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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Vamos falar de conflitos em curso, com destaque para a situação na Ucrânia e também em Gaza, no Médio Oriente. Hoje com o major-general Isidro Morais Pereira. Sou Miguel Cordeiro e vamos começar por este nome: Mohammed Ismail Darwish, apontado como novo líder político interino do Hamas. Major-general Isidro Morais Pereira, o que dizer desta alteração na liderança do Hamas, depois desses ataques que temos visto nas últimas semanas de Israel à liderança do Hamas?
Nós sabíamos que um movimento como o Hamas não poderia ficar órfão de uma liderança. E temos vindo a afirmar que, particularmente, o Hamas era dirigido por um conjunto de personalidades que tinha no topo, no vértice desse conjunto de personalidades políticas, Ismail Haniyeh. Mas de qualquer maneira havia, segundo se consta, pelo menos entre mais 10 a 12 personalidades que faziam parte dessa liderança. Uns exilados no Líbano, outros exilados no Qatar. Mas de um modo geral, toda a liderança política do Hamas não estava na Faixa de Gaza. Portanto, não admira que o diretório político se tenha reunido e tenha encontrado um novo líder, porque este tipo de movimentos têm sempre uma cadeia hierárquica e normalmente procuram refazer as suas lideranças, porque as lideranças são muito importantes neste contexto, como é óbvio. Portanto, têm que escolher alguém para dar a cara, fundamentalmente, no palco político, no palco diplomático, quando se trata dos encontros, quer no Qatar, quer no Egito, para se falar de acordos de cessar-fogo. É preciso haver alguém que dê a cara por este movimento, que leva o nome de Hamas. Não é estranho. Até estranhar é que tenha demorado tanto tempo a encontrar um líder para substituir Ismail Haniyeh. Normalmente, isto até acaba por acontecer de uma forma mais léste, mais rápida.
Entretanto, temos falado da tão esperada ou tão anunciada retaliação por parte do Irão. Temos aqui alguns ataques pontuais. Sete pessoas ficaram feridas no norte de Israel depois de um ataque com um drone libanês. O Hezbollah diz que ainda não é uma retaliação. Há também um ataque a uma base norte-americana. O Iraque já condenou esse ataque a uma base norte-americana, mas isto já são sinais de retaliação, casos pontuais ou ainda é cedo para falar disso?
Vamos lá ver. Vamos primeiro à questão do Hezbollah. Os ataques, desde o evento de 7 de outubro, que todos nós conhecemos, e no momento em que Israel decidiu invadir a Faixa de Gaza, com os objetivos que todos nós conhecemos: a eliminação da capacidade militar do Hamas, a recuperação dos prisioneiros de guerra e garantir que da Faixa de Gaza, pelo menos no futuro curto e a médio prazo, não resulta qualquer perigo para Israel e para as suas populações. Estes são fundamentalmente os objetivos que nortearam a operação israelita na Faixa de Gaza, que o Hezbollah se colocou ao lado do Hamas e tem dito que as ações militares, as ações de fogo, de utilização de drones, de rockets e de mísseis sobre fundamentalmente a faixa norte de Israel, só terminariam no dia em que houvesse um cessar-fogo permanente na Faixa de Gaza. Portanto, tudo normal. É aquilo que temos vindo a assistir nos últimos sete meses. Não há aqui sinal nenhum de que a tal retaliação com sabor a castigo, no fundo, esta foi a palavra utilizada pelos altos dirigentes iranianos, que Israel tinha que ser castigado por ter ousado aniquilar o Ismail Haniyeh em território soberano iraniano, guardado pela Guarda Revolucionária Iraniana. Esse ataque do Hezbollah é mais um, entre muitos que têm sucedido nos últimos meses. Infelizmente, houve alguns feridos e um deles, pelo menos, em estado grave, segundo consegui apurar. Mas é algo que é importante esclarecer a maioria das pessoas: não há sistemas de defesa antiaérea completos que consigam proteger 100%, seja que território for. Israel é talvez o país do mundo que conta com sistema de defesa antiaérea baseada em terra e com aviões no ar, mais completo e mais denso. O território de Israel não é um território vasto, como nós sabemos, e conta com sistemas de defesa antiaérea do mais moderno que existe no mundo. Mas mesmo assim, é possível alguns dos rockets, alguns dos mísseis, algumas das munições de morteiro e de artilharia atingirem determinados objetivos de quando em vez. E tanto mais, quanto de mais perto forem disparados esses rockets, esses mísseis e essas munições, porque os sistemas são baseados fundamentalmente em meios de detecção. E os meios de detecção são fundamentalmente radares. O radar tem que detectar uma ameaça que vem no ar, que foi disparada. Precisa de fazer o seguimento e a seguir, precisa de ser feito aquilo que se designa pelo engagement, pelo empenhamento de uma determinada arma, pelo disparo de um determinado míssil, ou seja aquilo que for, mas normalmente são mísseis Que são dirigidos contra esse alvo em movimento, vão ao encontro dele e destroem no ar. Bom, isto leva tempo e quando os disparos são feitos, perdoem-me a expressão, à queima-roupa, não há tempo nem para as pessoas se abrigarem, procurarem abrigo nos respectivos abrigos, que em Israel praticamente todos os prédios e casas têm abrigos subterrâneos, quando os sirenes tocam e muitas vezes não há tempo sequer para as armas antiaéreas reagirem. Portanto, o grande perigo são fundamentalmente os mísseis, que são de cruzeiro ou balísticos, que são lançados de muito perto. Esses é que são os mais perigosos, porque quando são lançados, por exemplo, do Irão para Israel, são quase 2000 km, são 1700, 1800 km e há tempo suficiente para que os vários sistemas em camadas, desde o sistema Arrow, o Arrow 2 e o Arrow 3, que têm de 2 a 3 mil km de alcance. Depois temos a Funda Davide, que vai até aos 300, 400 km. Depois temos o sistema da Cúpula de Ferro, que cobre até aos 70 km. E temos a Força Aérea Israelita que tem sempre aviões no ar. Todos esses sistemas têm tempo para detetar as ameaças e combatê-las. Portanto, não admira que de vez em quando alguns dos rockets, alguns dos mísseis lançados pelo Hezbollah não sejam intercetados e atinjam objetivos e provoquem danos, quer na infraestrutura civil, quer na própria população israelita.
Enquanto falamos dessa retaliação do Irão, Vladimir Putin fala também sobre o assunto. Pediu ao aiatolá iraniano para que a resposta a Israel fosse contida, que não tirasse a vida a civis. Entretanto, o Irão pede caças de Moscovo. Mas como é que vê esta posição de Vladimir Putin?
Sinceramente, já fui muitas vezes convocado a responder a questões semelhantes e neste momento a Vladimir Putin não interessa que exista no Médio Oriente um conflito de grande intensidade. Um conflito de alta intensidade no Médio Oriente vai levar, inevitavelmente, à destruição do Irão. O grande perturbador do Médio Oriente é o Irão. E o Irão, como nós sabemos, tem apoiado o esforço de guerra russo na Ucrânia, quer com mísseis, mas fundamentalmente com drones, os drones da classe Shahed, que têm sido utilizados profusamente. Todas as noites praticamente o território ucraniano é atacado com drones kamikaze de fabrico iraniano. Mas também têm fornecido mísseis. Portanto, um dos grandes fornecedores, um dos grandes aliados da Rússia é o Irão. E se o Irão se envolver num conflito que conduza a uma escalada decisiva, naturalmente que a capacidade militar industrial do Irão vai ser destruída. E isso não interessa a Vladimir Putin. A Vladimir Putin interessa-lhe, fundamentalmente, um fogo lento, aquele fogo que vai consumindo durante meses e meses e vai distraindo a atenção do Ocidente, vai canalizando os recursos norte-americanos e de outros países, outras potências ocidentais, para o Médio Oriente, não dando prioridade toda e completa à Ucrânia. É isso que interessa a Vladimir Putin. Vladimir Putin não lhe interessa que o Irão seja destruído, porque nós temos que ter a noção que o Irão está a provocar uma perturbação tremenda no Médio Oriente através dos seus proxies, através de guerras por procuração, utilizando o Hamas, utilizando o Hezbollah, utilizando as milícias xiitas do Iraque e da Síria, utilizando os Houthis do Iémen, utilizando a Jihad Islâmica da própria Faixa de Gaza. Por isso é que Israel diz que está a lutar em sete frentes. E o Irão interessa-lhe este tipo de ação estratégica. Não lhe interessa um conflito alargado, porque num conflito alargado, nós temos que ter a noção que o Irão não tem apenas Israel como inimigo. O mundo islâmico não é um mundo uniforme, não é um mundo monolítico. Os xiitas e os sunitas não se podem ver uns aos outros. Neste momento só não se estão a matar uns aos outros por acaso, como fizeram durante os inúmeros anos em que houve a guerra entre o Irão e o Iraque de Saddam Hussein, em que tivemos em confronto os sunitas com os xiitas. E nós temos uma outra potência hegemônica muçulmana no Médio Oriente, que é a Arábia Saudita, que é fundamentalmente sunita. E a Arábia Saudita é um país que tem umas Forças Armadas muitíssimo bem equipadas, muito melhor equipadas que a do Irão. Portanto, à Rússia não interessa de modo algum que no Médio Oriente tudo isto aconteça, interessa-lhe que haja alguma acalmia e por isso é que pede ao Irão que tenha algum recato, porque se não tiver, vai provocar naturalmente uma escalada do conflito e uma guerra aberta. E se houver uma guerra generalizada no Médio Oriente, vai resultar inexoravelmente num conjunto de países que vão associar-se para destruir o Irão. E o Irão não direi que seja eclipsado do mapa, mas vai ser derrotado. Vai sair derrotado desta contenda, porque 80% dos muçulmanos que vivem no Médio Oriente, em sentido restrito, são sunitas, professam o sunismo, não são xiitas. Iríamos ter ali um extremar de posições, iríamos ter ali um conjunto de países que estariam, naturalmente, por interesse próprio, não é porque sejam muito amiguinhos de Israel, mas por defenderem os seus próprios interesses. A própria Arábia Saudita e a Jordânia, quando disseram ao Irão: "Tenham calma, nós não permitimos violações do nosso espaço aéreo, nem com aviões, nem com mísseis, nem com drones". Portanto, isto já é uma restrição que foi imposta à cabeça a uma modalidade de ação operacional possível por parte do Irão. O Irão para atacar Israel vai ter que o fazer vindo de outras direções, porque o trajeto mais curto entre o Irão e Israel é sobrevoando a Arábia Saudita e a Jordânia. Basta olhar para o mapa, como nós sabemos. Mas esses dois países já foram ontem perentórios. E se o Irão não respeitar este pedido, este aviso que foi feito através dos canais diplomáticos, quer pela Jordânia, quer pela Arábia Saudita, naturalmente que estes dois países vão entender uma possível violação do espaço aéreo como um ato de guerra. Isto pode levar a uma escalada do conflito, inclusivamente no mundo árabe.
Major-General Alexandre Morais Pereira, muito obrigado por ter estado connosco no estúdio da Observador nesta edição de Gabinete de Guerra.
Nada, é um prazer.