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Tarde de sexta-feira na Rádio Observador. Habitualmente, neste espaço falamos com Alberto Gonçalves e com as suas ideias feitas. Não o temos conosco hoje, por isso vamos abrir aqui um espaço especial para olhar para uma história que foi hoje contada pelo semanário Expresso: dois casais que fizeram transplante de rim cruzado. Contamos a esta hora com a Margarida Ivo, é coordenadora nacional de transplantes, aqui para uma conversa com a Judite França e a Vanessa Cruz.

Bem-vinda à Rádio Observador, Margarida Ivo. Obrigada por estar conosco. Começo por perguntar-lhe como é que se processa esse cruzamento. Há informação em tempo real de um órgão disponível noutro país? O match é feito de forma constante?

Muito boa tarde, muito obrigada pelo convite. Nós temos um programa nacional de doação renal cruzada e igualmente, um programa internacional de doação renal cruzada. Estes dois programas permitem que os pares de dador recetor vivo, que não são compatíveis, possam trocar com outros pares. Não se trata de ser uma informação em tempo real, porque isto são cirurgias programadas, não são cirurgias urgentes, como acontece no caso dos dadores falecidos. São cirurgias programadas. O que acontece é que os pares dador recetor, em Portugal, que já tentaram vários cruzamentos e dentro do país não existe um outro par compatível que entra neste programa de cruzamento, nós entramos nos cruzamentos internacionais, ao abrigo de um acordo de cooperação internacional que temos com a Itália e com a Espanha, no âmbito da South Alliance for Transplants, que permite cruzar não só os pares portugueses, em que não foi possível cruzar dentro dos pares do próprio país, como os pares destes outros dois países e ver se existe alguma compatibilidade imunológica entre os vários dadores e receptores envolvidos nestes cruzamentos. Existe um algoritmo informático construído para isto, que obedece às várias regras imunológicas e assim permitimos ter um grau de compatibilidade destes vários pares e ver quais são os cruzamentos possíveis. É evidente que isto não é só dentro dos cruzamentos, também entram outros fatores, como a idade dos dadores receptores, porque as coisas têm que ser mais ou menos equiparadas, e também o tamanho deles. E portanto, vemos qual é a melhor compatibilidade, qual é a melhor conjugação, para se poder aproveitar o mais possível estes pares e transplantar o maior número de pessoas.

Há um fator também, que é o fator tempo.

O fator tempo entra depois noutra fase. O fator tempo entra no momento da colheita. Por outra razão, porque quando se colhe um rim de um dador vivo, é para transplantar imediatamente no recetor. Quanto mais tempo eles tiverem em preservação, mais qualidade poderá perder a sua função em parte, uma parte da função. Portanto, o tempo de isquemia é limitante relativamente à hora da implantação. Quando se colhe, tem que se implantar. É evidente que um rim pode ficar até 24 horas conservado no gelo, mas está provado que à medida que o tempo aumenta, vai perdendo função. E para conservar todas as suas potencialidades, e tendo em conta que um rim de um dador vivo é um rim muito bom, de uma pessoa absolutamente saudável, também não é sequer ético estar à espera muito tempo para implantar. O que nós fazemos é: toda esta logística tem que ser feita de forma a não perder tempo nenhum, a não ter nenhum atraso.

A Força Aérea entra aqui sempre em ação para o transporte?

Sempre. A Força Aérea consegue garantir a missão no tempo certo, no momento certo, no timing certo. A Força Aérea é que nos permite cumprir estes tempos, estes prazos. É evidente que os outros países utilizam mais companhias comerciais, os charters, etc. Nós utilizamos os voos da Força Aérea, que encaram isto como uma missão, fazem-no muito bem feito e garantem-nos a qualidade, garantem-nos que o tempo é cumprido. É uma missão que é para cumprir, e eles fazem.

Portugal só tem acordo com Espanha e com a Itália. Isso acontece porquê?

Existem outros países da Europa, do Norte, que têm outros programas entre si, mas mais distantes. Também há aqui uma distância geográfica a ter em consideração. Por causa do tempo, lá está, o tempo de isquemia. Portugal tem com Espanha e Itália, porque utilizamos mais ou menos as mesmas regras, o mesmo tipo de alocação. Para já, é com Espanha e Itália, e é evidente que outros países poderão juntar-se quando eles solicitarem e quando estiverem em condições de assinar o mesmo protocolo. Para se entrar neste programa internacional, é necessário que o hospital, o centro hospitalar que entra no programa, faça pelo menos 10 transplantes dador vivo por ano. E Portugal entra com o hospital de Santo António, Centro Hospitalar Universitário de Santo António. Porque é, de facto, o hospital que mais transplantes de dador vivo faz e que cumpre estes requisitos E também tem de haver a colheita do órgão por técnicas minimamente invasivas, nomeadamente por laparoscopia, cirurgia laparoscópica. O que é melhor para o dador. Pelo menos estes dois requisitos têm que ser cumpridos para que um hospital possa entrar neste programa internacional.

Margarida Ivo, quando é que perceberam que havia um casal em Itália que podia estar na mesma situação que o português? E como é que estes casais reagiram a esta notícia?

Existem dois cruzamentos anuais, pelo menos dois, às vezes mais, que é na tal plataforma internacional, onde cada país introduz os pares que quer que entrem em cruzamento, que entrem na tentativa. E quando saem os resultados desse cruzamento, o coordenador de cada país sabe os resultados desse cruzamento e diz: "Olha, há um cruzamento possível para Portugal e Itália", ou dois cruzamentos, ou o que for, que às vezes até podem envolver três países. Depois informamos as respetivas equipes dos hospitais que são os donos desses dadores e colocamos em comunicação as várias equipes de transplante e todos vão alinhando. Voltamos a fazer testes imunológicos no nosso país com os soros, eles lá também, confirmamos tudo isso, confirmamos esta compatibilidade, depois é só marcar o dia da cirurgia e a respectiva logística, que é complexa, como já perceberam.

Como é que reagiram estes casais? Como é que reagiu o casal português?

Quando soube a notícia?

Sim.

Tanto quanto eu sei, ficaram felicíssimos, porque isto é uma possibilidade. A esposa ia dar um rim ao marido. Queria dar um rim ao marido, queria ajudá-lo e não era possível, não era compatível. E é evidente que veem aqui uma oportunidade, uma esperança, uma nova vida. E os italianos certamente devem ter pensado o mesmo. As pessoas ficam felicíssimas. É sair do totoloto.

Imagino que seja uma situação, de facto, muito rara de acontecer.

É uma situação rara. Com o cruzado internacional têm sido raros os cruzamentos. Nós temos feito alguns, poucos. Fizemos o primeiro ainda na pandemia, no dia 12 de março de 2020. Foi uma guerra, foi muito giro. Foi o nosso primeiro internacional. Entretanto, já fizemos um no ano passado com Espanha, e este ano estamos a fazer outro. Fizemos agora este.

As duas cirurgias em simultâneo, como é que é feita essa simultaneidade, essa sincronicidade?

É assim, nós marcamos uma hora. É evidente que a hora tem que ser em contrafluxo de horário. E combinamos entre as duas equipes e as respetivas coordenações nacionais começarem à mesma hora. As colheitas começam à mesma hora e os transportes estão programados para fazer esse transporte. É evidente que poderia dizer-se que um dos transportes é feito diretamente deles para cá e nós para lá. Não, gasta-se apenas um único transporte e a Força Aérea, de facto, tem feito isto com a maior das responsabilidades e a missão perfeitamente cumprida, dá-nos as garantias todas de que as coisas correm bem e nós não hesitamos. É a mesma Força Aérea que nos tem feito isto. Quando forem eles a transportar, numa próxima ocasião, e da mesma forma que trazem, depois levam o rim para o país de origem.

E correu tudo bem. É uma história rara, com sucesso, este transplante cruzado de órgãos entre dois casais. Muito obrigada, Margarida Ivo, por se ter juntado aqui à Rádio Observador. Margarida Ivo, que é coordenadora nacional de transplantes.