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"Operação Stop" na Rádio Observador, todas as semanas as principais novidades do mundo automóvel, como sempre, com o Alfredo Lavrador. Alfredo C., muito bem-vindo. Como é que estás? Como é que foi essa semana?

Obrigado, José Rafael. Foi boa. Está bom tempo, nós gostamos disto.

Ora bem, o que não gostamos é de batalhas e, neste caso, no programa de hoje, vamos falar de uma batalha que envolve a China. Depois dos carros elétricos, este novo conflito é sobre pneus. As ajudas consideradas ilegais pela Organização Mundial do Comércio e a União Europeia levaram a Europa a taxar os carros elétricos produzidos na China. Há aqui uma nova batalha com os chineses. Parece, Alfredo, que estamos condenados a estas constantes batalhas comerciais com a China. Depois dos carros elétricos exportados para a Europa, agora é uma com os pneus. Qual é que é o problema, afinal?

Tens toda a razão, José Rafael. Parece que é uma perseguição, mas faz parte, porque o que acontece é que se, por exemplo, Portugal quisesse ajudar uma determinada indústria, que é a nossa, imagina tu do azeite, do vinho, da carne ou do que quer que seja, não o poderíamos fazer, porque estamos impedidos disso mesmo por parte da União Europeia, que impede que os países ajudem ilegalmente as suas indústrias. Lamentavelmente, a China não procede de igual forma e quando tenta exportar para os outros países que cumprem as regras da Organização Mundial do Comércio, digamos assim, acabamos por colidir, uma vez que eles acabam por ter uma vantagem ilegal, e isso não é aceitável. Aconteceu com os carros elétricos e agora aconteceu com os pneus, por motivos que são em tudo similares. Ou seja, há subsídios excessivos para a indústria chinesa, que enquanto eles só vendem na China, não tem problema algum, é bom para o público chinês, mas assim que começam a exportar para os outros mercados, no caso o europeu, não é aceitável e é isso que gerou esta situação atual.

Alfredo, como é que surgiu esta questão então agora em torno dos pneus? Os fabricantes chineses estão a jogar limpo ou há aqui algum tipo de assistência por fora, digamos assim, uma direção assistida?

Olha, não é caso de jogar limpo ou sujo. Eles estão a jogar com as regras do país. O que acontece é que a China, quando decidiu começar a exportar fortemente para vários mercados, mas sobretudo, agora estamos a debruçar-nos sobre o europeu, devia ter considerado que há regras que tinha que cumprir. A Organização Mundial de Comércio, como te falei há pouco, alertou para as ajudas ilegais que beneficiavam as marcas chinesas. A União Europeia foi investigar e concluiu isso mesmo, concluiu que a acusação tinha mérito, outra coisa não era de esperar. E isto é em relação aos carros elétricos. Nos pneus, o procedimento e o resultado foram similares e aqui estamos nós. Sabes que apesar dos pneus parecerem menos sofisticados do que os automóveis elétricos, também aqui existem fabricantes melhores que outros, como é óbvio. O nível da média, até dos melhores, sucede que está muito abaixo dos fabricantes europeus, que acusam os chineses de dumping e de venderem pneus de qualidade inferior. Sim, porque hoje em dia há muita tecnologia, são exigidas muitas coisas, nem sempre fáceis de conciliar, aos pneus. E uma vez que nós exigimos que sejam simultaneamente seguros, que proporcionem conforto, que não façam ruído de rolamento, que é determinante agora no caso dos veículos elétricos, que como não têm ruído do motor, todo o ruído provocado, seja de aerodinâmica, seja de rolamento dos pneus, ouve-se muito, e os clientes são muito exigentes, mas só sabem disso depois de adquirir o produto, e é isso que também se tenta pôr fim.

E quem é que são os queixosos?

Olha, os queixosos, tradicionalmente, são os fabricantes que se sentem mais prejudicados por esta concorrência desleal. No caso dos pneus, é a Michelin, Continental e a Pirelli, que são os fabricantes de pneus mais fortes do continente europeu, e são simultaneamente apontados como os melhores, e não só nos carros de série, até mesmo na competição. Só que esta liderança tecnológica dos fabricantes europeus de pneus não impediu que os pneus chineses subissem de 18% para 28%, a percentagem que detêm no mercado europeu, isto entre 2021 e 2024. Só em 2024, a China terá vendido cerca de 93 milhões de pneus no mercado europeu, o que é um bocadinho excessivo.

Tal como acontece nos veículos elétricos, Alfredo, os chineses são também muito competitivos nesta indústria dos pneus, mas ao ponto de já estarem à frente dos concorrentes europeus ou ainda não?

Não. Digamos que há menos diferença entre os melhores carros elétricos europeus e chineses. Portanto, eu vou repetir para que os nossos ouvintes não fiquem com dúvidas. Há menos diferenças entre os melhores carros elétricos europeus e os melhores carros elétricos chineses do que entre os pneus produzidos em ambos os países. Há 10 anos, a diferença entre os pneus chineses e europeus era tremenda, ou seja, ninguém no seu perfeito juízo ousaria comprar um pneu chinês, ou pelo menos se queixar se alguma coisa corresse mal. Eles melhoraram bastante. Porém, tem havido um contínuo evoluir da tecnologia, até para se adaptar às novas necessidades, a começar pelos carros com 1000 cv, que hoje em dia é frequente, a começar pelos carros elétricos, que têm que gastar pouco e continuar com níveis de aderência muito interessantes. Isso acaba por criar um diferencial entre os pneus chineses e os europeus ainda superior. Deixa-me só salientar um aspecto ou outro. Hoje em dia, os pneus modernos têm que possuir uma mistura de borracha que simultaneamente diminua o atrito para melhorar o consumo, mas aumenta a aderência em piso seco, molhado ou com neve, sendo que simultaneamente, e até sob o calor intenso, tem que suportar esforços elevados sem se degradar ou se desgastar excessivamente, pois que os pneus são caros e ninguém quer andar a comprar pneus novos todos os dias. Agora, nota que a União Europeia nem sequer foi particularmente dura, pelo menos tanto quanto poderia, com os pneus chineses, uma vez que concluiu que o dumping chinês oscilava entre 41% e 104%. Ainda assim, a União Europeia determinou que os pneus chineses tivessem que pagar apenas o imposto especial à entrada no mercado europeu, que oscila entre 24,5% e 45,3%. Estamos a falar de menos de metade do que aquilo que foram acusados de dumping. Esta penalização parece manifestamente insuficiente, pelo menos a mim, suponho que a ti também, mas espera-se que seja o suficiente para chamar a atenção, não só para a diferença que existe entre os dois produtos, como para a necessidade de competir. Sim, é bom, melhora a qualidade e reduz os preços, mas de forma sem truques, limpa.

Ora bem, para já está aqui feita a primeira chamada de atenção feita pelo Alfredo Lavrador. Alfredo, chegamos ao final do nosso tempo, fica por aqui a "Operação Stop", mas estamos de regresso para a semana com mais novidades sobre o mundo automóvel. Até lá, um grande abraço.

Está combinado.