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Começa agora o Gabinete de Guerra das manhãs 360º. Eu sou a Maria João Simões. Esta quinta-feira junta-se a mim e ao Júlio Magalhães, o major-general João Vieira Borges, presidente da Comissão Portuguesa de História Militar. Bom dia, General, obrigada por estar connosco.
Muito bom dia.
Muito bom dia. Zelenskyy diz que precisa de mais tempo para lançar a contraofensiva, diz que a Ucrânia ainda não está pronta. As tropas sim, estão, mas considera que se antecipar o ataque, o país vai perder muitas vidas. General, isto é Zelenskyy a assumir que ainda não tem poder para isso, sobretudo os caças que ele tanto pede. E que consequências teria de facto a Ucrânia se uma contraofensiva fosse um falhanço?
Muito bom dia, mais uma vez. Eu julgo que isto vem na linha das afirmações da vice-ministra da Defesa, do ministro da Administração Interna, de que efetivamente ainda não havia condições, quer em termos de armamento, quer em termos de munições, para haver sucesso numa operação ofensiva. E quando falamos em sucesso, com a devida relatividade, tendo em conta que há uma diferença substancial entre aquilo que são as forças ucranianas, mesmo que sejam da ordem dos 50 mil, com oito a 12 brigadas para fazer o ataque, relativamente aos cerca de 300 mil, com mais de 50 brigadas da parte da Rússia. Mas eu penso que este é o discurso político, vem na sequência até das afirmações de ontem e de anteontem, que não havia sequer um plano ainda a aprovar. Portanto, o que ele faz aqui é pressionar os aliados no sentido de remeter as últimas levas, como ele disse no próprio discurso, em termos de armamento, ainda faltavam levas, foi a expressão usada, em termos de armamento, mas também em termos de munições. Eu penso que para uma situação que temos falado aqui, de uma ofensiva em que vai ser muito difícil ter superioridade, muito menos aérea, mas mesmo terrestre, a não ser pontual, é fundamental que tenha todas as condições. E quando eu digo condições, não é só mesmo o armamento, não é só o pessoal, não é só as munições, é o treino coletivo. Isso é muito importante, é o treino coletivo e é dispor, sobretudo também, pelo menos de alguma paridade em termos aéreos, mesmo que não tenham F-16.
Entretanto, há relatos de que as forças russas em Bakhmut recuaram cerca de 2 km em algumas zonas da cidade depois de contra-ataques ucranianos eficazes. Apesar de tudo, General, o que se viu neste ataque é que os ucranianos estão mais preparados e com maior capacidade ou foi apenas um ataque esporádico?
Eu penso que tem a ver com duas situações. Em primeiro lugar, foi uma demonstração de força da parte da Ucrânia. Foi importante, houve uma concentração, pelo menos reparámos em termos de artilharia, o que afastou algumas unidades militares russas, ou pelo menos uma delas, que é a 72ª Brigada de Fuzileiros Motorizada, e que estava a proteger numa das alas, inclusivamente o Grupo Wagner. Grupo Wagner esse que, por outro lado, também não recuou. Tinha dito que recuaria no dia 10. Aqueles discursos e contradiscursos da parte dele, obviamente que não têm, da parte, sobretudo dos Estados Unidos, que diz que continua a dispor de munições e a manter o controle de 85% de Bakhmut, desmente, serve de informação e contra informação, independentemente das consequências no relacionamento com os dirigentes russos, isso é um assunto diferente. Em termos operacionais, eles estão lá. Em termos operacionais, como dizem os americanos, eles podem e se calhar vão ser reforçados com forças tchetchenas. Em termos operacionais, eles estão a ser dotados também de pessoal e não só o problema das munições, designadamente os tais recrutamentos de condenados, que só no mês de abril foi da ordem dos 10 mil. Portanto, nós aqui estamos a ver, obviamente, um avanço considerável, que já não havia há mais de dois meses da parte da Ucrânia. São os primeiros ganhos, pelo menos nos últimos dois meses, no meio de 11 meses de combate ali. Mas é importante isso servir como standard, também da grande resistência, para demonstrar capacidade. Em termos psicológicos, isso é muito importante também para a tropa, para mostrar essa capacidade para desenvolver a ofensiva, seja daqui a uma semana, seja daqui a um mês.
Já agora, do outro lado, temos o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, a dizer que a operação militar é muito difícil, mas que certos objetivos, certos mesmo, foram alcançados. Disse que conseguiu danificar gravemente a máquina militar da Ucrânia e esse trabalho vai continuar. Ora, um ano depois de um conflito que Putin queria resolver em seis dias, depois em três meses, isto é muito pouco. Os russos estão mesmo em dificuldades.
Certamente que estão. Aliás, a leitura que ontem o senhor Presidente da República fez, também foi muito interessante. E é a leitura que tem feito, ainda agora vi uma obra magnífica sobre a guerra russo-ucraniana, chama-se "O Retorno da História", do Serhii Plokhy, que é ucraniano e norte-americano. Dizia eu do discurso do senhor presidente ontem de que foi um erro grave, e eu concordo totalmente. Ele não estava à espera desta reação, nem da Ucrânia, nem do Ocidente. Isso é um facto, e que o Plokhy explica muito bem, até o caminho da Rússia para a autocracia e o caminho da Ucrânia para a democracia, como é que isso choca. E depois, como é que se desenvolve uma operação deste tipo, muito personalizada em alguém que não teve todas as informações. E, portanto, obviamente, depois voltar para trás, depois de uma tomada de decisão destas, é muito difícil e ele está a sentir essas dificuldades e também está a sentir a necessidade, obviamente, da paz. Obviamente, mas é uma paz que será justa à maneira dele, mas nós, obviamente, temos consciência Que não há condições ainda para a paz, independentemente do discurso de Putin de que quer uma Rússia pacífica. A interpretação disso até nos órgãos de comunicação social russos foi muito difícil. O que é uma Rússia pacífica depois daquilo que se tem passado desde 2008, 2014, 2015 na Síria. Já para não andar para trás, ainda no seu mandato. Li também um artigo de um russo esta semana muito interessante. A partir do erro, há todo um readaptar de umas forças que o próprio russo diz corruptas e não preparadas para uma guerra deste tipo. É preciso ter em atenção que os próprios russos estão a aprender com todo este processo. E essa é que é a grande questão. A grande questão é saber que estes 300 mil homens que estão ao longo daqueles 1200 km são diferentes, certamente, dos homens que estavam em agosto, setembro, quando foi a primeira contraofensiva. E é isso que nos deixa também, sobretudo a quem vai desenvolver o ataque, com algumas dúvidas. E o indício que houve agora desta 72ª Brigada de Fuzileiros Motorizada, de que ou foi uma retirada estratégica como foi em Kherson, ou foi mesmo batida novamente, que esta unidade já tinha sido batida antes, julgo eu, dos meus dados em Kharkiv e até em Kherson. É uma unidade que está sempre na linha da frente. Mas é um indício de que poderá haver problemas, mas julgo que não devemos ir por aí. Acho que não devemos subvalorizar a Rússia de maneira alguma e por isso mesmo o Zelenskyy fez o discurso que fez ontem.
Já agora, Putin assinou esta quarta-feira um decreto anual para mobilizar cidadãos russos em reserva para treinos militares. É o reconhecimento que está a perder muitos homens ou quer mais tarde ou mais cedo, de alguma maneira, deixar de depender tanto do grupo Wagner no terreno?
São as duas coisas. Eu julgo que isso também é muito importante. De qualquer modo, nós temos noção das baixas consideráveis, que implicam que mesmo com o recrutamento parcial dos 300 mil, neste momento sentem dificuldades consideráveis. E as dificuldades são de cariz estrutural e de cariz conjuntural. Eu vou tentar explicar em termos estruturais, em termos demográficos, a Rússia está a sentir dificuldades consideráveis, fruto de circunstâncias naturais decorrentes do Covid e da própria guerra. Nasceram menos quase 3 milhões de pessoas nos últimos três anos. Depois temos o afastamento de 1,2 milhões de jovens, quase todos em idade de recrutamento e ainda por cima ligados a tecnologias de informação. Para além dos 300 e tal mil já mobilizados, há um problema grave em termos demográficos, em termos do mundo do trabalho, e a Rússia está a sentir isso. E depois para preparar mais homens, aquilo que nós vimos ontem com este decreto foi convocar cidadãos de reservas para treino militar. É uma situação ligeiramente diferente, ou seja, são os reservistas que normalmente para redução de custos, nós na lei também temos isso e não fazemos, obviamente, e a maior parte dos países europeus não o faz, que têm que estar preparados. É aquilo que faz a Suíça frequentemente, aquilo que faz Israel frequentemente, nós não o fazemos para poupar. Aqui eles estão a fazer para preparar para cenários de maior adversidade, mas cenários que obviamente têm a ver com uma guerra ainda mais longa do que aquilo que disse Zelenskyy ontem. Porque Zelenskyy ontem dizia que esta guerra ia acabar, o que é de alto risco este discurso, antes das eleições americanas, porque esta ofensiva iria ter sucesso. Ele também não deve politicamente, na minha perspectiva, aliás, isso já foi muito discutido, criar demasiadas expectativas, quer internas, quer para o mundo ocidental. Isso, aliás, também tem sido alvo de afirmações de ucranianos, e não só, de políticos. Respondendo à sua questão, as duas questões relativamente ao recrutamento estão em causa. Não temos todos os indicadores, obviamente, mas está a viver um problema considerável, até porque a abrir mão também dos condenados, mesmo que seja para o grupo Wagner, só em abril mais 10 mil, tudo isto são indicadores que efetivamente há problemas na Rússia em termos de recrutamento, independentemente de ser um país de 140 e tal milhões. Mas é preciso ver que é o maior país do mundo e é preciso ver que a densidade e depois a necessidade que há de gente para trabalho tem que ser também equacionada quando comparamos com os 40 e tal milhões da Ucrânia.
Entretanto, general João Vieira e Borges falou do grupo Wagner. O Parlamento francês pediu à União Europeia que classifique formalmente o grupo de terrorista. A Grã-Bretanha vai no mesmo caminho e também pretende colocar o Wagner na lista negra como uma organização terrorista. Que eficácia pode ter uma decisão destas? E já agora, olhando para o desafio permanente, constante, que o líder deste grupo faz ao Kremlin, isto não pode ser uma boa notícia para Putin, que parece ter criado um monstro?
Também pode ser, embora a questão de Putin, ainda ontem víamos aqui alguns dados relativamente a críticas dos mini bloggers ou dos bloggers, nunca sei qual é o número de acompanhantes que os transformam em grandes bloggers. Mas isto para dizer que isto é muito interessante, como é que Putin não critica as observações e aquelas declarações bombásticas de Prigozhin, que obviamente começa a incomodar os próprios nacionalistas. Os próprios nacionalistas têm consciência de que as acusações, sobretudo a Gerassimóv e a Shoigu, são indescritíveis. Obviamente, imaginemos o que são estas lideranças, a ver todo este tipo de discurso, a relação entre eles como é que está. Portanto, para esses, eu diria, em resposta à sua questão, certamente que é uma felicidade enorme ouvir isso para Gerassimov e para Shoigu. Putin tem-se afastado claramente, estrategicamente e inteligentemente. Aqui Trump é capaz de ter razão, porque assim nunca está conotado nem com os chefias que podem e estão a falhar, nem que Prigozhin, que dá a vida dos seus homens em defesa da pátria, mas que diz asneiras. Ele está sempre bem, Putin aqui é que vai estar bem. Agora para o Ocidente, o estranho é isto já não ter acontecido antes. É que não estamos a falar de uma declaração de que a Rússia é um Estado terrorista, que foi a pergunta que fizeram ontem a Trump. Nós estamos a falar de um grupo de mercenários que têm uma experiência não só neste teatro de operações, mas noutras áreas, designadamente em África, com ações que obviamente são passíveis de serem consideradas terroristas. A grande questão aqui também é porque alguns destes países, nomeadamente os Estados Unidos e o Reino Unido, têm também mercenários a trabalhar para que não morram militares, como aconteceu também no Iraque e no Afeganistão, em número considerável. Só que esses grupos nunca tiveram, em primeiro lugar, uma relação com o poder político como tem o grupo Wagner e, em segundo lugar, um historial de mortandade, de infração do direito internacional e dos direitos humanos como o grupo Wagner. Portanto, eu acho que já devia ter sido isso declarado antes.
General, falou várias vezes de Donald Trump. O que dizer sobre as palavras do antigo presidente, que diz que se for reeleito acaba com a guerra em 24 horas? Acabar com a guerra de que forma?
É muito interessante. É preciso entendermos que estamos em política externa. Estamos a trabalhar a política externa, mas estamos a trabalhar eleições. Estamos em campanha eleitoral e mesmo aqueles homens que nós conhecemos, assessores de Trump, por muito neorrealistas, neoliberais que sejam, obviamente que sabem que devem usar um determinado tipo de discurso. E aquilo ontem que marcou mais nem foi essa questão. O que marcou mais foi a recusa dele em responder a determinadas questões diretas que lhe colocaram de quem é que ele quer que vença a guerra. Ele afastou-se claramente e elogiou o próprio Putin, que era um homem inteligente, e depois por seu lado disse: "Mas se fosse comigo, ele nunca atacaria, nunca havia guerra. E se for comigo, também acabo com a guerra em dois dias. E não interessa quem vence, nem quem perde. Interessa é fazer a paz". Isto é um discurso que para os americanos, que gostam muito de quem vence e de quem perde, é complicado. A questão da paz é associada à redistribuição de verbas que os Estados Unidos, em termos de dívida pública, a questão não está fácil, como nós sabemos. Portanto, há aí um equilíbrio no discurso, mas é sobretudo marcar o discurso com uma posição própria. E ele isso consegue sempre fazer, como fez ontem.
Major-general João Vieira Borges, é sempre um gosto tê-lo conosco. Muito obrigada por mais um "Gabinete de Guerra". Um bom dia.
Muito bom dia.
Muito obrigada.