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Continuamos com Tiago André Lopes, coordenador do Licenciatura em Relações Internacionais da Universidade Portucalense. Junta-se também a esta emissão João Diogo Barbosa, comentador em assuntos europeus. Mas vamos perceber afinal quem é este candidato do Labour, Keir Starmer. Provavelmente vamos ter de falar muito dele nos próximos tempos, porque ao que tudo indica, será o novo primeiro-ministro britânico. Keir Starmer, diz-nos a nota biográfica do líder do Labour, tem 61 anos, é de Londres, é nesta altura líder da oposição do Reino Unido, sucedeu a Jeremy Corbyn em 2020. É a primeira vez que avança como candidato a primeiro-ministro, neste caso em eleições gerais, é Member of Parliament, deputado desde 2015, jurista, advogado, desempenhou aqui um cargo de ministro sombra, ou seja, o responsável na oposição para a imigração, para contestar ou criticar, ou fazer perguntas sobre aquilo que é a governação do Reino Unido no que toca à imigração, e ele fazia esse papel no que toca à oposição. Vamos perceber quem é Keir Starmer e como é que chegou aqui, que trabalho teve de fazer no Partido Trabalhista para conseguir atingir uma projeção desta dimensão que tem tido. Tiago André Lopes, que magia fez Keir Starmer?

Starmer é uma figura complexa, é difícil de compreender. Nós nos próximos tempos vamos ver finalmente em que quadrante político é que ele se posiciona de fato, porque ele começou mais à esquerda e foi se posicionando ao centro, centro-esquerda hoje em dia, e foi trazendo alguma novidade até para o partido. Agora, antes de chegar ao partido, ele trabalhou como procurador, foi conselheiro para os direitos humanos na Irlanda do Norte. Ele está muito ligado de fato a esta questão da migração, dos direitos humanos e muito questões laborais também. É uma parte da sua carreira profissional pré carreira política. Ao nível político, aquilo que ele trouxe para já de grande novidade foi que havia uma ala muito forte do Partido Trabalhista, que era fortemente antissemita, e essa ala foi esvaziada com Starmer, apesar de ele ser um defensor acérrimo da solução dos dois Estados para a questão da Palestina, ele acredita que é a solução dos dois Estados e não a solução da substituição de Israel pelo Estado da Palestina. Corbyn era um pouco mais radical nessa questão, tinha uma visão um bocadinho menos diplomática. Esse é um ponto que ele traz de diferença. E depois tem aqui uma questão curiosa, é que do ponto de vista da sua política econômica, ele não é fácil de compreender, e o mesmo na questão do Brexit, porque ele fez campanha para que o Reino Unido ficasse dentro da União Europeia. Ele fez campanha para que o Reino Unido não saísse. Mas o mesmo Starmer deu uma entrevista na semana passada a dizer que no seu tempo de vida não haveria um segundo referendo à questão do Brexit, porque ele entende que aquilo que aconteceu foi um pacto geracional e portanto não pode agora ser revertido, e até porque não há indicadores claros. E essa é outra questão que eu acho que é importante nós termos presente. Nós tendemos, em Portugal, a olhar para a questão do Brexit um pouco quase como uma espécie do ressentimento da parte da União Europeia que perdeu um dos seus Estados-membro.

Dos mais fortes.

A verdade é que do lado do Reino Unido, ainda há uma parte substancial da população que possivelmente votaria igual. Nós não temos nenhuma sondagem que nos dê de forma esmagadora e avassaladora uma alteração do voto. E há normalmente uma perceção um tanto quanto enviesada quando enviamos, por exemplo, enviados especiais, porque obviamente os enviados especiais vão a Londres, vão a Manchester, que votaram contra, de facto. Mas indo ao interior, falando com a população mais senior, há ainda uma parte da população que entende que o voto fez sentido e que entende que o voto não foi assim tão perdido quanto isso, até porque essa é a população que olha para os macroindicadores, e os macroindicadores do ano passado são muito claros, e é nesses que Starmer vai ter que trabalhar. A inflação no Reino Unido é mais baixa que em Portugal. Está nos 2%, nós estamos nos 3%. O desemprego no Reino Unido é mais baixo do que em Portugal. Está nos 4,4%, nós temos 6,1%.

E Portugal não é dos que tem mais inflação, por exemplo. Há países na União Europeia que têm muito mais inflação.

Os países do Báltico estão a lidar com a inflação nos dois dígitos, estão na casa dos 10, 12%. Portanto, não é o que nós estamos a ver aqui. O próprio rendimento per capita do Reino Unido, ao contrário do colapso econômico que a Comissão Europeia previa com a saída da União Europeia, continua a ser mais alto do que vários países da União Europeia. E portanto, é pra esta classe que Starmer está a tentar falar, e é pra ela que ele tem tentado reposicionar. Depois ele fez uma coisa muito interessante, e isso eu acho que é de fato a magia interessante que ele fez quando substitui Corbyn. Ele percebeu que as posições muito radicalizadas não permitem consensos. As posições menos radicalizadas, as posições que sejam mais abertas a não estarem fechadas, a ideia de políticas não totalmente desenhadas permitem trazer os outros pra mesa negocial. E depois se os outros não quiserem trazer ajuda, que ele faz isso várias vezes, então nós terminamos o pacote. Quando nós acompanhamos os debates no Parlamento britânico, é muito interessante. Na primeira ronda, ele traz ideias em bruto, que parecem até às vezes um pouco toscas, permitem uma ligeireza, e depois se o Partido Conservador não ajudar, ele trabalha a ideia sozinho. Fica a impressão de que ele trabalhou com os outros partidos, mas não trabalhou, mas ele abre essa porta, porque ele aprendeu com Corbyn o oposto. Corbyn era muito visceral nas suas posições, era muito intenso, e não permitia essa aproximação. É este líder que vamos ter. Eu acho que esse é o indicador mais curioso e pode ser a surpresa da noite, porque a noite vai ser bastante longa, mas pode nos trazer duas surpresas. A questão das sondagens que há pouco se falava, temos que ter algum cuidado, porque por causa do modo como o voto britânico é feito, pode acontecer fenômenos bizarros, como em 2019, em que, por exemplo, o Brexit Party teve uma votação de três milhões de votos, ficou em terceiro lugar no voto nacional, elegeu zero deputados, e o partido, por exemplo, dos escoceses, teve meio milhão de votos e elegeu 50 deputados, porque são votos concentrados geograficamente. Portanto, essa é uma questão. Mas outra questão é, pelo fato de Starmer e de Sunak não serem propriamente líderes interessantes do ponto de vista midiático, isso pode levar algum eleitorado a não votar A dimensão do não votar. E isso pode estar a justificar aquilo que agora dizia o repórter do Observador que está no Reino Unido. Esta ideia dos conservadores tentarem galvanizar o seu eleitorado para irem votar à última hora é para tentar inverter aquilo que parece uma tendência confirmada, e isso é interessante. Termino com outro dado que eu acho que é curioso e é muito interessante do lado do Reino Unido. Hoje, quando nós acompanhávamos a eleição nas redes sociais, os hashtags no Reino Unido que estavam a fazer mais mancha não era nem Starmer, nem Sunak. Era o hashtag cães nas estações de voto, o dogs in polling stations, que entretanto gerou sub hashtags de gatos, pombos, periquitos e serpentes. Ou seja, as pessoas levaram os seus animais domésticos à estação de voto, tiraram fotografia, pôs nas redes e quer o Guardian, quer a BBC agarraram nisto e começaram a fazer o contrário, a pedir as fotos aos eleitores para irem publicando, porque não podem publicar mais nada, há um embargo eleitoral fortíssimo no Reino Unido.

E os live blogs, os certinhos ao minuto destes jornais têm todas essas imagens.

No atual X, no antigo Twitter, isso tem mais pegada eleitoral desde 2019 do que os líderes, quer dos trabalhistas, quer dos conservadores.

Vamos falar também com o João Diogo Barbosa. Bem-vindo também a esta emissão. João, olhando para este cenário do Reino Unido, é uma viragem que se prevê à esquerda, face àquela que tem sido a ala conservadora, mas de facto Keir Starmer, comparando aquilo que é o Labour dos últimos anos, não é assim tão esquerdista como foram os seus antecessores.

Boa tarde. Acho que o ponto fundamental para nós entendermos estas eleições passa por perceber que isto são eleições, sobretudo, sobre substituir o Partido Conservador. O Partido Conservador governa há 14 anos e mais do que governar, é o partido que é o centro da discussão política no Reino Unido. Tudo acontece à sua volta. E nós vemos sondagens, vemos a energia na campanha e os relatos que nos chegam, e muito mais do que haver uma grande motivação pra votar Labour, pra votar em Keir Starmer, o que existe é um cansaço com o story e um cansaço destes 14 anos que implicaram quatro eleições e cinco primeiros-ministros. Só desde as eleições de 2019 nós tivemos três primeiros-ministros no Reino Unido, isso é brutal. E o que parece que vai acontecer é que Starmer não consegue, por exemplo, segundo as sondagens, ter mais votos do que Jeremy Corbyn em 2017, poderá ter um pouquinho mais do que em 2019. E isso seria notável, porque Corbyn sim é visto como o candidato radical, o candidato que por se colocar numa esquerda à esquerda do centro, tornou muito mais difícil ao Labour ter uma proposta de governo que fosse aceite para o eleitoral. Mas o que parece ter acontecido com o Labour e com os eleitores é que Corbyn conseguia reunir uma base interessante de eleitores da esquerda, mas que também energizava os conservadores e os eleitores dos conservadores que tinham ali uma espécie de espantalho, de grande opositor, que levava os seus eleitores a votar. Com o Starmer isso não existe. Starmer é uma figura muito curiosa que, sendo discreta, tem tido uma posição muito forte no governo interno do Labour. Tem sido muito hábil a reforçar as regras, a excluir os candidatos mais à esquerda e o próprio Jeremy Corbyn, que se candidata a estas eleições como independente. E acho que Starmer com esse toque um pouquinho suave ou de seda, tem conseguido fazer reformas importantes. E nós vamos ver como estas eleições, que acontecem num contexto em que os conservadores têm 14 anos de governo, mas não têm grande legado, à exceção talvez do Brexit, Starmer pode apresentar-se a estas eleições como pouco mais do que aquele que não é o conservador. E eu acho que nós também vamos perceber isso, provavelmente, nos votos dos terceiros e quartos partidos. Ou seja, até agora no Reino Unido, nós tivemos sobretudo um bipartidarismo, dois grandes partidos que conseguiam por vezes até 80% dos votos. Desta vez, provavelmente vamos ter um partido de grande dimensão, que será o Labour, dizem as sondagens, e depois vamos ter três partidos de dimensão média, os conservadores por volta dos 20%, depois o Reform e os Liberais Democratas, todos ali entre os 10 e os 15. E acho que essa mudança fundamental em que Keir Starmer, segundo também as sondagens, se aproxima de uma maioria gigantesca, maior do que se calhar as maiorias de Tony Blair nos anos 90, consegue fazê-lo sem aumentar a proporção de votos relativamente à esquerda mais à esquerda, e consegue com esse cansaço em relação aos conservadores. O que acontece é que o Reino Unido perde o bipartidarismo, há uma fração em que os conservadores perdem votos não para o partido da oposição, mas pra uma série de partidos mais pequenos que, no caso do Reform, será um partido mais à direita, no caso dos Liberais Democratas, um partido ligeiramente mais ao centro, perde pra esse lado e, portanto, nós continuamos a ter dois blocos, mas deixamos de ter dois partidos. Esse vai ser um dos principais pontos a terem atenção esta noite, ver exatamente como é que fica o panorama do Reino Unido, ver quantos deputados é que sobram ao Partido Conservador, e é desde logo interessante ver a quantidade de ministros até que podem perder o lugar, e o próprio Rishi Sunak, o primeiro-ministro, não está isento de riscos. Mas eu acho que a nota fundamental é esta: os britânicos estão fartos do Partido Conservador, independentemente do candidato, tiveram primeiros-ministros pra todos os gostos. Não há aqui um governo conservador de 14 anos, há várias sensibilidades a governar, e a situação chegou a um tal ponto em que quer o partido, quer os eleitores Estão, de certa forma, fadigados com esta situação, em que a mudança acontece com Keir Starmer, como provavelmente teria acontecido com Jeremy Corbyn se tivesse resultados semelhantes a 2017.

João Diogo Barbosa, fica a pergunta de por que razão Rishi Sunak convocou eleições? Estamos a falar de eleições antecipadas. As anteriores tinham sido eleições antecipadas para validar a liderança que o Reino Unido tinha no Partido Conservador. Aqui também seria para validar a liderança de Rishi Sunak, mas perante aquilo que indicam as projeções nesta fase, e que têm dito nas últimas semanas, o que levou Rishi Sunak a convocar estas eleições? É preciso recuar um pouco. Também havia problemas, dificuldade em aprovar uma série de medidas e em estar legitimado nas políticas que seguia. Mas como é que se explica estas eleições antecipadas?

Já foi a dois primeiros-ministros, mas a verdade é que esta maioria conservadora é ainda a maioria de Boris Johnson em 2019, eleita com base nesse manifesto, que já é bastante distante de Rishi Sunak, também já era distante de Liz Truss, mas do ponto de vista pelo menos cultural, havia alguma afinidade. Mas o governo de Rishi Sunak já não é o governo que tem as propostas de Boris Johnson, que foi eleito conquistando até lugares muito interessantes do Labour em certos distritos que tinham o voto mais operário e de eleitores com menos rendimentos. Este é um partido conservador mais alinhado com as suas famílias europeias. E a verdade é que Rishi Sunak, por ter sido um candidato uma vez derrotado por Liz Truss e por ser também alguém que assume o governo numa altura em que os conservadores já estão num declínio impressionante nas intenções de voto, não tinha grande margem e tinha ainda uma obrigação constitucional, não escrita, mas de realizar eleições, se não agora, durante os próximos seis meses.

Sim.

Aquilo que Sunak fez foi um cálculo surpreendente e até difícil de compreender, de achar que agora era a melhor altura. E por que será difícil compreender este cálculo? Por um lado, porque a situação econômica do Reino Unido está a melhorar, como apontava o Tiago André Lopes, mas não está ainda consolidada. As pessoas continuam ainda com grande ansiedade econômica, o peso da inflação ainda se sente e o crescimento ainda não é algo que chegue às pessoas. E o Rishi Sunak preferiu não esperar esses seis meses, que seriam sempre difíceis. Nós temos grande pressão do lado dos conservadores, porque como cada deputado tem que lutar pelo seu círculo, quando as sondagens começam a ser más, há grande pressão, porque todos os deputados acham que o seu lugar pode estar em risco e é necessário fazer alguma coisa. E parece que havia esse tal cansaço, quer do Partido Conservador, quer dos eleitores. Houve aqui um encontro de forças em que, por um lado, o Rishi Sunak achou que não tinha mão no seu grupo parlamentar e não teria seis meses fáceis, e preferiu não arriscar de que nesses seis meses a economia corresse melhor, que a situação melhorasse, e preferiu ter eleições já, resolver já a questão, sendo que em seis meses a distância que as sondagens apontam entre os trabalhistas e os conservadores é tão grande, em torno dos 20%. Houve, durante a campanha, um certo aproximar, mas não muito relevante, vamos ver o que acontece com os resultados. Em seis meses, provavelmente não era possível inverter o curso. E portanto, o Rishi Sunak preferiu a doutrina do penso rápido e de resolver já a questão, forçar os conservadores a decidirem-se. Agora, parece-me que também tudo se precipitou, e precipitou-se em termos negativos para os conservadores, com o aparecimento ou ressurgimento de Nigel Farage no uniforme. E isso, vamos ver exatamente quanto, mas pode ter um peso muito relevante no resultado final e no número de lugares que os conservadores vão ter.

Tiago André Lopes, opinião sobre esta questão de ter antecipado por poucos meses esta eleição.

Além de tudo o que o João dizia, há aqui uma razão também maior, que é a questão da lei do asilo e deportação para Ruanda. É uma lei absolutamente impopular no Reino Unido e ia entrar em vigor nos próximos meses, e houve o medo da parte de Sunak de que isso ainda contaminasse mais a capacidade eleitoral do Partido Conservador, que já era baixa. Relembrar que o Partido Conservador, pela primeira vez, teve a defação de quase 100 deputados que não quiseram renovar o mandato porque sabiam que o iam perder e portanto anteciparam-se e disseram: "Não, eu não vou concorrer ao meu lugar outra vez, fica à disposição de outro qualquer deputado que queira ser derrotado antes de eu ser". E portanto, há essa dimensão também aqui, mas esta questão da lei do asilo, que levou à queda de Kemi Badenoch da sua posição quando ela apresentou toda a discussão em torno da deportação para Ruanda, que inclusive vai releia das obrigações internacionais na questão das leis migratórias, porque o princípio do não reenvio, o non-refoulement, está aqui em causa, mas não é caso único na Europa. Nós sabemos que a Itália, por exemplo, está a discutir algo similar com a Albânia, fazer o reenvio dos migrantes que recebe pela via Mediterrânea para a Albânia. Esta lei em particular, quando os aviões começassem a sair do Reino Unido, poderia ser perigosa. É por isso que nos debates do Reino Unido, no último em particular, este foi um dos assuntos centrais. Para Starmer, os aviões param assim que ele for primeiro-ministro e vai haver um redesenhar das políticas ou com regras novas, ou com métricas diferentes. E ele conhece essa matéria. Eu acho que esta foi a razão maior que fez precipitar o governo agora. O governo, de facto, cai de forma tão inesperada que ninguém no partido estava à espera e pode ser uma queda estrepitosa se se confirmarem os números que as sondagens estão a dar e, acima de tudo, se o eleitorado à esquerda se sentir galvanizado para votar e for, de facto, pôr o voto na urna, porque falta ainda perceber se o eleitorado vai, de facto, votar.