Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com Eduardo Sá. Eu sou a Judite França, comigo está o Bruno Vieira Amaral e hoje vamos a um tema complicado. Vamos falar de um estudo que demonstra que em Portugal o recurso a fórceps no parto é três vezes superior à média europeia. Por que isto acontece, Eduardo? E já agora, boa tarde.

Olá, Judite. Olá, Bruno.

Olá, boa tarde, Eduardo.

Judite, acontece porque cada vez mais, de uma forma que até certo ponto se compreende, se foi tomando em consideração que o parto tinha que ter um conjunto de condições tão confortáveis quanto possível, o que foi fazendo com que houvesse cada vez mais uma clivagem entre aquilo que são as condições que muitas grávidas encontram nos meios privados, que têm condições hoteleiras, partos planeados, recurso a meios de analgesia, muito mais cesarianas do que sequer era suposto existir. E depois os recursos públicos, onde muitas vezes há um conjunto de procedimentos de rotina que tomam em consideração aquilo que pode ser o bem-estar do bebê, e ainda bem, em muitos aspectos, mas que às vezes normalizam tanto os comportamentos e acabam por padronizá-los de uma tal forma que não podem ter espaço ou tempo, como aliás era exigível que tivessem, para criar as condições que sejam adequadas pra uma grávida, quer seja em relação à utilização de fórceps, quer seja em relação a outros procedimentos, que muitas vezes são descritos por aí, e muitas pessoas protestam, e protestam de forma veemente, como episódios de violência no parto, que merecem manifestações, protestos, mas que independentemente de um ou de outro exagero, devem ser motivos de interpelação pra nós percebermos se estamos a fazer bem ou se podemos melhorar.

É um problema de recursos humanos, é esse? É um problema de falta de profissionais ou é uma mentalidade?

Eu acho que é uma mentalidade. Eu durante muito tempo trabalhei numa maternidade central e portanto conheço também o lado de dentro das maternidades centrais e eu percebo que são absolutamente indispensáveis, precisam de ter muita experiência de parto para que tudo aconteça com uma naturalidade que só é possível porque as pessoas são altamente capacitadas e muito envolvidas. Mas eu também conheço as equipes, e as equipes assumem um padrão de comportamentos e às vezes mudar um bocadinho naquele padrão parece que não é muito razoável, e nomeadamente, quando se trata de falarem com a grávida e com o grávido, que muitas vezes lá está e que nem sempre é aceito na situação de parto como devia. E, portanto, eu acho que as maternidades ainda precisam dar uma reviravolta no sentido de perceberem que não é só a qualidade técnica, preciosa, aliás, que de facto acabam por ter, que importa. Depois há o lado clínico, o lado humano. É preciso falar com as pessoas, pedir-lhes autorização ou de alguma forma comparticipar os motivos pelos quais se toma esta decisão e não se toma aquela. E às vezes são demasiado silenciosas e isso não pode ser.

Só pra acrescentar aqui um dado, mais de 60% das mulheres diz que não lhe foi pedido qualquer tipo de consentimento quanto a que tipo de instrumento seria usado no parto e até que tipo de parto poderia ser feito.

Judite França, eu percebo que esse tipo de argumentos sejam muito importantes. Percebo e acho que é muito-

Temos aqui um... Já voltou

...muito importante que as instituições de saúde estejam cada vez mais alertadas pra isso. Dou-lhe um exemplo. Um bebê ao nascer tem que ter algum procedimento e é necessário, em muitos momentos, fazer um ligeiro corte na mãe.

Perdemos agora outra vez. Ok, já voltou.

É preciso fazer um ligeiro corte na mãe pra que o bebê nasça em segurança, mas que a mãe não tenha sequelas, nomeadamente futuras incontinências urinárias e coisas desse gênero. É evidente que é um procedimento técnico, é evidente que é da responsabilidade do obstetra e de toda a equipa esse procedimento. Mas é óbvio também que sendo um procedimento cirúrgico, tem qualquer coisa de muito particular e para muitas mulheres não é uma coisa tão linear, porque basta irmos às redes sociais e vermos a experiência de parto, que isto depois acaba por desencadear, e perceber que muitas se queixam, nomeadamente na sua vida sexual, pelo impacto que entendem que isso pode vir a ter. E portanto, é muito importante que estas coisas sejam conversadas, explicadas e, já agora, que obviamente as pessoas deem o consentimento informado. E às vezes isso não é possível. É verdade também que às vezes um bebê quando decide nascer, põe uma velocidade cruzeiro tal que não há espaço pra isso. Mas há consultas obstétricas pré-natais e nem sempre há esse tipo de cuidados. Não há, de todo, e era fundamental que cada vez mais existisse.

Eduardo, esse tipo de trabalho devia ser feito antes do parto. Esse trabalho de comunicação, de informação, devia ser feito antes, não no momento. Provavelmente, não são as equipes naquele momento Que estão em condições de dar essa informação, de pedir o consentimento, isso tem que ser falado antes. Havendo um acompanhamento das grávidas, que não existia provavelmente aqui há umas décadas, por que isso não é falado de uma forma aberta, de forma que a grávida quando entra em trabalho de parto, se sinta segura?

Porque os obstetras são pessoas com muita experiência de obstetrícia. Que em termos técnicos são absolutamente fantásticos. Mas é verdade que depois em termos clínicos, quando se trata de pôr legendas nos procedimentos e explicarem antes que a mãe e o pai confabulam, seja lá o que for, às vezes correm o risco de ser omissos ou quando querem não o ser, querem ser tão isentos que depois falam em números, em porcentagens e acabam por ser trapalhões e estragam tudo. E, portanto, sim, é no decurso desse processo todo que se deve fazer. Mas note-se, depois há esta décalage. Muitas grávidas são acompanhadas em centros de saúde e o médico de família não as acompanha até à maternidade e, portanto, quem faz o parto é outra equipe, ou às vezes são acompanhados por obstetras que têm clínica privada, mas que não são atendidas depois no serviço de obstetrícia, que não tem rigorosamente nada a ver com o seu obstetra. Evidentemente, que o ideal era que o seu obstetra as acompanhasse.

Estivesse no momento até o fim.

Porque isso dá uma garantia de uma tranquilidade e de uma segurança absolutamente fora do vulgar. E de fato, um parto é cada vez mais um procedimento normal. Nós já não nos lembramos de uma mãe que possa ter morrido no parto, por exemplo, e que privilégio isso representa. Mas, de fato, é um procedimento muito delicado, que eu continuo a dizer que tem que ser, por favor, o menos medicalizado possível, mas tem que ser em contexto hospitalar, porque os bebês às vezes pregam partidas, às vezes precisam de uma reanimação súbita. Uma equipe de reanimação neonatal é uma equipe que precisa de ter a mão muito feita, muita experiência e, portanto, só uma maternidade central é que tem recursos para corresponder a esse nível. E às vezes, na ânsia de se fazerem partos domésticos ou em contexto um bocadinho mais alternativo, o que se acaba por arranjar? Uma grande dor de cabeça.

Estamos agora aqui com alguns problemas técnicos. Eduardo, não sei se perdemos a ligação? Perdemos a ligação. Estamos neste momento a tentar estabelecer de novo ligação com o Eduardo Sá para continuar a discutir este tema que afeta tantas mulheres. E aliás, este estudo, Bruno, que é um estudo europeu, não sei se na altura, no início deste programa, referimos isto. É um estudo europeu em que Portugal não fica muito bem na figura, comparado com outros países europeus.

E há aqui números muito preocupantes. Eu estava a ver os números deste estudo. Por exemplo, em Portugal, 28% das mulheres referiram ainda não existir uma comunicação eficaz por parte dos profissionais de saúde, 41% disseram não ter tido envolvimento nas escolhas durante o parto e 32% referiram não ter sido tratadas com dignidade. Pode não estar em causa a saúde, no sentido da vida, ou em risco a vida das mães e das crianças, mas há certamente consequências para a saúde das mulheres que dizem ter este tipo de problemas.

Estará, com certeza, também, Eduardo, a saúde mental destas mulheres no pós-parto.

Sim, eu peço desculpa a todos, mas a Vodafone ainda não nos deu todas as garantias em relação ao cyber attack.

O cyber attack ainda tem uns resquícios.

Ainda se faz sentido. Tem, de facto, algumas consequências, mas cuidado. Eu não estou a dizer que as equipes não possam melhorar muito, podem melhorar imenso. Eu dou-lhes um exemplo: a presença do pai em contexto de parto ainda não é tão natural como devia ser em contexto de acompanhamento de parto, e devia ser. Mas, de fato, pode trazer algumas sequelas, mas cuidado. Também é verdade que muitas pessoas que vivem em situação de parto, por variadíssimos motivos, de uma forma nem sempre tão simples assim, depois acabam por se agarrar a um episódio ou outro e fazer disso um drama tremendo, por mais que haja, de fato, situações episódicas em que as equipes ficam manifestamente mal. Agora, há um pormenor que é muito engraçado. Nós próprios, no Baby Lab da Universidade de Coimbra, quisemos ir investigar isto e perceber as causas. De fato, há muitas queixas de mulheres que entendem que não foram tão cuidadas, tão informadas e que isso, de alguma forma, as magoou. Mas é verdade que depois de nascer o bebê, quando nós vamos avaliar a opinião que elas têm em relação a tudo o que aconteceu mal, o bebê é uma esponja que parece limpar tudo isso e de repente há uma espécie de amnésia. E ainda bem, até certo ponto, o que não quer dizer que não se tenha que ter estes aspectos todos em consideração.

Neste momento, este estudo ainda refere esta questão da comunicação eficaz por parte dos profissionais de saúde e a questão de não terem envolvimento nas escolhas. Deixe-me só referir este último dado. 32% diz que não foram tratadas com dignidade. Isso é um valor que nos deve deixar preocupados.

Muito preocupados, porque não serem tratadas com dignidade pode começar só por serem tratadas num envolvimento, num silêncio que não é admissível num contexto destes. Isso já de si é preocupante, mas é verdade que às vezes há um ou outro técnico que tem comentários à parte e às vezes alguns procedimentos muito questionáveis. E isso é muito atentatório de dignidade da mulher. Dou-lhe um exemplo banal. Muitas vezes, aquilo que era um procedimento banalíssimo e que felizmente começou a deixar de ser, mas que ainda acontece em muitos momentos, é que uma mulher ao chegar a uma maternidade, a primeira coisa que fazia era passar por um gabinete de enfermagem e ser depilada independentemente da sua vontade. Há coisas que às vezes são tão avassaladoras que, por mais que possa haver justificações técnicas para o efeito, se não forem devidamente explicadas, se não forem ponderadas pela equipe em relação à sua necessidade ou não, corre-se o risco, de facto, de estar a magoar muito estas pessoas. E por mais que o bebê tenha este efeito mata-leão em relação a muitas coisas que não correm bem, meu Deus, não podemos pôr em cima dele a responsabilidade de branquear tudo isto. E é a altura de as equipes perceberem que as pessoas são cada vez mais informadas e têm o direito de perceber o que se está a passar num momento tão precioso e, às vezes, para tantas mulheres, tão único na vida delas.

E de alguma forma, também é uma altura em que as mulheres estão particularmente frágeis. Ainda temos muito caminho para andar. Eduardo, até amanhã. Voltamos depois do "Jornal das 5". Estamos sempre também disponíveis em podcast e no site do Observador. E claro, pode sempre escrever-nos para eduardosa@observador.pt. Até amanhã, Eduardo.

Até amanhã. Até amanhã. Um abraço para os dois.