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Se só agora ligou o seu rádio, seja bem-vindo no Explicador de hoje. É nosso convidado o diretor do Serviço de Medicina Intensiva do Centro Hospitalar de São João, José Artur Paiva. Bom dia e muito obrigada por se juntar a nós.

Muito bom dia.

Em março, numa altura em que a epidemia estava a desenvolver-se, foi nomeado diretor do programa para a prevenção e controle de infecções e de resistência aos antimicrobianos. José Artur Paiva, como se costuma dizer, trocando por miúdos, que programa é este e no que consiste exatamente?

Como sabe, nós temos à escala mundial um problema de emergência e transmissão da resistência das bactérias aos antibióticos. Isto é, sabemos que a exposição a um antibiótico, a bactéria é capaz de desenvolver mecanismos adaptativos que a tornam resistente a esse antibiótico ou até a outros. E depois, se houver, sobretudo, dificuldades de controle e prevenção de infecção, essa bactéria multirresistente pode transferir-se de um doente para outro doente e assim aumentarmos a carga global de bactérias resistentes. Não é um problema português, é um problema à escala mundial, como lhe digo, mas é algo que preocupa significativamente porque põe em risco a efetividade dos antibióticos. Como sabe, os antibióticos são hoje em dia essenciais à prática da medicina, da medicina humana e da medicina veterinária, e são uma arma que temos há não muito tempo, há cerca de 100 anos ou menos de 100 anos. E à medida que estas bactérias se vão tornando mais resistentes, nós corremos o risco de perder a efetividade dos antibióticos.

Sim, a natureza anda mais depressa do que a ciência, é isso?

As bactérias são realmente seres muito adaptativos. Nós temos dois tipos de resistências: as resistências inatas, isto é, há bactérias que são naturalmente resistentes a alguns antibióticos. Isso é um fenômeno natural, portanto, é um fenômeno que não podemos regular, mas sabemos que, para além disso, têm um instinto de sobrevivência muito significativo e, portanto, quando se veem perante uma carga de antibióticos, uma exposição a antibióticos, são capazes de desenvolver mecanismos adaptativos. Alguns desses mecanismos adaptativos são extremamente transmissíveis entre bactérias, digamos assim, da mesma família, entre bactérias iguais, mas também, curiosamente, entre bactérias parecidas, não exatamente da mesma família. Há partes, há pedacinhos de pequenas proteínas que são transmitidas entre bactérias e, portanto, há um risco muito grande de aquisição da resistência.

E essa resistência ir passando. Deixe-me só, entretanto, a sua nomeação para este programa foi em março, estávamos ali a começar a questão da epidemia. Até que ponto é que este contexto extraordinário, em que entrámos entretanto, tem permitido começar a desenvolver esse trabalho de prevenção ou ficou tudo assim um pouco em standby?

Ora bem, o programa é completamente independente da COVID-19.

Não tem nada a ver, exatamente.

Como sabe. Portanto, é um programa que foi criado em 2013 e que resultou da fusão de dois programas anteriores que já existiam na Direção Geral de Saúde, o programa de controle de infecção e o programa da resistência aos antibióticos. Essa fusão é muito importante porque reflete exatamente aquilo que eu lhe disse. Por um lado, a carga de bactérias resistentes tem dois vetores: a emergência da resistência, que tem como determinante principal a exposição aos antibióticos, e depois a transmissão destas bactérias entre pessoas, o que multiplica a sua carga, ou a sua quantidade, digamos assim. E, portanto, a fusão do programa foi uma boa notícia, porque permitiu dar um caráter holístico a esta resposta. É verdade que a COVID-19 requisitou muitos de nós para a resposta à COVID-19, tanto do ponto de vista da nossa atividade clínica, como é evidente, mas também do ponto de vista de parceiros técnicos que temos que dar centralmente nesta matéria.

José Artur Paiva também esteve nesta situação da pandemia, é também membro da Comissão de Acompanhamento da Resposta Nacional em Medicina Intensiva para a COVID-19. Neste momento, em Portugal, os números da pandemia já estabilizaram-se, se é que podemos dizer assim, mas continuam sem descer, principalmente na região de Lisboa. Por que razão é que isto continua a acontecer?

Ora bem, porque temos clusters. Temos pequenos surtos que vão aparecendo e temos um inimigo que é complicado porque tem características muito específicas. Por um lado, uma transmissibilidade mais elevada do que outros vírus respiratórios e, por outro lado, também não podemos esquecer esse facto numa percentagem pequena de casos, mas que não deixa de ser significativa, tem também uma letalidade que não é desprezível. Portanto, ele coloca problemas em duas áreas: a transmissibilidade e a letalidade. A capacidade de contermos estes clusters é absolutamente fundamental para evitarmos uma segunda onda. Portanto, nesta altura em que estamos, digamos assim, numa fase endêmica após a onda primária, ou se quiser, estamos nesta fase que se chamam de pequenas réplicas após a onda primária, a contenção dos clusters para evitar que se transformem em transmissão comunitária aberta é absolutamente essencial.

E isso faz-se com o acompanhamento das cadeias de transmissão, é isso?

Isso faz-se com o acompanhamento muito grande das cadeias de transmissão e também com outras medidas, nomeadamente com a capacidade de formular políticas de apoio social Que permitam que este confinamento, que esta quarentena destas pessoas seja realmente possível de ser feita.

O José Artur Paiva há pouco referiu que isto seriam réplicas, ondas de choque depois da primeira. Não estamos ainda numa segunda vaga?

Não, não estamos numa onda secundária. Nós não temos um crescimento exponencial de casos, como é típico de uma onda. Portanto, o tal R, que nós falamos muitas vezes, não está com características de onda secundária, de maneira nenhuma. Mas é evidente que não podemos afastar a possibilidade de isto ocorrer e temos uma preocupação significativa com o próximo outono-inverno, evidentemente.

E precisamente sobre o outono e o inverno, e olhando para isso, que pode ser uma segunda vaga, principalmente porque pode nessa altura surgir uma maior preocupação, porque pode coincidir com a gripe comum. Podemos ter um outono e um inverno em que a gripe comum e a Covid-19 coincidem. Como é que as autoridades de saúde se podem preparar para essa situação?

Olha, eu poria ênfase em três aspetos, digamos assim, ou talvez em quatro. O primeiro é o da prevenção. Com ou sem onda secundária, nós vamos ter a coabitação de mais um vírus com os outros vírus normais da época de outono e inverno. O mais conhecido é, evidentemente, o vírus influenza, o vírus da gripe sazonal, mas outros há, nomeadamente o vírus sincicial respiratório, mais típico das idades dos mais pequeninos. Portanto, há vários vírus e este ano vamos ter mais um. Mesmo que seja nesta endemia que estamos a ter agora, ele vai estar cá conosco. Isso coloca-nos questões muito significativas. E em termos de prevenção, é muito importante, e isso já está a ser regulado e decidido pelas autoridades de saúde, que nós tenhamos uma vacinação para a gripe muito efetiva e muito alargada e com um grau de compliance e de adesão da população muito significativo. E esta vacinação para a gripe é extremamente importante para reduzir o número de casos e sobretudo, a gravidade dos casos de gripe. E quando falo da adesão das pessoas à vacinação antigripal, estou a falar do comportamento social, que é outro fator importantíssimo da prevenção. Nós temos que continuar a ter uma atitude de envolvimento permanente do cidadão neste processo. Esta batalha, como qualquer pandemia, só é ganha com o envolvimento do cidadão e isso implica uma comunicação muito clara, muito transparente, com dados muito evidentes e muito perceptíveis e explicados ao cidadão, de forma que ele seja convocado para uma participação nesta batalha. Este envolvimento do cidadão quer dizer também o envolvimento das autarquias, das câmaras, das estruturas de apoio social. Portanto, quando se fala em resposta em saúde, é bem mais do que uma resposta em saúde, ou se quiser, tem que ser uma resposta em saúde encarada neste sentido holístico. E o nosso comportamento, o comportamento de cada um de nós, a capacidade de criarmos a toda a gente a adesão ao comportamento e a vontade de o ter, é absolutamente essencial para que as estratégias de prevenção funcionem. Portanto, na área da prevenção, a vacina antigripal e este envolvimento permanente do cidadão neste propósito.

Sobre isso e sobre aquilo que vai sendo recomendado à população. O José Artur Paiva foi o responsável pelo parecer que recomendou o uso de máscaras em Portugal. Acha que esse uso devia passar a ser obrigatório em todos os espaços, inclusivamente na rua, como acontece já noutros países?

Acho que ainda não há razão e evidência para isso e penso que não. Reforçava aquilo que sempre disse, como sabem, e é que Portugal aderiu de uma forma muito significativa, diria eu, que é a utilização de máscara em ambientes fechados onde está mais do que uma pessoa e sobretudo em ambientes fechados mal ventilados, é absolutamente essencial como uma medida adicional a todas as outras, não em vez delas, mas também não com menos importância que as outras, exatamente na mesma situação em que é importante o distanciamento físico, em que é importante a etiqueta respiratória, o que é importante a higiene das mãos. Portanto, o uso de máscara é realmente um elo fundamental desta cadeia de prevenção e de responsabilização do cidadão no percurso da pandemia. Não vejo ainda razões, não há qualquer evidência, penso eu, para determinar que haja uso de máscara em espaços abertos, a menos que nesses espaços abertos não seja possível manter o distanciamento físico. Sempre que houver uma atividade, como sabe, deve ser evitada, em que o distanciamento físico é impossível, aí, evidentemente, a máscara será importante.

Mas continua a ser importante a utilização de máscaras. José Artur Paiva, tem uma experiência de muitos anos a dirigir o serviço de urgências do Hospital de São João. Mas olhando novamente para esta situação da gripe comum e da Covid-19 e da possibilidade de coincidirem no próximo inverno, como é que pode ser feita nos hospitais a distinção entre doentes com gripe e Covid-19? Afinal, estamos a falar de doenças e de vírus que apresentam depois sintomas muito semelhantes. À chegada a um serviço de urgência ou à chegada a um hospital, como é que pode ser feita a distinção de doentes?

Pergunta muito importante que me faz. O segundo lado dessa resposta que estávamos a falar do plano outono-inverno, o primeiro que falamos foi a prevenção, o segundo, diria eu, é o diagnóstico E é absolutamente relevante que nós tenhamos acesso a testes de diagnóstico rápido.

Mais rápido do que temos agora?

Nós temos, como sabe, já há testes para o SARS-CoV-2, portanto para o vírus que provoca o Covid-19, que permitem uma resposta em 45 minutos. Mas que ainda não estão acessíveis à escala nacional. Nós aqui no Centro Hospitalar São João temos, e isso foi uma milestone na resposta à pandemia, porque como calcula, a decisão ou diagnóstico é tomada muito mais precocemente, o que quer dizer que a eficiência da resposta aumenta e se diminui grandemente as áreas cinzentas, isto é, temos um circuito doente Covid-19, um circuito doente não Covid-19 e reduzimos ao mínimo o circuito do doente suspeito, que ainda não sabemos se é ou não Covid-19. Portanto, isto em termos de eficiência de resposta e de segurança de circuitos, é extremamente importante, mas eu referia-me a termos esta capacidade de diagnóstico rápido também para a gripe. E até para outros vírus respiratórios. Como lhe disse, realmente gripe é o mais prevalente, mas há outros que podem causar doença, cite-lhe o sincicial respiratório. Portanto, termos capacidades de teste de diagnóstico que existem no mercado e que permitem um diagnóstico rápido que distinga entre estas várias etiologias virais versus outras causas de pneumonia e de infecção respiratória, vai ser extremamente determinante para criarmos circuitos fluidos e claros, diminuindo as áreas que têm que ser cinzentas, isto é, de doente que ainda não tem diagnóstico e, portanto, permitindo uma gestão de recursos muito mais eficiente e uma segurança de circulação também muito maior. Portanto, a ênfase nesses testes de diagnóstico rápido tem que ser uma aposta para este plano outono-inverno.

É possível ter esses testes de 45 minutos em todo o país? E estamos mesmo a terminar, José Artur Paiva.

Tem que ser um propósito, se não for um propósito, não é possível. Só poderá ser possível se for um propósito. Já agora, permita que, já que estamos a terminar, que muito importante também para a resposta, é apostarmos em teleconsulta para os doentes menos graves, é termos uma capacitação da saúde pública no sentido de follow-up destes clusters e dos inquéritos epidemiológicos e é realmente avançarmos com a capacitação da medicina intensiva, porque sabemos quanto melhor o acesso à medicina intensiva, menor a letalidade desta doença Covid-19 e com gripe e Covid-19, vamos precisar mesmo desse aumento de camas que foi proposto pela Comissão e que o ministério está a implementar nesta altura.

O diretor do Serviço de Medicina Intensiva do Centro Hospitalar de São João, José Artur Paiva, no Explicador de hoje. Muito obrigada pelos seus esclarecimentos e por ter estado conosco nas manhãs 360.

Eu é que agradeço. Muito obrigado.

Muito obrigada, um bom dia pra si. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.