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É o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Vamos fazer um ponto de situação no conflito na Ucrânia, também a situação na Venezuela e no Médio Oriente. A nossa convidada, Mónica Dias, especialista em Ciência Política e Relações Internacionais, também diretora de Estudos Políticos da Universidade Católica. Mónica Dias, muito boa tarde. Bem-vinda à Rádio Observador.

Boa tarde.

Viva. Amanhã são retomadas as negociações de paz entre a Rússia e a Ucrânia, negociações, como sabemos, mediadas pelos Estados Unidos da América, em Abu Dhabi, mas hoje mísseis balísticos e drones voltaram a cair sobre Kiev. Este retomar de ataques russos mostra que o Kremlin não parte para as negociações de amanhã de boa-fé.

Sim, parece-me que o padrão, o modus operandi da Rússia, de Vladimir Putin, não vai mudar. E é uma ilusão pensarmos realmente que Putin se irá sentar a uma mesa de negociações. Não é o caso sequer de amanhã, porque são negociadores e não os chefes de Estado que se vão reunir. Mas parece-me muito difícil imaginar que vá, de facto, neste ano, acontecer uma reunião entre estes dois chefes de Estado, entre Vladimir Putin e também Zelensky, porque, na verdade, Vladimir Putin alimenta-se da guerra e o seu país é já marcado por uma verdadeira economia de guerra e também de uma cultura de guerra e de agressão. E eu acho que estes últimos ataques explicam isto mesmo. Portanto, Vladimir Putin está a fazer do inverno uma verdadeira arma de guerra. Há, aliás, muitas outras: a fome, a sede, a seca, o frio é um deles. Já outras batalhas foram vencidas pela União Soviética na altura, precisamente por causa do inverno, e neste momento está a aplicar o mesmo. Só que há uma coisa que mudou: é que, entretanto, entre aquilo que aconteceu, por exemplo, na Segunda Guerra Mundial e o presente, há muitas convenções internacionais sobre direitos humanos que condenam esta forma de fazer a guerra, uma forma desumana, bárbara e de pressão extrema sobre a população. E, portanto, mostra que Moscovo não tem nenhuma preocupação com questões humanitárias, com o respeito de convenções internacionais e não se preocupa nem com a vida dos ucranianos, mas também não da sua própria população, que também sofre muito. A considerar, por exemplo, o número de soldados que já morreram nesta guerra. E o que é muito curioso observar aqui é que esta arma de guerra, o frio e o inverno, que é aqui explorado até às últimas instâncias por Putin, contrasta com os poucos avanços na linha da frente da guerra. A Rússia é incapaz de vencer na batalha real, na linha da frente, e por isso está a desgastar a população, a castigar, a causar este sofrimento, esperando que possa mudar o apoio a Zelensky e que possa haver uma mudança política interna. Esta é uma forma de guerra condenada e é muito curioso que esta guerra entra agora no seu quarto ano. É a guerra mais longa que a Rússia, na altura, parte da União Soviética, alguma vez enfrentou e sem qualquer perspectiva de conseguir vencer no terreno, efetivamente, esta batalha, que pode, obviamente, vir a ganhar um dia, mas pelo menos a curto prazo e a médio prazo, não se vê que seja possível conquistar mais terrenos. E daí que me parece que um qualquer acordo, aquele pelo menos que foi uma contraproposta da Ucrânia e, aliás, já aceite pelos Estados Unidos também, esta contraproposta que foi enviada a Moscovo não teve ainda resposta, porque precisamente a Rússia não iria aceitar não conseguir aquilo que a sua narrativa e os seus objetivos desde o início foram, nomeadamente, conseguir ocupar todo o terreno da Ucrânia ou pelo menos definir a política e destruir a soberania e a independência deste Estado que é a Ucrânia.

E assim sendo, para as reuniões que são retomadas amanhã em Abu Dhabi, não há qualquer expectativa por parte da Mónica Dias de saírem boas notícias de lá, como por exemplo, disse Donald Trump, que espera ter boas notícias em relação ao conflito na Ucrânia desta segunda ronda de negociações.

Quer dizer, temos que ter sempre esperança, não é? Mas esta esperança é firmada num contexto de absoluta incerteza. E essa incerteza é da responsabilidade também do presidente norte-americano, porque se ele quisesse, teria colocado, como ele costuma afirmar, as cartas na mesa e teria feito destas negociações, já há muito tempo, uma certeza. Mas também ele parece ganhar com esta incerteza e Zelensky denunciou isto já de uma forma muito cuidadosa, mas também muito clara. Falta aqui o apoio realmente substantivo dos Estados Unidos e que deixa também os aliados europeus numa situação muito vulnerável, que se transfere depois para Conflitos. Se temos outros conflitos entre os Estados Unidos e a União Europeia, ou a Europa também, afetando outros Estados, inclusive da Europa, não só aqueles da União Europeia. E, portanto, quando há um conflito, os membros europeus da NATO, os membros da União Europeia são muito cuidadosos com as críticas que fazem a Donald Trump, porque precisam do apoio dos Estados Unidos, precisamente nesta fronteira, nesta guerra com a Rússia e em nome também da esperança para a própria Ucrânia. Donald Trump tem assim em xeque, um bocadinho, os Estados da Europa e tenta jogar nos dois tabuleiros. Agora, uma coisa é muito certa, que esta coligação dos Estados com vontade de apoiar a Ucrânia, é muito difícil traduzir a expressão inglesa. Esta coligação é muito frágil e a própria Rússia já disse que no caso de, por exemplo, a Inglaterra ou a França, ou a Alemanha, deslocar tropas para esse território da Ucrânia, que segundo esta proposta de um acordo de paz e de cessar fogo, funcionasse de garantia de segurança em relação do território não conquistado pela Rússia, então se isso alguma vez acontecesse, que a Rússia iria considerar estas tropas inimigos e ripostar de forma violenta e atacar estes próprios países. Isto é muito irônico numa guerra em que a Rússia, por exemplo, utiliza soldados da Coreia do Norte para os lançar para a linha da frente, mas ao mesmo tempo não aceita que a Ucrânia possa ter aliados que depois também pudessem apoiar esta guerra do lado da Ucrânia. Temos aqui ainda uma distância muito grande entre a Rússia e a Ucrânia, em termos das propostas que estão no papel. Os Estados Unidos não expressaram, até o momento, uma verdadeira vontade, pelo menos conhecida, porque pode haver outras negociações nos bastidores que não conhecemos, mas aquilo pelo menos que está em cima da mesa, que é conhecido, deixa todo este acordo muito em aberto e não pressiona Putin no sentido de o obrigar a aceitar qualquer uma destas propostas.

Deixa-me mudar de tema, Mónica Dias, para continuarmos a falar de Donald Trump, mas agora por um motivo completamente diferente, o que se passa na Venezuela. Faz agora um mês que Nicolás Maduro foi capturado, deposto pelos Estados Unidos da América. Numa altura em que Donald Trump irá receber, deve pelo menos receber hoje, na Casa Branca, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, que tem sido muito crítico desta operação militar dos Estados Unidos. O que eu lhe quero perguntar é como é que irá Donald Trump lidar com esta confusão que o próprio criou com toda a América do Sul depois do rapto do líder da Venezuela? Conseguirá manter boas relações com a Colômbia? É isso que este encontro nos mostra hoje?

Mais uma vez, temos aqui um cenário de grande incerteza, de inconsistência e que marca, de facto, a política de Donald Trump. Mas é meu entender, o que realmente está aqui em causa, por detrás dos incidentes na Venezuela, na Colômbia, é sobretudo Cuba. Ou seja, a ideia essencial é conseguir a queda do regime cubano por estrangulamento, por incapacidade de o Estado conseguir sobreviver e funcionar, provocar, eventualmente, até uma rebelião da própria população. E o grande objetivo de Donald Trump aqui, e sobretudo de Marco Rubio, que tem nesta área da América Latina, e também da América do Sul, digamos, o comando. E parece-me que isto também é uma negociação, provavelmente, entre Donald Trump e Marco Rubio, é conseguir uma mudança de regime, uma abertura da Cuba. Não esquecer que temos aqui, de facto, um regime que oprime a população há décadas em Cuba, uma população que não é livre, e portanto esta tentativa, mas também por vias violentas, de conseguir chegar a este objetivo. E de facto, parece-me a mim que Donald Trump não está preocupado nem com a situação de direitos humanos na Venezuela, nem com a situação da droga na Venezuela, nem também com a situação do tráfico de droga Na Colômbia. Apesar de isso ser um tema muito importante e que nos deve preocupar, o que acontece é que mais uma vez acusa Gustavo Petro de ser traficante de droga. Houve muitas acusações nos últimos meses, muito semelhantes, aliás, àqueles que dirigiam também a Nicolás Maduro e a condenação, e todo o processo que está a ser feito a Nicolás Maduro tem a ver com a designação deste antigo chefe de Estado como traficante de droga e como terrorista. Obviamente, Gustavo Petro, que agora vai estar na Casa Branca, tem certamente receio daquilo que pode acontecer. No entanto, a força extrema que foi utilizada em relação a Maduro pode condicionar já também as palavras e o discurso de Gustavo Petro, que já se mostrou muito cordial a conseguir um acordo e vai portar-se bem, vai controlar melhor a situação do tráfico de droga. No entanto, eu desconfio muito de todos estes argumentos, que são importantes. Atenção, obviamente, o combate ao tráfico de droga é muitíssimo importante, mas tenho grandes desconfianças, porque repare que há relativamente pouco tempo o presidente norte-americano, Donald Trump, perdoou e libertou o presidente das Honduras, Juan Orlando Hernández, que tinha sido condenado a uma pena de 45 anos de prisão nos Estados Unidos. Um processo que funcionou com várias testemunhas, um processo durante muito tempo feito com todo o rigor. E Donald Trump acha que no caso de Orlando Hernández, que foi não só acusado, mas foi de fato condenado por estar ligado ao tráfico de droga. Aqui, Donald Trump diz que se tratou, obviamente, de uma perseguição política e que Hernández é inocente. Temos aqui, mais uma vez, dois pesos e duas medidas. Temos que conseguir olhar para além, qual é o verdadeiro objetivo. E parece-me que para Marco Rubio, o verdadeiro objetivo é Cuba. Marco Rubio terá, no meu entender, de alguma forma negociado com Trump no sentido de dizer: "Eu aceito muitas das tuas políticas e vou apoiar e ser leal incondicionalmente, mas em troca dá-me, por favor, mãos livres na área de Cuba". Obviamente, e depois tudo sobre a chefia de Donald Trump, que é sempre o presidente da paz e que faz todas estas coisas acontecer. Mas por trás está, obviamente, Marco Rubio.

Agradeço. Mónica Dias, especialista em Ciência Política e Relações Internacionais, esteve conosco no Gabinete de Guerra desta tarde. Obrigado, Mónica. Boa tarde.

Muito obrigada.