Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Conosco temos já Tiago André Lopes, coordenador de licenciatura em Relações Internacionais da Universidade Portucalense. Também por telefone, Madalena Meier Resende, especialista em Ciência Política. Bem-vindos. Tiago André Lopes, para começar, o que está na base desta intenção de mudança no Reino Unido, que todas as sondagens apontam para isso?
É verdade. Primeiro que tudo, teremos que ver se as sondagens se confirmam e a questão aqui é perceber não só a dimensão da derrota dos conservadores, mas também a dimensão da vitória do partido reformista, agora com Nigel Farage na sua liderança. Portanto, perceber se vai ficar em terceiro ou se, como algumas sondagens começavam a indicar, se pode mesmo chegar ao segundo lugar, o que seria obviamente um resultado curioso. O que está na base disso são 14 anos, mas acima de tudo, porque os 14 anos não terminam propriamente com maus indicadores ao nível macroeconômico. O que há é a percepção da parte dos britânicos de que a sua vida piorou nos últimos anos e há a percepção da degradação e delapidação do sistema político, especialmente entre a transição de Liz Truss para Rishi Sunak, ficou a ideia de que o processo político estava contaminado porque não foi dado às urnas, porque já na transição entre Boris Johnson e Liz Truss, foi uma transição bastante polêmica, porque foi apenas o eleitorado do partido que votou. Mas não foi o que aconteceu com o Sunak, foi ainda mais restrito. Foi um grupo limitado de deputados que votou, não foi aberto a todo o partido.
Mas temos esse problema desde 2015, de Cameron para Boris Johnson, para Theresa May, para Boris Johnson.
Mas Johnson conseguiu uma maioria.
Foram todos depois a eleições. E é isso que está a acontecer com o Sunak.
Esse é o problema, é que Sunak nunca foi. Sunak nunca teve o escrutínio da opinião geral do Reino Unido. E isso obviamente leva o Reino Unido a isto. Depois, além disso, o Sunak, se nós nos lembrarmos, entrou logo mal, porque entrou com o escândalo da sua esposa, a questão dos impostos não pagos, e esse é um problema. E depois há obviamente uma série de problemas internos do Reino Unido que estão agora a ser aflorados e que nós quando olhamos para os assuntos maiores, é muito curioso, a questão da relação com a União Europeia tem um peso quase infinitesimal. Uma sondagem do YouGov publicada em junho dava conta de que 2% dos eleitores valoriza a questão da relação com a União Europeia no momento de escolher o voto. O assunto maior, 26%, tem como assunto custo de vida. Ou seja, a capacidade ou não, no final do mês, encher a despensa com produtos alimentares como fazia no mês antes e no mês anterior.
Portanto, não é só uma questão de escândalos do Partido Conservador, há também questões concretas.
Os escândalos pioram, mas a questão de conseguir ou não comprar coisas, a questão de haver a percepção na opinião pública de que a vida está mais difícil desde que os conservadores tomaram as rédeas do poder, e a verdade é que há números, a BBC dava hoje conta de um número, as listas de espera no Reino Unido triplicaram o tempo de espera, triplicou desde que os conservadores tomaram as rédeas do poder. Portanto, há esses problemas todos, que agora obviamente são empolados, porque do outro lado nós temos, com o Starmer, uma máquina de comunicação que é mais eficaz do que era o Jeremy Corbyn, que era muito radicalizado. E temos acima de tudo Sunak com uma grande incapacidade de chegar ao eleitorado britânico médio. Para além de chegar às elites financeiras, de chegar às elites urbanas, não consegue chegar ao countryside, não consegue chegar à Escócia, não consegue chegar à Irlanda. E há um outro dado que eu acho que é curioso nesta eleição, nesta questão dos assuntos únicos, o segundo assunto a seguir a esta questão do custo de vida, é a saúde. Estamos a falar de um Reino Unido onde a população está, como em Portugal, cada vez mais envelhecida. A idade média do Reino Unido são 42 anos. E portanto, é natural que a saúde preocupe. Tendo em conta que há uma percepção de que o Sistema Nacional de Saúde britânico está em degradação e em delapidação, este é um assunto no qual Sunak vai ser julgado de forma severa. E há um indicador que eu acho que vai ser curioso ao longo da noite de hoje, que vai ser muito longa para nós que vamos acompanhar os resultados. Há um indicador que eu acho que é interessante. Saiu uma sondagem ontem que dava conta de que pela primeira vez na Escócia, há a possibilidade de os trabalhistas terem um resultado melhor que o SNP. O SNP costuma dominar as eleições na Escócia. Se os trabalhistas conseguirem, de facto, confirmar esse domínio e roubar pelo menos sete ou oito ou nove deputados ao SNP, mesmo que o SNP ganhe a maioria dos 50, a verdade é que ter 10 ou 11 deputados trabalhistas pode dar uma ideia de que no resto do país a eleição vai ser bastante mais fácil. E o número a marcar, e termino com isto, que eu acho que é o número importante na cabeça hoje de Starmer, é obviamente o 418, que é o número mágico que Tony Blair conseguiu, é a melhor eleição de Tony Blair, de 1997, a 1 de maio, e este é o número que possivelmente Starmer gostaria de ultrapassar. Eu não sei se ele vai conseguir isso, porque ele não é tão popular e tão magnético como era Tony Blair. Aliás, a opinião pública tem uma percepção dele bastante pouco positiva. 51% do eleitorado não gosta de Starmer, só que Sunak tem um voto negativo de 72%.
Muito maior. Vou chamar à conversa também Madalena Mara Resende. Madalena, são 14 anos de liderança dos conservadores. O que correu mal para se esperar um resultado tão desastroso dos conservadores? É esta questão do voto com a carteira ou temos que somar muito mais fatores para perceber a dimensão desta queda?
Eu acho que há uma noção geral de que a revolta populista que esteve na origem do Brexit falhou e que todo o projeto que foi posto em cima da mesa e no qual os britânicos votaram sucessivamente, muitas vezes já muito cansados das promessas, mas mesmo assim ainda apostando, de facto não se materializou. Toda a ideia de ganhar o controle sobre as fronteiras foi revertida há dois anos, quando o governo decidiu aumentar as cotas de migração para fazer face a uma crise econômica Os serviços públicos também em queda, como foi aqui mencionado, especialmente o Serviço Nacional de Saúde numa enorme crise, e também a realidade que os impostos acabaram por subir em vez de descer, como tinha sido prometido pelos conservadores. Também lembrar que, de facto, no Reino Unido, os ciclos de governo entre conservadores e trabalhistas são normalmente de 14 anos. Portanto, isto não é propriamente uma anomalia. Normalmente, é este o ritmo de mudança entre esquerda e direita. Realmente, o que aqui é bastante diferente é esta ideia de que é a derrota dos conservadores, uma derrota histórica, está no nível dos 20% o voto conservador, a possível eleição de três membros do Parlamento dos Reformistas, de Nigel Farage, e um posicionamento dos Lib Dems já também bastante alto, com 52. Portanto, há uma certa fragmentação à direita, há uma vitória do Labour esperada, que se espera que seja cerca de 420 deputados e, portanto, realmente não chegará talvez à grande vitória de Tony Blair, mas é uma reversão de toda esta aposta da Grã-Bretanha num novo modelo que foi proposto por Boris Johnson e que falhou redondamente.
Mas Madalena, é preciso explicar também, para quem nos escuta perceber, estas eleições no Reino Unido não são semelhantes àquilo que acontece em Portugal numa legislativa. Ou seja, as pessoas votam no candidato que querem que represente na sua determinada região, mas é eleito o que consegue mais votos. Não há uma distribuição, como temos, por exemplo, em Portugal, a nível distrital, com X número de deputados e depois corresponde à votação nesse distrito. Aqui é o vencedor que é automaticamente eleito. E isto pode levar a esta diferença tão gritante e mudança tão gritante de votação de um lado para o outro.
Certamente. O sistema maioritário britânico está no oposto dos sistemas proporcionais, ou seja, de facto em cada distrito só há um deputado que vai ser eleito e, portanto, é um deputado único que acaba por ganhar todos os votos, desperdiçando os votos de todos os eleitores que não votaram nele, e portanto resulta realmente numa grande desproporção do resultado final, ou seja, do Parlamento, em relação à percentagem de voto. Portanto, quem vence as eleições ganha proporcionalmente muito mais deputados do que se tivesse num sistema proporcional. Isso resulta exatamente nestas viragens, nestes ciclos longos. Não é o único fator, mas também influencia nestes ciclos longos de cerca de 15 anos entre um partido e outro, num sistema bipartidário, e nesta desproporção, às vezes nestes revezes enormes entre a esquerda e a direita.
Antes de me despedir, Madalena, até porque sei que tem outros compromissos, e antes de fazermos também uma curta pausa nesta emissão especial, como é que fica depois a oposição perante aquilo que são as sondagens? Uma vez que podemos ter o Labour a conseguir um número muito elevado de deputados, sendo que pode chegar acima dos 420 deputados, o número mágico é 326, o número para conseguir uma maioria. Como é que fica esta oposição muito diminuída, como é que consegue trabalhar também perante uma liderança tão forte que se prevê do Labour?
Há com certeza uma necessidade de uma reconstrução muito profunda do Partido Conservador. Essa mudança já está a ter lugar. É uma reconstrução que tem a ver também exatamente com esta transformação que Boris Johnson conseguiu e que o Brexit conseguiu criar no partido, quando se decidiu avançar com o referendo do Brexit, digamos que a desculpa maior era de que isto iria também permitir uma unificação do Partido Conservador. Isso não aconteceu, depois do Brexit o partido continuou tão dividido entre Brexiteers e Remainers. E portanto, há uma necessidade de uma reconstrução ideológica em termos de liderança, mas isso vai com certeza demorar muito tempo, tal como o Labour demorou muito tempo a recuperar da derrota e do fim da liderança de Tony Blair.
Sim