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Explicador da Rádio Observador, em pleno mês de férias, os tempos médios de espera nas urgências, sobretudo na região de Lisboa, voltaram a subir. Por exemplo, no Barreiro, para uma primeira observação, ultrapassaram hoje as 11 horas na urgência do Barreiro. Os considerados urgentes, pulseira amarela, teriam de aguardar cerca de seis horas. No Hospital de Santa Maria, em Lisboa, o tempo médio de espera para a primeira observação ultrapassava as sete horas ao início da manhã. Os doentes com pulseira amarela teriam de aguardar sete horas. Em Loures, as coisas estavam um pouco melhor, duas horas e meia. O Amadora-Sintra não tem dados disponíveis, o sistema está a ser reformulado e, por exemplo, no Garcia de Orta, a espera média para doentes urgentes também ultrapassava as sete horas há pouco e segundo o portal do SNS. Em Faro, o tempo de espera para pulseira amarela era de cerca de duas horas e de oito horas para as pulseiras verdes. É nosso convidado Xavier Barreto, presidente da Associação de Administradores Hospitalares. Bem-vindo, Xavier Barreto. Esta situação encontra explicação numa maior afluência de utentes ou nas férias dos profissionais de saúde. Afinal de contas, estamos naquela semana em que o país está a menos de meio gás.
Boa tarde, muito obrigado pelo convite. Eu diria que é um bocadinho dessas duas coisas e de outras. Portanto, há vários fatores que estão a contribuir para esta falha nos serviços de urgência. Por um lado, de facto, nós temos algumas falhas nas escalas. Uma parte importante das escalas dos serviços de urgência são garantidas por prestadores de serviços, geralmente chamados tarefeiros, e eles, como sabemos, estão menos disponíveis para trabalhar durante os meses de verão, particularmente durante o mês de agosto e, portanto, há falhas. E quando temos uma equipa onde está previsto estarem cinco médicos, por hipótese, e só estão três, obviamente que isso tem consequências na rapidez com que se atendem os novos doentes. Portanto, há problemas de recursos humanos. Há problemas também de procura. Repare, nós sabemos que a população do país aumentou muito nos últimos dois, três anos. Em algumas regiões do país, temos também fluxos por conta do turismo e, portanto, há regiões do país que são muito pressionadas durante este mês por conta destes movimentos. Mas para além disso, há uma questão nova que nós não tínhamos no passado e que temos cada vez mais, que são camas ocupadas com doentes que não deviam estar e que acabam por colocar um problema grave aos hospitais em termos do circuito dos nossos doentes.
Os internamentos sociais, não é?
Exatamente, aquilo que geralmente chamamos de internamentos sociais ou internamentos inadequados. Quando temos um doente na urgência que tem que ser internado e não temos onde o internar, não temos camas, esse doente acaba por ficar no serviço de urgência, às vezes, dias. Portanto, acaba por sobrecarregar mais as equipas de serviço de urgência e isso traduz-se depois também no menor desempenho da equipa, digamos assim, a atender novos doentes. Não é um fenómeno só português, deixe-me dizer, é um fenómeno que está a acontecer um pouco por toda a Europa. Se pesquisarem notícias sobre problemas nos serviços de urgência, estão a acontecer um pouco por toda a Europa. E o principal determinante, a principal diferença em relação aos anos anteriores, é esta dificuldade em lidar com estes doentes, com estes internamentos sociais, pessoas que vão perdendo a autonomia, que não conseguem regressar a casa e acabam por ficar no hospital e, portanto, está a ser um desafio enorme para todos os sistemas de saúde e, em concreto, para os hospitais.
E com o envelhecimento da população, não vamos para melhor nesse capítulo, não é?
Com certeza. E, portanto, nós não nos preparamos para isto. A rede de cuidados continuados continua a ser muito curta. Nós tínhamos um plano para aumentar em 50%. Estava previsto fazer 5000 camas no âmbito do PRR, ficou a meio ou a menos de meio. Precisamos de muito mais lares, portanto, muito mais estruturas iniciais para pessoas idosas e, acima de tudo, precisamos de mais apoios para as pessoas, apoios a cuidadores informais, cuidados domiciliários para que as pessoas possam regressar às suas casas. Muitas vezes isso é determinante. Aquele apoio no momento de transição é muito importante e nós, de facto, não conseguimos dar a toda a gente. E, portanto, falta uma estratégia clara, coerente e, eu diria, mais persistente, mais consistente ao longo dos anos. Isso não tem acontecido, infelizmente.
Mas em relação às escalas, quer dizer, as pessoas marcam as férias, salvo erro, fevereiro, março, não é possível acautelar, ter um reforço já previsto nessa altura?
Não, as equipas são curtas, não podemos negá-lo. As equipas são curtas e as pessoas têm que tirar férias em algum período do ano.
Claro.
A verdade é que nós, no passado, tínhamos períodos de picos de procura, e eram muito marcados, por exemplo, no inverno. Mas o que temos visto cada vez mais é que esses picos se distribuem ao longo do ano. Portanto, nós temos assistido cada vez mais a problemas nos serviços de urgência ou problemas em vagas de internamento ao longo de todo o ano. E, portanto, já não há propriamente uma altura boa, uma altura fácil para as pessoas gozarem férias. Elas são distribuídas de forma a causarem o mínimo de dano possível. É muito frequente, por exemplo, nós termos equipas que gozam férias todas no mesmo período para podermos fechar um bloco operatório, porque isso é mais eficiente e para os hospitais é mais conveniente, em alguns casos, fazer as equipas gozar férias todas ao mesmo tempo. Portanto, tudo isso é previsto, também contando que vamos ter um conjunto de prestadores de serviço a trabalhar. Quando isso não acontece, obviamente que isso tem impacto. Por isso, nós concordamos e temos apoiado a ideia do governo de depender cada vez menos de prestadores de serviço, convertendo-os em contratos de trabalho. Faz todo sentido.
Mas consegue já contratar quando tem uma ideia do mapa de férias? Por exemplo, agora o 15 de agosto é aquele dia do ano em que quase toda a gente está de férias. É feriado, bem sei, mas neste período há sempre muitas pessoas de férias. Consegue já Contratar em março para 15 de agosto, por exemplo, os prestadores de serviços?
Podemos contratar, no fundo, acordar que o prestador de serviços naquele dia vem trabalhar.
Mas isso depois fica dependente da vontade deles.
Mas um acordo de prestação de serviços tem muita incerteza. Nós fazemos um acordo com um profissional ou com uma empresa, mais vezes com um profissional do que com a empresa, que são mais raras, acontece menos, mas se porventura o profissional depois tem uma indisponibilidade, seja ela qual for, não existe capacidade de agir, por exemplo, disciplinarmente sobre o profissional. Ele é um prestador de serviços e pode simplesmente naquele dia dizer que lhe surgiu um qualquer imprevisto e que não pode vir trabalhar. Isto acontece com muita frequência. Como aliás se viu, no ano passado tivemos várias urgências de obstetrícia que encerraram por conta de disponibilidade do prestador de serviço. É um problema que nos atormenta há muito tempo, é um problema crónico do Serviço Nacional de Saúde. O governo tem um plano para acabar com essa dependência, eu acho que o plano faz sentido. Não quero dizer que os prestadores de serviço não sejam necessários, eles são todos necessários e imprescindíveis, mas têm que trabalhar em outro regime, têm que trabalhar em contrato de trabalho. É o que eu espero que o governo faça. Espero que o governo contrate todas estas pessoas em contrato de trabalho, integrando estas pessoas nas equipes dos hospitais, que é aquilo que faz sentido. Vamos ver se vai conseguir fazer. Há um plano, como sabe, até o final do ano, de progressivamente ir terminando com as prestações de serviço e integrar as pessoas nos quadros até o final do ano.
E antecipa mais problemas para este fim de semana?
É sempre difícil fazer previsões. Eu acredito que vamos ter algumas falhas e algumas esperas mais prolongadas nalgumas regiões do país. Eu acho que é preciso, apesar de tudo, colocar as coisas em perspectiva. Eu ontem fui pesquisar o que tinha acontecido no dia 12 de agosto de 2025. No dia 12 de agosto de 2025, fez ontem precisamente um ano, nós tínhamos as três maternidades da margem sul fechadas. E este ano, por conta da concentração da atividade, como sabe, na maternidade do Garcia de Orta, nós não tivemos um encerramento. Conseguimos concentrar profissionais e concentramos a resposta e mantivemos uma resposta na margem sul. Esse foi um ganho importante, não só na margem sul, mas noutras regiões do país. Repare que há diferenças entre aquilo que acontece na região norte, onde este movimento de concentração já aconteceu há mais tempo, e na margem sul, na região sul, aliás, onde está a acontecer agora. Eu acho que, apesar de tudo, há mudanças e melhorias que podemos ir fazendo e o governo tem que avançar mais e mais rapidamente nessas mudanças da rede também. Eu antecipo, apesar de tudo, algumas dificuldades para as próximas semanas, mas temos que as colocar em perspectiva e perceber que, apesar de tudo, há melhorias significativas nalgumas áreas, também na área dos serviços de urgência.
A forma como se calcula agora o tempo médio de espera também é um pouco diferente, não é? Já não é pulseira a pulseira, é a média de todos, é isso? E isso pode de alguma forma mascarar a forma como estamos a ter acesso a esta informação?
Faz sempre sentido olharmos para médias. Essa é sempre uma discussão muito conceptual, quase de estatística. Eu acho que faz sempre sentido olharmos para médias. Claro que temos doentes que são outliers, que ultrapassam muito os prazos, eles têm que ser analisados e também são importantes, mas a média, apesar de tudo, dá-nos uma noção mais clara daquilo que está a acontecer em cada urgência. Apesar de tudo, esta forma de calcular a média, ao invés de olharmos só para o ponto limite, para aquilo que está num extremo, apesar de tudo, parece-me que faz sentido.
Temos também, só aqui para antes de terminarmos a nossa conversa, Xavier Barreto, a notícia hoje d'O Observador, que dá conta que em alguns hospitais do Serviço Nacional de Saúde, mais de 60% das primeiras consultas de especialidade são realizadas fora do tempo clinicamente adequado. Ora, nas pontas temos a Unidade Local de Saúde de Tamengas e Sousa, com tempos que são superiores a 70% e do outro lado temos, por exemplo, o Hospital de Cascais, em que esta espera ultrapassa um pouco os 10%. Ora, em Cascais temos uma parceria público-privada. Isto depende muito da forma como as unidades de saúde são geridas?
Pode depender, mas mais uma vez temos que descascar um bocado o tema e perceber aquilo que está em causa. O Hospital de Cascais é diferente de todos os outros no Serviço Nacional de Saúde, é quase uma ilha no Serviço Nacional de Saúde. Não integra, por exemplo, centros de saúde na sua gestão, ao contrário das ULS, que integram, como sabe, hospitais e centros de saúde. Os centros de saúde de Cascais estão integrados na ULS de Lisboa Ocidental e enviam uma parte significativa dos seus doentes para outros hospitais que não o de Cascais. Temos que ter isto em conta quando estamos a analisar. O Hospital de Cascais, por ser uma PPP e não ter integrado os centros de saúde, os centros de saúde de Cascais, como eu disse, são integrados noutras ULS, têm um enquadramento diferente. Importa dizer que quando olhamos para estes números, temos que perceber que estamos a medir o acesso a primeiras consultas de especialidade e não acesso a cuidados de saúde.
Exatamente.
É possível que muitos doentes não estejam a ser referenciados para um hospital pelo simples fato de não terem médico e quando nós olhamos para o hospital vemos que ele não tem listas de espera, parece que está a atender bem os seus doentes, que não tem listas de espera, mas na verdade, isso só está a acontecer porque os doentes não estão a ser referenciados. Por quê? Porque as pessoas que vivem naquela área não têm médico de família que os possa referenciar. Repare, não será por acaso que os hospitais que estão aqui piores, Tamengas Sousa, Matosinhos, Guimarães, Barcelos, têm coberturas de 100% de médico de família. E obviamente que nessas regiões, todos os médicos de família estão a referenciar os doentes que precisam para os hospitais.
Para aqueles hospitais.
Coisa que certamente não está a acontecer nalguns hospitais noutras regiões do país, onde a cobertura ronda os 50% ou 60%. Onde temos 40% dos doentes que nem sequer chegam ao médico de família pra poder ser referenciado pra um hospital.
Ou seja, não podemos olhar de forma linear pra esses dados?
Não, de todo. Nós temos que ter muito cuidado ao olhar pra estes dados. É óbvio que é muito importante nós percebemos aquilo que está em causa. Há aqui um problema de base. Repare, o acompanhamento de doentes, seja primeiras consultas, que é aquilo que está a ser medido como doentes crónicos, em Portugal é todo feito por médicos. E portanto, se é tudo feito por médicos, a nossa capacidade de fazer consultas, incluindo primeiras consultas, tem um gargalo, que é o número de médicos que temos. Nós temos definido, e propusemo-lo no âmbito do plano de transformação do Serviço Nacional de Saúde, que uma parte importante dos nossos doentes, particularmente os doentes crónicos, pudessem ser acompanhados por outros profissionais, nomeadamente por consultas de enfermagem, quando isso é possível, quando os doentes estão estáveis, quando não têm necessidade de uma prescrição de um medicamento ou de um exame, reservando o tempo dos nossos médicos para novos doentes, novos diagnósticos, pra doentes que muitas vezes não sabem sequer que são doentes e não estão em tratamento. Esta ideia de transformação do Serviço Nacional de Saúde, colocando mais profissionais a acompanhar doentes, particularmente doentes crónicos, e reservando os médicos para novos doentes, é uma ideia que, no nosso entender, podia transformar estes números. Podia dar acesso a todos aqueles que precisavam de consulta hospitalar, juntando mais profissionais ao percurso dos nossos doentes. Infelizmente, não aconteceu. Infelizmente, o governo não implementou essa medida que nós propusemos para o programa de transformação em resiliência. Eu espero que o faça, ainda vai a tempo de o fazer, porque é uma medida que em pouco tempo podia eliminar praticamente a lista de espera pra consulta hospitalar. E portanto, está em causa, de facto, os números, nós temos que olhar para eles com cuidado, mas não posso deixar de lhe dizer que se repensássemos a forma como estamos a olhar para os doentes, particularmente os doentes crónicos, eu acredito que podíamos dar um muito melhor acesso aos nossos doentes ao Serviço Nacional de Saúde.
Xavier Barreto, muito obrigado por ter estado neste Explicador da Rádio Observador.
Eu que agradeço. Até breve.
Xavier Barreto, presidente da Associação de Administradores Hospitalares.