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No "Porque sim e não é resposta" de hoje vamos falar de amores. Eu sou a Ana Filipa Rosa e comigo, ainda que à distância, estão o Ricardo Conceição e o Eduardo Sá. Olá, bem-vindos.
Olá.
Olá, Ana Filipa.
Tão bom falar consigo, Eduardo.
Saudades.
É verdade. Hoje vamos espreitar a nossa caixa de e-mail. Por lá, um ouvinte que não vamos identificar fez aqui um pedido, escreveu o seguinte: "Tenho 36 anos e estou a passar pelo fim de uma relação, outra vez. Tive relações suficientes para me aperceber das minhas dificuldades na relação com o outro. Quando olho para trás, consigo perceber o que há em comum. Sou uma pessoa muito dedicada, demasiado dedicada", escreve este ouvinte. "Quando estou com alguém, rapidamente os problemas e necessidades dessa pessoa tornam-se o centro da minha vida e sei que tudo isto não é saudável." Eduardo, a pergunta é: onde está o limite daquilo que se aceita numa relação?
Ana Filipa, eu estava a ouvir falar desta dedicação e devo dizer-lhe que, num primeiro momento, não fiquei tão confortável assim. Demasiado dedicado não é uma coisa que me deixe tão à vontade, por uma razão simples: uma relação amorosa tem que fazer uma espécie de quadratura de um círculo, tem que dar espaço ao eu e ao tu. E se não der esse espaço ao eu e ao tu ao mesmo tempo, ela fica muito escorregadia, porque de tanto nos dedicarmos, a determinada altura esquecemo-nos de perguntar: "Então e eu? Até que ponto é que eu estou a ser retribuída da forma como eu dou? Até que ponto é que eu me sinto aconchegada, etc.". Portanto, nessas circunstâncias, o limite é mais ou menos este: há um ponto onde eu e tu se cruzam e esse é o ponto-chave de uma relação amorosa. Nem dedicados demais, nem de menos. Quanto baste, como sal na cozinha.
Eduardo, mas esse equilíbrio, essa avaliação é sempre complicada de fazer, é sempre subjetiva. Nós achamos sempre que damos mais do que recebemos, ou não?
Às vezes, sim, Ricardo. Dos dois lados. Somos umas mãos largas, como é evidente. Não, às vezes admito que sim, quando estamos em dias de lamúrias. Todos temos direito a dias de lamúrias. Mas eu acho que quando nós amamos, é tão particularmente aconchegante cuidar de quem gostamos e sentir que essa pessoa fica com um riso de criança com os pequenos gestos que lhes damos, que isso nos enche a alma e só isso representa dar, mas, na verdade, quase receber duas vezes. Agora, é muito importante que fique claro que nós não temos uma calculadora no lugar do coração e portanto é normal que tudo isto se passe com uma espontaneidade fora do lugar. Mas depois há sempre um episodiozinho, eu sublinho o "zinho", é pequenino, sempre, quase insignificante, que nos faz parar, tipo semáforo vermelho, daqueles que demoram muito tempo a abrir para verde, e que nos faz perguntar: "Isto estará equilibrado ou estas contas não estão muito mais desequilibradas do que deviam?" Às vezes, num sentido, às vezes noutro. E nessas alturas, não temos mais é que pôr as contas em cima da mesa e confessar a doer acerca de tudo isso, porque sem esse passo, dificilmente depois damos o salto pra uma relação mais saudável.
Eduardo, porque nós vamos ouvindo muitas vezes que todas as relações dão trabalho, mas concretamente, o que isso significa? E até porque esta ouvinte fala aqui numa coisa muito interessante, que é a pergunta também: onde acaba a resiliência, essa palavra que temos ouvido muitas vezes nos últimos tempos, e começa a falta de amor próprio? Porque isto também é muito importante.
Ana Filipa, embora a resiliência tenha vindo do mundo da psicologia, quando eu começo a ver a resiliência ser usada em planos econômicos, eu começo a ficar com pele de galinha. Tenho medo do termo. Portanto, numa circunstância como essa, eu acho muito importante que nós possamos ter a noção de que dar, que é uma coisa absolutamente generosa, exige trabalho, como a Ana Filipa estava a dizer, eu subscrevo. Eu acho que não há nada mais trabalhoso que uma relação amorosa. Exige trabalho, exige atenção. Agora vou utilizar dois ou três termos que se calhar não devia, mas paciência, vou usar. Exige alguma capacidade de sacrifício, porque nem sempre as coisas são tão direitinhas como nós desejávamos. Nós às vezes temos a ideia que uma relação amorosa é um mundo sem conflitos. Exige-se capacidade de tolerância à frustração e até capacidade para nós nos confrontarmos com a dor. Isso tudo faz parte do pacote. Mas evidentemente que quando nós deixamos de pôr condições, e condições de maneira clara, leal, mas clara, então nós deixamos de ter amor próprio, como esta pessoa nos diz, e passamos a ser, de alguma forma, prestadores de serviços E um prestador de serviços não é obviamente um amante, não é obviamente alguém que amorosamente se dá, não é seguramente alguém amável e, portanto, o limite é este: nós temos que dar, mas como se faz muitas vezes entre os pais e as crianças, dar com uma mão e exigir com a outra.
Porque também para quem recebe, muitas vezes é uma posição muito confortável e há consciência disso, mas o conforto é tal que nem vale a pena mexer.
Pois, e é tão confortável que à boleia desse conforto, com aspas, evidentemente, muitas relações adoecem e de forma irreparável. Uma relação para ser saudável tem que ter alguma tensãozinha. Por isso é que já num programa há muito tempo atrás, nós estávamos a brincar, mas a falar a sério, dizendo que uma relação também precisa ter uma discussão de vez em quando, de preferência uma por semana, que é uma maneira de uma pessoa dizer: "Sim, é uma relação com alguém que é a pessoa mais importante da nossa vida, mas porque é a mais importante da nossa vida, é aquela que exige mais e obviamente é aquela a quem nós não deixamos de exigir tudo o que sentimos que ela é capaz de dar."
Eduardo, voltando aqui ao e-mail que nós recebemos desta nossa ouvinte, a quem agradeço já agora, e o e-mail é eduardosa@observador.pt. Portanto, se nos está a ouvir, pode fazer também o mesmo, sugerir temas. Esta nossa ouvinte usa aqui uma expressão na longa mensagem que nos enviou e escreve o seguinte: "Coloquei-me em saldos várias vezes." Eduardo, nós temos tendência a repetir padrões neste tipo de situações, quando nos damos demasiado, nos dedicamos demasiado.
Quando nos pomos em saldos, muitas vezes, todos nós desconfiamos. Porque sentimos que há sempre alguém que se põe naquele registo do "aproveita antes que esgote". E que o faz muitas vezes por vícios do seu crescimento, por feridas das suas relações amorosas, onde às vezes, pegando na expressão desta ouvinte, onde nem sempre o amor-próprio tem tanto lugar assim. E, portanto, pôr-nos em saldos e amar são duas fórmulas que não têm modo de conjugar uma com a outra. Às vezes é muito importante que nós paremos só uns breves minutos, olhemos para o lado e sejamos capazes de dizer, com aspas, porque a formulação pode não ser tão bonita assim: "Bom, mas afinal, quanto custo eu? Quanto valho eu?" Que é para depois quando se trata de exigir, não corrermos o risco de escorregarmos, se ainda há por isso, para preços de saldo, que invariavelmente nos levam a magoar, de uma forma injusta, claro.
E essa é uma conversa que os casais devem ter, Eduardo?
Não. É uma conversa que é obrigatória em todos os casais. E, Ricardo Conceição, não é só de vez em quando. Não é só quando os casais decidem fazer um jantar de tempos a tempos, quando dantes faziam jantar fora de casa, para conversarem de coisas sérias, porque as coisas sérias não se resolvem numa conversa. Resolvem-se em muitas conversas e algumas delas acesas, tensas, mas sobretudo têm que ser leais.
Voltamos a conversar amanhã no "Porque Sim Não É Resposta". Eu sou a Ana Filipa Rosa, Ricardo Conceição, Eduardo Sá. Obrigada e até amanhã.
Até amanhã.
Um grande abraço e até amanhã.
Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada!