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Este é o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares e connosco temos hoje o Major-General João Vieira Borges. Bem-vindo. Senhor Major-General, tendo em conta as notícias que dão conta de um impasse maior ou menor, o que lhe parece que poderá sair destas negociações no Catar? Poderemos mesmo vir a ter um acordo de cessar-fogo?
Parece-me que sim. Há todas as condições neste momento para que se venha a realizar e há todas as pressões nesse sentido. Em primeiro lugar, as pressões sobre o Hamas, não só das ameaças de Trump, mas sobretudo daquilo que é a própria conjuntura da região, ou seja, a fragilidade do Irão, não só pelo colapso do regime de Assad na Síria, mas também pela derrota do Hezbollah no Líbano e também pela destruição quase total do Hamas. Tudo isso, obviamente, é uma pressão enorme sobre o Hamas, e não só as ameaças, como já disse, de Trump, mas sobre Israel também as pressões internacionais, sobretudo do Ocidente, quando na prática também já quase que cumpriu aquilo que era a sua missão de destruição quase total do Hamas, só faltando agora a questão dos reféns. Aquilo que é o acordo, o fundamental para Israel é exatamente a recuperação dos reféns nas tais três fases. Duas das fases têm a ver com os reféns, fundamentalmente. A terceira fase é que será certamente mais complicada, que é a tal fase que diz respeito à reconstrução e que diz respeito à governança. E aí sim, haverá depois outro tipo de pressões, designadamente até da nova administração norte-americana. Aquilo que nós temos hoje, em termos de informação, é que está mesmo pronto e que será anunciado hoje ainda à noite ou amanhã, este acordo de paz que felizmente não temos conhecimento dos pormenores. Eu digo felizmente porque a probabilidade de sucesso é inversamente proporcional à informação que sai para o exterior.
Ou seja, quanto mais informação houvesse, mais difícil seria de alcançar esse acordo.
Exatamente, até porque quer de um lado quer do outro, até republicanos hoje estavam a manifestar-se totalmente contra o acordo, sem saberem exatamente qual era o acordo, só porque havia acordo com o Hamas, da mesma maneira que a oposição interna no governo, pelo menos dois dos ministros, mas não só, também pressionam sempre para que não haja acordo, mesmo sem saber qual é o acordo. E se soubessem, então a situação ainda seria pior, porque haveria sempre argumentos para crítica.
De qualquer das maneiras, senhor Major-General, também tem sido notícia nos últimos dias o fato de alguns elementos do governo israelita ameaçarem demitir-se se houver acordo. Por que é que esta possibilidade de acordo está a gerar tantas divisões dentro do governo israelita?
Em primeiro lugar, porque a extrema-direita que está no governo, dois dos ministros, que era o ministro da Administração Interna, que era o ministro da Justiça, os dois ministros e os seus partidos que encaram a destruição total do Hamas como solução. Eu já nem falo noutras questões relacionadas com genocídio. Estou a falar como solução, é inaceitável para eles qualquer acordo com o Hamas. E portanto, só a destruição total levará a depois recolher os reféns. Devem ser mortos, certamente, porque com a destruição total, obviamente seria quase impossível depois a recolha dos reféns. Mas isso eles não transmitem certamente às famílias. A questão que está também em cima da mesa para eles, em termos de argumento, é que nunca haverá uma governança naquela região. E, portanto, eles não aceitam que haja um Estado palestiniano. A partir desse momento, eles estão ao nível do Hamas. Portanto, em termos da sua postura, o Hamas pretende a destruição do Estado de Israel e eles pretendem a destruição da Palestina. E eu já nem falo da mortandade e de genocídio, como eu dizia há pouco. Portanto, são os extremos que se tocam, quer em Israel, quer da parte do Hamas relativamente aos palestinianos, que são obviamente diferentes da própria autoridade palestiniana, que tem um pensamento ligeiramente diferente.
Há também uma declaração que foi feita nas últimas horas pelo homem que foi escolhido por Donald Trump para assumir o cargo de conselheiro de Segurança Nacional, Mike Waltz. Ele diz que o Hamas deve ser destruído e não ter qualquer papel na Faixa de Gaza do pós-guerra. Que sinal também é que dá a estas declarações feitas por Mike Waltz?
É um sinal importante, é um sinal que efetivamente a terceira fase vai ter que ser trabalhada, não está a ser agora clarificada, mas é um sinal que esta administração não vai aceitar exatamente o Hamas. Nem o Hamas 1.0, nem o Hamas 2.0. Não aceita o Hamas, ponto. E portanto, quando o Hamas está agora a responder, a dizer que concorda, obviamente tem consciência de que isso não está neste acordo. E neste acordo estará certamente uma visão mais global da administração da região, designadamente a introdução de uma autoridade palestiniana 2.0 que englobe depois, numa vertente mais pacífica, de partidária e não de movimentos terroristas, todos os movimentos que estão na região, porque obviamente a Jihad também lá está, estão uma série deles Que não só o Hamas. Aliás, alguns deles que têm ou são detentores dos próprios reféns. O Hamas já referiu isso, que não detém nem sequer metade dos reféns. Há uma série de movimentos ligados ou não à autoridade palestiniana. É uma questão-chave para a nova administração e eu também acho que é uma questão-chave para Netanyahu e para o governo, independentemente dos extremistas, obviamente, também não aceitarem. Seria muito mau para Israel, seria muito mau para a comunidade internacional, que o movimento terrorista que em 7 de outubro fez a matança que fez e que continua com os escudos da população palestiniana, na prática, a matar 45 mil pessoas, porque eles utilizam a população para fazer escudos. Se tivessem rendido, havia reféns salvos e havia população palestiniana salva. Não o fizeram, portanto, será muito improvável que venham depois a ter um papel na região, seja de maneira formal, seja depois de maneira mesmo em termos eletiva, porque será fácil para a autoridade palestiniana, que não tem propriamente ligação privilegiada com o Hamas, usar isso nas próprias campanhas internas na Palestina.
Olhando agora também para o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, senhor Major-General, hoje Volodymyr Zelensky visitou a Polônia, que é o país, de resto, que tem a presidência rotativa do Conselho da União Europeia desde o dia 1 de janeiro. Zelensky esteve em Varsóvia. Já houve aqui uma declaração por parte do Donald Tusk a sublinhar a importância de acelerar o processo de adesão da Ucrânia à União Europeia. Qual é o objetivo do presidente ucraniano com esta visita e na prática, como é que se pode acelerar esse processo de adesão, se é que se pode?
O acelerar do processo faz parte dos objetivos de Trump, perfeitamente definidos na campanha eleitoral, e não só, certamente que o vai fazer. Aqui a grande questão que eles discutiram hoje os dois tem a ver com as prioridades ou com as garantias de segurança da Ucrânia. Para Zelensky, e obviamente para a Polônia, a principal garantia de segurança da Ucrânia é a integração na NATO e a integração na União Europeia, além da assistência militar e além da implantação ou não de contingentes militares estrangeiros na Ucrânia. Eles também, da mesma maneira que antes da tomada de posse de Trump, Trump usa aquela linguagem forte da parte do Kremlin, nunca ouvimos tanta gente a falar, também está nos últimos dias, todos falam, todos dão em linha, aí não há dúvidas, aí nunca há divisões. Peço desculpa. Aí temos o conselheiro de segurança, o Nikolai Patrushev, extremista, a dizer que rejeita qualquer solução que não seja a devolução dos territórios ocupados e que é inaceitável que a Ucrânia faça parte da NATO e da União Europeia. Depois temos Lavrov a dizer o mesmo, inclusivamente os dois com uma linguagem que tratam a Ucrânia como um Estado artificial, dizendo que agora aquele Estado que se chama Ucrânia, aqui voltam novamente às grandes questões estruturais fundamentais para Putin, e também Putin já o tinha dito. Neste momento, a linguagem é dura, não há cedências de qualquer das partes e é bom que Zelensky também não as tenha. Depois terá que ser os Estados Unidos, obviamente, espero que com o apoio da comunidade internacional, em particular do Ocidente, que consiga fazer com que haja cedências da parte da Rússia, porque senão temos uma rendição. Nos moldes em que a Rússia quer a paz, não é negociação, é rendição. E é por isso que estão a usar estes discursos, estão a usar estas oportunidades com a Polônia e com outros países, certamente, para mostrar ao mundo que efetivamente não vai ser uma rendição, independentemente da situação militar estar muito difícil para a Ucrânia.
Hoje o presidente do Conselho Europeu, António Costa, anunciou uma cimeira em Bruxelas com Pequim, com a China. Deixou também uma mensagem, António Costa, um alerta ao presidente da China de que a paz na Ucrânia tem de ser compreensiva, justa e duradoura. Esta cimeira ainda não tem data marcada, ainda não há uma data para essa reunião, mas é importante também que as relações entre Pequim e o bloco comunitário sejam mais estreitas?
Muito importante. E vimos das palavras de Xi Jinping que efetivamente a prioridade é a questão econômica, mas vimos também da sua parte uma visão de aceitação multilateralista, muito mais do que Putin, uma visão no sentido de apoiar o crescimento da União Europeia. Obviamente, para a China é importante que a União Europeia tenha crescimento em termos econômicos, porque obviamente equilibra as relações de forças econômicas com os próprios Estados Unidos da América, como sabemos. Foram discutidas as questões das taxas, designadamente sobre as viaturas elétricas e outras questões. E depois, isto é importante garantir esta ligação privilegiada com a China, no sentido de depois também trabalhar com a China a própria paz na Ucrânia. Foi a sua questão e eu acho que era importante que na mesa de negociações da nova arquitetura de segurança mundial estivesse a União Europeia e estivesse a China. Isso é a minha perspectiva, não pode estar só os Estados Unidos. Trump não pode cair nesse erro, já foi avisado pelos democratas. Se cai no erro de negociar exclusivamente com Putin, tudo o que é considerado vitória ou derrota não é da Ucrânia, é dos Estados Unidos. Qualquer insucesso é os Estados Unidos que perdem, não é a Ucrânia. Era bom que tivessem outros atores, até com capacidade de influência sobre a própria Rússia, de maneira direta ou indireta. Digamos que este passo de António Costa para essa cimeira que vai ter lugar no princípio de fevereiro, não há data, mas-
Há essa perspectiva
...terá logo no início de fevereiro. Eu acho que tem essa intenção e é muito inteligente e espero que este processo de paz não seja exclusivo Rússia com os Estados Unidos. O mundo mudou, o mundo não é da Guerra Fria e não tem que ser exclusivamente os Estados Unidos a negociar com a Rússia as cedências da Ucrânia. Nem a Ucrânia vai aceitar, nem a União Europeia deve aceitar. A China aí, obviamente, trabalha sempre com outro tipo de interesses e com uma estratégia indireta, mas era bom que a China estivesse presente, era bom que a União Europeia estivesse presente.
Major-General João Vieira Borges, muito obrigado pela sua análise em mais um "Gabinete de Guerra". Muito obrigado, até à próxima.
Obrigado, até à próxima.