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Boa tarde, bem-vindos a mais uma edição do "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou o Bruno Vieira Amaral e hoje vamos tentar aqui, Eduardo, boa tarde, ajudar uma ouvinte que é mãe de uma criança de três anos cujo comportamento, diz ela, é muito temperamental. Diz que cognitivamente não lhe parece ter nenhum problema, pois é perspicaz, aprende com facilidade, é muito sociável. Depois o problema está na dificuldade em cumprir regras, no fato de não lidar bem com a frustração. Diz esta mãe que ir à rua com a criança é quase impossível, pois não dá a mão, só corre, não quer andar no carrinho. Sempre que é contrariada, reage mal. Enfim, Eduardo, nada disto é muito invulgar. Acontece muito. Os pais não sabem é, por um lado, como entender isto, se é uma fase, se são características da personalidade da criança ou se está aqui mesmo um problema de comportamento que basta aplicar regras para ele ser corrigido.

Olá, Bruno. Como é que nós vamos responder a isto sem termos uma mãe melindrada conosco? Vamos lá ver. As mães, de uma forma muito enfática, costumam falar dos terríveis dois.

"Terrible two".

Os dois anos são uma catástrofe, porque as crianças aprendem a negociar e são muito persuasivas quando fazem, porque quando contrariadas, se for preciso, fazem umas cenas feias de efeitos especiais, etc. E neste momento temos este registo aos três, que noutras circunstâncias as mães chamam uma idade muito intensa, de grande personalidade, como por outras palavras, esta mãe acaba por fazer. Todas as crianças, quando não têm meia dúzia de coordenadas claras, são um bocadinho assim. Não vale a pena nós imaginarmos que isto é um defeito de fabrico. Não é coisa nenhuma, é uma manifestação saudável, todavia, de uma criança que percebe que tem uma grande capacidade de negociar junto desta mãe e que utiliza todos os instrumentos que tem ao seu dispor para vincar a sua opinião e para levar, sobretudo, a sua opinião por diante. E, portanto, numa circunstância destas, esta é a parte delicada. Pronto, vamos ver se o sinal vai abaixo, se nós nos safamos de tudo isto. Numa circunstância destas, eu fico um bocadinho mais inquieto com a mãe do que propriamente com o filho. O filho faz aquilo que de alguma forma é suposto que faça. Evidentemente, num registo que já está a deixar de ter toda a graça, como se compreende, e em que, no fundo, nós temos aquelas leituras, a meu ver, muito precipitadas, de chamar a estas crianças de pequenos ditadores, quando são só crianças.

A ser crianças.

Pequeninas, a fazer planalto e a ser crianças e, portanto, à espera que uma mãe e um pai sejam, de certa forma, mais expeditos quando se trata de decidir tudo. As crianças só fazem isto quando a mãe e o pai, em vez de avisarem uma ou duas vezes, avisam uma, duas, três, quatro, cinco, seis, oito ou 10. E depois, há um dia qualquer, que como quaisquer pais saudáveis, estão com o pavio um bocadinho mais curto e às vezes avisam meia vez. E quando se zangam dessa meia vez, zangam-se com toda a zanga que foram varrendo para baixo do tapete e que naquelas circunstâncias, quando finalmente se zangam, fica assim um bocadinho feia. E é verdade que sim, e portanto, isto é uma montanha-russa para as crianças e de certa forma para os pais, porque quando se zangam, zangam-se muito, não se reconhecem naquilo que fazem e obviamente fazem marcha atrás logo a seguir para as crianças, porque tão depressa têm uma autoestrada de duas faixas para poderem andar, como a seguir parece virar para uma estrada florestal e de repente: "Oh, meu Deus, com o que eu posso contar com estes pais?" E, portanto, nada de mais. Isto é cada vez mais comum, porque os pais são cada vez mais condescendentes e, na verdade, querem tanto ser bons pais que vão a reboque daquilo que as crianças pedem, solicitam, às vezes exigem. Mas aquilo que é muito importante é que os pais percebam que há ali uma caixa de velocidades que elas precisam. Ou seja, uma criança destas é uma criança saudável, é um furacão, como todas as crianças muito saudáveis, mas precisa de uma caixa de velocidades. E a caixa de velocidades são as regras da mãe e do pai que acabam por introduzir ali alguma cadência que permite ir da primeira à segunda, à terceira, à quarta, por ali adiante, consoante as circunstâncias que elas, crianças, entendem das atitudes dos pais. Portanto, primeira regra, por favor, estes pais têm que ser coerentes e constantes nos nãos, mesmo que às vezes seja um não pautado com meia dúzia de pontos de exclamação, mas têm que ser sobretudo coerentes e constantes. Se estes pais forem ver com atenção, se calhar não estão a ser assim tão afinadinhos Isto é sempre como os ingredientes secretos. Às vezes a mãe é um bocadinho mais fofa, o pai mais autoritário ou vice-versa. E às vezes não há uma regra numa casa, às vezes há três: a regra da mãe, a regra do pai e a regra da criança quando está num ímpeto de manifestações de protesto. Tem de haver uma regra de bom senso e se os pais fizerem as contas, não precisamos de estar a inventar. Uma regra para ir para a mesa, para levantar da mesa, para ir deitar, para escovar os dentes. Há ali meia dúzia de coordenadas do dia a dia que se estiverem afinadinhas, depois tudo o resto vai a reboque. A mãe avisa uma, avisa duas, à terceira: "Meu amigo, não vale a pena estarmos aqui a fazer uma cena feia, vai ter que ser assim". E se isto for assim, com uma firmeza serena e bondosa, evidentemente, uma criança que parece que está fora dos eixos, de repente entra nos eixos.

O Eduardo falava dessa reação serena e bondosa, e essa será uma das dúvidas dos pais. Como reagir, por exemplo, perante uma birra, de se deitar no chão, como diz esta ouvinte, atirar por vezes objetos, muito zangado. Os pais às vezes oscilam entre alguma indiferença no sentido de relativizar, que é próprio da idade e, por outro lado, um cansaço quase extremo em que já não sabem como é que hão de reagir a estas reações e a estes comportamentos.

Uma birra dessas é um vômito. Quando o vômito está nessa erupção toda, eu reconheço que é difícil de parar, sendo certo que nessas circunstâncias tem de haver um braço de ferro. Eu não acho que seja exorbitante que a mãe e o pai se zanguem um bocadinho em cima da zanga de uma criança. Pelo contrário. O que eu gostava muito que os pais percebessem é que quando uma criança chega a esse extremo, esse extremo já tem a ver com algum desespero. "Mas ninguém me diz onde para a polícia", mais ou menos isso que quer dizer. Ela já foi numa escalada tal, que evidentemente os pais têm que perceber que isso é o fim da linha e isso se resolve com a gestão corrente que se faz antes de se lascar. Agora, atenção a um pormenor. Quando uma criança faz uma birra destas, eu percebo que muitos pais teriam aquela expressão, que nós próprios ouvimos dos nossos pais e dos nossos avós: "Pronto, agora chora para aí até te cansares". E isso não é bem uma regra adequada, por uma razão simples: porque uma criança percebe que ao fazer uma birra é porque tem uma mãe e um pai que têm ali um air bags como deve ser e que não se partem com uma birra. São produtos de qualidade magnífico. Mas uma criança tem que perceber que mesmo quando faz uma birra, a mãe e o pai são capazes de gerir o processo. Quando os pais fazem de conta que não veem, é uma coisa muito mais assustadora do que pode parecer, porque significa que uma criança está para ali a desmoronar-se em peças pequeninas e a mãe e o pai numa indiferença tal, que faz com que uma criança, em vez de se sentir mais segura, não se sente mais ridícula, sente-se mais desamparada, o que significa que mais desamparada é inevitavelmente mais assustada. E da próxima vez que for para gerir um não, mesmo que seja um nãozinho qualquer, as coisas têm tendência a escalar ao mesmo nível. Não vale a pena nós estarmos a avisar 10 vezes. Avisas duas, gestão corrente, se faz favor. Não vale a pena estarmos todos ali a fazer birras para dentro, como tantas vezes os pais fazem, porque depois quando fazem uma birra para fora, é um estralhaço de todo o tamanho, exatamente como esta criança, quando passa dos limites. E quando fazem uma birra muito feia, a mãe e o pai têm que ter mão no processo, nem que seja pegar nesta criança e de uma forma firme, aí tem que ser bem firme, explicar que há limites até para fazer birras, porque se isto tudo for gerido de uma forma certinha, digamos assim, não vem de lá problema nenhum. E esta criança, com este motorzão e uma caixa de velocidades à medida, nossa senhora, vai fazer muitas coisas boas pela vida fora.

Nem fechar os olhos, nem entrar em desespero. Será mais ou menos essa a receita?

Sem dúvida nenhuma, é uma síntese perfeita.

Chegamos então assim ao fim de mais um "Porque Sim, Não é Resposta". Estamos sempre em podcast, nas plataformas habituais, no site observador.pt e pode enviar-nos, como fez esta ouvinte, as suas questões, dúvidas e partilhas através do e-mail eduardosa@oobservador.pt. Eduardo, muito obrigado. Um grande abraço e até amanhã.

Eu é que agradeço. Um abraço e até amanhã.