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"Ideias Feitas", na Rádio Observador, com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.

Olá, Ricardo. Boa tarde.

Quero falar sobre o choque de António Guterres e um pedido de contenção às autoridades iranianas.

Já chego lá. Queria só notar, para quem ouviu não é novidade, que eu nos últimos "Ideias Feitas" falei sobre o desprezo que a vasta maioria dos mídia nacionais e internacionais, em particular as televisões, têm dedicado ao que está a acontecer no Irão, coincidentemente agora estava a falar disso, e que pode vir a ser um dos eventos mais importantes do último meio século. Acho que não é um exagero se se concretizar a queda do regime. Eu gostaria muito que isso acontecesse, não temos a certeza. Infelizmente, esse desprezo e o silêncio não vêm apenas dos mídia, ou pelo menos não só dos mídia jornalísticos. Ainda ontem parece que houve a cerimônia dos Globos de Ouro em Los Angeles e não se ouviu ou não se viu uma única figura do chamado mundo do entretenimento a tocar no assunto. Viu-se, pelo menos foi o que eu li, diversas figuras a tocar noutros assuntos, sobretudo no caso da ativista que foi morta por um membro do ICE no Minnesota. Um episódio triste, com certeza, mas que me parece que seja só um bocadinho menos importante e menos consequente que os milhares de pessoas já mortas e presas no Irão por protestarem contra a ditadura islâmica. E também tivemos nos Globos de Ouro, ainda houve um ator, uma atriz ou dois ou três ainda fixados na questão de Gaza, mas sobre o Irão, nem um pio. E se formos aos políticos à escala global, sairmos dos mídia e formos aos políticos, a situação ainda é mais bizarra, porque o senhor Starmer do Reino Unido, que a propósito de Gaza publicou não sei quantas centenas de posts, emitiu não sei quantas centenas de declarações, não diz nada acerca do Irão. O que eu não consegui confirmar em absoluto, mas pareceu-me que sim, o que ele fez foi apenas assinar uma declaração conjunta com os líderes da França e da Alemanha, em que estas três alminhas juravam estar profundamente preocupadas com relatos de violência pelas forças de segurança iranianas. E só. Depois aos líderes da União Europeia, claro, a senhora von der Leyen, presidente da Comissão, informou o Irão, quer dizer, o povo iraniano, que a Europa apoia plenamente os manifestantes, mas ninguém percebe em que esse apoio se manifesta na prática ou se pode vir a manifestar. Claro que não há, de fato, apoio nenhum, há umas palavras. Mas acima disso tudo, e era disso que eu queria falar, em matéria de descaramento e de falta dos níveis mais básicos de decência, paira como quase sempre o engenheiro Guterres, que é o secretário-geral da ONU e que se tem mostrado exatamente ao nível da organização a que preside, porque após 20 dias em que a população iraniana tem saído todas as noites à rua para arriscar a vida e perdê-la, às vezes, na tentativa de derrubar o regime, o engenheiro Guterres só ao fim desses dias todos, quase três semanas, é que se dignou publicar um post no X em que se diz chocado com o excessivo uso da força pelas autoridades iranianas e pede contenção. É quase o mesmo que afirmar: "Vejam lá se não matam muitos ou se matam mais discretamente, senão é chato". O que se nota é que o engenheiro Guterres não invoca o famoso direito internacional, não condena o regime dos aiatolhas, de todo, não ameaça ninguém e nem sequer ameaça escrutinar nada. O engenheiro Guterres, obviamente, não tem interesse nenhum em criticar o regime iraniano, o regime que está lá a ocupar o Irão, e só acabou por dizer qualquer coisa porque o silêncio ao fim de tantos dias já era excessivamente vergonhoso. Mas ele também como não é muito dado à vergonha, a vergonha passou por ele e seguiu. Como isto acontece, o engenheiro Guterres limitou-se a dizer o mínimo possível e com a hipocrisia e a dissimulação que todos lhe reconhecem. Ou quase todos. Estas coisas são sempre subjetivas, mas a mim custa-me imaginar uma criatura moralmente, pelo menos no palco público, em privado é capaz de haver, mas no palco público custa-me imaginar alguém que seja moralmente mais débil que o engenheiro Guterres. Claro que ele também é incompetente e nós portugueses sabemos disso. É incompetente, é inconsequente, é manipulável, é o que se quiser. Mas o que define aquele homem em primeiro lugar é a brutal ausência de caráter. E não foi por acaso que há 24 anos, no único momento que eu acho positivo da sua carreira política, o engenheiro Guterres se demitiu de primeiro-ministro para evitar o pântano. Ou seja, o pântano está onde o engenheiro Guterres estiver e chamar-lhe pantanoso eu acho que é dos menores insultos que aquela criatura pode receber. Tudo o resto acho que será para pior.

Obrigado, Alberto. E amanhã haverá mais "Ideias Feitas" aqui na Rádio Observador.

Com certeza, Ricardo. Até amanhã. Um abraço.

Um abraço, Alberto. O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite Talismã.