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"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Em destaque, a situação no Médio Oriente. Professora Lívia Franco, o Qatar anunciou mais um acordo para deixar entrar ajuda humanitária nas zonas mais afetadas e vulneráveis de Gaza. O acordo foi preparado em cooperação com a França e com a participação de Israel e do Hamas. Isto é um bom sinal para um possível acordo futuro, para pôr termo a este conflito, ou é apenas um acordo marginal imposto pela comunidade internacional?

Primeiro, acho que não foi imposto. Segundo, acho que é um sinal positivo, sobretudo porque nós sabemos, nas últimas semanas, desde o assassinato de um dos elementos mais importantes do Hamas, no sul do Líbano, pelas forças israelitas, que estava a ser muito difícil avançar com esta negociação, que tem que ser uma negociação que se vai fazendo devagarinho. E não é sobre esse acordo de libertação de reféns que este acordo que nós agora nos estamos a referir diz respeito, é um outro acordo, mas é um acordo que eu acho que é muito importante. Sobretudo fornecer material médico e ajuda humanitária à Faixa de Gaza. Todos os indicadores internacionais mostram que a situação humanitária nesse território é absolutamente catastrófica, mas implica também, por isso é um acordo, entrega de medicamentos aos reféns israelitas que estão presos, capturados na Faixa de Gaza. Por que não é o acordo principal? Porque o acordo principal obviamente diz respeito à libertação dos reféns. De qualquer maneira, estes acordos que são capazes de estabelecer resultados positivos e pontos de comunicação e de acordo entre as partes, feitas através de mediação, neste caso, ou através do Qatar, mas agora já com o elemento novo, a França, é muito importante. E é importante, sobretudo, para fazer avançar as negociações que importam mais, que continuam também a ser desenvolvidas, por intermédio do Qatar e de novo também por ajuda e mediação dos Estados Unidos e do Egito, tendo em vista a libertação dos reféns israelitas que ainda faltam. Nós sabemos que é muito difícil, esses reféns são essencialmente militares e reservistas e o preço a pagar pela sua libertação, do ponto de vista do Hamas, tem que ser muito elevado. O Hamas continua a pedir que seja feita a libertação de uma série de prisioneiros palestinianos e também que seja assinado um cessar-fogo definitivo. As autoridades israelitas não estão nada interessadas. Então o modelo parece que agora é o modelo de negociação de um acordo que seja um acordo multifases. Ou seja, que seja possível a libertação de um grande número de reféns, a libertação de alguns prisioneiros palestinianos e, sobretudo, que sejam negociadas umas tréguas mais longas e, durante essas tréguas mais longas, que se consiga mesmo negociar um cessar-fogo permanente. Nós sabemos que ao mesmo tempo tem avançado a operação militar israelita no território de Gaza. Ela já está bastante avançada e pode ser que aqui os dois calendários coincidam. Isto é uma negociação muito dura, que aliás, nós sabemos, também tem criado algumas fissuras dentro do governo israelita.

Sim, já lá vamos também. Major-General João Vieira Borges, a União Europeia, entretanto, aplicou sanções ao líder do Hamas, incluindo-o na lista de terroristas. A par disto, Washington prepara-se também para voltar a classificar os rebeldes houthis como uma entidade terrorista, em resposta aos sucessivos ataques no Mar Vermelho. Que impacto prático é que estas duas decisões podem ter?

Penso que não terá grande impacto. Aliás, em linha com toda a inclusão de terroristas em listas internacionais. A autoridade palestiniana depois reclamou logo a seguir a inclusão nas listas de grupos terroristas, as organizações ligadas a colonos israelitas, que têm sido muito criticados pelo próprio Estados Unidos, desde Biden até Blinken. Eu acho que não é por aí que se vai agudizar o conflito. Eu, em linha com a professora Lívia Franco, concordo com aquilo que referiu e o espírito que eu também pretendo sempre chamar a atenção, temos que falar de paz. E esse espírito está presente até depois em Davos, na Arábia Saudita. Para mim é muito importante a Arábia Saudita dizer que estava disposta a reconhecer formalmente Israel, se fosse alcançado um acordo que previsse uma Palestina independente. Esta mensagem é muitíssimo importante para a paz, para pressionar Israel, para pressionar os Estados Unidos. Aliás, Blinken disse logo a seguir que os estados árabes não participariam na reconstrução de Gaza sem a resolução final da questão palestina, que tem a ver com o reconhecimento também de alguns países, o caso da Arábia Saudita. Todo este conjunto de negociações e de algum empenhamento no sentido do pós-guerra, eu julgo que são importantes nesta fase, apesar de depois na região, começamos a ter uma divisão entre sunitas e xiitas, a partir do momento em que há ataques do próprio Irão contra o Paquistão, contra o Iraque. Essa divisão, porventura, até será favorável à resolução do conflito palestiniano e dispersa a centralidade do problema em Gaza.

Professora Lívia Franco, sobre a questão dos Houthis, a União Europeia deve aprovar a missão conjunta com os Estados Unidos no Mar Vermelho? De que forma esta decisão pode endurecer posições de países como o Irão ou outros ali à volta e que consequências podem sair daqui?

Eu acho que a União Europeia não tem muita alternativa, no sentido em que a União Europeia se quer como um actor defensor da ordem global e dos princípios básicos sobre o qual assenta essa ordem internacional. E um dos princípios básicos é precisamente a liberdade de navegação e o comércio livre também. Ora, são esses princípios que sustentam o funcionamento regular da ordem internacional que estão a ser questionados pela ação dos Houthis. E estão a ser questionados de maneira absolutamente instrumental. Aquilo que os Houthis querem não é atacar diretamente o princípio, mas é atacar o princípio de modo a internacionalizar a sua questão. Aliás, estas ações não são de agora, já desde 2019 que estes ataques têm acontecido, mas agora aproveitando, obviamente, o agudizar do conflito e da questão palestiniana, associado também à questão palestiniana, os Houthis, muito bem orientados pelo Irão, acharam que era um bom pretexto e uma boa ocasião para ajudar a internacionalizar a sua causa e a sua actividade. E, portanto, eu acho que a União Europeia, de facto, não tem outra alternativa. E não digo isto de um ponto de vista negativo, como se fosse uma coisa difícil. Digo isto porque, de facto, é aquilo que compete como um actor responsável e um actor, sobretudo, que é um grande defensor da ordem dita liberal, e dos princípios de cooperação e de multilateralismo. Portanto, não tem outra alternativa. Acho que ficaria muito mal à União Europeia, de facto, se não tomasse precisamente essa decisão. Claro que no contexto agudo que nós vivemos, sobretudo naquela região, todos estes elementos parecem contribuir para o aumento da conflituosidade. Pelo menos numa leitura primária, eu acho que há muito essa tendência de achar que isto é mais lenha para a fogueira, mas não é isso que está em causa, isso não é verdade. O que está em causa aqui, ao contrário, é a defesa de uma série de regras e de uma série de princípios que basicamente o que advogam e o que sustentam é uma ordem internacional que se baseia em regras e que precisamente visa uma vida da comunidade internacional que seja estável e previsível. Aliás, estes assuntos todos também têm sido discutidos, e já agora peco também no ponto que o general Vieira Bosques tinha referido, tem sido discutido agora nestes últimos dias no contexto de Davos. Há uma grande preocupação, aliás, a presidente da Comissão Europeia disse isso, nós estamos perante um mundo e uma ordem internacional que está marcada por uma conflituosidade cada vez maior e por uma grande fragmentação e a União Europeia aquilo que quer de facto defender é uma ordem internacional que seja estável e regulada e é isso que está em causa aqui nesta questão dos Houthis.

Entretanto, senhor major, Benny Gantz, um dos ministros do gabinete de guerra do governo israelita, e ele é até apontado como uma alternativa moderada a Netanyahu, apontou o dedo à falta de proatividade do primeiro-ministro nesta gestão e planeamento do conflito, bem como necessário pós-guerra. Olhando para o que tem acontecido e para a duração deste conflito, que já leva mais de 100 dias, pode mesmo falar sem falhanço ou Netanyahu dá jeito continuar este conflito, que funciona, de qualquer maneira, como um seguro de vida dele à frente do governo israelita?

Eu penso que o segundo cenário que referiu é o mais provável e, portanto, para Netanyahu continuar a operação para apresentar resultados mais objectivos, independentemente do principal resultado, que era recuperar os reféns, não tem sido atingido. A própria operação militar não tem recuperado reféns. Os 105 reféns que foram libertados foi numa outra situação. A operação militar propriamente dita tem tido algum sucesso, independentemente das consequências nefastas em termos dos efeitos colaterais para a imagem de Israel. Em termos militares, toda a gente que trabalha estas áreas sabe perfeitamente que fazer face a organizações terroristas no interior do território e usando a população como escudo é quase impossível, como estamos a ver, as próprias zonas que foram limpas, neste momento já estão novamente o Hamas, através dos túneis, a enfrentar militares que pensavam que já não tinham qualquer oposição. Portanto, a operação será sempre difícil, estará na sua terceira fase, eles vão justificando inclusivamente o sucesso a partir do momento em que reduzem o próprio tempo, portanto, tinham alargado o tempo. Como eu disse aqui, estrategicamente era importante dizer que era seis meses a um ano, para depois ao fim de dois, três meses, dizer que afinal já cumpriram a missão. É o caso, esta terceira fase de redução de forças, foi o caso agora a redução de uma divisão das quatro que estavam no teatro de operações, com muitos reservistas a voltar ao mundo do trabalho, que é importantíssimo para Israel também, é também uma mensagem, mas aquilo que me questionou no início, a divisão do gabinete de guerra, em especial Gantz, que é o chefe do Partido da Unidade Nacional, que quer sobretudo a trégua humanitária e quer dar prioridade à troca de reféns e sabe que a guerra, o escalar da guerra, tem consequências nefastas naquilo que será o futuro. No fundo, a linguagem de António Guterres, que quanto mais tempo dura o conflito em Gaza, maior é o risco de escalada, maior é o risco de erros de cálculo, se não me engano, foi isto que ele disse ontem ou anteontem. No fundo, é quase aquilo que disse o Gantz. Ao contrário de Gallant, o ministro da Defesa e do próprio Netanyahu, que querem sobretudo cumprir a missão, impõem a missão de destruição do Hamas, que será apresentada mais em termos de destruição de lideranças. Eu comecei a ver os dados, começa-se a ver no "Times of Israel" muitos indicadores de chefias que foram mortas da parte do Hamas e são esses indicadores que serão apresentados como o sucesso da operação. Mas a divisão no gabinete de guerra existe desde o primeiro dia, vai continuar a existir e sobretudo existirá naquilo que será a discussão agora nesta terceira fase, estaremos a dias ou a um mês de equacionar efetivamente aquilo que vai ser o futuro de Gaza, quem vai ficar a liderar toda aquela zona e de que maneira o vai fazer. E isso tem sido uma discussão enorme, com reajustamentos de posições do próprio partido do primeiro-ministro, a começar por Gallant.

"A Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9:30 da manhã e tem nova edição depois da síntese das 16:30 da tarde. Está sempre disponível em podcast. Eu sou a Maria João Simões.