dizer que não tem dúvidas de que Marcelo Rebelo de Sousa tem preocupações sociais genuínas, etc. Acho que Marisa Matias não ganhou um único voto e perdeu muitos.

Um professor mais exigente agora, o Miguel Pinheiro. Vamos ouvir a opinião do Rui Pedro Antunes. Marcelo Rebelo de Sousa, Marisa Matias, quem é o vencedor na tua opinião, Rui Pedro?

Eu agora não queria aqui parecer aquela pessoas que vai repetir exatamente o que já disseram os outros alunos aos outros professores, mas na verdade foi Marcelo Rebelo de Sousa também. Não acho que tenha sido tão esmagadora, como o Miguel disse, a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa neste debate, porque não pareceram os dois membros do mesmo grupo. Pareceu-me que foi uma conversa entre um avô de direita moderada com uma espécie de neta comunista já num processo de perestroika. Eu acho que o avô Marcelo não deu propriamente um caramelo à neta, mas deu-lhe elogios e foi em defesa de Marisa Matias. Eu lembro-me de dizer a certa altura ao Carlos Daniel Ela tem que concluir o pensamento, quase em defesa de Marisa Matias. Não descartou votar nela e portanto meteu no bolso, mas por outro lado também irritou o tal eleitorado de direita e centro-direita. Houve um certo tom quase paternalista e de condescendência de Marcelo Rebelo de Sousa, mas que não pareceu mal, ou seja, como produto televisivo, de facto não pareceu mal e por isso é que Marcelo Rebelo de Sousa teve mais sucesso neste debate. Além disso, tentou dar a si próprio aquela pose de Estado, a tal de avô, que a neta não tem, no sentido de dizer, por exemplo, quando Marisa Matias tentou encurralá-lo na questão do SNS, ele lembrou: "O SNS é possível porque há uma Constituição e eu votei a Constituição", e até diz assim: "Já estou tão velho quanto isto". No fundo, é puxar os galões. O Paulo Portas naquele célebre momento víciooso no programa do Herman, diz que Marcelo era o anjo e o diabo. Eu acho que aqui Marcelo personificou isso bem. Por um lado, foi um anjo na forma como abordou Marisa Matias, por outro, tem sempre aquele lado de diabo e também personifica aqui aquela frase que o diabo não sabe muito por ser diabo, sabe muito porque é velho. Na questão dos temas desconfortáveis, quando Marisa o tentou puxar para a eutanásia, para a interrupção voluntária da gravidez, Marcelo Rebelo de Sousa soube driblar bem a questão e por isso é que eu também acho que o debate foi mais sucesso para ele. Acho que a certa altura é mais eficaz falar para o tal eleitorado geringonça, o PS pelo menos, quando diz que era o governo até 2023, etc, mas também dá aquele toque aos eleitores PSD/CDS para dizer: "Bem, meus amigos, eu sei que podem não gostar muito de mim, mas é o que têm". E portanto, quando o Carlos Daniel pergunta dos chás de frutos, não têm grande alternativa. Entre os possíveis, eu sou o melhor, portanto têm que me escolher. Isso, de facto, não é grande programa, não é grande convite, mas mesmo assim Marcelo conseguiu ter mais sucesso que Marisa Matias. Eu acho que Marisa em tempos teve um programa que se chamava Simplesmente Marisa. Eu acho que o que nós tivemos aqui foi simplesmente Marcelo e simplesmente Marisa. Não houve nada surpreendente, nem de um, nem de outro.

Rui Pedro Antunes, de zero a 20.

De zero a 20, daria a Marisa Matias 11 e a Marcelo Rebelo de Sousa 14.

Muito bem, vamos ouvir agora a opinião do Miguel Santos Carrapatoso. Miguel, quem é que é o vencedor deste debate?

Eu estou na posição ingrata de ser o último a falar, mas não vou discordar muito. Terei de dizer Marcelo, muito por causa da falta de comparência de Marisa Matias. Os dois candidatos foram para o debate com objetivos muito claros. Marcelo o de não hostilizar parte do eleitorado de esquerda, Marisa demonstrar que é a cara moderada do bloco. Ora, mas há uma diferença gigante entre ter uma estratégia para um debate e não debater de todo. Marisa Matias terminou frente a frente em que foi incapaz de apontar com alguma coerência uma única falha ao presidente da República e a dizer que Marcelo Rebelo de Sousa ia ganhar, o que nos deixa a pergunta genuína: então para que se candidata? Se Marcelo vai ganhar e se é um vencedor antecipado, o que está ali a fazer Marisa? E mesmo quando tocou no caso que mais embaraça Marcelo, o SEF, parece que largou de imediato, não fosse o acaso do senhor presidente da República. A democracia também se faz e também é feita de rituais. E se é verdade que Marcelo é o vencedor antecipado destas eleições, espera-se dos seus adversários políticos que contrariem pelo menos esta perceção. Marisa não o fez e foi, como sempre, muito simpática, mas as eleições presidenciais não são um concurso de Miss Simpatia. Marcelo, por sua vez, foi conseguindo adormecer até os que, como eu, aliás, já levavam uns cinco ou seis cafés em cima. Em determinados momentos do alegado debate, até chegou a ser, de certa forma, condescendente com Marisa Matias e foi tão à esquerda que parecia mais do bloco que a própria Marisa Matias. Só saiu do guião, e aí o Miguel Pinheiro dizia e bem, quando fritou a ministra da Justiça, mais uma ministra em poucas semanas, e quando assumiu pela primeira vez que a decisão de não falar com a viúva do cidadão ucraniano que morreu às mãos dos agentes do SEF podia ser no limite criticável. Foi uma prestação morna a de Marcelo, mas bastou para ultrapassar sem dificuldades a conversa com Marisa Matias.

Vamos às notas, Miguel Santos Carrapatoso.

Eu vou ser menos generoso e vou dar um 10 à Marisa e um 14 a Marcelo.

Estão atribuídas as notas, mas deixem-me só perguntar-vos relativamente a estes temas desconfortáveis, a Marisa Matias não merece, pelo menos, essa nota positiva de ter trazido uma série de temas que são desconfortáveis para o Presidente da República? Falou dos jovens, do trabalho, do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. No fundo, foi ela até que disse que recusaria, em princípio, votar em Marcelo, quando Marcelo até deu a entender que poderia votar Marisa Matias. Ela não merece, pelo menos essa nota?

Merece sim, senhor. Uma palmadinha nas costas para Marisa Matias.

Não teve-se mais fiel.

Eu acho que, sinceramente, esses temas não chegaram a ser temas, porque Marcelo nem foi muito bem a eles. E em relação ao tema da eutanásia, teve a sorte, se quisermos, da Assembleia não lhe ter depositado a lei em cima da mesa ainda, portanto ele não se teve que pronunciar sobre ela e sobre a questão que pode levantar mais questões, que é a questão da constitucionalidade da lei, poder refugiar-se nesse ponto. Mas devo dizer que, por exemplo, para quem estivesse a ver aquele programa, para quem sabe o que se passou no país no último ano, que tivesse assistido a tudo o que foi, por exemplo, o debate sobre as questões da saúde, ter visto um presidente da República que em nenhum momento foi capaz de dizer uma palavra A lembrar que um terço do Sistema Nacional de Saúde é privado e se um terço do Sistema Nacional de Saúde é privado é porque os portugueses vão lá. Os portugueses vão ao sistema privado social, utilizam, precisam dele, gostam dele e era bom também falar para eles. Não achar que só o resto é que existe e que só o resto é que funciona bem, porque Marisa disse ali mentiras, como por exemplo, que esse sistema desapareceu durante a pandemia, falhou, fugiu e Marcelo não fez aparecer uma palavra. Eu acho que nessas alturas Marcelo é um bocadinho cobarde e nesses aspectos voltou, se quisermos, a desiludir o seu eleitorado. E ele arrisca-se a que nem com sais de frutos esse eleitorado vá às urnas por ele.

Vamos então à classificação final deste debate. Marcelo Rebelo de Sousa consegue 59 valores, Marisa 38 e portanto, na avaliação deste nosso painel, Marcelo Rebelo de Sousa é o vencedor deste primeiro debate. Vamos avançar agora para o segundo debate da noite, foi entre João Ferreira e André Ventura. Proponho que comecemos ao contrário agora. Miguel Santos Carrapatoso, o vencedor é?

Terei de dizer André Ventura. Objetivamente, o líder do Chega conseguiu levar o debate para uma zona onde se sente muito confortável, que é a lama. E aí Pedro Guerra, perdão, André Ventura, é praticamente imbatível. Pela frente, teve a sorte de ter João Ferreira, um candidato que tem muitas fragilidades e ontem ficaram muito evidentes essas fragilidades. O comunista tentou explorar as contradições do líder do Chega, mas acabou sempre por cair na armadilha de Ventura. Cereja no topo do bolo, criticou a colagem de Ventura a Marine Le Pen. Isso fez com que levasse com uma saraivada de frases soltas sobre todas as ditaduras que o PCP continua, incompreensivelmente, sem conseguir reconhecer. E não foi uma estreia, mas merece sempre o destaque. O momento em que João Ferreira sugere que os norte-coreanos escolhem livremente os seus destinos, que é um daqueles momentos que entra no hall of fame dos mais nonsense dos debates televisivos. André Ventura continua com muitas dificuldades em explicar todas as suas incongruências, mas desta vez, ao contrário do que tem acontecido em entrevistas recentes, nomeadamente ao Observador, evitou embaraços e limitou-se a desconversar e a gritar mais alto. Teve momentos de verdadeira alucinação, André Ventura, quando criticou Marcelo, por exemplo, por elogiar a prestação de Eduardo Cabrita nos incêndios de 2017, dizendo que Cabrita foi responsável pela morte de centenas de pessoas. Cabrita nem sequer era ministro nessa altura, era Constança Urbano de Sousa, e acabou a protagonizar um espetáculo muito pouco digno, que terá, ainda assim, conseguido cumprir o seu grande objetivo, que era deixar os seus eleitores, os seus tifosi, eufóricos. Mas como desrespeitou todas as regras de um debate político em democracia, isso pode ter criado muitos anticorpos junto do eleitorado mais moderado, que presumo seja ainda a maioria. Ventura provou que é forte a discutir na taverna, agora resta saber o que vale num debate a sério.

Notas, Miguel Santos Carrapatoso.

João Ferreira, pela sua fraca prestação, um sete, André Ventura, um oito.

Vamos avançar agora para a análise do Rui Pedro. Rui Pedro Antunes, João Ferreira ou André Ventura, quem é que é o vencedor?

Olha, o vencedor, Diogo, é André Ventura, também. Qual é a única forma de nós fazermos uma avaliação de um debate? É a eficácia que tem junto do eleitorado e principalmente do eleitorado a que se dirige. Ou seja, nós podemos aqui dizer que há muito barulho, muita cacofonia, não ouvimos nada, mas se o debate for eficaz no essencial, nós não estamos aqui a dar notas com base no que é o politicamente correto, do que é um debate cordato. Não é essa a minha perspectiva e nesse aspecto, André Ventura ganhou. Como o Miguel dizia, eu acho que tirando ali, haver cores dos clubes ali atrás, parecia quase um painel daqueles, faltava também o oráculo a dizer alerta CM e quando o André Ventura estava ali com o Aníbal Pinto na CMTV ou a defender o Benfica ou a do Porto, etc. Parecia um bocadinho isso. E de fato, o André Ventura sente-se muito confortável neste tipo de confrontação. Eu lembro que logo ao início, ainda o João Ferreira está a falar e a dizer uma coisa normal sobre a Procuradoria Europeia, a questão do José Guerra, e André Ventura vira-se só e diz: "O debate ainda agora começou e já está nervoso, João?" Ou seja, é mesmo aquele tipo de pequenas provocações de quem está habituado à confrontação e na televisão, que conseguiu, nesse aspecto, ser muito mais eficaz. Porque lá está, está habituado a isso. Mas eles são ambos muito combativos. Não acho que João Ferreira seja uma pessoa que se fique e acho que houve vários contra-ataques. Ontem alguém propunha Nas redes sociais, um sistema de microfone fechado, como aconteceu com Biden e Trump, para evitar atropelos. Eu não sei se essa é a solução, acho que não, até porque se desvirtua um bocadinho a questão do debate, mas também a certa altura não se ouvia nada. E quando não se ouve nada, estamos só a falar de um grande barulho e não se percebe. Agora, se isso é eficaz junto dos respectivos eleitorados, é. André Ventura conseguiu levar o debate para aquilo que é a mensagem dele. Parece que tinha palavras-chave, como tem sempre: o PCP defende a Coreia do Norte, o Avante não paga impostos, anda com o governo ao colo e defende o Lenin. Pronto. Se nós formos resumir tudo, volta não volta, vem isto tudo, e outras coisas, como o Marcelo é um fantoche ou não é um presidente a sério, metade dos ministros do governo está na rua e, portanto, isto resumiria André Ventura. Por outro lado, isto claro, com aqueles detalhes que eu falava, quando a moderadora, por exemplo, perguntou ao João Ferreira que país é que ia visitar primeiro, o André Ventura respondeu em vez do João Ferreira e disse Coreia do Norte. Tem essas manhas. Já o João Ferreira teve só um pequeno momento e por isso é que também foi eficaz junto do seu eleitorado comunista. Teve o seu momento Jerónimo, no sentido daquela perspectiva do Jerónimo do cala-te ou facho, que eu disse uma vez para o Pedro Roseta, acho que ainda na Constituinte. Ou então mesmo agora o Jerónimo para o Ventura quando disse: "Está-se a rir? Olhe que eu não lhe acho graça nenhuma". Este tipo de confrontação, João Ferreira conseguiu um pouco. Portanto, junto do eleitorado dele também teve ali a atirar para cima de André Ventura. Falou-lhe de, lembro-me agora de repente, da exclusividade, não ter cumprido a exclusividade como deputado, chamou-lhe mentiroso, acusou-o de dar muitas faltas, nunca pôs os pés no Parlamento, lembrou a questão do terrorismo bombista, naquilo que parecia ser uma alusão ao Diogo Pacheco de Amorim. Portanto, também foi buscar temas que muitas vezes não tinham nada a ver, quase na mesma estratégia de André Ventura. Isso também é eficaz, tanto para os apoiantes de um como para os apoiantes do outro, para agitar bandeiras, tanto um como outro tiveram sucesso nesse aspecto. Agora, se aquilo foi um debate com toda a urbanidade, com toda a qualidade, com uma espécie de requinte intelectual, isso não foi certamente, mas parece que nesse aspecto acabaram por ser eficazes junto dos respetivos eleitorados. Ainda assim, André Ventura tem, de facto, mais sucesso nesse aspecto também porque está mais à vontade neste registo.

Rui Pedro Antunes, zero a 20.

De 0 a 20, eu dou 14 a João Ferreira e 15 a André Ventura.

Já no terreno positivo, aqui as notas do Rui Pedro Antunes. Miguel Pinheiro, é a tua vez de nos dizeres quem é o vencedor deste debate entre João Ferreira e André Ventura.

Não há dúvida nenhuma, obviamente foi André Ventura, essencialmente por duas razões: uma de forma, outra de substância. A forma é porque ele é que impôs aquele tom do debate. Aquele é o tipo de debate que interessa a André Ventura, caótico, violento, com aquele humor violento e aquela agressividade sarcástica. Isso é o tom que interessa a André Ventura e é onde ele ganha. E ele ter conseguido fazer com que João Ferreira se transformasse, desse ponto de vista, numa espécie de André Ventura 2, foi uma grande vitória, porque eu acho que as pessoas que têm seguido a carreira política de João Ferreira nos últimos longos anos, eu pelo menos fiquei perplexo ao olhar para aquilo e pensar de onde é que veio este homem, porque eu nunca tinha visto João Ferreira assim e não sei porque é que lhe passou pela cabeça que adotar aquele estilo era uma coisa que o favorecia. Não consigo entender.

Vamos às notas? Não, ainda não.

Muito rapidamente em relação à substância, André Ventura ia para ali com um objetivo, que era encostar o PCP ao governo e dizer aos eleitores que possam estar ali entre o PCP e o Chega, aqueles eleitores de protesto, aqueles eleitores que querem chatear o sistema, conseguiu dizer-lhes assim: está aqui o PCP e um candidato que é o candidato do sistema, é o candidato que está preso ao governo, que sustenta o governo, que apoia o governo, e eu, André Ventura, eu, Chega, somos o verdadeiro partido antissistema e, portanto, votem em nós. Isso ele conseguiu, sem nenhuma dúvida, e pelo meio ainda atacou Marcelo, ainda fez tudo isso. Prendeu-se realmente um bocadinho nesta imagem extremista. Em relação ao João Ferreira, aquilo que lhe saiu bem, apesar de tudo, alguns ataques a André Ventura, às faltas, às mentiras, àquilo que ele qualificou como mentiras permanentes. E eu acho que aquela colagem à Marine Le Pen funcionou bem porque ele foi ao ponto, não foi dizer: é uma fascista, é uma racista, é uma xenófoba. Não, ele foi dizer: os portugueses em França um dia acordaram e nas paredes estava escrito "morte aos portugueses, viva a Frente Nacional". E isso, de facto, é o ataque à Marine Le Pen que mais dói a André Ventura. Portanto, notas, André Ventura 15, João Ferreira 8.

15 para André Ventura, 8 para João Ferreira. José Manuel Fernandes, quem é que foi o vencedor deste debate?

Bem, eu apetecia-me dizer que foi a abstenção, mas não posso dizer. Portanto, foi André Ventura. Porque André Ventura, enfim, já foi dito quase tudo. Basicamente, ele ia para aquele debate com a estratégia de Colar o PCP ao governo e colou o PCP ao governo. É evidente que João Ferreira se pôs a jeito nessa matéria. Basta dizer logo na primeira questão em que João Ferreira podia ter se distanciado do governo, que era na questão da nomeação do procurador, ele pareceu, nem sequer acabou bem a resposta, mas parecia que ia começar a justificar o procedimento da Ministra da Justiça e esta trapalhada em que ela está metida. O PCP nisto é, de facto, extraordinariamente rígido e protocolar e da mesma forma que ele não foi capaz de se distanciar da Coreia do Norte e dizer que os povos escolhem livremente os seus destinos, aqui também ia encontrar uma justificação formal no Conselho Superior da Magistratura para justificar o injustificável relativamente ao processo de nomeação do procurador europeu. É, de facto, uma maneira de pensar e funcionar dos comunistas que os diminui e que não os favorece. E desse ponto de vista, André Ventura agarrou aquele debate desde o princípio e João Ferreira não fez a única forma que eu penso que é possível de reagir a André Ventura, que é no momento em que ele interrompe a pessoa, reagir dizendo: "Eu estava a falar, deixe-me falar." Em vez de entrar naquela estratégia de responder taco a taco por cima, numa gritaria que não resolve nada. Não penso que nos próximos debates isto se resolva com o método de fechar o microfone, como foi feito nos debates entre Trump e Biden, depois de um primeiro debate que também foi uma catrafonia. E também não sei se André Ventura vai fazer exatamente da mesma forma com todos, se vai conseguir fazer o mesmo, por exemplo, com Marcelo Rebelo de Sousa, se vai conseguir fazer o mesmo com Marisa Matias. É possível que a mesma estratégia, por exemplo, resultasse com Ana Gomes, depende um bocadinho também dos candidatos e da forma como eles venham a reagir. Mas no que diz respeito aos temas, de facto, daquilo que fica na memória das pessoas, fica na memória das pessoas o facto de João Ferreira não ter conseguido distanciar-se da Coreia do Norte. De facto, outra vez o PCP a cair nessa armadilha. E não sei se os contra-ataques de João Ferreira foram suficientemente eficazes para abalar a base de André Ventura. É um facto que ele falou das faltas, mas a presença de André Ventura para um deputado só no Parlamento é tão visível que não sei se isso é muito eficaz. Ele falou da exclusividade, mas isso é um tema ultrapassado. Talvez o tema que tenha sido o mais eficaz de todos e que talvez possa vir a ser gozado mais vezes talvez venha a ser este da Marine Le Pen, porque esse sim é uma novidade, é um tema que não tinha sido falado e que pode vir a ser repetido durante a campanha eleitoral.

Vamos às notas. José Manuel Fernandes.

Bem, eu não sou capaz de dar nota positiva a nenhum deles por causa do comportamento. Acho que quem se comporta assim num debate não merece nota positiva, mesmo tendo ganho. Portanto, dou nove a André Ventura e seis a João Ferreira.

Nove para André Ventura, seis para João Ferreira. Já foram falando aqui um bocadinho sobre a forma como se pode resolver ou como se pode encarar esta questão dos atropelos constantes nos debates onde André Ventura pode vir a estar no futuro. O José Manuel já deu aqui algumas indicações sobre o que pode acontecer, o Rui Pedro também, mas gostava de vos ouvir também sobre isso. Acham que devem ser tomadas medidas nos próximos debates para que isto não volte a acontecer?

Diogo, deixe-me só dizer uma coisa. Claro que isto é lugar-comum para tudo, mas este debate pelo menos foi o único que foi debate. Mais do que uma conversa, quase parecia uma entrevista a dois, o primeiro debate relativamente a este. Isto só para defender as minhas notas elevadas, que apesar de tudo estou a dar notas a um debate. As notas foram mais baixas naquilo que foi uma conversa. Portanto, ao debate teve que ser mais elevado. E para dizer também que João Ferreira, de facto, é muito mais agressivo, é talvez a seguir a André Ventura, o mais agressivo dos outros seis candidatos. E portanto não me surpreende nada que tenha sido este o registo. E volto a dizer só mais uma coisa aqui. Junto ao eleitorado do PCP, não estou a ver que João Ferreira tenha perdido algum voto, muito pelo contrário, porque lá está, o PCP, tal como o Chega, precisa de inimigos. E quando se ataca com força os inimigos Consegue-se arregimentar as suas tropas e cerrar fileiras. E isso, tanto um como outro conseguiram. Isto só para justificar isso. Quanto a isso, este estilo de debate também me incomodou um bocadinho, principalmente quando estava a escrever o artigo, não percebi nada do que diziam. Mas mesmo assim, eu prefiro este tipo de debate. Eu já nos parlamentares sou pelo Parlamento britânico mais do que pelo português ou outros mais mansinhos. Eu prefiro este estilo de debate do que o outro. Qual é a solução? É haver mais respeito por parte dos candidatos.

No Parlamento britânico eles não se interrompem desta forma.

Mas são muito agressivos.

São muito agressivos, mas não se interrompem desta forma, há uma diferença entre a acutilância e a agressividade. Eles tratam-se sempre de gentleman .

Muitas vezes estão quase a brigar uns com os outros.

Mesmo dizendo coisas terríveis uns dos outros, eles nunca deixam de tratar das formalidades como deve ser. E quando são mandados sentar, sentam-se.

A questão do desligar o microfone, como se chegou a levantar nos Estados Unidos, não seria uma solução?

Eu acho que no caso de André Ventura, desligar o microfone é vitimizá-lo e portanto pode ser perigoso. Eu vi essa sugestão ontem e vi reações dizendo isso. Portanto, acho que as circunstâncias em que se desliga o microfone, quem é que desliga, desliga se que não está a falar, deixa-se ele a falar sozinho. É uma regra que estabelecia no princípio, as pessoas só falam tipo um minuto local. É um bocadinho complicado de estabelecer e mudar a regra agora depois dos debates todos terem começado, sendo outros os protagonistas. Ali estávamos perante dois protagonistas que se repetiam. Agora não, vamos ter protagonistas diferentes. Eu por acaso não sei de cor com quem é que é o próximo debate do André Ventura. Não sei se o Rui Pedro ou o Miguel podem ajudar.

O Google pode ajudar.

O Google pode ajudar, mas eu assim não conto não consigo fazer isso no instante.

Tiago Maia Gonçalves.

Tiago Maia Gonçalves. Bem, com Tiago Maia Gonçalves, não sei bem como as coisas vão correr. É capaz de ser um debate um bocado diferente deste.

Não, Vitorino Silva.

Estás a pensar Vitorino Silva, Miguel.

É verdade, estava a falar. É na segunda-feira, dia 4.

É capaz de ser um circo divertido.

Na RTP3, exatamente.

Quero ver que notas é que vocês vão dar aí .

Em primeiro lugar, só aqui reforçar o que o Rui Pedro disse. André Ventura começou, João Ferreira não hesitou. Foi atrás daquilo sem uma única hesitação. Portanto, qualquer crítica que seja feita à prestação de André Ventura ontem, tem que ser replicada exatamente nos mesmos termos para João Ferreira. Portanto, não vamos também aqui agora estar a criar vilões onde há mais do que um. Em segundo lugar, o eleitorado fará o seu juízo. É para isso que nós temos eleições. Se começamos a ter uma espécie de pré-eleições de microfone, em que estamos a cortar o microfone ou a ligar o microfone porque achamos que os representantes políticos não se sabem comportar, vamos lá ver, se esta prestação de André Ventura e de João Ferreira é premiada pelos eleitores, o problema vai muito para lá dos microfones. E o problema vai muito para lá deles. Por isso, vamos esperar para ver que candidato é que será eficaz para contrariar este estilo de debate de André Ventura.

Podemos chamar o John Becker, o speaker da Câmara dos Deputados.

Exatamente. Aquele que conseguir silenciar André Ventura, se calhar vai ter muito a ganhar.

Sim, e nesse aspecto, eu concordo com o que vocês, Miguel Pinheiro e Rui Pedro, dizem sobre este debate. Primeiro, João Ferreira, de facto, mimetizou o estilo de André Ventura, portanto, eu vi muita gente de esquerda a queixar-se nas redes sociais e no espaço de comentário dizendo que João Ferreira, coitado, tinha sido impedido de ripostar, de falar, de debater. Ora, João Ferreira usou exatamente a mesma estratégia que André Ventura, por isso, como dizia o Miguel Pinheiro, não há aqui vilões nem mocinhos. E o Rui Pedro dizia, e tocava num ponto importante, que em relação aos respetivos eleitorados, João Ferreira falou para o eleitorado de esquerda que abomina André Ventura e que o pinta de todas as cores. E de facto pode ter conseguido aqui e acolá que essa mensagem passasse. E André Ventura fez o mesmo com João Ferreira, pintando João Ferreira como um perigoso extremista de esquerda, que, a bem da verdade, João Ferreira não conseguiu negar essa colagem. Mas dou estas notas, justifico estas notas porque a determinada altura aquilo não chegou sequer a ser um debate. E aí o José Manuel dizia, e bem, que há uma diferença entre um debate e uma meia hora passada a gritar um por cima do outro. E, portanto, dali, de facto, não se percebeu nada. Se isso terá ou não resultado no eleitorado, logo se verá, mas para a abstenção, para os abstencionistas, aliás, e para o eleitorado mais moderado ou para aqueles que são defensores das democracias liberais, aquilo valeu de muito pouco.

Muito bem, vamos às notas. Ventura ganha este debate com 47 valores. João Ferreira fica com 35. Ao longo dos próximos dias vamos somar todas estas pontuações para tentarmos perceber quem é que consegue ficar em primeiro lugar, pelo menos aqui nestas análises na Rádio Observador. Por esta altura, Marcelo Rebelo de Sousa está em primeiro lugar, Ventura vem em segundo, Marisa Matias está em terceiro lugar, João Ferreira em quarto lugar. Muito obrigado por terem se juntado a nós, José Manuel Fernandes, Miguel Pinheiro, Rui Pedro Antunes, Miguel Santos Carrapatoso. Voltam à antena da Rádio Observador já amanhã para escolherem o vencedor do debate de hoje entre Marcelo Rebelo de Sousa e Tiago Maia Gonçalves. Até amanhã.

É amanhã que regressa então o Vencedor É. Vamos analisar este debate entre Marcelo Rebelo de Sousa e Tiago Maia Gonçalves amanhã com a equipa das manhãs 360 da Rádio Observador, a partir das 08h30 e também ao longo desta semana, de segunda a sexta, e o Vencedor É está sempre aqui na Rádio Observador às 08h30. A edição de hoje teve a coordenação do Diogo Teixeira Pereira. Eu sou a Carla Lopes, a produção esteve a cargo da Francisca Marques Ferreira.