Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Gabinete de Guerra, podcast da Rádio Observador. Um podcast em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Conosco temos o coronel Carlos Mendes Dias. Muito boa tarde. Obrigado por estar conosco mais uma vez.
Boa tarde.
Vamos começar pelos serviços secretos russos, que hoje voltam a falar sobre esse ataque em Moscovo e apontam culpas a Estados Unidos, a Reino Unido e à Ucrânia. O diretor dos serviços secretos russos, Alexander Bortnikov, sugere que Estados Unidos, Reino Unido e Ucrânia podem estar por trás dos ataques nessa sala de espetáculo em Moscovo. De que serve, afinal, esta narrativa da Rússia e se de fato é algo que vamos continuar a ver ao longo dos próximos dias, essa tentativa de colocar aquilo que aconteceu em Moscovo à Ucrânia, mas agora também com os Estados Unidos e Reino Unido à mistura?
Sim, numa lógica que eu vou chamar assim normal, a Rússia procura envolver quer a Ucrânia, quer os seus parceiros nesta ação terrorista, que à luz da sociedade internacional, obviamente se revela isso mesmo. É o terror traduzido naquele espaço. E à procura de reforçar o que pode ser a legitimidade que possui para continuar as suas ações, pese embora não me pareça que o próprio Vladimir Putin ou a Federação Russa no seu conjunto, isto é, o Estado russo que está em guerra, precisasse deste tipo de ações. Eu vou aqui dizer duas ou três coisas que tenho ouvido, mas em primeiro lugar, a quem poderia servir ou quem é que utiliza uma ação deste tipo, que é uma ação de natureza assimétrica? Aquele que normalmente é o mais fraco. É uma ação do fraco ao forte e é terrorista, ou presume-se ser terrorista, na medida do possível, em que pretende ou mudar poderes políticos instalados ou tentar que os poderes políticos instalados conduzam as suas ações políticas de forma diferente, quer por contestação das populações, quer também pelo ambiente de incerteza e de terror que essas populações poderão estar sujeitas. Ora bem, deste ponto de vista, seria mais tendencial a utilização do parceiro mais fraco em ações deste tipo. Mas desta forma, não seria mais viável uma ação à procura dos próprios líderes ou de outras pessoas com influência direta na guerra? Primeira questão. Segunda questão: eu não consigo deixar de isolar o seguinte, mas é uma questão de associação, não é nenhum juízo de valor, nem outra coisa qualquer. Repare que se dá o atentado. É claro que se diz que depois fogem para a Bielorrússia ou para a Ucrânia e que isso são as fronteiras mais vigiadas do mundo e que é antinatural. Obviamente que isto também é uma falácia. Toda a gente sabe que estas ações são encobertas e são planeadas e, por conseguinte, não é isso que nos deve motivar a tirar conclusões. Depois, também dizer o seguinte: a lógica, por exemplo, do Estado russo falhando a promoção da paz, que tanto diz e que se associa ao quadro da NATO, promover a paz, nós também não podemos, e que se fragiliza assim. Também não podemos ter este tipo de atitude, porque já viu, se nós tivermos esse tipo de opinião relativamente aos Estados que não conseguem evitar atentados terroristas, eram praticamente todos do mundo, incluindo nós.
Certo.
Depois dizer a lógica da radicalização dos autores ser no próprio país. Quantos radicalizados nos próprios países, nos Estados Unidos, em França, até nos países nórdicos isso acontece. Portanto, do meu ponto de vista, falácias. Quarta questão: um atentado terrorista, numa cidade com cerca de 13 milhões de habitantes e outras cidades, e por isso é que é do fraco ao forte, até se pode ter avisado, mas é preciso tempo pra saber onde, quem, etc. E as coisas falham. Dizer que há ignorância sobre os avisos e que isto é de soberba, não me parece que o Estado russo ou qualquer outro, se fosse ucraniano era igual, pudesse ignorar esses avisos. Repare bem, se nós tivéssemos este tipo de pensamento, por exemplo, o senhor presidente Zelensky foi avisado que havia a possibilidade da Rússia invadir a Ucrânia pelos norte-americanos seis meses antes. E nós temos este tipo de conversa relativamente à Ucrânia? Não me parece. Depois, aquilo que é quase perverso. Repare, depois do atentado, os turcos prendem 147 pessoas ligadas ao Estado Islâmico em 30 províncias. Depois do atentado. É também na sequência do atentado que Kiev é bombardeada pelos russos, e Kiev, particularmente os edifícios ligados aos serviços de informações.
Sim.
Ainda mais com o míssil Zircon. Já agora, o míssil Zircon, por quê? Porque se fosse, por exemplo, o Kinzhal, obrigava o levantamento do MiG-31, etc. O míssil Zircon pode ser lançado, por exemplo, da Crimeia. Dizem algumas fontes que demorou seis minutos. São 7000 km/h, mais ou menos, que voa o míssil e que até fragilizou dois sistemas Patriot, mas foi à procura das informações e até foi à procura dos líderes desses serviços. Portanto, nós poderemos fazer associações. O que é um facto, resumindo, é que ações deste tipo Que são muito difíceis de conjurar. Não só na Rússia, como em todos os sítios, e é por isso que se fazem. A segurança é um fim de qualquer Estado, mas é um fim de natureza utópica. Isto é, conjurar todo o tipo de ameaças é utopia. E é por isso que a segurança é também uma condição a atingir que nunca é atingida.
Mas é sempre difícil identificar com 100% de certeza autores deste tipo de ataques, tal como é difícil ligar também, neste caso, a estes países, Estados Unidos, Reino Unido e Ucrânia. Mas este tipo de discurso, que é feito por Putin, agora feito pelos serviços secretos russos, já foi feito por outras figuras do Kremlin, isto é um discurso que serve essencialmente para países. Exatamente.
E também, de alguma maneira, para os apoiantes russos que estão no exterior, porque não há só apoiantes russos no interior. Mas repare que este tipo de discurso é exatamente o seu discurso simétrico nos ucranianos e parceiros da Ucrânia. Obviamente, que esses países parceiros da Ucrânia ou ucranianos, ou as pessoas mesmo individualmente consideradas, como é o meu caso, que defendo a integridade territorial das fronteiras da Ucrânia, para que fique de novo claro. Ouvir os Estados Unidos, o Reino Unido e a Ucrânia dizerem que estavam ligados a estes atos de terror, já viu a projeção na imagem da sociedade internacional. Na mesma lógica que um faz um discurso, o outro faz outro discurso, porque a ação terrorista também tem consequências na lógica do nosso espírito. Eles influenciam as operações do espírito, que é outra maneira de dizer pensamento. E é por isso que os discursos são antagônicos, simétricos deste ponto de vista, e é legítimo pensarmos das duas maneiras. Agora, o que me parece, na lógica, é que a Federação Russa não precisava de fazer aquele discurso perverso de uma operação de falsa bandeira, para endurecer posições e outras coisas que nós temos, vou chamar a palavra, inventado. Não me parece que precisava disto. Tal e qual como a Ucrânia ou seus parceiros, eventualmente, imagino, se fosse eu a planear este tipo de operações, ia à procura de elementos com maior poder de decisão no andamento das operações. Porque a descobrir-se qualquer ligação disto, a Ucrânia, do ponto de vista internacional, ou os seus parceiros, perdem muito, julgo eu, no nosso pensamento, exatamente porque é isso, é o terror instalado nas ruas.
Entretanto, os suspeitos foram detidos, têm vindo a ser detidos mais e mais suspeitos. Hoje temos declarações de Medvedev, antigo presidente e primeiro-ministro russo e atual líder do Conselho de Segurança, que defende a morte dos acusados e dos mandantes do atentado em Moscovo. Como é que vê estas declarações?
Essas declarações são, no fundo, na lógica do polícia mau. É o exacerbado das situações. Obviamente, do ponto de vista formal, há o trabalho policial, deveria haver o trabalho dos tribunais e cumprir-se aprovar, obviamente, as autorias do atentado, aquilo que está preconizado no quadro penal, na moldura penal, neste caso, da Federação Russa. O que Medvedev procura outra vez é carregar na gravidade da situação e passar pra o outro lado, que quem fizer mais isto, poderá acontecer. Mas tem que ser visto. Eu estou a dizer isto, não é ser ingênuo. Obviamente que há interrogatórios que são feitos, se calhar não, quase de certeza, em todos os países, mas obviamente na Federação Russa, que é dessa que estamos a falar, para além dos limites admissíveis, há julgamentos que podem factualmente ser, mas são quase combinados. Eu estou a colocar-me de fora dessas ideias. Mas isso é apenas retórica, perversão e carregar na gravidade do ato. Acho que não devemos levar muito a sério. O que devemos levar a sério é a moldura penal da Rússia, e se ela preconizar, para determinadas situações, as penas de morte, mas julgo que não será o caso, é cumprir com a moldura penal, desde que provado. E aqui é que está a questão. Se se provar combinadamente, voltamos ao início. É injustiça a fazer-se. Se forem de fato culpados, cumpra-se a moldura penal. E aqui é que é a dificuldade.
Vamos aqui só abordar mais um tema, até porque o ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia voltou a falar sobre isto hoje, os mísseis Patriot. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Kuleba, voltou a pedir ao Ocidente o envio de mísseis Patriot. A frase dele é: "Dêem-nos os malditos Patriots". Isto para estar a responder aos avanços das tropas russas. Qual é a importância destes mísseis e por que também esta insistência da Ucrânia? De fato, são mísseis importantes nesta altura do conflito?
Sim. Repare bem, mesmo estes ataques sobre Kiev com os mísseis Zircon, que é um míssil com capacidade nuclear, obviamente, que não foi utilizada, tem comprimento de nove metros, tem uma ogiva explosiva de 300 quilos. Estou a falar de cultura geral, um alcance maior que 1000 km. A Crimeia está a cerca de 700 km. E esses mísseis são lançados, ainda não é de base terrestre, mas são lançados de navios de superfície e de submarinos. E já agora, tem o custo militar desconhecido, mas fala-se de cerca de 10 milhões de dólares. Não é lançado assim porque me apetece. Estes mísseis são mísseis hipersónicos, podem ir até aos 11 mil km/h. Neste caso, terão atingido 7100 km/h. Mas o que é que significa? São muito difíceis de apanhar pelos sistemas de detecção. São rápidos. Repare que eles percorreram, entre as 10h25 e as 10h31, em seis minutos, mais de 700 km. E o que significa? E nesse ataque também foram destruídos, resta saber até que nível ficaram inoperacionais, dois sistemas Patriot que estavam colocados no aeroporto de Kiev. E por serem mísseis hipersónicos e mísseis cruzeiro, são muito difíceis de apanhar por radares. Os Patriot são dos poucos sistemas que o conseguem fazer. Daí, mais uma vez, a insistência do senhor ministro Kuleba, em primeiro lugar, e em segundo lugar, temos que reparar no seguinte, e parece-me que aqui está mais importante: a zona de Kharkiv está praticamente às escuras e ao que sabemos a proteção antiaérea é quase nula. Na zona de Odessa é praticamente quase nula. Na zona de Zaporizhzhia cidade, neste caso, cidade, também quase nula. Eu diria que é quase ser um convite. E, portanto, Kiev ainda mantém ao seu decisão política, porque foi tomada a decisão de fazer recuar alguns dos sistemas que foram pra linha da frente de Kiev de novo, mas não é suficiente, como se mostra. Mas já há muito tempo. E portanto, o ministro Kuleba está a verbalizar aquilo que tem sido solicitado já há meses e que não tem sido possível satisfazer por uma razão ou outra. E eu estou sempre a afirmar isto, não sendo obviamente de primeira responsabilidade a defesa da Ucrânia dos outros, mas sim da própria Ucrânia. Mas quer dizer que estando neste estado de situação, é uma carência que não tem sido possível colmatar, até porque os sistemas têm sido destruídos e eles também não têm sido tão abundantes. Há dois ou três na Polónia, dois ou três na Roménia, há alguns países que têm, na Alemanha, etc., mas não são assim tão abundantes e são complexos.
O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã e tem nova edição depois das notícias das 16h. Está sempre disponível em podcast. Eu sou o Miguel Cordeiro. Até amanhã.