Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que analisamos as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Boa tarde, Bruno. Hoje começamos pelo conflito entre Rússia e Ucrânia, mas vamos falar essencialmente do que se passa na Rússia e até de algumas notícias de hoje. A informação de uma ameaça de bomba que levou mesmo a evacuar o Hospital Moscovo, onde estão internados feridos do atentado do final da semana passada. Como é que vês o que se tem passado na Rússia durante estes últimos dias, depois desse ataque e perante também mais esta ameaça de bomba? Moscovo está, nesta altura, em situação de alerta perante tudo o que se passou.

Boa tarde a todos. Sim, no fundo, é aquela expressão portuguesa "depois da casa arrombada, trancas à porta". Claramente houve aqui um subestimar desta ameaça, talvez até por causa dos avisos dos países ocidentais, em particular das informações vindas dos Estados Unidos, que eram apesar de tudo bastante precisas. Tanto quando percebemos, e até dos comentários vindos da Rússia, não era aquilo que nós chamamos de informação acionável, ou seja, não incluíam exatamente a localização dos atacantes ou a data, a hora e o local exato do ataque, mas pelo menos apontavam para o tipo de ataque que seria, para o tipo de alvo que seria, ou seja, exatamente grandes concentrações de pessoas em torno de Moscovo, por exemplo, concertos. Realmente, isso claramente não foi suficiente e não foi suficientemente tido em conta. Podiam ter, por exemplo, cancelado este tipo de eventos, como aconteceu agora. Agora esses acontecimentos de maior escala foram cancelados. No fundo, a Rússia está a tentar perceber qual é exatamente a extensão dessa ameaça, ao mesmo tempo que a sua máquina de propaganda está a procurar desviar as atenções para a Ucrânia, alegando aqui uma ligação sem precedentes, completamente espúria. Aliás, em termos de comentários sobre esta questão, mesmo em Portugal, houve pessoas que ou por má fé ou por desconhecimento, vieram dizer que não havia histórico de conflito entre o Estado Islâmico e a Rússia, que é de um desconhecimento abissal. A Rússia regressou ao Médio Oriente, nomeadamente à Síria, para apoiar o regime de Assad, nomeadamente e em particular também contra o Estado Islâmico.

Foi um dos maiores apoiantes, até, na altura do governo.

Foi o principal apoiante do regime de Assad e contra o Estado Islâmico. Tornou-se, entretanto, na prática, um aliado dos talibãs e os talibãs contestam, disputam a presença deste grupo exatamente na zona do Afeganistão. É sempre possível haver grupos ainda mais fundamentalistas, ainda mais radicais ou independentemente disso, entre eles haver rivalidades bastante violentas. E obviamente a Rússia tem também uma presença importante, até militar, em certas zonas da Ásia Central, que este grupo considera como parte da mesma província, porque eles utilizam essa expressão. Não há países, há províncias de um grande Estado, de um super Estado Islâmico, que é o que eles pretendem restaurar, o dito califado, e portanto esta zona de Khorasan não só abrange o Afeganistão, mas também partes da Ásia Central, que é exatamente de onde terão vindo estes terroristas. Aliás, o último ataque contra a Rússia teve lugar contra a embaixada russa em Cabul, exatamente no Afeganistão, em 2022. Aí temos um histórico longo em relação a ligações entre a Ucrânia e realmente o Estado Islâmico, tirando alegações desta propaganda russa completamente descredibilizada, realmente não há nada de sólido. Aliás, eu recordo que o presidente da Ucrânia é judeu e se há um grupo que tem sido particularmente visado por este dito Estado Islâmico, são exatamente todas as populações judaicas. Obviamente, para a Ucrânia é absolutamente vital manter relações de confiança, de aliança com os países ocidentais, os Estados Unidos e os países europeus que são sistematicamente também atacados por este grupo. Realmente, muitas vezes aqui quem partilha inimigos chega a alianças às vezes estranhas, mas esta parece realmente completamente estranha ao que são os verdadeiros interesses da Ucrânia. Há este efeito aqui de procurar desviar atenções, mas ao mesmo tempo imagino que os serviços de informações russos estejam preocupados com evitar que haja novos ataques. E um último aspecto, parte de todo este regime putinista, nos seus aspetos mais extremos, é este espetáculo também público de exibir estes suspeitos de terem conduzido o ataque. Enfim, um Estado absolutamente deplorável, objeto obviamente de torturas violentíssimas, inclusive imagens até dessas torturas, da utilização de choques elétricos, etc. Não sei também se sobre isso haverá aqui algum pronunciamento da comunidade internacional, que muitas vezes é bastante ativa, e deve ser, a dizer que mesmo os terroristas, mesmo os criminosos, isso não justifica a utilização, por exemplo, de tortura, é algo que deve ser sempre rejeitado, mas claramente é também uma tentativa da parte do Estado russo de mostrar força em relação àqueles que agora já estão desarmados e já estão presos. Mas mostrar aqui força para compensar este evidente falhanço do seu aparato de segurança, que supostamente Putin apresenta como um dos grandes trunfos da sua presidência.

A Rússia também continua a tentar ligar a Ucrânia a todo este incidente. Hoje foi noticiado uma tentativa de atacar a sede e escritórios dos serviços secretos ucranianos. Os mísseis terão sido interceptados, mas ainda assim a Ucrânia continua debaixo de fogo intenso. Há registo de Quebras de energia em várias regiões, há registo de vários ataques à capital. É de esperar, de facto, um intensificar destes bombardeamentos, destes ataques à Ucrânia e inclusive a Kiev por causa do que aconteceu em Moscovo?

Sim, na medida em que a Rússia o consiga fazer, em que tenha reservas de mísseis, provavelmente vai haver esse intensificar de ataques, porque a propaganda russa aponta nesse sentido. Está a dizer que há uma cumplicidade da Ucrânia com estes ataques. E depois tem esta grande vantagem, que é muito difícil localizar terroristas, é muito difícil localizar a liderança destes grupos terroristas, sobretudo em sítios remotos como o Afeganistão, onde muitas vezes têm algum tipo de apoio. Sabemos o tempo que os Estados Unidos demoraram a localizar e acabar por eliminar o líder da Al-Qaeda depois dos ataques do 11 de setembro, precisamente nesta zona. É muito mais fácil realmente atacar alvos, inclusive alvos civis, cidades ucranianas, do que propriamente atacar com eficácia o grupo que organizou, comandou este ataque. Aqui eu acho que o principal limite é mesmo a questão das capacidades russas de fazer isso com alguma eficácia, quer pelas limitações em termos de arsenal, por exemplo, destes mísseis mais avançados, quer também por alguma eficácia dos sistemas de interceção ucranianos. Mas a intenção está claramente presente e faz sentido, tendo em conta este contexto, realmente de apontar o mais possível o dedo à Ucrânia também no contexto destes ataques.

Nestes ataques que têm sido feitos, houve essa situação a envolver a Polónia, um míssil russo que entrou no território polaco, no espaço aéreo polaco. Ainda se está a tentar perceber o que se está a passar neste caso, mas fica esta pergunta: por que razão é que a Polónia não atuou perante esta situação, atuou no imediato? Foram poucos segundos que esse míssil russo esteve em espaço aéreo polaco, menos de um minuto, mas não seria de esperar uma atuação?

Eu acho que o ponto é exatamente esse, ou seja, não é estranho porque foi uma passagem de raspão. As estimativas são que terá entrado entre 1 km, no máximo 2 km em território polaco, numa zona bastante remota, mesmo junto à fronteira com a Ucrânia, no extremo leste da Polónia. À partida, os polacos têm sistemas de defesa antiaéreos, mas obviamente estão sobretudo focados em defender bases militares, em defender centros populacionais e ativaram esses sistemas de defesa, inclusive o Ministério da Defesa veio dizer que foram ativados também F-16, só que simplesmente não havia tempo. Quer dizer, nenhum sistema, por muito avançado que seja, a não ser que esteja realmente muito próximo, mesmo essa zona é que conseguiria ter tempo de resposta para interceptar o míssil. E mesmo assim, enfim, menos de um minuto é praticamente impossível isso acontecer, mesmo com os sistemas mais avançados. Eu diria que não é estranho, não corresponde a alguma passividade polaca ou hesitação polaca. Foi mesmo uma incapacidade técnica de fazer mais, tendo em conta que foi uma passagem durante um período muito limitado e obviamente os polacos vieram insistir que se houvesse indicação de que o míssil continuava em território polaco, que tinha até como objetivo algum tipo de alvo na Polónia, que teria havido tempo e que teria havido capacidade e havia a intenção, evidentemente, de interceptar esse míssil. Uma vez que ele depois volta a entrar em território ucraniano, acabam por ser as defesas ucranianas a ter de atuar, até para não haver aqui também problemas. A Polónia não podia começar a lançar mísseis de interceção em direção ao território ucraniano, porque isso podia chocar com meios que a Ucrânia tivesse, aviões, portanto, obviamente aí não fazia sentido. Penso que a explicação parece-me razoável neste caso e corresponde realmente àquilo que já aconteceu uma vez ou duas, ou mais que uma vez até, mas num desses casos, infelizmente, acabou por haver vítimas. Depois, como sabemos, houve um inquérito que apurou que à partida, até o que terá atingido território polaco, mesmo nesta zona de fronteira, terão sido até meios de interceção ucranianos. Isto mostra como é realmente difícil conduzir a guerra aérea, sobretudo num contexto em que a Rússia está disponível para realmente arriscar ataques muito próximo da fronteira de países da NATO e esse aspecto deve continuar a merecer crítica. E aliás, a Polónia chamou também o embaixador russo para pedir explicações e para exigir que isto não aconteça mais vezes.

O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã e tem nova edição depois das notícias das 16h. Está sempre disponível em podcast. Eu sou o Miguel Cordeiro. Até amanhã.