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Gabinete de guerra na Rádio Observador. Ponto de situação na Ucrânia e no Médio Oriente, hoje com Luís Tomé, especialista em Relações Internacionais. Luís Tomé, bem-vindo. Obrigado por estar na Rádio Observador.

Olá, boa tarde.

Boa tarde. Hoje em destaque a conversa telefónica entre Donald Trump e Vladimir Putin, que estava marcada para as 15h. Ainda aguardamos informações sobre a conclusão dessa conversa, mas o que é que pode daqui sair, Luís Tomé?

É difícil prever, até porque não temos a certeza se a conversa telefónica realmente se realiza, porque as agências noticiosas estavam a dar conta há poucos minutos de que o porta-voz do Kremlin estava a dizer que esta conversa não estava verdadeiramente a ser preparada. De qualquer forma, nós temos aqui versões contraditórias, a começar pelos Estados Unidos, porque a porta-voz da Casa Branca diz que o objetivo de Donald Trump é alcançar um cessar-fogo e que haveria um grande empenho. O próprio Witkoff, um enviado especial do presidente Trump, diz que há um grande empenho e uma grande confiança no presidente Trump para conseguir isso, mas J.D. Vance também fez declarações ao regressar agora aos Estados Unidos a dizer que as negociações entre Rússia e Ucrânia estão num impasse e que apesar do presidente Trump pressionar Putin e perceber se ele está realmente disposto a uma paz, se a Rússia não estiver disponível para isso, os Estados Unidos se afastarão, dizendo, aliás, o próprio vice-presidente que "esta não é a nossa guerra", repetindo aquilo que já foi dito anteriormente. Agora, o que parece claro é que os Estados Unidos e Donald Trump confiam que ele, presidente Trump, é o único que pode alcançar um acordo com Vladimir Putin. Mas o que nós percebemos há muito tempo é que o acordo, a paz que Donald Trump quer a qualquer custo e o mais rapidamente possível, significa não aquilo que genericamente se poderia considerar uma paz justa e duradoura. Passa muito por conseguir perceber quais são os limites mínimos que Vladimir Putin aceita, para depois impor essas condições ao lado ucraniano. Não sou eu que o digo. A embaixadora dos Estados Unidos na Ucrânia até abril de 2025, até ao mês passado, diz ela própria, e estou a citar as palavras dela: "Desde o início desta administração Trump, a política tem sido pressionar a vítima Ucrânia, em vez do agressor a Rússia, e que a paz a qualquer preço não é a paz, é apaziguamento". Ora, isto é dito por aquela que representou os Estados Unidos na Ucrânia até há um mês. Por outro lado, parece que Vladimir Putin está a utilizar o presidente dos Estados Unidos para ir conseguindo aquilo que não conseguiu militarmente em quase três anos e meio de guerra e vai esperando por concessões que o presidente Trump consiga arrancar, quer do lado ucraniano, quer europeu. O presidente Zelensky agora mudou de estratégia desde o bullying que sofreu na Casa Branca no final de fevereiro e está permanentemente a repetir que quer o cessar-fogo, está disponível para a paz, quer encontrar-se com o presidente russo, quer falar de novo com o presidente Trump, mas sempre a colocar a tónica de que a Ucrânia é a mais interessada no cessar-fogo imediato e que isso é uma condição para depois poder avançar nas negociações.

Luís Tomé, este tipo de conversas entre Putin e Trump, conversas e negociações diretas, são a única maneira para resolver o conflito?

Não, não pode ser, como nós já percebemos em circunstâncias anteriores. Por um lado, nós temos muito a temer quando há uma conversa apenas, e frequentemente secreta, entre o lado russo e o lado americano, ou inclusivamente nas conversas que já teve o presidente Trump com o presidente Vladimir Putin.

A excluir a Ucrânia.

A questão é que exclui desde o início a Ucrânia e exclui os europeus. Inclusivamente, ao que se sabe, algumas concessões que Donald Trump fez em conversas com Putin e concessões que fizeram as delegações americanas com a delegação russa, por exemplo, o regresso de bancos russos, a começar pelo banco do sistema Swift, isso não poderia ser feito sem envolver os europeus. Há aqui alguma mudança também de estratégia do lado da administração Trump, em que vai tendo alguma articulação com os europeus. A questão é que os europeus, a pressão que têm estado a fazer, eu diria nas últimas duas semanas, é no sentido de levar a administração Trump a perceber que Putin está a tentar enrolá-lo, em bom português, a ganhar tempo que não quer cessar-fogo, nem quer negociar de boa-fé. E os Estados Unidos devem avançar para aquela outra proposta, que vem até de um senador republicano, de retomar sanções ou fazer novas sanções contra a Rússia, nomeadamente as tais sanções indiretas, aplicando duras tarifas a países que mantenham a fazer negócios com a Rússia, designadamente importação de petróleo e de gás natural. Essa é a pressão que os europeus estão a fazer, ainda fizeram ontem e hoje voltaram a fazê-la. Claro que Zelensky também. Na verdade, nós temos várias partes que não estão todas em simultâneo a negociar uma qualquer paz. Temos aqui no meio do sistema o presidente Trump, que tem como único objetivo um cessar-fogo ou uma paz o mais rapidamente possível a qualquer preço. Putin quer ganhar tempo para permanecer, por isso é que fez este ataque brutal, o maior ataque de sempre com drones desde o início da invasão, e os países europeus e a Ucrânia que vão tentando alertar Donald Trump, tentando convencer que por via de negociação apenas Com Vladimir Putin fazendo concessões, a Rússia não vai alcançar nenhuma paz justa nem duradoura.

Falou há pouco de J.D. Vance, Luís Tomé. J.D. Vance esteve esta semana no Vaticano, foi recebido pelo Papa Leão XIV. Eu pergunto-lhe, e pedia alguma brevidade para ainda podermos falar do Médio Oriente, se o papel do Papa ainda pode ser, como já foi noutros tempos, um papel de mediador neste tipo de conflitos?

Poder, pode. O Vaticano, no tempo do Papa Francisco, bem se esforçou por se posicionar como mediador. Aliás, até valendo algumas críticas, porque parecia quase estar a pôr no mesmo patamar o agressor e o agredido, o que não era verdade. Marco Rubio ontem voltou a falar na possibilidade de o Vaticano ser um mediador válido, mas na realidade nós temos múltiplas declarações, incluindo o próprio presidente Donald Trump, a dizer que nada vai acontecer a propósito de uma paz ou de um cessar-fogo na Ucrânia enquanto ele não se reunir com Vladimir Putin ou pelo menos não ter uma conversa direta, telefónica ou por videoconferência com o presidente russo. Portanto, é evidente que sim, há vontade da Santa Sé e tomara muitos que pudesse verdadeiramente mediar as duas partes, estando em boa fé a negociar uma paz, mas Donald Trump reserva para si esse papel e só se não conseguir chegar a lado nenhum é que, como ameaça, abandona a tentativa de mediação e abrirá espaço, por exemplo, à Santa Sé.

E esse papel da Santa Sé também pode acontecer para o lado do Médio Oriente, na guerra do Médio Oriente?

É muito difícil. Por muita boa vontade que tenha Papa Leão XIV e a Santa Sé, é muito difícil verdadeiramente ser mediador quer neste conflito, nesta guerra na Ucrânia, quer nos vários conflitos no Médio Oriente. Nós, no Médio Oriente, temos aqui um impedimento principal que é o governo de Benjamin Netanyahu. Nós percebemos que neste périplo que fez Donald Trump pelos três países do Golfo Pérsico, Arábia Saudita, Qatar e os Emirados Árabes Unidos, foi muito a tónica dos negócios, quer dos negócios pessoais do presidente Trump, quer enfim...

Perdemos a ligação com o Luís Tomé.

E Israel mudou agora para uma nova fase, que aliás é assumida pelo próprio primeiro-ministro. Esta nova ofensiva que segundo as forças israelitas já atingiram quase 700 alvos do Hamas só na última semana, mas agora como diz Netanyahu é para conquistar, limpar e ficar Israel na Faixa de Gaza até que o Hamas seja destruído. Isto muito por razões internas. Esta pequena concessão que Netanyahu anuncia da ajuda mínima humanitária a Gaza foi logo contestada por dois membros do seu governo de extrema-direita, dizendo que isso significa uma tragédia, que significa impedir o esforço de guerra para alcançar a vitória e pelos vistos o que o primeiro-ministro israelita está a fazer é avançar a sua agenda em função de questões internas de preservação da coesão do seu governo, mais do que procurar chegar a um acordo com o Hamas e quem disse com o Hamas, diz uma solução definitiva para o conflito israelo-palestiniano.

Muito obrigado, Luís Tomé, especialista em relações internacionais. Dar apenas nota de que entretanto chega a notícia de que Donald Trump e Putin já estão a falar ao telefone.