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Começa agora o Explicador das manhãs de 360. Esta sexta-feira vamos olhar pra atividade dos hospitais e para os internamentos por Covid-19. O número de novos casos diários de infecção tem aumentado, sobretudo na região da Grande Lisboa. E para falar sobre o tema, convidamos para se juntarem a nós: Nuno Veneza, diretor clínico do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, Luís Pinheiro, diretor clínico do Hospital de Santa Maria e Nelson Pereira, diretor da Unidade Autônoma de Gestão da Urgência e Medicina Intensiva no Hospital de São João. A moderação, como sempre, é da Carla Jorge Carvalho, a quem se junta o Paulo Ferreira e o Júlio Magalhães, em direto do Porto. Carla. Muito bom dia, obrigada por terem aceitado estar no Explicador desta manhã. No último boletim da DGS de ontem, cerca de 60% dos novos casos de Covid-19 são registados em Lisboa. Luís Pinheiro, isso de alguma forma já se reflete nos internamentos no Hospital de Santa Maria?
Bom dia a todos e muito obrigado. Tem se vindo a refletir ao longo dos últimos dias, nomeadamente nesta semana e na semana anterior, com um crescimento paulatino, embora naturalmente ligeiro, do número de internamentos, seja em unidades de cuidados intensivos, seja em enfermaria, naturalmente com valores muito abaixo daquilo que foram os picos atingidos na última fase da pandemia. Mas paulatinamente tem vindo a aumentar a pouco e pouco o número de internamentos. Estamos neste momento com 25 doentes internados, oito dos quais em cuidados intensivos, sendo que é um valor muitíssimo abaixo dos 332 que tivemos, por exemplo, em fevereiro, cerca do dia 10 de fevereiro. Mas este caminho paulatino e relativamente sustentado de aumento dos internamentos, leva a que vamos revendo e vamos aumentando e preparando a nossa capacidade de internamento para doentes Covid, para que a resposta se mantenha sempre sem qualquer interrupção.
Luís Pinheiro, a escala então é muito diferente agora do que era em janeiro. E o perfil dos internados também é diferente? São mais jovens agora, por exemplo, do que eram?
De fato, embora naturalmente os números de agora são muitíssimo mais baixos do que naquela altura, portanto, a amostra é uma amostra que é difícil de comparar em números absolutos, mas a tendência é para termos agora internados doentes mais novos. Realmente, se por exemplo, se disser que em fevereiro 12% dos doentes tinham menos de 50 anos, neste momento, esse número é de 39%. Portanto, o número de doentes mais novos é em maior quantidade. Por exemplo, se disser também que a média etária agora é de 55 anos, quando em fevereiro era de 71. Portanto, temos agora doentes mais novos, que provavelmente também percebe daquilo que é a campanha de vacinação, que tinha começado por mais idosos e que agora já está a atingir também outros grupos etários. É um perfil diferente, é verdade.
Um perfil diferente e de não vacinados?
Maioritariamente não vacinados, até porque grande parte destes doentes são os doentes mais novos e, portanto, não vacinados até agora. Nas próximas semanas é provável que mude esse perfil, até porque estaremos a atingir agora também vacinação em grupos etários mais novos.
Claro. Estamos numa situação muito diferente daquela que tivemos na última vaga, mas com este registro de um crescimento paulatino, como disse o Luís Pinheiro, pelo menos em Santa Maria. Nelson Pereira, bom dia. Como é a situação no Hospital de São João?
Muito bom dia. A situação é tranquila, muito estável nas últimas semanas. Para lhe dar alguns números, nós neste momento temos 10 doentes em cuidados intensivos, dos quais três são doentes ainda com internamentos muito prolongados, ainda da última vaga. Nas últimas duas semanas internamos cinco doentes em cuidados intensivos, que é um número relativamente baixo e comportável, em linha com uma incidência de novos casos na região do Porto e de toda a área de influência do Estado de São João, que é relativamente baixa. Relativamente ao perfil etário, efetivamente confirmo aquilo que o meu colega de Lisboa já transmitiu. Estamos a falar de doentes efetivamente mais novos, que são aqueles doentes que não estão protegidos ainda pelo processo vacinal.
E com situações clínicas graves?
Sim. Aliás, diria que no nosso hospital, neste momento, até há uma mudança do perfil de internamento. Nós temos mais doentes internados em cuidados intensivos do que doentes internados em enfermaria geral. Isto tem a ver efetivamente com a progressiva proteção da população mais velha, que tem mais comorbidades e, portanto, tende a ter necessidade de ficar internada, não só pela patologia em si, pela Covid, mas também pela descompensação de outras doenças. E como estamos agora a falar de pessoas com doença Covid grave, que estão na ordem dos 40, 50 anos de idade, são pessoas com menos comorbidades e portanto, temos aqui uma nova situação que é: ou têm doença muito grave e são necessariamente internados em ambiente de cuidados intensivos, ou a maior parte deles têm uma doença que não justifica internamento. Portanto, daí um pouco esta mudança de paradigma, termos mais doentes internados em cuidados intensivos do que em enfermaria geral.
Há aqui uma mudança clara em relação ao que assistimos nos primeiros meses do ano, sobretudo. Nuno Veneza, bem-vindo também a este Explicador. Qual é o impacto que a pandemia está a ter, neste momento, no funcionamento do Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra?
Bom dia. O impacto dos doentes com Covid no funcionamento não é significativo. Nós neste momento temos 19 doentes internados em enfermaria e cinco doentes em cuidados intensivos. À semelhança de Lisboa e do Porto, a média etária também é mais baixa. A média etária dos doentes internados em cuidados intensivos é de 53 anos e dos doentes internados em enfermaria, aí a diferença ainda é maior, é de 54 anos, quando aqui há uns tempos era à volta dos 70, 75 anos. Relativamente aos doentes em cuidados intensivos, temos uma situação que, como somos centro de referência para grande trauma e para patologia neurocirúrgica, temos internados destes cinco doentes, dois dos doentes
São COVID, mas a patologia que levou ao internamento não tem a ver com COVID. Os dois são politraumatizados graves, com traumatismos cranioencefálicos graves. Portanto, vão aparecendo muito estes doentes, doentes sem doença COVID, mas em que foi detectado o COVID e que têm que ser internados nas enfermarias dedicadas. Relativamente ao impacto, o que se tem verificado agora, e se calhar um pouco à semelhança dos outros sítios, é que comparativamente ao ano passado, nomeadamente em termos do serviço de urgência, a afluência ao serviço de urgência esteve muito baixa o ano passado e agora já estamos a atingir os valores dos anos normais e portanto, já temos médias de cerca de 450 a 500 doentes por dia no serviço de urgência e 40 doentes na área dedicada ao COVID. Desses 40, apenas um ou dois serão positivos. Portanto, estamos um bocadinho longe da situação que tivemos no passado.
Luís Pinheiro e Nelson Pereira, era uma pergunta para ambos, para ver se há alguma relação ou não nestes casos. Ao doutor Luís Pinheiro perguntava se os festejos do Sporting estão a ter algum reflexo agora nestes novos números e perguntava ao doutor Nelson Pereira se o que aconteceu no fim de semana da Liga dos Campeões no Porto, se ainda é cedo para se avaliar se isso pode vir a ter algum impacto ou não no futuro, no Porto começar a haver também uma subida de novos casos como está a acontecer em Lisboa. Eu não sei se é possível, se estes dados são efetivos.
Relativamente à questão, nós do ponto de vista hospitalar, falo ao Luís Pinheiro, não teremos é uma aferição sobre a relação ou não com os festejos do Sporting ou com outros eventos. A única relação que poderemos estabelecer, mais do que a nível hospitalar, é do ponto de vista global e regional, alguma relação temporal com aquilo que é a evolução da história natural da doença ao longo do tempo. E portanto, estaremos neste momento a assistir desde esta semana e a semana passada, nomeadamente mais esta semana, um aumento do número de internamentos, seja no nosso hospital, seja na região, também com muitos casos graves, que são agora aqueles que predominam no internamento, seja na enfermaria e certamente em cuidados intensivos. Portanto, do ponto de vista clínico e hospitalar, essa relação nós não a podemos estabelecer, terá que ser naturalmente vista do ponto de vista mais global, através dos inquéritos epidemiológicos que são feitos pela DGS e pela saúde pública, e a relação temporal que possa existir em termos de evolução da história natural da doença. Portanto, estaremos agora cerca de duas, três semanas depois desse momento e estamos agora a assistir, por um lado, aos internamentos, mas também, como vemos a nível nacional e regional, a um aumento do número global de casos. Se há ou não há relação direta com esses acontecimentos. Essa é uma avaliação epidemiológica que terá que ser feita numa perspetiva mais global e não especificamente hospitalar. Na nossa análise clínica, quando temos os doentes internados, não temos estabelecido especificamente essa relação com esses eventos, mas como digo, essa aferição é uma aferição que precisa de maiores números e, portanto, só numa perspetiva mais regional e de saúde pública é que pode ser tirada uma conclusão efetiva sobre a relação entre uma coisa e outra. O que é um facto é que estamos a assistir hoje, agora, não só a um número de casos particularmente elevado, comparando com a semana passada e duas semanas atrás, seja de internados e não internados, mas também com o número de internamentos que está, volto a dizer, acima do que era há duas semanas atrás, mas também números muitíssimo mais baixos do que aqueles que foram no maior pico. Temos neste momento 8% do número de internamentos que ocorreram no pico de fevereiro. Portanto, apesar de tudo, o panorama hospitalar, sendo diferente do que era há duas semanas, é claramente muito mais estável do que aquele que era no pico anterior, felizmente.
Claro. Portanto, nada a ver. Nelson Pereira, relativamente à questão sobre uma possível relação entre a final da Champions no Porto e aumento de internamentos no São João, consegue identificar essa relação?
Não, de todo. De resto, o primeiro sinal que temos quando há um recrudescimento da incidência ao nível local ou regional, é o número de recursos ao serviço de urgência, com doentes com queixas respiratórias. E nós temos estado nas últimas semanas com o número muito estável. Portanto, não nos parece, neste momento, que haja nenhuma evidência disso. Obviamente, vimos com preocupação as situações que se relataram naquela altura, mas até este momento, até porque provavelmente foram contactos muito intrínsecos ao grupo de pessoas que visitaram a região do Porto, provavelmente não vai haver um impacto significativo desse facto.
Muito bem. Nuno Veneza, tem havido um grande debate público entre especialistas sobre a matriz de risco, se deve ser ou não alterada, se deve passar a incluir outros indicadores ou indicadores diferentes daqueles dois que estão a ser considerados. Qual é a sua opinião sobre isto?
Eu acho, sim, que deve ser alterado. Faz sentido ser alterado. Eu acho que um dos fatores que devia ser considerado é a pressão nos hospitais. Esse, sim, é que é o grande problema, é a pressão no SNS, quer internamento, quer na urgência, quer cuidados intensivos. Portanto, acho que esses indicadores da necessidade de internamento, a necessidade de recorrer ao serviço de saúde deviam ser contidos em conta na matriz do risco.
E portanto, quando agora vamos tendo noção, e olhando para os números de ontem, em que tivemos quase, ainda não chegámos à barreira psicológica dos quatro dígitos, mas já estamos perto dos mil casos diários. Esse número mostra pouco se não fizermos aquilo que estamos a fazer aqui esta manhã, que é perceber como é que os hospitais estão a conseguir ou não responder às situações mais graves.
Exato, sim. É isso mesmo. Porque à medida que se for desconfinando, as pessoas vão interagindo mais umas com as outras, vai havendo mais circulação de pessoas, também vai havendo mais testes. É expectável que haja, ou que vá havendo, enquanto não houver uma porcentagem mais significativa ainda da população vacinada, um aumento no número de casos. Agora, o que realmente nos interessa é saber se esse aumento no número de casos se traduz numa procura ao serviço de saúde. Isso, sim, será, a meu ver, o ponto mais importante e aquele que poderá causar mais preocupação.
Luís Pinheiro, este possível indicador é importante porque nos disse logo no início que tem havido uma subida paulatina, foi a expressão que utilizou, uma subida paulatina ainda muito longe dos níveis que temos visto. Está preocupado com esta subida paulatina? Ela pode paulatinamente tornar-se mais preocupante?
Mais do que preocupado, eu estou, neste momento, numa fase de alguma expectativa e aquilo que eu até designei em alguns contextos de uma espécie de pré-apreensão. Ou seja, no fundo, claramente os números são muitíssimo mais baixos do que já foram. Aqueles que nessa fase comprometeram a capacidade de resposta a outro tipo de patologias, porque praticamente 60% dos hospitais chegaram a estar alocados a doentes COVID. Estamos longíssimo desses valores neste momento e estamos neste momento também com uma atividade global na área não-COVID de 100% ou inclusive acima daquilo que era a fase pré-pandemia, o que é excelente e tem que continuar, precisamente porque essa resposta tem que continuar a ser dada a um conjunto de doentes que precisam dos nossos cuidados. Portanto, estaria numa fase que eu chamaria um pouco mais cautelosamente de pré-apreensão, precisamente porque há algumas variáveis que ainda não são conhecidas. Sabemos quantos doentes são infetados, sabemos quantos doentes estão internados, mas há um conjunto de novos dados e de novas variáveis, nomeadamente do ponto de vista do peso que possam ter as variantes, também novas variantes no grupo de novos casos e a característica clínica desses mesmos quadros de infecção, que poderão ser diferentes daqueles que eram com as variantes anteriores, nomeadamente aquela inglesa que acabou por ser praticamente 80, 90% dos casos diagnosticados. Portanto, eu diria que é importante aferirmos não só os clássicos indicadores da matriz de risco que foi definida, incorporar na decisão, seja política, seja de saúde, o peso e a carga que está a ser colocada sobre os hospitais naquilo que seja o espaço a dar no desconfinamento ou não. Incorporar, se é como uma matriz de risco, se é através de uma tomada de decisão relativamente aos passos a dar, isso quem de direito o decidirá. E trazer também para aqui, no raciocínio de saúde pública e clínico nos hospitais, o conhecimento sobre quais as variantes que estão em predomínio e as características clínicas desses mesmos casos poderão eventualmente ser diferentes daqueles que surgiram com as variantes anteriores. Se tivermos, eventualmente, uma maior transmissibilidade com estas novas variantes, isso acarreta a necessidade de alguma aferição das medidas de saúde pública e, por outro lado, além da transmissibilidade, se se verificar que elas possam ser eventualmente mais graves, portanto traduzindo quadros clínicos mais graves e requerendo um maior recurso hospitalar, isso também terá que ser incorporado no processo de exame de análise clínica e de saúde pública para que se possa antecipar no nível global a resposta. Aquilo que nós estamos aqui a fazer é preparar a nossa resposta hospitalar para podermos receber os doentes COVID que precisam e mantendo até ao limite a resposta não-COVID, que está neste momento em pleno.
Nelson Pereira, a mesma questão sobre a matriz de risco. De facto, a situação hospitalar deve ser incorporada e tida em conta naquilo que vão sendo as decisões políticas e administrativas sobre confinamento e desconfinamento?
Eu diria que há aqui dois níveis de análise. Ao longo de toda esta pandemia, este mais de ano e meio que nos levou até este momento, a principal preocupação foi a capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde. E portanto, desse ponto de vista estrito, é óbvio que o número de doentes internados e o número de doentes internados em cuidados intensivos e a porcentagem da carga de pressão sobre os hospitais tem obviamente que entrar na matriz de risco. Mas diria que há aqui uma outra linha de atenção que tem a ver com as questões sociais e econômicas. E portanto, como se viu, houve um aumento de incidência em Portugal que não teve reflexo nenhum na capacidade de resposta dos hospitais e, no entanto, por exemplo, com a decisão do Reino Unido relativamente às pessoas que visitavam Portugal, teve aqui um impacto enorme do ponto de vista econômico e social. E portanto, é preciso, penso eu, nesta altura, distinguir os dois níveis de vigilância: o da resposta do SNS claramente tem que introduzir na matriz a capacidade de resposta dos hospitais, que vai ser muito maior, porque a porcentagem de população vacinada é também muito elevada, das pessoas mais vulneráveis. Mas a verdade é que ainda há uma porcentagem significativa de pessoas com mais de 50 e mais de 65 anos, que ainda foram ficando para trás, certamente por motivos vários. E é importante que nos concentremos também em repescar estas pessoas que ficaram para trás, porque ainda o nosso principal objetivo, o nosso principal foco, tem que ser a proteção da vida das pessoas e são estas as pessoas que estão em maior risco neste momento.
Nuno Venêz, esta questão é importante e tem sido uma das preocupações do Serviço Nacional de Saúde, repescar as pessoas que ficaram para trás. Em Coimbra, isso já está a ser feito de uma forma expressiva?
Não tenho dados concretos sobre isso, tem a ver com os cuidados primários. A nível hospitalar, dos funcionários, estão todos vacinados. Agora, nos cuidados primários, essa repescagem tem que ser questionado a quem de direito, que não é propriamente o hospital.
Mas ao nível do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra, as consultas externas e as cirurgias estão a ser recuperadas?
Sim, estão. E até, como já disseram os colegas, até está havendo um número maior, justamente para haver uma retoma. Portanto, a atividade está a mais de 100%.
O que significa que está a haver também uma maior confiança nos cuidados de saúde que se perdeu no início da pandemia.
Sim, e sobretudo isso se vê na urgência. Como já disse anteriormente, o número de admissões, o número diário de urgências já está em níveis pré-pandemia. Portanto, as pessoas neste momento têm confiança e isso é notório.
Muito obrigada. Nuno Venêz, Luís Pinheiro e Nelson Pereira, estivemos aqui no Explicador a olhar para a atividade dos hospitais, agora que o número de casos de COVID aumenta gradualmente, ainda não se reflete de forma preocupante nos hospitais. Um bom dia e bom fim de semana.
Muito obrigado e bom dia.
Obrigado.
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