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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais questões geopolíticas mundiais. Hoje contamos com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, seja muito bem-vindo à Rádio Observador.
Obrigado. Boa tarde.
Boa tarde. Vamos começar com a guerra no Médio Oriente. Há vários países do Golfo que têm anunciado um reforço dos níveis de alerta perante o risco de alargamento do conflito na zona do Médio Oriente. O Kuwait diz mesmo que já está a ser atacado por drones e mísseis do Irão. Que tipo de escalada, Bruno Cardoso Reis, é que podemos esperar enquanto não há um acordo?
Esse é o grande risco. O problema é que enquanto não há um acordo, há sempre o risco de os Estados Unidos alegarem que há um ataque iraniano, o Irão alega que é um ataque americano, há reações a esses ataques. A estratégia do Irão tem sido sempre retaliar atacando países onde há bases americanas e às vezes até países onde não há bases americanas, mas é o caso do Kuwait, por exemplo. Portanto, parece-me compreensível que os países do Golfo estejam preocupados. De facto, eu acho que há aqui cada vez mais um cessar-fogo frágil, cada vez mais um cessar-fogo muito limitado. O risco sempre é que acabemos por ver em relação à zona do Golfo aquilo que já estamos a ver em relação ao Líbano, que no fundo é um colapso do cessar-fogo. As exceções são tantas que já não faz sentido realmente falar de um cessar-fogo.
Este caso, Bruno, e o fato de os Estados Unidos estarem também a atacar alvos militares iranianos em autodefesa, é o que alegam as forças norte-americanas, ainda se pode falar sequer em cessar-fogo, tendo em conta tudo o que está a acontecer neste teatro de operações?
Eu acho que é exatamente essa a questão. Acho que no caso do Irão e dos Estados Unidos, ainda podemos falar de um cessar-fogo, ainda que sempre tenha sido um cessar-fogo parcial, nomeadamente porque não abrange a questão crucial do Golfo, do Estreito de Ormuz, da saída dos navios do Golfo. Mas independentemente dessa limitação, a verdade é que temos visto vários episódios deste tipo, de um ataque dos Estados Unidos, porque alega que há um ataque iminente ou que já houve um ataque. Portanto, vamos ver se estes episódios começarem a multiplicar, mesmo em relação ao cessar-fogo no Golfo.
Isto é quase uma doutrina olho por olho.
Sim, no fundo é o modelo que Israel consagrou, que é os cessar-fogo no Médio Oriente têm sido sempre parciais e limitados. Não há um completo cessar das hostilidades, das ações militares, elas passam a ser mais episódicas, mais limitadas. Como eu digo, em relação ao Líbano e Israel, parece-me que já não faz sentido falar de cessar-fogo neste momento, já temos um retomar do conflito. Temos ações militares a toda hora, por todo lado, seja no norte de Israel, seja no sul do Líbano e noutras partes do Líbano, inclusive. No caso do Irão e dos Estados Unidos e da zona do Golfo, ainda me parece que se pode falar de um cessar-fogo parcial, frágil, mas que realmente está claramente em risco.
Sendo que, e o Irão frisou isso ainda hoje, um cessar-fogo precisamente no Líbano, nas batalhas entre Israel e o Hezbollah, é uma condição essencial para um acordo de paz com os Estados Unidos. Que peso tem esta condição nas negociações, Bruno Cardoso Reis, e os Estados Unidos têm aqui o papel de pressionar Israel para terminar as hostilidades? É que ainda hoje Benjamin Netanyahu diz que esse é um cenário que está fora da equação.
Sim, na verdade, Israel só tem parado quando há uma clara imposição nesse sentido da parte dos Estados Unidos. De facto, há aí uma ligação que é muito importante pra credibilidade do regime iraniano. Se o regime iraniano quiser continuar a ter aliados regionais, não pode deixar cair o Hezbollah, porque o Hezbollah, aliás, com grandes custos pro seu prestígio, pra sua imagem, que já estava bastante também minada, diga-se, mas no Líbano, voltou a entrar neste conflito para defender ou para retaliar pelo ataque americano e israelita contra o regime iraniano. Se de facto o Irão o deixasse cair, seria minar esta ideia de que é um aliado importante destes grupos armados, destas milícias, muitas delas xitas pelo resto do Médio Oriente. Mas a questão realmente é que provavelmente pra Israel isso é uma vantagem adicional. Do meu ponto de vista, eu não tenho dúvida que há aqui a questão das populações da zona norte de Israel, também é importante sublinhar isso, que desde o início deste conflito não conseguem estar em segurança na zona norte de Israel por causa dos ataques do Hezbollah. Isso é uma parte importante da razão que justifica esta agressividade do governo israelita, mas do meu ponto de vista, outra razão é precisamente esta ideia de que para evitar o risco de um mau acordo entre os Estados Unidos e o Irão, mau acordo do ponto de vista do atual governo israelita, é uma forma de tentar evitar isso, uma vez que Israel nem sequer está envolvido nas negociações. Isso também diz muito da forma de fazer política externa de Donald Trump, que nem sequer em relação a Israel ele se preocupa muito com os aliados. Uma das formas de minar isso, de evitar isso, é ativar o conflito no Líbano e tornar muito mais difícil chegar-se a um acordo entre o Irão e os Estados Unidos.
Esta ofensiva terrestre mais avançada levada a cabo por Israel começou ontem, prossegue e com mais ataques também noutras zonas do Líbano. Isto é uma reação israelita e de Benjamin Netanyahu por Israel estar a ficar de parte nestas negociações?
Sim, eu penso que sim. Em parte é isso. É uma forma de ganhar alguma leverage, alguma capacidade adicional de influenciar o processo. Como eu digo, também me parece que é uma reação ao fato de a população do norte de Israel estar muito insatisfeita com o fato de, apesar de Netanyahu passar o tempo a declarar grandes vitórias, ainda ontem ouvimos sobre a ocupação deste castelo medieval, o Beaufort, deste belo forte, que seria decisiva. Israel vai de vitórias decisivas em vitórias decisivas, mas a verdade é que continua a ter uma população que é alvo de ataques, continua a não ter paz, porque a verdade é que o resultado disso é o eternizar do conflito e não propriamente uma viragem decisiva.
Bruno Cardoso Reis, vamos ainda falar sobre Emmanuel Macron, que falou com Donald Trump, o presidente norte-americano. Macron diz que a França está disposta a ajudar nos problemas do Médio Oriente. Tenho aqui duas questões para ti, Bruno. A primeira é: que papel tem a França e no que é que pode ajudar? E que papel tem também todo o resto da Europa?
Não é o papel principal, longe disso, é um papel claramente secundário e secundarizado, até porque Donald Trump não é um grande fã dos aliados europeus ou dos aliados em geral. Apesar de tudo, países como a França não são completamente irrelevantes, portanto, não vamos passar de um extremo a outro. A França é uma potência militar significativa, tem um porta-aviões, aliás, com propulsão nuclear, o Charles de Gaulle, que foi enviado para esta região. É o único país, a par dos Estados Unidos, que tem essas capacidades. É um país que historicamente tem relações importantes e continua a ter alguma presença, inclusive económica, na região. Por exemplo, no Líbano, que foi uma colônia francesa na primeira metade do século XX e é um país onde, por exemplo, os franceses continuam a ter um peso grande nas elites.
Vamos avançar. Falar também sobre o conflito na Ucrânia, até porque Volodymyr Zelensky diz que existe uma janela até o próximo inverno para negociar a paz entre a Rússia e a Ucrânia. Bruno Cardoso Reis, o que é que está a faltar neste teatro de operações para se verificarem mais avanços?
Eu acho que o que falta é a disponibilidade das partes para chegar a algum compromisso. Eu continuo a achar que nunca foi muito realista pensar nesses termos. Ainda, provavelmente, é menos agora, porque temos este fenômeno, um padrão na história dos conflitos armados, que é quando os conflitos prolongam muito, mesmo que seja evidente que há um certo impasse, o custo, a quantidade de baixas, de mortos, de feridos, de sacrifícios que foram feitos num conflito prolongado, depois tornam muito difícil às lideranças de um lado e do outro, aceitar formalizar o fim do conflito, certas perdas, certos compromissos. Portanto, eu acho que o mais provável é realmente uma espécie de cessar-fogo de facto, eventualmente minimamente formalizado, mas sem haver realmente um acordo, por exemplo, que obrigue a Ucrânia a reconhecer a cessão de território ou obrigue, por exemplo, a Rússia, Putin, a reconhecer também que não vai conseguir sequer cumprir o objetivo mínimo dos mínimos, que já nem sequer era a anexação destas quatro províncias ucranianas.
As repúblicas independentes, como disse Vladimir Putin.
Mas nem sequer duas. Portanto, mesmo a zona de Donbass ainda não está completamente controlada pela Rússia, mas neste momento a Rússia já está mais a perder território do que a ganhar.
E é com este tema que fechamos a edição de hoje do Gabinete de Guerra, hoje com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis, a quem agradeço a disponibilidade para estar aqui na Rádio Observador. O Gabinete de Guerra está de regresso amanhã. Bruno, um grande abraço.
Obrigado. Boa tarde.