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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, centrado no conflito do Médio Oriente e com as diferentes opiniões do regime iraniano e dos Estados Unidos sobre as condições de navegabilidade no Estreito de Ormuz. A Guarda Revolucionária do Irão veio hoje divulgar um comunicado dando conta que as únicas rotas autorizadas para atravessar o Estreito de Ormuz são as rotas anunciadas pela República Islâmica do Irão. Uma nota que se segue a uma nova rota anunciada horas antes, um corredor proposto por Omã, uma alternativa à rota definida pelo Irão. Ora, a Guarda Revolucionária considera que esta nova rota é inaceitável e totalmente perigosa. Orlando Samões, boa tarde, bem-vindo. Antecipa aqui algum tipo de problema em torno destas condições de navegabilidade no Estreito de Ormuz?
Boa tarde, muito obrigado pelo convite. Estamos, de facto, perante mensagens contraditórias, diferentes. As partes não se entendem mesmo. Já não nos bastavam as catástrofes naturais, que às vezes são suficientes para trazer o drama às nossas vidas. A guerra continua e agora mais esta disputa sobre as possibilidades de passar ou não em Ormuz. O que é facto é que aqui as partes dizem coisas diferentes. Da parte de Israel, apresentam números de passagem de navios que se aproximam dos anteriores à guerra, no fundo, dando a entender que estava praticamente recuperado o fluxo. E citam a Organização Marítima Internacional das Nações Unidas, que já fala em 57. Também há números um pouco mais pequenos do que esse, depende se contarmos os que entram ou os que saem, mas também já têm entrado em algum número. E aqui entrar para o Golfo é importante porque dá a entender que há esperança que vão continuar a sair e que não ficam retidos e, portanto, podem voltar às suas atividades. Agora, em relação às rotas, as disputas de sempre. O que é mais seguro é passar mais pelo meio onde as águas são mais profundas e são as águas internacionais. E a verdade é que são essas que não deveriam ficar sob nenhum tipo de restrição. A passagem a norte, que é aquela que no fundo quer ser imposta pelo Irão, é uma maneira de tentar impor algum tipo de portagem ou algum tipo de taxa. E aqui acho que devemos estar com o Marco Rubio, que hoje identificou muito bem o problema. Não entra, em dizê-lo até ao Irão, em jogos de semântica, porque qualquer tentativa de limitar a passagem dos navios é uma forma de restringir, que pode ser copiada e estendida a todo o mundo, a todas as zonas ribeirinhas ou de passagem ou pontos de estrangulamento. E nas palavras dele, isto poderia vir a gerar o caos. Ora, é mais do que isso, o caos e, neste caso, a pobreza geral, porque estamos todos muito dependentes de um comércio internacional livre. Da parte do sul, é um pouco verdade que pode ser mais perigosa, porque a passagem no sul junto ao Omã não é tão navegável, pode não ser tão profunda e pode incorrer noutro tipo de riscos, mas a verdade é que o Omã está disposto a cooperar, está disposto a deixar passar. Houve uma altura que até se chegou a pensar que poderia ser o Irão a aliciar o Omã a uma gestão bipartida, mas a realidade é muito diferente. Hoje, no Conselho de Cooperação do Golfo, as vozes que surgiram do Bahrain foram lapidares e absolutamente cristalinas contra aquilo que chamam a interferência ou mesmo a ingerência, como eles falam, das milícias, e por vezes falam mesmo das milícias do Irão, e portanto, veem a presença do Irão nos seus países através destas milícias armadas como uma influência nefasta e, no fundo, eles querem voltar à soberania e querem voltar a ter os seus próprios acordos. É claro que estas palavras foram ditas na presença de Marco Rubio, que estava muito agradecido pela continuação da aliança com estes países, porque ele, no fundo, quer voltar a assegurar a sua segurança. Chamou-lhes muitas vezes de amigos, de aliados, e tentou demonstrar que os Estados Unidos estão imensamente comprometidos, e estão, com a segurança dos países do Golfo.
Sendo que esse é também um apelo feito pelos próprios representantes desses países do Golfo, que os Estados Unidos garantam a segurança desta zona do globo face à ameaça que representa o Irão.
Claro, e o Irão provou que começa mesmo a disparar pra todo lado, tentando pôr em causa até muitos dos avanços que estes países fizeram. Que já sabemos que não foi muitas vezes no plano social ou das igualdades cívicas ou mesmo políticas. Infelizmente, são governos muito criticáveis, mas do ponto de vista econômico conseguiram alguns avanços pontuais e, de facto, também se tornaram aliados, muito na esperança de os Estados Unidos lhes garantirem alguma segurança. É certo também por isso se tornaram alvos, mas não há bem alternativa que possam constituir entre eles. Fala-se em um projeto entre a Arábia Saudita e o Paquistão, aqui como membros principais, mas também o Egito e a Turquia, que pudessem alicerçar-se uns nos outros para resistir às possíveis incursões futuras do Irão, mas também há quem diga que até algumas pessoas podem ter interesse nestes países de vir a esboçar algum interesse Em juntar o Irão, precisamente a que elas tenham uma visão mais antiamericana, por assim dizer, nestes países, que também existe. Para já, o clima pareceu-me ser muito frutuoso, de grande inspiração, de amizade, de cooperação. Marco Rubio muitas vezes tentou mostrar o seu comprometimento com a segurança destes países, é a maior potência do mundo e que ainda o pode fazer. É certo que a credibilidade pode estar magoada neste momento, mas é que nestas questões, muitas vezes, quem ataca tem a ligeira vantagem de atacar primeiro. Não só não se está à espera, como no fundo, infligir dano às vezes é mais fácil do que tentar evitá-lo. Como sabemos, é mais barato muitas vezes atacar do que ter uma defesa antiaérea que nos proteja. Mas estão todos e até países de fora do grupo, por exemplo, o Iraque hoje veio com muita ideia de se voltar a aumentar a produção de petróleo e exortou a OPEP a fazê-lo. Estão todos a tentar voltar a uma economia próspera e Rubio às tantas diz que não lhe interessa nada aquilo que o Irão diz, porque o Irão está sempre a dizer que vai fazer isto ou aquilo, quer é ver os navios a passar. Ou seja, não interessa tanto essas narrativas de vitória. A verdade é que o preço do petróleo já desceu muito, a pressão inflacionista sobre os mercados está a descer, os navios estão a passar e esperemos que assim continue. Isto significa que há aqui um sabor de vitória, digamos assim, um clima que pelo menos é menos pesado nesta fase, pelo menos em torno do Estreito de Ormuz e da economia mundial, pelo que Marco Rubio consegue ir ao Bahrein hoje colher este ganho.
Sendo que há uma ameaça que continua a pairar em torno das negociações entre Estados Unidos e o Irão. A notícia de que Israel voltou hoje a atacar o sul do Líbano, três mortes, dados avançados pelo ministro da Saúde do Líbano. Aparentemente, há alguma dificuldade por parte da Casa Branca e Donald Trump, em particular, de controlar Benjamin Netanyahu e os objetivos militares e políticos de Israel neste conflito.
É o hino eterno, quem controla quem. E de fato, Israel teria que manter, pelo menos a nível público, nós sabemos que em privado pode haver uma proximidade que torna discutível esta aparente tensão, mas que Trump tem sido muito vocal, e J.D. Vance ainda mais, sobre a maneira como Israel não deve perder, nem que seja apenas publicamente, este seu aliado dos Estados Unidos, sob pena de ficar um Estado um pouco mais isolado. Compreende-se a necessidade de resposta, porque na realidade o Irão também não coibiu o Hezbollah de continuar a atacar. Percebe-se também este plano que é importante, embora para já possa parecer irrealista. A verdade é que o plano de gradualmente substituir as forças de Israel pelos do exército do Líbano, portanto, do exército oficial do Líbano, liderado pelo presidente do Líbano, é sem dúvida uma boa ideia. É pena ainda não ser possível do ponto de vista da falta de força que pode existir do exército do Líbano, mas a ideia é boa. Enquanto isso, surgirem estas notícias de algum tipo até de abuso sobre certas localidades em que se nota que a propensão para a força da parte de Israel pode ser ligeiramente exagerada, ou muito em alguns casos, agora aqui depende das notícias. A verdade é que vai um bocadinho para além daquilo que os Estados Unidos exigiriam nesta parte. E nós sabemos que é sempre compreensível que um país tão pequeno, cercado de governos inimigos, tenha tendência para tentar notar que todas as suas guerras são para a manutenção da sua paz e para resistir, mas manter os Estados Unidos consigo é aqui muito importante. Estas conversações não é só por esta via do Líbano, e também a propensão do Irão achar que o Líbano é parte do seu terreno, mas também da dificuldade que pode fazer em negociar os próximos acordos propriamente ditos, porque nós temos muito pouco, temos um memorando de entendimento que é decifrável, que sabemos que até no verbo parece muito próximo daquilo que o Irão queria e também no verbo deixa ambiguidades e espaços suficientes para que o Irão agora possa preencher todos esses vazios um pouco com aquilo que lhe apetecer, em termos interpretativos. Agora, sabemos que eles também estão dispostos a quase tudo, praticamente até a dar a sua própria vida, para não terem que ceder aos Estados Unidos, que qualquer cedência é importante. Agora, mas aqui regressamos ao ponto das negociações.
Para terminar, seu professor, estamos mesmo no limite do nosso tempo.
Entre os Estados Unidos e o Irão é muito diferente entre os Estados Unidos e a União Soviética. No tempo que se dizia no tempo da desnuclearização, dizia Reagan: "Trust but verify." Portanto, há um elemento de confiança, mas temos que verificar. Ora, mesmo no negócio do JCPO, portanto, do acordo anterior, dizia-se: "Não confiamos e temos mesmo que verificar." E com o Irão será cada vez mais difícil termos estas duas premissas, porque verificar obriga a um contrato selado de uma maneira muito concreta, que para já parece ainda ser difícil de obter, pelo menos nos próximos tempos.
As dificuldades neste processo negocial, tendo em vista uma solução de paz definitiva para a região do Médio Oriente. Professor Orlando Samões, muito obrigado pela sua presença neste Gabinete de Guerra, a segunda edição do dia da Rádio Observador.
Obrigado.