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Falamos agora de desporto na Rádio Observador, mas não vamos falar de resultados, de golos ou de classificações. Vamos antes conhecer a nova secção do Observador: "Mais do que Desporto". É um espaço dedicado a histórias de superação, formação, de valores e à forma como o desporto também molda a sociedade. É um projeto que conta com o apoio do BNP Paribas. Para nos explicar esta iniciativa e o impacto que queremos ter na vida dos leitores, tenho hoje comigo o Paulo Farinha, editor de inovação do Observador, coordenador deste projeto, e o professor Carlos Neto, professor catedrático jubilado da Faculdade de Motricidade Humana. É um especialista em desenvolvimento infantil e uma das vozes mais ativas em Portugal também sobre esta importância de brincar e, sobretudo, de brincar na rua. Sejam bem-vindos, muito obrigado pela disponibilidade para estarem aqui no Observador. Paulo, começaria por ti. O que é afinal esta nova secção "Mais do que Desporto" e que tipo de histórias é que procuramos? O que é que vamos poder acompanhar aqui?
Olá, Nelson. Esta secção, e tu explicaste-a muito bem, tenta espelhar a importância que o desporto tem na nossa sociedade. Para além das classificações, para além dos recordes, e numa altura em que falamos tanto de recordes e palmarés, queremos nesta secção, que tem vários formatos, em vídeo, em áudio, em reportagens também com texto e fotografias, queremos mostrar como é que o desporto é importante para formar cidadãos, para fazer desenvolver valores tão importantes na nossa sociedade e, naturalmente, para ajudar no bem-estar físico e emocional dos cidadãos, sobretudo num país em que tem, infelizmente, maus índices de prática desportiva.
Dentro deste projeto há várias rubricas, uma delas é de reportagem, chama-se "Amor à Camisola". Gosto muito do nome, não sei quem inventou, mas parabéns. Queres desvendar aqui alguns dos temas que vão fazer parte destas reportagens, "Amor à Camisola", em particular?
Olha, as reportagens "Amor à Camisola" espelham uma realidade que se vê um pouco por todo o país, que são aqueles pequenos clubes e associações desportivas que são um foco de concentração de talento e de prática desportiva em locais longe dos grandes centros urbanos. Também os há nos grandes centros urbanos, mas para além dos grandes clubes, que têm meios, não diria infinitos, mas muito alargados, estes clubes mais pequenos são a forma de garantir que longe de Lisboa e longe do Porto, e em realidades sociais, demográficas e culturais mais distantes, é possível continuar a praticar desporto, é possível levar os mais novos a fazer exercício físico, é possível garantir que estão longe dos ecrãs, é possível garantir que estão longe de atividades que não queremos tanto que eles estejam associados, e que são uma forma também de construção dessa sociedade. O "Amor à Camisola" são reportagens desses clubes um pouco por todo o país, que se debatem com dificuldades financeiras, dificuldades de pessoal e que vivem muito da carência dos seus dirigentes e treinadores.
Todos nós conhecemos alguns desses projetos. Vamos conhecer muitos mais no "Amor à Camisola". Outra das rubricas do projeto é a "Ciência de Campeões", onde o professor Carlos Neto foi o primeiro convidado. Professor Carlos Neto, muito bem-vindo.
Obrigado por estar aqui.
É um prazer recebê-lo. No seu trabalho e nas suas intervenções, tem alertado para o facto de as crianças viverem hoje, e vou citá-lo: "prisioneiras no tempo e no espaço". O que é que isto significa, na prática, para o desenvolvimento de uma criança?
O que significa é que, de facto, se fizeres uma observação atenta, eles têm agendas muito carregadas, muito pesadas, formatadas, e não têm oportunidades de ter tempo livre, espaço e condições, quer parentais, quer ao nível da escola, de se movimentarem livremente em termos de atividade física e também, poderíamos dizer, da atividade pré-desportiva. Porque de facto, temos dois lados: falta de tempo para brincar livre e depois muita atividade extracurricular com atividades em clubes, associações, etc, mas muito pré-formatadas. Não se fazem campeões à pressa, nem é desejável que se especializem precocemente, de facto, muito cedo. E, por outro lado, na escola, estão uma grande parte do tempo sentadas, com reintervalos, recreios cada vez mais diminutos.
Há uma outra expressão que o professor também usou nesta entrevista à Ciência de Campeões, em que diz que estamos a criar analfabetos do ponto de vista motor. Crianças que, no fundo, não sabem correr, não sabem saltar, não sabem subir a uma árvore. O mundo digital e as tecnologias estão a custar caro à saúde e ao futuro dos mais novos?
Esta dependência digital com que as crianças e jovens estão a viver, de facto, tem um impacto enorme na falta de mobilidade do corpo e, como consequência, essas competências e essas capacidades de desenvolver do ponto de vista motor, percetivo, sensorial, mental, estão a prejudicar a sua saúde no sentido geral e, mais tarde, com preocupações muito centradas, de facto, na saúde emocional e também na saúde social, visto que perdem a oportunidade de ter amigos. A pergunta fundamental que se deve colocar é o que é que as crianças não fazem, e os jovens, por estarem demasiadas horas frente aos ecrãs. Isso tem consequências enormes no seu desenvolvimento motor, no seu desenvolvimento percetivo e consequências inevitáveis na formação desportiva. Chegam muitas vezes Àquela fase de poderem fazer atividades extracurriculares no âmbito desportivo e artístico, em que não têm as competências da infância relativamente desenvolvidas e, por isso, é um obstáculo a que possam ser talentos e que possam ter um desenvolvimento da prática desportiva a níveis adequados ao seu crescimento e à sua maturação.
Brincar no exterior, confrontar-se até com os riscos inerentes a essa atividade é também uma forma de aprendizagem. Nesse sentido, o desporto de formação pode ser um aliado disso mesmo.
Claro. Eu perguntava porque não percebi bem a pergunta.
Estava a perguntar-lhe que brincar no exterior, confrontar-se com esses riscos é também uma forma de aprendizagem?
Como é óbvio. O que acontece é que nas últimas décadas houve uma desconexão de contato com a natureza e essa falta de relação com o ambiente provocou muitas desordens e muitos atrasos nesse próprio desenvolvimento. E, portanto, nós temos urgentemente de definir políticas públicas no que diz respeito ao espaço urbano, ao espaço público, para que crianças, jovens, adultos e idosos possam ter uma maior mobilidade. Repare que nós somos o país mais atrasado do ponto de vista de literacia motora nos países da Comunidade Europeia. Não é por acaso. Não só porque há falta de motivação, mas também porque há falta de tempo, porque os pais vivem a correr, vivem à pressa, vivem, de facto, na vida dos filhos, uma correria imensa, e isso tem consequências inevitáveis na organização dos horários, na organização das atividades e também na relação que existe entre a família, a escola e a comunidade. Por outro lado, as autarquias têm aqui um papel, o poder local tem um papel fundamental para retomar a cidade, a rua, como local de jogo, como local de encontro, como local de amizade. Isso está tudo por fazer, ao contrário do que acontece em muitos países europeus, que já desenvolveram essas políticas há muitos anos. Poder passear, poder andar de bicicleta, poder dançar, poder divertir-se, poder sentar-se, apreciar a natureza, tudo isso está esquecido. Nós vivemos num país extraordinário do ponto de vista de turismo, do ponto de vista de riqueza.
Climático também.
Do ponto de vista climático, mas, no entanto, não vemos a mobilidade das pessoas de uma forma de criarem uma cultura motora, uma cultura corporal adequada. E o sedentarismo é mortal, com todas as consequências que isso tem na saúde pública.
Considera que os pais têm aqui também um papel para incentivar as crianças a mexerem-se mais, a praticarem desporto de formação mais cedo?
O papel dos pais é absolutamente fundamental. Diria mesmo que é decisivo. O problema é que temos precariedade, temos pais que não têm tempo suficiente para dedicar essa possibilidade de dar mais tempo aos filhos, de poderem brincar livremente ou mesmo interagir em brincadeiras, em atividades ao ar livre, dentro de casa, ao pé de casa. Quer dizer, nós temos um país amarrado a um conceito fragmentado daquilo que é a vida da escola, a vida da família e a vida do trabalho. E não há harmonização de políticas públicas em relação a estas três dimensões.
E o tempo todo que as crianças passam na escola é um excelente exemplo.
40 horas, em média.
É um excelente exemplo disso.
E dessas 40 horas, uma grande parte sentados.
Estava a lembrar-me, ao ouvir o professor Carlos Neto, daquelas iniciativas que vamos vendo às vezes nas Câmaras e nas cidades, por exemplo, de ao fim de semana fechar uma determinada rua para que todos brinquem naquela rua. Parece-me sempre que as pessoas estão extremamente felizes nesse momento, mas depois chega segunda-feira e as coisas voltam ao normal.
Queria dizer que já há muito boas experiências do ponto de vista municipal. Já há muitas Câmaras Municipais que fazem um trabalho excelente e, portanto, eu tenho esperança que a curto, médio prazo, haja lá uma luz, que também deve passar por medidas políticas, no sentido de termos uma comunidade muito mais ativa, muito mais saudável e um estilo de vida diferente do que temos atualmente.
E isso também tem que ser fomentado, se calhar, em parte pela escola e pelas próprias cidades, para desenvolver ou devolver também o movimento e o desporto aos mais novos. Paulo, muitas vezes olhamos para o desporto apenas para esta vertente de espetáculo, de alta competição. Qual é a importância de olharmos para o desporto também como uma escola de valores e de formação de cidadãos?
Olha, é total, porque o professor Carlos Neto usou a expressão comunidade e é mesmo. Portanto, a educação de uma criança ou de um jovem faz-se não apenas pelo que ele aprende na escola e não apenas pelo que lhe ensinam em casa, mas pela vivência em comunidade. E dessa comunidade faz parte, naturalmente, a prática desportiva, o treinador, o colega da atividade desportiva, para eles poderem ir juntos para a prática desportiva, para poderem ter conversas com os seus treinadores, para além de serem mais rápidos ou saltarem mais alto, para dúvidas que às vezes é necessário tirar no acompanhamento destes jovens. Não é por acaso que muitas vezes há uma exigência por parte dos clubes e dos treinadores, em particular, para que os jovens e os treinadores que querem ter acesso a isso Saibam quais são as notas que os jovens têm para garantir que estão a fazer um equilíbrio correto entre a atenção que devem dedicar à escola e a atenção que devem dedicar ao desporto. E o mesmo diz respeito a uma série de outros valores, valores de solidariedade, de partilha, de entreajuda, e o desporto é um caminho ótimo para isso. E é também por um outro ponto, que cruza também com as reportagens que nós vamos ter, que ajuda também na coesão territorial. Eu dou muito rapidamente um exemplo de uma reportagem que nós publicámos no lançamento desta nossa nova secção, justamente dentro da rubrica "Amor à Camisola", que é o caso do Grupo Desportivo de Alcoutim. Alcoutim é o concelho do país com menor densidade populacional. E num concelho onde vivem cerca de quatro pessoas por quilômetro quadrado, a canoagem no rio Guadiana tornou-se uma forma também de atrair os jovens e de fomentar a prática desportiva, que depois naturalmente fica prejudicada ou fica mais difícil quando eles chegam a uma certa idade e têm que frequentar um outro estabelecimento de ensino que fica a 40 minutos daquele local. Essa é uma realidade que nós vemos pelo país inteiro. O caso concreto de Alcoutim é paradigmático, porque é o concelho com menor densidade populacional, como eu disse. E este clube em particular é um clube que vive com orçamento, e voltando outra vez ao ponto dos clubes pelo país todo, que vive com orçamento 30 mil € por ano. Com 30 mil € por ano eles conseguem formar. Que é nada, sobretudo quando falamos a nível de formação e de competição, é muito pouco, e eles conseguem fazer esta magia. É uma magia que eles fazem, verdadeiramente.
E é uma história também para descobrir nesta nova secção do Observador, "Mais do que Desporto". Paulo, só para terminarmos muito rapidamente, que impacto esperas que estas histórias e estes debates desta nova secção venham a ter junto também do público do Observador?
O barómetro, que vale o que vale, mas a que nós prestamos atenção hoje em dia na comunicação social, que é a repercussão nas redes sociais, foi ótimo no lançamento desta nossa nova secção. Tivemos muitos comentários, muitas partilhas, muitas pessoas a reverem-se nas palavras do professor Carlos Neto, a reverem-se nas histórias como a dos canoístas do Grupo Desportivo de Alcoutim, a reverem-se também no caso de muitos jovens atletas e amadores, jovens e menos jovens, que recorrem hoje em dia ao equipamento eletrónico, àquelas pulseiras e aos relógios para monitorizar tudo e mais um bocado de atividade física e com os riscos inerentes a isso, porque criou-se uma grande dependência das informações que são daí extraídas. Portanto, nós esperamos que, numa altura em que se fala muito do desporto e num país muito virado e sempre virado para o futebol, e basta abrir um jornal desportivo e ver a quantidade de páginas que são ocupadas pelo futebol em comparação com as modalidades, esperamos que com esta secção nós possamos alertar os nossos leitores e os nossos ouvintes para tudo aquilo que o desporto pode trazer à sociedade em termos de formação, de crescimento, de bem-estar e de formação de valores.
E que é muito mais que uma medalha ou uma taça no final do dia. Fica o convite aos nossos ouvintes para acompanharem esta nova secção no site do Observador, "Mais do que Desporto", e ouvirem também os episódios do programa "Ciência de Campeões", que teve como primeiro convidado o professor Carlos Neto. Um agradecimento também especial ao BNP Paribas, pelo apoio a esta iniciativa, e ao Paulo Farinha e ao professor Carlos Neto por se terem juntado a mim nesta conversa. Muito obrigado a ambos. Muitos parabéns pelo trabalho que têm vindo a fazer e continuação de bom trabalho.
Muito obrigado.