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Está aberto o Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Vamos falar do que se passa na Ucrânia e também no Médio Oriente, em especial na região de Gaza. Conosco hoje, nesta edição, está Daniela Nunes, especialista em Relações Internacionais. Daniela, muito boa tarde. Obrigado por mais uma participação no Gabinete de Guerra. Vamos começar pela Ucrânia, pelo desfecho dessa reunião entre os Estados Unidos da América e a Ucrânia, que aconteceu na Arábia Saudita. Pode ler-se no comunicado conjunto: "A Ucrânia declarou a disponibilidade para aceitar a proposta dos Estados Unidos da América de estabelecer um cessar-fogo imediato e provisório de 30 dias, que pode ser prolongado por acordo mútuo entre as partes e que está sujeito à aceitação e implementação simultânea pela Federação Russa". Este é um desfecho importante. É, de facto, possível começar a trabalhar a partir de agora para esse cenário de cessar-fogo?

Olá, Miguel, boa tarde. Boa tarde também ao Nelson e aos nossos ouvintes. Sim, julgo que são resultados importantes, ainda que nos pareçam, para já, pouco palpáveis, porque ainda falta conversar com o lado russo. Mas vale a pena dizer que tínhamos expectativas muito altas para este encontro, que tinha, simultaneamente, potencial para corrigir, por um lado, ou por outro, para exacerbar o mau ambiente que ficou depois do encontro de 28 de fevereiro, na Sala Oval, entre Zelensky, Trump e Vance. O que este encontro e esta conversação de quase nove horas, muito produtivas, diga-se de passagem, provam é que a verdadeira capacidade da diplomacia é esta: é chegar a alguma forma de acordo e não é humilhar ninguém, sobretudo, humilhar ninguém em público. Não é fazer um espetáculo. Estas conversas foram tidas à porta fechada, não foi o escarcéu que foi a conversação entre Zelensky, Trump e Vance no dia 28 de fevereiro. Nós agora estamos a passar do plano dos desejos, eu diria, para o plano prático. Estamos prestes a saber se, pela primeira vez, esse plano prático vai funcionar ou não. Como eu comecei por dizer, falta falar com o lado russo, mas uma coisa fica provada, como diz o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano: a Ucrânia não é o obstáculo, não pode ser vista, a partir de agora, como o obstáculo. Acho ainda que vale a pena destacar um outro ponto, que são as capacidades diplomáticas do senhor Marco Rubio, que tem provado distanciar-se um pouco da postura de Donald Trump e também de J.D. Vance, pelo menos no plano da forma, no plano da metodologia.

Ele até aparenta que tinha ficado mais desconfortável naquela reunião da Sala Oval.

Exatamente. Aliás, via-se mesmo na cara dele. E ele até neste encontro em Jedá, quando o questionaram sobre se a relação de Zelensky e Trump estava de volta, se este encontro e o sucesso das conversações poderia normalizar as relações entre Zelensky e Trump, a resposta dele foi que isto não era um episódio de "Mean Girls". Não era um reality show e não era um espetáculo televisivo, assim é que é. Isto revela nele uma maior lucidez e, porventura, uma maior maturidade política, o que é sempre simpático e desejável nestas negociações de alto nível.

Referias, Daniela, que falta saber a resposta russa. Há aqui uma novidade, que é praticamente pela primeira vez a Rússia não diz logo "não" à partida. Nas últimas semanas, sempre que se falou dessas reuniões e da discussão em torno do cessar-fogo, a Rússia veio logo dizer que não está disponível para esse cessar-fogo, não está disponível para considerar esses cenários. Agora, o que temos, e depois desse comunicado conjunto, e depois de a Ucrânia mostrar que não é o obstáculo a negociações e a se poder tomar uma decisão contra este conflito, a Rússia veio dizer que só vai definir uma posição depois de conversar com os Estados Unidos da América. Isto é uma novidade.

Isto é uma novidade, sim. Nós não sabemos ainda se ela é assim tão boa quanto isso. Claro que é positivo que tenhamos o lado russo disponível para conversar e, em particular, para conversar com aquele que até aqui tem vindo a ser um aliado. Sabemos que, entretanto, deixou de o ser, pelo menos na dimensão que era o aliado norte-americano durante a administração Biden, mas ainda assim, é a Rússia a disponibilizar-se para conversar com um aliado do Ocidente e da própria Ucrânia, como é evidente. Agora, convém dizer aqui várias coisas. Um representante russo disse muito recentemente, não sei se foi hoje ou ontem, um senhor chamado Kozachev, penso que é assim que se diz, que quaisquer potenciais acordos seriam feitos nos termos dos russos e não nos termos dos americanos. É por isso que julgo que devemos conter aqui um pouco o entusiasmo associado a ter a Rússia, pela primeira vez, a aceitar conversar com os norte-americanos a fim de conseguir assinar alguma forma de acordo. Só para terminar, acrescentou ainda que parte dos acordos seria definida no terreno. Referia-se à linha da frente e estava a sugerir que a Rússia estava mais bem posicionada para negociar do que a Ucrânia. E também vale a pena recordar que hoje mesmo foi hasteada a bandeira russa em Sudzha, na região de Kursk, significando por isso mesmo uma perda para a Ucrânia e também aqui uma desvantagem competitiva que é evidente no terreno e a Rússia vai querer, julgo eu, colocar em cima da mesa estes tais termos que este representante russo mencionava, que vão ser os termos, obviamente, de quem está em vantagem no terreno e vão ser provavelmente os termos das chamadas e das nossas já conhecidas concessões territoriais. Vamos ver o que a Rússia tem para oferecer, mas a verdade é que de facto agora a bola está do lado de Moscou, da parte da Ucrânia não se pode dizer que o governo ucraniano e a Ucrânia é um obstáculo, porque entretanto agora a bola já está do outro lado.

Mas apesar de Trump ter um comportamento errático, se a Rússia responder com um não a este processo e a isto que foi decidido por Estados Unidos e Ucrânia para este avançar no processo, é de esperar uma resposta de Donald Trump.

Pois, é de esperar uma resposta de Donald Trump, mais ou menos à semelhança daquilo que ele tem feito no outro cenário de guerra no globo, no Médio Oriente, que é não funcionar bem, funcionar mal. Da mesma maneira que ele prometeu um inferno em Gaza, se as coisas não forem feitas à maneira que os aliados, no caso Israel e os Estados Unidos, programaram, ele passa a fazer promessas mais drásticas. Julgo que um cenário desse tipo poderá acontecer caso a Rússia, como dizes, Miguel, se atravesse e não queira colaborar, mas sou franca, não me parece que isso vá acontecer. Se fosse para a Rússia negar quaisquer tentativas de flexibilização dos seus próprios termos, penso que não teria sequer cedido à ideia de se sentar à mesa com os norte-americanos. Agora, também convém dizer, beneficiamos aqui do facto, se a figura de Trump pode constituir prejuízo para um conjunto de questões, especialmente para o lado ucraniano. A verdade é que, por outro lado, também pode constituir aqui um fator benéfico para os russos se quererem sentar à mesa das negociações e das conversações. Se porventura fosse Biden a estar no lugar de Trump, provavelmente a Rússia não cederia à hipótese de um cessar-fogo, de uma trégua de 30 dias.

Sim. E como fica a Europa? Qual é a posição da Europa? Não está a participar nestas reuniões, tem tido posições nas últimas semanas de apoio à Ucrânia. Os ministros da Defesa de cinco países europeus reuniram-se hoje em Paris para discutir um plano de defesa para a Ucrânia, mas como é que fica a Europa nesta discussão de cessar-fogo?

Zelensky aqui quis salvaguardar a participação ou o papel europeu nesta negociação, mas eu não sei se ele verá atendido esse pedido, até porque, e esta parece-me ser a razão mais evidente, os Estados Unidos vão querer colher os louros de qualquer acordo para si. Os Estados Unidos, aliás, que começaram hoje mesmo uma guerra de tarifas com a União Europeia e à qual precisamente a presidente da Comissão Europeia prometeu responder na mesma moeda. As coisas não estão no melhor dos níveis de simpatia entre os dois atores. É verdade, e é muito importante, que o Conselho Europeu tem vindo a dar passos fundamentais para conferir maior robustez ao apoio à Ucrânia. Recorde-se o último Conselho Europeu extraordinário, de onde saiu um plano a 26 para continuar e para aumentar, aliás, o apoio à Ucrânia. Mas a Europa ainda pode fazer mais para que a sua posição se torne ainda mais preponderante e nomeadamente no âmbito das negociações que estão a decorrer desde ontem em Jedá, na Arábia Saudita. Pode, por exemplo, recorrer à dissuasão nuclear, que é de resto uma das disponibilidades do presidente Macron, se isso for necessário para assegurar, por exemplo, as garantias de segurança da Ucrânia durante e após o cessar-fogo, caso este último vá avante. Mas é como digo, julgo que Donald Trump vai querer colher os frutos destas negociações para si e ele próprio, tendo em conta também o estado e a animosidade, o estado das coisas entre os Estados Unidos e a União Europeia, não vai querer a ingerência dos europeus neste que é um negócio, entre aspas, que ele quererá fazer sozinho e numa mediação que ele quererá batizar como sua, para depois ficar na fotografia como o grande solucionador e o grande pacificador deste conflito.

Vamos falar também do Médio Oriente, até porque Trump parece ser uma figura também cada vez mais em destaque em Israel. Metade dos israelitas acreditam que Trump está mais preocupado com os reféns em Gaza do que Netanyahu, apesar de, claro, para ter em conta esta notícia, Netanyahu também tem tido uma popularidade muito baixa desde o início deste conflito. Mas Trump está a ser visto como também, olhando para essa fotografia, no caso do Médio Oriente, como a pessoa responsável por um avançar neste processo.

É verdade, mas responsável um bocadinho aqui por via da ameaça, não é? A verdade é que eu julgo que surge a percepção de que Trump está mais interessado na questão dos reféns do que propriamente o governo israelita e em específico, a figura de Bibi Netanyahu. É uma percepção que surge dias depois de Trump ter enviado um representante para conversações diretas com o Hamas, que é uma coisa que não acontecia pelo menos desde 1997, e depois também de ter prometido o inferno, foi este o termo que ele utilizou, ter prometido o inferno em Gaza caso os reféns não fossem libertados Eu julgo que Trump tem aqui uma certa imagem a defender, ao contrário de Bibi Netanyahu, que é a imagem, como eu dizia há pouco, a propósito do outro conflito, do solucionador. Se ele não consegue solucionar o problema pela via diplomática dita normal, ele vai tentar utilizar a via da ameaça. Trump tem que se provar a ele próprio, a si e à sua retórica, esta retórica do inferno que ele vai montar em Gaza caso o Hamas não ceda. Quer dizer, o Hamas já cedeu e Israel também já cedeu. Os dois já firmaram um acordo de cessar-fogo, mas que está altamente fragilizado, até porque, já agora, também vale a pena referir que a ajuda humanitária não tem estado a chegar a Gaza. A ajuda humanitária tem vindo a ser alvo do bloqueio por parte das forças israelitas e, portanto, não estamos em grandes condições para poder crer com efetividade que a tal terceira fase do acordo de cessar-fogo, que previa que este acordo pudesse passar do seu estágio temporário para um estágio permanente, não creio que estejamos numa posição muito confortável para acreditar que possamos avançar para uma paz mais sólida entre israelitas e palestinianos, uma paz justa para os dois lados e uma paz, sobretudo, que permita uma reconstrução justa e humana em Gaza, que é uma coisa que não está a acontecer. Gaza está sem mantimentos, sem combustíveis, sem eletricidade, e esse bloqueio não me parece que Donald Trump esteja a fazer muita força. Está a fazer muita força, efetivamente, pela questão dos reféns e para manter viva a aliança que tem com Israel, porventura ainda mais do que a administração Biden fazia quando estava em vigor essa administração, mas não tem feito muito para chamar a atenção do lado israelita para a necessidade de cumprir este acordo de cessar-fogo e, sobretudo, de facilitar a entrada de ajuda humanitária em Gaza, que é uma coisa que não tem acontecido.

A ajuda humanitária não entra em Gaza, há também corte de eletricidade na região. Tudo isto enquanto se tenta negociar esse avançar da segunda fase do cessar-fogo. Daniela Nunes, especialista em relações internacionais, muito obrigado por mais esta participação no nosso Gabinete de Imprensa.

Obrigada.