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Este é o Som do Domínio da Guerra, sempre disponível em podcast. Comigo já está o Major-General Arnaut Moreira.
Olá, muito bom dia a todos.
Bom dia e bom ano!
Um grande 2025 para todos.
Uau, tanto otimismo!
É verdade. Vamos lá a isto.
Vamos a isso. Vamos precisamente começar pelo ano de 2025, depois de no último programa de 2024 termos passado em revista os acontecimentos mais significativos do ano. Seria interessante, obviamente, neste primeiro programa de 2025, olharmos para os desafios que se colocam ao sistema internacional neste ano que agora se inicia. Que desafios temos pela frente, major-general?
Eu escolhi quatro. Haverá certamente muito mais e haverá certamente outras formas de os escolher. Mas a mim pareceu-me que estes quatro vão traduzir um bocadinho aquilo que vai ser 2025. Vamos começar por enumerá-los. O primeiro é a disrupção trumpiana. O segundo é a hora das decisões na Europa. O terceiro é o regresso da geoestratégia. E o quarto, a guerra híbrida. Vamos começar pela disrupção trumpiana. Já não faltam muitos dias para a tomada de posse.
20 de janeiro.
Mas a disrupção já começou.
Já?
Porque o simples facto de Trump ter sido eleito já pôs campainhas a tocar em muitos setores da sociedade internacional. Há uma dimensão interna e uma dimensão externa na chegada de Trump ao poder. Trump foi eleito pelos norte-americanos e foi eleito pelos norte-americanos para mudar a América. Não foi para dar continuidade às políticas de Joe Biden. E, portanto, vai haver nesta dimensão interna dois grandes temas que vão estar em cima da mesa. Primeiro é a dimensão cultural. Este é um problema importante porque vai ter repercussões por imitação também em outros países à volta do mundo. A dimensão cultural, Trump acha que há um excesso de liberalismo na sociedade americana e vai procurar pôr uma certa rédea nesse liberalismo social. Depois, a questão dos imigrantes, e isto vai ter repercussões enormes, não apenas dentro dos Estados Unidos, mas sobretudo por aquilo que eu disse, a tal mimetização do efeito americano, que pode acontecer em outras sociedades e vai certamente acontecer em outras sociedades ocidentais. Depois, a segunda questão nesta dimensão interna é a destruição do legado de Joe Biden. E, portanto, logo nos primeiros dias, estou convencido daquilo que chamam os decretos do primeiro dia. Os decretos do primeiro dia é Trump senta-se na sua secretária e começa a disparar decretos que anulam aquilo que eram decretos da anterior presidência.
A reverter a política de Biden.
A reverter a política de Biden. Depois, é reformar instituições. É um problema mais complicado, porque a solidez do sistema democrático norte-americano assenta no peso das suas instituições e nos balanços de poder que entre elas se desenvolve.
Os famosos check and balances.
Check and balances. Ora, ao nomear um conjunto de personalidades que nós agora já conhecemos melhor, a intenção é, naturalmente, reformar essas instituições e dar-lhes novas orientações.
E tem condições para isso.
E tem condições para isso, exatamente. Portanto, isto é a dimensão interna que, a partir dela, haverá também reflexos externos. Mas depois há uma dimensão externa que talvez seja ainda mais interessante para nós do ponto de vista da análise do sistema internacional. Primeiro, é um facto absolutamente extraordinário, que é a América vai tornar-se uma potência revisionista. Ora, isto é a primeira vez que acontece no sistema internacional, isto nunca tinha acontecido no sistema internacional. Nós chamamos potências revisionistas àquelas que não estão de acordo com o sistema internacional em vigor. E havia duas: havia a Federação Russa, a Rússia, a União Soviética, e havia a China. Eram potências que não estavam satisfeitas com aquilo que era a hierarquia ocidental, o domínio ocidental nas instituições multilaterais e na ordem e no sistema internacional. Portanto, eram potências revisionistas, queriam rever o sistema. Mas agora, de repente, os Estados Unidos, que encarnavam essa ordem internacional, vão se tornar também uma potência revisionista. Afinal, os Estados Unidos também não estão satisfeitos com esta ordem internacional. Ou seja, o sistema internacional caminha para uma volatilidade e para uma instabilidade absolutamente tremenda. Os Estados Unidos, que eram defensores de uma determinada ordem, a partir de agora tornam-se também uma potência revisionista. Nunca tinha acontecido no sistema internacional termos três potências revisionistas simultaneamente. Portanto, não há ninguém para defender a ordem liberal que tínhamos.
Portanto, já me assustou.
É, já assustei. Mas é verdade, parece-me que estamos a inaugurar aqui uma nova era. Depois, a guerra das tarifas. A guerra das tarifas não tem só a ver com os inimigos, tem a ver também com os amigos. Isto é, Trump é adepto das tarifas como seu instrumento de regulação econômica e, portanto, tanto vai atingir os seus inimigos, a China, por exemplo, como vai atingir também os seus amigos, o Canadá e o México em primeiro lugar, mas também a Europa, certamente. Depois, a distribuição das responsabilidades O Trump acha que a América tem responsabilidades a mais e que é preciso distribuir alguém que tem que assumir essas responsabilidades. O que isso significa? Alguém tem que pagar essas responsabilidades que até agora eram assumidas pelos Estados Unidos da América. E depois uma outra que vai ser tremenda, do meu ponto de vista. Eu acho que tudo o que podia acontecer de mal a Guterres está a acontecer: é a questão do multilateralismo. Os Estados Unidos pagam cerca de 27% dos custos da ONU. A China cerca de metade dos Estados Unidos e depois o terceiro é o Japão, que gasta cerca de metade daquilo que a China gasta. Mas a agenda de Trump é exatamente contrária à agenda de António Guterres e, portanto, através dos mecanismos de financiamento das Nações Unidas e dos seus programas, os Estados Unidos podem condicionar em muito aquilo que é a agência do multilateralismo das Nações Unidas. Bom, segundo tema: a hora das decisões na Europa. Qual é o nível de acomodação que nós estamos disponíveis a fazer na Europa? Para isso era preciso que a Europa estivesse mais unida e não está. Portanto, há já muita gente que está de pé a aproveitar aquilo que é o balanço da eleição dos Estados Unidos, para mostrar que a Europa também vai ter que mudar e vai ter que se alinhar de acordo com aquilo que é a concepção do mundo de Trump. Exigências de segurança, é uma das questões. Como é que vai acomodar as tarifas comerciais, outra das grandes questões. E depois, talvez na hora das decisões da Europa, o mais importante seja reformar a regra do consenso. A regra do consenso não é possível de ser mantida num mundo em mudança. Não é possível manter o consenso. Temos que reformar as instituições europeias para que a maioria passe outra vez a poder ter liberdade de ação, senão a Europa nunca terá estratégia. Haverá sempre alguém que está contra a estratégia e irá ter a capacidade de bloquear a União Europeia. E, portanto, é preciso reformar a regra do consenso. Ela é muito bonita, mas não vai funcionar num mundo em mudança. E depois, a questão da Ucrânia. Como é que nós europeus vamos ter uma palavra a dizer naquilo que são as negociações que se anunciam entre Vladimir Putin e Donald Trump? Onde é que está a Europa aqui e quem é que representa a Europa? Porque como temos a regra do consenso, também já não sabemos muito bem qual é a voz da Europa e qual é o peso dessa voz específica da Europa nestas negociações que têm a ver com a arquitetura de segurança e defesa europeia. Bom, este era o segundo tema. O terceiro tema é o regresso da geoestratégia. Estamos a regressar ao século XVI. Bem-vindo outra vez o Afonso de Albuquerque que no início do século XVI, ao olhar para o Índico, disse: "Eu tenho que controlar as duas entradas no Índico. Vou tomar Ormuz e vou tomar Malaca. Vou fechar os estreitos que controlam o acesso ao Índico."
Portanto, vai haver muita gente a comprar mapas em 2025.
E vai haver muita gente a ler a história outra vez de Afonso de Albuquerque, que ensinou-nos muita coisa que nós entretanto fomos esquecendo. O Irão controla diretamente pela sua posição territorial o Estreito de Ormuz, e portanto o Estreito de Ormuz condiciona todo aquele tráfego energético do Golfo Pérsico em relação ao Índico. Mas agora controla indiretamente o outro estreito, que é o Estreito de Bab-el-Mandeb, que é o acesso ao Mar Vermelho, do Mar Vermelho ao Índico, através dos Houthis. Portanto, o Irão, uma potência de segunda ordem, controla os recursos energéticos e os recursos de natureza comercial que precisam do Canal de Suez e do Mar Vermelho para transitar de Oriente para Ocidente e de Ocidente para Oriente os produtos comerciais. Não apenas os Estados Unidos começaram a falar em reassumir o controle do Canal do Panamá. E, pelo sim pelo não, a China construiu uma das suas maiores bases militares no exterior, no Djibuti, no tal Estreito de Bab-el-Mandeb. Isto é, estamos a regressar à geoestratégia e ao nosso Afonso de Albuquerque. Façam o favor de ler durante o próximo fim de semana aquilo que fez e a estratégia de Afonso de Albuquerque para o Índico. Depois, a guerra híbrida. À medida que a Federação Russa vai estando em maior assertividade contra o Ocidente, vai começar a desenvolver uma guerra híbrida de enormes proporções e terá como alvo aquilo que é a sua proximidade geográfica: Finlândia e os países bálticos. Portanto, vamos esperar que durante o ano de 2025, a guerra híbrida da Rússia contra a Finlândia e os países bálticos se acelere. Isto perante um certo apaziguamento que se vai notando na Europa e de tentativa de acomodação
Portanto, temos quatro desafios para 2025.
Quatro desafios para 2025.
Que não são fáceis. Trump, Europa, o regresso da geoestratégia e a guerra híbrida. Temos obrigatoriamente de olhar sempre para o Médio Oriente quando falamos da ordem mundial. Terminamos 2025, major-general, sem um acordo para Gaza, com um cessar-fogo muito precário no Líbano, com uma estrondosa queda da dinastia Assad na Síria e com uma guerra à distância entre Israel e os Houthis, e com o Irão a reequacionar a sua estratégia, falou disso há minutos. O que é que podemos esperar desta região, Médio Oriente, onde as mudanças se têm produzido, eu diria que quase sempre, ou sempre, de forma violenta?
Essa é uma das características do Médio Oriente, é que nós não conseguimos encontrar um sistema de reformas, de evolução na continuidade, de pequenas alterações com um determinado rumo. O que nós encontramos são sempre disrupções, são alterações violentas de ocupação do poder nesta área. Faria aqui quatro pequenas referências. Começaria talvez pela Síria. Esta mudança de al-Jolani para al-Sharaa, que é a mesma pessoa, mas representa uma mudança. É a mudança de alguém que estava na oposição e que tinha simpatias islâmicas, por alguém que agora se senta na cadeira do poder. Basta ver a mudança do fato de al-Sharaa. Al-Sharaa veste-se agora com os melhores fatos ocidentais, com a gravata a condizer com os fatos que utiliza, usa sapatos de elevada categoria e senta-se já com uma pose presidencial naquilo que são as cadeiras que existem em Damasco. Al-Jolani transformou-se já daquilo que era um líder, num presidente. Num presidente de quê? De uma república islâmica. E é isso que al-Jolani será. Mas al-Jolani tem sido de uma inteligência estratégica imensa, que é não hostilizar ninguém do lado de fora. Não hostilizou ainda a Federação Russa, se bem que aquelas bases ainda estejam para serem negociadas, do meu ponto de vista. Não hostilizou os Estados Unidos, não hostilizou Israel. Isto é, ele sabe que os desafios de natureza interna são de tal forma enormes, que ele não pode ser capaz de responder a esses desafios internos se houver oposição externa. Portanto, ele tem conduzido com grande tacto, com grande inteligência política, estas relações com o exterior.
Isso também, em si mesmo, é uma novidade, não é? Habitualmente escolhia-se um lado.
Claro. Ele vai procurar obter o máximo de benefícios e, sobretudo, não arranjar inimigos para ter condições para os difíceis desafios internos. Depois o Líbano, entretanto, saiu dos radares. Nós já não falamos do Líbano há muito tempo, mas o Líbano só tem um cessar-fogo. Isto é, o cessar-fogo vai acabar dentro de poucos dias e, portanto, temos que ter a esperança de que haja condições para que ele continue. Mas nada garante que o cessar-fogo no Líbano esteja para durar. Depois é o Iémen. Ninguém consegue controlar o Iémen, não há forma de o fazer. Israel está à procura um pouco da administração Trump agora. Isto é, está a ver o que a administração Trump pensa sobre o Iémen, porque a estratégia de Israel divide-se entre duas orientações: é o Iémen que interessa atacar ou é o Irão que interessa atacar? Isto é, vamos diretamente à fonte ou vamos só às consequências dessa fonte? Esse é um aspecto que está, sobretudo, à espera da chegada de Trump ao poder. E depois Gaza, sempre com as suas misérias e as suas tragédias. Tarda o acordo, vai haver outra vez negociações. Há um aviso de Trump que paira no ar de enorme violência no caso de não haver a libertação dos reféns e, portanto, pode ser que com esta pressão, finalmente, este acordo acabe por chegar. Entretanto, continuam as provocações recíprocas. O Hamas continua a disparar roquetes sobre Israel para mostrar que está vivo e Israel desenvolve uma operação militar muito importante sobre o norte de Gaza. O que é que falta aqui? Há aqui uma indecisão política, que eu não sei se é de natureza estratégica, isto é, ocultar ao sistema internacional aquilo que Israel pretende sobre o norte de Gaza, ou se, pelo contrário, é a falta de entendimento e consenso político interno em Israel sobre o que fazer com isto. Mas, de qualquer maneira, todas as operações militares têm que ter em vista uma determinada política a ser conseguida, e nós ainda não conseguimos visualizar essa política.
Muito bem. Portanto, grandes desafios se colocam à região do Médio Oriente, uma vez mais em 2025. Major-general, vamos à cortina de fumo. Hoje trazemos para a nossa cortina de fumo a frota fantasma de navios petroleiros que a Federação Russa utiliza para escapar às sanções ocidentais, mas aparentemente esta frota é também utilizada como cortina de fumo na guerra híbrida que a Rússia desenvolve contra a Europa. O que é que se está a passar?
Nós temos falado muito e achei que seria interessante trazermos um pouco desta frota fantasma da Federação Russa para o nosso programa O Ocidente tem imposto sanções complexas e até difíceis à Federação Russa, sobretudo àquilo que é a exportação dos seus produtos energéticos, que o Ocidente considera como sendo um dos grandes alimentadores da guerra da Federação Russa contra a Ucrânia. E tem-no feito impondo preços que os petroleiros que transportam esse petróleo da Federação Russa têm que respeitar. Isto é, eles não podem vender acima de um determinado valor. O que a Federação Russa fez? Em vez de utilizar os seus petroleiros, contratar petroleiros em todo o mundo para dizer: "Estes petroleiros não são meus" e procurar, desta maneira, evitar todas as sanções possíveis e continuar a negociar o petróleo acima do tal preço indicado pelas sanções europeias.
Uma espécie de comércio por procuração.
É, um pouco. O que é uma frota fantasma? Uma frota fantasma é uma frota que é muito antiga, que já deveria ter sido abatida e ido para peças, mas onde um conjunto de pessoas que nós não conhecemos, são empresas que dependem de empresas, que por sua vez dependem de empresas. No final disto tudo, onde é que nós terminamos quando vamos à procura de quem é o dono daquele petroleiro? Num apartamento, num hotel de luxo no Dubai, onde ninguém atende o telefone e onde nunca ninguém viu ninguém entrar. São esses os donos desta frota. A dimensão da frota é brutal. Cerca de 70% do petróleo russo é exportado e transportado através desta frota fantasma. E alguns experts falam em cerca de mil petroleiros ao serviço desta frota fantasma. O que se passou agora? É que essa frota fantasma passou a lançar a âncora para o fundo dos mares e a dar cabo dos cabos de telecomunicações e elétricos que unem a Finlândia à Estónia, a tal guerra híbrida de que eu falei há pouco. Isto é, são plataformas que a Federação Russa agora está a utilizar para monitorização da atividade da NATO, por um lado, e a dar cabo das infraestruturas energéticas e telecomunicações dos países ocidentais. É uma outra utilização da guerra híbrida.
Muito bem. E já na reta final do "Domínio da Guerra", o Ponto de Mira. Desta vez colocamos o Ponto de Mira no nosso próprio programa. Vamos, para a semana que vem, celebrar dois anos de emissão do "Domínio da Guerra" na Rádio Observador. Major-general, o que é que tem reservado para esse programa comemorativo?
É, o tempo passa depressa.
Pois passa.
O tempo passa depressa. Vamos fazer dois anos, é uma data que entendo que devemos assinalar. E vamos assinalá-la através de um programa com um tema específico. Nós muitas vezes, como trazemos aqui muitos temas, às vezes não temos o tempo suficiente para desenvolver um desses temas. Mas há um tema que tem sido chamado muitas vezes ao "Domínio da Guerra", que é o da questão do sistema nuclear internacional. Nós ainda não tivemos tempo para olhar com profundidade para este sistema. E o que eu proponho para os dois anos de o "Domínio da Guerra" na Rádio Observador, é dedicarmos um programa ao sistema nuclear internacional. E vamos ver tudo. Vamos começar no átomo e na radioatividade. Vamos chegar à primeira bomba atómica, vamos discorrer sobre aquilo que foi a corrida ao armamento nuclear. Vamos falar aos tratados nucleares e ao ponto de situação onde estão os novos grandes desafios nucleares que hoje em dia o mundo contemporâneo tem perante si. Portanto, vai ser um programa para comemorar os dois anos, específico sobre o sistema nuclear internacional.
Muito bem, a não perder então na sexta-feira depois da síntese das 21h30. Major-general, uma vez mais, bom ano.
Um grande abraço a todos e bom ano. Um bom ano para todos.