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Gabinete de Guerra, Rádio Observador. Vamos nos próximos minutos conversar com o politólogo José Filipe Pinto. Eu sou o Miguel Cordeiro, falamos de conflitos em curso e vamos falar hoje sobre um plano para a paz apresentado por Vladimir Putin. Qual é a ideia do presidente russo à paz, a cessar fogo? Pode ser definitivo se a Ucrânia abdicar de Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia e se abandonar a intenção de aderir à NATO. A Ucrânia já respondeu, diz que é uma proposta contrária ao bom senso. Jens Stoltenberg, o secretário-geral da NATO, diz que esta proposta não é feita com boa fé. José Filipe Pinto, como pode ver esta declaração de Vladimir Putin? Como é que analisa este anúncio de Vladimir Putin e este caminho para a paz apresentado pela Rússia?

Muito boa tarde, Miguel. Boa tarde, senhores ouvintes. Não é um caminho, nem sequer uma vereda. Mas repare, Miguel, neste momento há vários acontecimentos importantes em curso e todos eles são peças do mesmo puzzle. E este puzzle é o mundo de múltiplas ordens. É esta realidade que está em construção e a dificuldade em encaixar as peças decorre, neste momento, a ordem eurasiana e a ordem da Rota da Seda estarem ambas unidas contra a ordem liberal, numa clara intenção de criar clivagens entre os Estados Unidos e a União Europeia, porque Putin sabe que, apesar de culpar sempre o Ocidente, conta com aliados de peso já na União Europeia. E, por outro lado, também o Xi Jinping não desconhece que comprar uma guerra ainda comercial com o Ocidente não serve os seus interesses. Por isso mesmo, tanto a pertença à Cimeira de Paz, que amanhã começa na Suíça, como a reunião do G7 em Itália, como a reunião dos ministros de defesa da NATO em Bruxelas, representam a resposta da ordem liberal à expansão em curso da ordem eurasiana e ao habitual desrespeito chinês pelas regras da Organização Mundial do Comércio. E é nesta linha de adoção que deve ser analisada a questão que me colocou, a jogada de antecipação de Putin, ao apresentar aquilo que eu designo como um pretenso plano de paz, que a exemplo daquele que há muito tinha sido proposto por Zelensky, que provavelmente o plano Zelensky sairá reforçado da Suíça. Portanto, este plano de paz de Putin apenas significa uma tentativa de reclamar o impossível, como forma de tentar acautelar o possível. De facto, Putin sabe que, ao contrário de como disse a peça, ele pretender a totalidade dos novos territórios, Zaporizhzhia, Kherson, Donetsk e Luhansk, isso não vai ser possível. A linha de fronteira terá seguramente outra definição. E permita-me que chame a atenção para que, na senda do seu hipotético conhecimento da história da Rússia e da Ucrânia, e que já deu origem a um vasto documento histórico, Putin voltou a repetir a sua narrativa de diabolização do Ocidente, da sua política agressiva, sem cerimônias e absolutamente aventureira, e a salientar os laços históricos entre os dois povos. De tudo isto, eu só retenho um dado importante. Que tem a ver com o quê? Putin insiste sempre na ideia de que a Ucrânia tem de desistir dos seus planos de aderir à NATO. Vamos ver se os acordos bilaterais de cooperação e segurança, que os dirigentes de vários Estados, designadamente os Estados Unidos, estão ou acabam de celebrar com a Ucrânia, se esses acordos podem ser vistos como uma estratégia pensada pela administração norte-americana, substituir a adesão à NATO, que é permanente, por compromissos ou acordos temporários. Em face ao exposto, eu penso que esta antecipação, este discurso de antecipação de Putin é mais uma das falácias e estamos na fase em que se fala alto para fingir que a Rússia dispõe de argumentos fortes, o que verdadeiramente não corresponde à realidade.

E é algo que não vai estar a ser discutido na Cimeira de Paz. Aquilo que vamos ter neste fim de semana será uma discussão diferente desta proposta apresentada pela Rússia.

Claro, serão os 10 pontos de Zelensky. E também aí não vamos adiantar nada. E por quê? Continua a não haver negociações, porque ambas as partes não desistem da sua posição. E enquanto não houver espaço para cedências, é evidente que não há espaço para negociar. Há aqui um dado, Miguel, muito importante também. Há três eixos que gerem as relações internacionais. O eixo formulógico que diz respeito à guerra, o eixo economicista, que diz respeito, como o próprio nome indica, à economia, e o eixo normativo, que diz respeito à lei, ao direito. E atenção, a decisão de disponibilizar à Ucrânia os lucros dos ativos russos congelados pode constituir, a meu ver, um passo em falso no sentido do Ocidente a que pertencemos continuar a assumir-se, como até aqui, como o guardião do eixo normativo e da universalidade dos princípios consagrados na Carta das Nações Unidas. É um dado a que a China está muito atenta e para o qual eu tenho vindo repetidamente a chamar a atenção, que afinal de contas, este mundo de múltiplas ordens, cada uma das potências liderantes interpreta os princípios de acordo com os seus interesses. Este é um dado que nós vamos ver reforçado amanhã e domingo na Suíça. Por quê? Todos os convidados, todos os que acederam, vão aceitar como boa a posição ucraniana e vão entender que a razão assiste por inteiro à Ucrânia. Evidentemente que não vão aceitar nada daquelas que são as pretensões de Putin. Mas, de facto, o que aqui temos é um extremar de posições e é evidente que sem haver cedências de parte a parte, não é possível chegarmos àquilo que seja um acordo, ainda que mínimo.

Para terminar no conflito em Gaza, e falar um pouco também desse conflito, os líderes do G7 apelam a que a ONU possa trabalhar em Gaza sem qualquer entrave. Afirmaram essa sexta-feira que a Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinianos deve ser autorizada a desenvolver a ação em Gaza sem constrangimentos. Qual é a importância deste apelo dos líderes do G7?

É um apelo que vai surtir tão pouco como surtiram os anteriores. E por quê? Porque temos de perceber que mesmo as organizações que dependem das Nações Unidas estão muito infiltradas pelo Hamas. E por quê? Precisamente porque há o contacto no dia a dia com aquela população. E temos de perceber, Miguel, que o Hamas tem dois ramos: tem um ramo político e tem um ramo terrorista. E a grande verdade é quem dirige ou dirigia até neste momento, estamos numa situação em que aquilo é uma terra de ninguém, quem dirigia Gaza era precisamente o Hamas político, ainda que os seus principais dirigentes não estivessem em Gaza, mas, por exemplo, nos países vizinhos. O que é que acontece? Tudo isto aqui é um jogo de faz de conta. E por quê? Repare, o Hamas alterou os termos do acordo depois de dizer que aceitava o acordo. Acordo que tinha também sido proposto por quem? Pelo presidente Biden, aprovado pelo Conselho de Segurança, apenas com a abstenção da Rússia. Isto mostra o quê? Que a comunidade internacional tem muito pouca capacidade de atuação neste conflito. Significa o quê? As posições também aqui, como na Ucrânia, estão muito extremadas com um elemento diferente: é que, neste caso, a religião também é chamada à colação. E por isso mesmo, torna-se muito difícil pensarmos, prevermos, que qualquer decisão da comunidade internacional, tanto seja do G7 como do Conselho de Segurança da ONU, possa verdadeiramente vir a ser implementada. O grave é a crise humanitária que grassa em toda a Faixa de Gaza. É evidente que aquela população está a ser duplamente refém. Nós temos os reféns que o Hamas fez e que eram israelitas, mas temos outros reféns. Reféns que é a população de Gaza, que é refém do grupo terrorista e simultaneamente é refém porque acaba por ser bombardeada quase sistematicamente por Israel.

José Filipe Pinto, muito obrigado por ter estado conosco em mais uma edição de Gabinete de Guerra.

Muito boa tarde.