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Começa agora o Novo Gabinete de Guerra, esta manhã com a análise do Bruno Cardoso Reis, coordenador do doutoramento em História e Defesa do ISCTE da Academia Militar, e que faz também parte dos Cinco Continentes da Rádio Observador. Bruno, bom dia. Obrigada por estar conosco.
Olá, bom dia. Obrigado.
O embaixador da Rússia na ONU disse ontem que o conflito na Ucrânia não se resolve num dia, como disse Donald Trump, e que essa solução rápida podia sim ter sido tomada em abril de 2022. Bruno, que leitura fazes destas declarações?
Quanto à primeira parte, estou inteiramente de acordo. Acho que é indiscutível que não faz sentido pensar isso e é sobretudo revelador deste completo egocentrismo de Donald Trump, que acha que sozinho pode fazer milagres. Várias vezes assistimos a tentativas de fazer esses milagres negociais nos quatro anos em que ele foi presidente, no seu primeiro mandato, e vamos ver se primeiro ou primeiro de dois. Mas realmente, nesse aspecto, é verdade. É um conflito muito complexo, que tem raízes históricas também profundas e, sobretudo, dos dois lados há realmente posições muito difíceis de ultrapassar. De partida, há condições mínimas para um lado ou para outro que não são aceitáveis para a outra parte. É isso também que torna evidente que, de facto, a segunda parte da declaração não faz qualquer sentido. E quem percebe minimamente da história de negociações deste tipo, sabe que isso não faz sentido. A tese russa de que havia um acordo que nunca foi assinado nem acordado pelos líderes máximos dos dois lados. No fundo, o que quer que seja que as partes que estavam a negociar em Istambul acordaram era de alguma forma um acordo, realmente é não perceber como é que se negocia a este nível. Isso não existe na história, nunca nenhum acordo numa guerra foi assinado por uma equipa negocial sem que os líderes máximos tivessem uma palavra decisiva a dizer. E portanto, foi exatamente esse teste que falhou e por razões também que são compreensíveis. Por exemplo, o lado ucraniano, questões como garantias de segurança. Um acordo não é simplesmente um cessar-fogo que será usado pela Rússia para voltar a atacar no momento mais adequado. Outra questão fundamental também, do ponto de vista dos apoiantes da Ucrânia, tem a ver com esta questão da cedência em relação a um princípio fundamental desde 1945, que é: não há direito de conquista. Isso realmente acontecia antes de 1945, mas deixou de ser assim com a Carta das Nações Unidas, ou seja, isso significa que uma grande potência não pode simplesmente resolver um conflito territorial pela força e depois reclamar para si o território que conquistou, como resultado de uma guerra. E portanto, no fundo, qualquer acordo que a Rússia considerar aceitável passa por violar esse princípio fundamental.
Bruno, depois de mais de dois anos de guerra e por estar a enfrentar falta de recursos na linha da frente, a Ucrânia vai recrutar homens que estejam detidos, mas com alguns limites. Os fins justificam os meios? Fomos críticos quando a Rússia o fez.
Sim, e eu considero que está longe de ser desejável. Apesar de tudo, é importante sublinhar que no caso da Ucrânia, ao contrário da Rússia, há alguns limites importantes.
Exatamente, sim.
Quer assassinos, quer violadores, realmente não podem fazer parte deste lote. Isso já é alguma coisa.
Já faz diferença, sim.
Já faz alguma diferença em termos de evitar, nomeadamente crimes de guerra. Há uma maior probabilidade de crimes de guerra. Isso claramente não é uma preocupação do lado russo. Sabemos que inclusive os responsáveis máximos de crimes de guerra bem documentados, como o massacre de Bucha, não só não foram punidos ou afastados, mas foram até promovidos e recompensados. Mas no caso da Ucrânia, realmente, isto reflete um problema muito sério, que é a falta de pessoas, o enorme número de baixas. Isso é uma realidade dos dois lados. Uma dificuldade do lado ucraniano também em fazer o recrutamento que necessita, porque muita gente também fugiu como refugiado para o Ocidente e, por exemplo, os países ocidentais não adotaram a lógica de muitos países árabes, que é de recusar, por exemplo, a fuga de palestinianos com o argumento que eles têm de continuar a lutar no seu país. Isso, por razões humanitárias, não foi feito na Europa. Temos milhões de ucranianos na Europa e os próprios ucranianos têm resistido, por exemplo, a reduzir a idade de recrutamento, procurando manter a possibilidade da sua juventude ter alguma educação que garanta depois um futuro. Mas realmente, isso reduz as possibilidades e os ucranianos acabaram por fazer recurso à população prisional. Agora, isso não é o ideal, porque mesmo pessoas que cometeram pequenos crimes podem criar problemas de disciplina, podem criar problemas de pequeno crime no contexto das unidades. Realmente não são os recrutas ideais, e desse ponto de vista, isto é revelador da situação de dificuldade em que está a Ucrânia.
Entretanto, a Hungria assumiu ontem a presidência rotativa do Conselho da União Europeia e para esta presidência de seis meses, Viktor Orbán, que visita hoje Kiev, escolheu o slogan "Tornar a Europa grande novamente", isto associado à candidatura de Donald Trump. Bruno Cardoso Reis, o que isso nos diz sobre as decisões a serem tomadas nos próximos meses no Conselho Europeu?
Não sei se quer dizer que Orbán vai passar a ser um entusiasta do alargamento da União Europeia à Ucrânia e até da NATO, não sei, à Ucrânia, porque se quer uma União Europeia maior, então o alargamento é a solução evidente para esse Para esse problema. Em todo caso, é revelador, diria eu, que ele esteja realmente na Ucrânia. É revelador, sobretudo, desta questão que, apesar do enorme desgaste deste conflito, apesar de alguns custos importantes, ser um fator que contribuiu, por exemplo, para o problema da inflação, ter obrigado a alterações importantes até nas opções comerciais, em termos, por exemplo, de energia da União Europeia, apesar de uma enorme campanha de desinformação e de influência que estava em documentado, inclusive com agentes juntos a figuras influentes na política alemã, por exemplo, neste partido, Alternative für Deutschland, etc. Apesar de tudo isso, realmente continua a haver um apoio muito importante à Ucrânia na maioria dos países europeus e, portanto, a Hungria acaba por ser um pouco a exceção e sendo a exceção, acaba por ser muitas vezes forçada a alinhar com a maioria e, portanto, é essa a minha interpretação, nomeadamente desta deslocação. Provavelmente não é por Orbán ter visto a luz, é porque realmente percebe que no contexto da União Europeia, esta é uma posição que continua a ter grande apoio, apesar, como eu digo, do desgaste que um conflito prolongado provoca sempre, nomeadamente também entre os aliados das partes beligerantes.
No Médio Oriente, Israel deu ordem para retirada da população em Khan Yunis. Bruno, o que isso significa?
Significa que realmente esta ideia de Netanyahu que está iminente, coisa que ele já repetiu repetidas vezes ao longo dos últimos meses, o fim do Hamas como um movimento com uma capacidade militar significativa, realmente não se concretizou e, portanto, pelo contrário, confirma-se aquilo que é a tendência neste tipo de conflitos, que é para o seu prolongamento, para a dificuldade em eliminar um grupo do tipo do Hamas, que é um movimento clandestino, que se mistura liberadamente com a população, em que os elementos armados podem abandonar as armas num determinado esconderijo, misturar-se com a população civil, depois retomar as suas ações militares e recuperar as suas armas no momento mais conveniente. E, portanto, Israel está realmente, muitas vezes, a ter de voltar a zonas de Gaza, onde supostamente já tinha, no fundo, eliminado essas unidades militares do Hamas, nomeadamente no caso de Khan Yunis, segundo Israel, foi o local de onde partiram 20 destes foguetes que o Hamas continua a lançar ocasionalmente contra alvos civis em Israel. Portanto, isto é a ilustração concreta da dificuldade deste tipo de conflito e como ele tende realmente a prolongar-se, a arrastar-se no tempo. Ia ser muito difícil de realmente eliminar completamente movimentos como o Hamas, sobretudo quando Israel tem claramente dificuldades em termos da qualidade das suas informações, ou seja, para combater este inimigo com eficácia, muitas vezes o fundamental é conseguir detectá-lo, é conseguir distingui-lo do resto da população. Isso muitas vezes não é possível.
Ontem não tivemos a oportunidade de falar sobre os Estados Unidos, que destruíram pelo menos sete drones disparados pelos houthis na região do Iémen. A Casa Branca fala em ações necessárias para proteger a liberdade de navegação e tornar as águas internacionais mais seguras. Bruno, há alguma coisa que faça parar de vez estes ataques dos houthis no Mar Vermelho?
Eu diria que a única coisa que poderia ser eficaz era uma ação militar mais sistemática contra os houthis no próprio Iémen, no próprio terreno, e não apenas estas ações mais pontuais. Ou seja, seria fundamental que os Estados Unidos apoiassem os grupos, e são importantes que no Iémen estão contra os houthis e que têm combatido os houthis no passado. Seria fundamental, por exemplo, privar os houthis do controle de uma parte da zona costeira do Iémen. Foi exatamente aquilo que estava à beira de acontecer quando foi, no fundo, quase imposta um cessar-fogo em nome de razões humanitárias. E, portanto, isso foi aproveitado para os houthis manterem essa presença e agora têm-na usado precisamente para fazer ataques sistemáticos contra alvos civis, com efeitos muito negativos, quer em termos da economia global, quer até em termos, por exemplo, da situação humanitária no Sudão, que é ali ao lado, também no Mar Vermelho, e que basicamente tem tido também este problema adicional que é o estrangulamento de um acesso humanitário fácil à zona costeira do Sudão por causa destas ações.
Bruno Cardoso Gues, muito obrigada pela tua análise. Um bom dia, Bruno.
Obrigado. Bom dia.
Obrigada. Até amanhã.