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Eu, a baixo assinada, afirmo solenemente que a minha honra, como direito de lealdade, as funções que me são confiadas. "Pai, Já Fui Ministro" é o novo programa da Rádio Observador, em que entrevistamos antigos ministros sobre o seu dia a dia no tempo em que estiveram em funções, mas também olhamos para as propostas da Aliança Democrática que podem vingar com a maioria relativa e as que arriscam ficar pelo caminho numa determinada pasta. Hoje dedicamo-nos à saúde e para o fim recordamos um caso marcante que ficou para a história do setor.
Mas antes de tudo isso, ainda vale a pena explicar a inspiração para o nome desta rubrica. "Pai, Já Fui Ministro" é uma adaptação de uma frase que remonta ao tempo em que Dias Loureiro foi escolhido para ministro num governo de Cavaco Silva. Reza a lenda que Dias Loureiro terá feito um telefonema em que proferiu a célebre expressão: "Pai, já sou ministro".
A frase sobreviveu a décadas na política e chegou até hoje, em que vamos falar com o antigo ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes. Obrigada por ter aceitado o nosso convite.
De nada, obrigado.
Foi ministro da Saúde entre 2015 e 2018, no primeiro governo de António Costa. Lembra-se do dia em que foi convidado para ser ministro?
Lembro, mas em primeiro lugar, queria vos felicitar pela oportunidade da rubrica, até porque hoje, não sei se serei o primeiro, mas é o Dia dos Pais.
É verdade.
Não poderia ter havido melhor ocasião para falar convosco. Lembro-me perfeitamente da conversa que tive pessoalmente com o primeiro-ministro e, portanto, tenho bem presente essa memória.
E era algo que tinha em mente, um dia vir a ser ministro, essa possibilidade? Punha essa possibilidade antes do convite ter sido feito?
Olhe, eu se lhe dissesse que não, estaria de alguma forma a desiludir os meus colegas de curso, que no meu livro de curso, que é público, está lá escrito que eu um dia ia ser ministro. Está a ver, eu acabei o curso há tanto tempo. Eu sempre tive uma vida associativa bastante intensa e, portanto, as comissões de curso, as associações de estudantes, e confesso que sempre tive um apelo à participação e até uma atração grande pela política. Portanto, nessa altura, os meus colegas no livro de curso escreveram isso e, portanto, está escrito, está dito. Eu não posso dizer que esse horizonte ou essa possibilidade não tenha passado pela cabeça desde há muitos anos.
Já agora, a quem é que telefonou primeiro depois do convite?
Claramente à minha mulher.
Uhum.
Vamos então começar pelo-
Sem qualquer tipo de hesitação, mas não foi para dizer que era ministro. Foi apenas para lhe dizer: "Quando chegar a casa temos de conversar."
Ah, ok.
Bem, vamos então começar pelo seu dia a dia nessa época. Como é que era a sua rotina? Como é que era um dia normal no ministério?
Bom, eu tenho, reconheço simultaneamente um defeito e talvez uma qualidade, é que sou verdadeiramente workaholic e, portanto, sou muito intenso no trabalho. Aliás, os dirigentes do Ministério da Saúde ainda hoje me confrontam com sentido de humor, com o tempo das conversas pela noite dentro, enfim, rever aspectos do dia a dia, confrontar-nos com soluções para problemas que apareciam. E, portanto, um dia intenso, começava muito cedo e acabava sempre muito tarde, muitas vezes pela noite dentro.
Tem ideia de quantas horas trabalhava por dia nessa altura?
Digamos, em contínuo. Nós chegávamos ao ministério pelas 08h e depois, enfim, 23h, meia-noite, dependia muitas vezes se havia trabalho parlamentar, audições, visitas, inaugurações, viagens. Enfim, não recomendo aos meus amigos que não querem, de facto, ter uma vida de sofrimento, que ponham como primeira opção ser ministro. Agora, claro que o desafio é muito. Há, se quiser, um fenômeno de atração-repulsão. Repulsão pelo medo, pela apreensão, pelo confronto, enfim, pela crítica, mas ao mesmo tempo também uma atração positiva pela possibilidade de ter o poder de decidir e de fazer.
E como é que era a relação com os colegas de governo? E já agora, pergunto-lhe também se era difícil convencer o ministro das Finanças a dispensar verbas para a saúde.
Não se esqueça que a minha frase que ficou para a história e que somos todos centeno. Eu posso partilhar, eu penso que o primeiro-ministro não levará a mal que eu o faça, já passou tanto tempo. Eu um dia estava numa reunião de trabalho a preparar uma audição, penso que era uma audição protestativa do PSD, e comentei com o primeiro-ministro que sinceramente já me incomodava esta pressão de dizer que nós tínhamos cativações e que não estávamos a fazer o investimento que devíamos. E estava a pensar no Parlamento, se fosse interpelado, de dizer que em matéria de consolidação das contas públicas e equilíbrio orçamental, nós éramos todos centeno. Eu disse isto genuinamente, com sinceridade, porque eu sou um grande adepto do equilíbrio das contas. Acho que as dívidas são sempre impostos diferidos para os nossos filhos, que os países não devem viver acima das suas possibilidades.
Mas na altura não foi encarado assim.
Não, na altura foi encarado como um recado ou como um lamento. Eu tinha uma excelente e tenho uma excelente relação com o ministro das Finanças, Mário Centeno. É uma pessoa com sentido de humor extraordinário. Uma das principais qualidades que eu partilho com ele é que somos ambos benfiquistas e, portanto, nós tínhamos uma relação pessoal extraordinária, e temos, e portanto, não havia nunca uma dificuldade de natureza pessoal. Claro que eu percebia que ele era a chave do cofre. E que sendo a chave do cofre, fechava o cofre, não apenas para mim, fechava para todos. Nas áreas sociais é mais difícil, porque o confronto, aliás, agora o Miguel Guimarães, que está neste momento eleito deputado, foi o meu contraponto, era o Bastonário da Ordem dos Médicos na altura E muitas vezes até lhe disse: "Miguel, eu sinto que você é o meu ministro de sombra." Ele ria-se, mas na verdade, foi exatamente isso que aconteceu. O ambiente de trabalho era bom, nós estávamos numa relação ótima e, como lhe disse, com o ministro das Finanças, numa relação pessoal à prova de balas.
E se tivesse que escolher o pior e o melhor momento, quais seriam?
O pior momento foi logo quando entrei, um mês e pouco depois, talvez em fevereiro de 2019, quando houve um caso lamentável de um homem de 30 e poucos anos que faleceu no Hospital de São José por uma questão que na altura foi apurada e investigada, mas que resultava da dificuldade de articulação entre os serviços de resposta na área da radiologia. E, portanto, esse momento foi muito duro e inclusivamente depois acabou por algumas pessoas se afastarem e terem que ser afastadas, por razões de funcionamento do serviço. Foi um momento difícil. Estava no governo há dois meses e pouco. Um dos melhores momentos, houve muitos, foi quando nós obtivemos o apoio do Príncipe Aga Khan para oferecer ou doar, através da comunidade Aga Khan, um equipamento de robô cirúrgico que o SNS não tinha. E eu, de facto, fiz os possíveis para conseguir obtê-lo, não tendo meios próprios de financiamento, através de um donativo, portanto, de um apoio que foi na altura dado pela comunidade Aga Khan. E aliás, esse robô, veja bem, só veio a ser instalado e inaugurado, já eu tinha saído do governo, e está a trabalhar agora com grande sucesso e a ter um excelente desempenho no Hospital Curry Cabral.
Por falar em sair do governo, saiu antes do fim do mandato, quando foi substituído por Marta Temido. Foi uma saída difícil para si?
Não, repare, eu não escondo, é do domínio público. Eu tinha manifestado junto do primeiro-ministro, mais do que uma vez, a frustração por se ter a ideia de que me tinha preparado para fazer bem o trabalho. Repare, eu tive praticamente o mesmo orçamento que teve o ministro Paulo Macedo, que aliás é seu amigo e conhece há muitos anos e que de alguma forma sucedi, embora o Fernando Rocha Costa tenha estado 15 dias pelo meio. E portanto, naquele período, nós fomos o SNS com maior produtividade e aliás, o mais eficiente da Europa em 2018. E o que eu dizia ao primeiro-ministro, e ele compreendia muito bem essa minha frustração, é que no fundo as expectativas que eu trazia para o sector, que eram minhas e eram do sector, estavam a ser frustradas, porque eu não conseguia traduzir isso na plenitude da realização. E o primeiro-ministro percebeu que eu tinha esse sentimento e, portanto, eu diria que a decisão soberana de um primeiro-ministro é sempre perceber o que se passa dentro da sua equipa e, portanto, houve um encontro de vontades. A decisão foi conversada, foi partilhada sem nenhuma dificuldade, porque a entrada nos governos e a saída são atos de profunda normalidade e, portanto, não tem em relação a isso nenhum drama.
Se soubesse o que sabe hoje, depois de tudo o que viveu como ministro, voltava a aceitar o convite?
Sem dúvida. Talvez se tivesse tido tanta experiência seria menos ingênuo nalgumas coisas. Talvez tivesse a capacidade de fazer ainda mais do que aquilo que foi possível fazer, mas nunca viraria as costas. Não apenas por vaidade ou por gosto pessoal. Eu acho que, sinceramente, nós realizamos na vida através do exercício de funções públicas. E isso deixa uma marca muito forte, a custo da família, com o sacrifício da família, muitas vezes, que é a entidade que está mais escondida por trás da cortina e que mais sofre com a nossa exposição. Mas no fundo, claramente que sim, eu acho que servir o país em qualquer circunstância é algo que nos deixa muito gratificados.
Adalberto Campos Fernandes, muito obrigada por ter estado conosco.
De nada, um abraço. Muito obrigado.
E agora passamos às promessas da Aliança Democrática para a saúde e a probabilidade de passarem ou não no Parlamento.
Vamos lá então a essas promessas que estão no programa da AD.
Bruno, será que o mais provável governo da AD vai tratar da saúde do SNS?
Bem, para já vai tentar tirar o SNS dos cuidados intensivos com recurso a uma terapêutica de choque. Ontem falámos de choque fiscal, hoje é um choque elétrico para reanimar o SNS.
Vamos ter um governo em modo de serviço de urgência, Judite.
Em modo 112, sem tempo a perder. Pelo menos foi esse o plano apresentado no programa eleitoral, um plano de emergência a implementar em 60 dias.
É dar uma volta ao SNS em 60 dias, incluindo consultas, urgências e cirurgias.
Ou seja, praticamente tudo.
É mesmo praticamente tudo para o SNS, rapidamente e em força. Nas consultas, a AD quer a emissão do voucher consulta de especialidade, com liberdade de escolha pelo utente sempre que for ultrapassado o tempo máximo de resposta garantido.
E entre outras medidas, também quer realizar contratos temporários com médicos de família aposentados ou que trabalhem no privado.
E nas urgências, tantas dores de cabeça deram aos últimos governos, o que é que prevê este plano de emergência?
Se há dor de cabeça, sai um paracetamol, em forma de plano de motivação dos profissionais de saúde, também para tomar durante os primeiros 60 dias.
E se este comprimido não for o suficiente, há mais, como a criação do gestor do doente crónico utilizador das urgências.
E a implementação de benefícios especiais para equipas de urgência. Neste caso, já não é um paracetamol, é mais um estimulante. E chegamos às cirurgias em que os tempos de espera são, por vezes, demasiado prolongados.
Pois, nas cirurgias temos um elemento que cai sempre bem em qualquer programa eleitoral: é a auditoria. A auditoria, tal como os gruposDe estudo é uma espécie de aspirina, dá para tudo e mais alguma coisa. Aqui, neste programa eleitoral da AD, serve para auditar o tal tempo máximo de resposta garantido a nível regional e nacional.
Neste plano de emergência, um governo da AD poderá encontrar resistência à esquerda, ou seja, no PS, ao desenvolvimento de um sistema concorrencial, competitivo para cirurgia de ambulatório.
Porque quando a direita fala em concorrência e competição na saúde, o mais certo é que a esquerda saque do voto contra.
Um futuro governo da AD vai precisar de ligar a sirene, ter cuidado com os sinais vermelhos e mão firme de cirurgião para aplicar tantas medidas em tão pouco tempo.
E ainda não se sabe quem é que será o cirurgião de serviço. Miguel Guimarães, antigo bastonário da Ordem dos Médicos, foi um dos independentes mais destacados nas listas da AD. Também Ana Paula Martins, que foi presidente do Hospital Santa Maria e vai ser agora deputada, é um nome forte. Mas seja quem for o escolhido, terá ter sangue frio para gerir aquela que é sempre uma das pastas mais delicadas do governo.
Sem dúvida. Passamos agora ao último segmento deste "Pai Já Foi Ministro". Vamos a um dos momentos mais marcantes no setor da saúde.
Vamos a ele.
Depois de uma pandemia que provocou milhões de mortes em todo o mundo e de um plano de vacinação que correu bem, já nos esquecemos do que aconteceu em 2009 com a gripe A e um plano de vacinação que esteve longe de correr bem.
Na altura, estava no poder o segundo governo de José Sócrates e a Ministra da Saúde era Ana Jorge. Perante a possibilidade de uma pandemia do vírus H1N1, Portugal encomendou seis milhões de vacinas ao laboratório GlaxoSmithKline, com o objetivo de vacinar três milhões de portugueses dos grupos de risco.
Eu penso que em Portugal se justificou aquilo que foi feito, o investimento, quer nas vacinas, quer no contexto geral da prevenção primária para as medidas de contenção, para todas as medidas que foram envolvidas, das quais também fazia parte a vacina, e que fez com que a doença em Portugal tivesse contribuído para uma diminuição do número e, fundamentalmente, das mortes.
Ouvimos Ana Jorge em declarações no início de 2010. Os seis milhões de vacinas terão custado 45 milhões de euros ao Estado, que, refira-se, seguiu o exemplo de outros países europeus.
O esquema inicial de vacinação previa a administração de duas doses por pessoa, que depois foi alterado. Só as crianças até os 10 anos e os doentes imunodeprimidos teriam de tomar as duas doses. Mesmo assim, a vacinação foi um fracasso.
Até junho de 2010 tinham sido administradas apenas 700 mil doses, ou seja, 20% das pessoas que deveriam ter sido vacinadas, visto que algumas crianças tomaram mesmo as duas doses.
Porém, logo no início desse ano, foi noticiado que a Ministra da Saúde, Ana Jorge, estaria a negociar com o laboratório a devolução de parte dos seis milhões de vacinas.
Em julho, pouco antes da OMS anunciar o fim da pandemia, Portugal tinha recebido dois milhões de vacinas e o governo tinha conseguido anular o envio de outros dois milhões. Só que ainda restavam outros dois milhões da encomenda inicial.
Em todo o processo, foi criticado o alarmismo da OMS e a eventual responsabilidade das farmacêuticas na criação de um sentimento de pânico que levou os governos a apostar na prevenção e a investir fortemente na aquisição de vacinas.
O facto de não se terem confirmado as previsões da OMS quanto ao número de mortos acabou por criar um sentimento inverso de desconfiança, até sobre a capacidade de os governos responderem a uma pandemia.
Infelizmente, 10 anos depois, houve mesmo uma pandemia, com os resultados conhecidos, embora desta vez o plano de vacinação tenha corrido bem.
Segunda edição de "Pai Já Foi Ministro", vai ficar disponível em podcast amanhã. A Judite França e o Bruno Vieira Amaral voltam a conversar com o antigo ministro.
Eu não baixo a assinada. Eu afirmo solenemente com a minha honra, cumprirei com lealdade as funções que me são confiadas.