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Os jovens em Portugal consideram as notícias tendenciosas e aborrecidas e estão cada vez a reclamar mais. São dois estudos que saem no âmbito do Dia Nacional da Juventude, que se assinala hoje e que, Eduardo, boa tarde, mostram alguma tendência nos jovens de hoje.
Olá, Judite, boa tarde. Mostram que são menos distraídos do que às vezes as pessoas imaginam e mostram o modo como, afinal de contas, nós, que temos sempre perspectivas tão oblíquas, às vezes a desvalorizá-los tanto, a imaginar que no fundo eles são muito volúveis, muito frágeis, que se movimentam à mínima solicitação. E, de facto, eles se calhar são capazes de ter em relação a nós uma ideia muito semelhante, porque lhes falta uma admiração essencial que eu acho que as pessoas crescidas, quando são simplesmente sensatas, sabem o que querem, definem um caminho e dizem: "Vou por aqui", independentemente que nós não concordemos com ele, acabam por ter. Portanto, eu acho que se nós tivéssemos um pingo de humildade, pararíamos a perguntar: "Oh, meu Deus, o que andamos a fazer da nossa vida?" Porque, de facto, é tão fácil enchermos a boca e dizermos que eles não se envolvem com a política, que eles parecem distraídos em relação ao que é essencial e tudo mais. E nunca nos pomos em questão, a ponto de perceber o que nós andamos a fazer, até que ponto é que seremos tão honestos conosco e com os outros, já agora, como devíamos. E eles simplesmente estão a dizer: "Olhem, por favor, dêem-nos mais coisas que valham a pena, porque aquilo que nos estão a dar talvez não seja tão apelativo como devia".
Sendo que este estudo de um projeto de cidadania digital que inquiriu 1362 jovens, é uma boa amostra, entre os 15 e os 24 anos, identificou que de facto consideram as notícias tendenciosas e aborrecidas e que preferem as redes sociais e o YouTube. Será que aí também não encontram notícias tendenciosas?
Sim, é verdade.
Menos aborrecidas, com certeza.
É verdade. Mas sabe uma coisa, Judite, eu às vezes ponho-me a perguntar o que vale mais, se a estupidez ou as meias-verdades. Eu acho que às vezes vale mais a estupidez, porque é mais clara. E às vezes nós vivemos todos envolvidos em universos de meias-verdades. As redes sociais são um universo de meias-verdades, que é o lado mais escorregadio que isto depois acaba por ter, como não podia deixar de ser, porque no fundo pega-se numa coisinha que de facto tem a ver com a realidade e faz toda uma produção fantástica de construções, de perceções, como agora se diz. E isto acaba por ser, de facto, muito inquietante, sem dúvida absolutamente nenhuma. Mas nós, quando olhamos muitas vezes para as notícias, faltam-nos pessoas que, como os franceses costumam dizer, que sejam capazes de engajar, que sejam capazes pelas suas convicções, pela dimensão, às vezes até provocatória, nem sempre arrebatadora dos seus pontos de vista, sejam capazes de nos trazer para a capacidade de pensar e que nos aproximem da verdade, seja ela qual for, sobretudo quando ela é construída a partir de pontos de vista que têm a ver conosco. E nós somos todos muito politicamente corretos, andamos todos muito resignados, muito calados, sem assumirmos posições que nas suas entes deviam ser posições políticas. O que nós queremos da vida? O que nós queremos das pessoas? O que nós queremos das coisas que valem a pena, que estão ao nosso lado? E nós somos todos muito resignados. Vamos andando, vamos funcionando e os jovens precisam de referências. Aliás, nós precisamos de referências, mas eles precisam de referências. Ao contrário do que pode parecer, eles escutam as pessoas, eles admiram as pessoas, só esperam é que as pessoas digam o que pensam. E nós vivemos num mundo que parece ser embrulhado numa censura tão interminável, que desde os jornais àquilo que nós vimos ao nosso lado, às vezes parece replicado em meias-verdades e muito pouco em convicções e em pensamentos robustos, com princípio, meio e fim, que choquem conosco e que nos ponham a pensar. E, portanto, o que havemos de fazer? Eles não andam distraídos, nós é que andamos, mas é trágico que andemos.
E o que nos diz do facto de estarem a reclamar mais? Isto no primeiro trimestre.
Judite, desculpe interrompê-la. Que ainda assim, ainda não perderam completamente a esperança em nós
Por estarem a reclamar? Ok.
É como nos casamentos, Edite França. Quando nós, a certa altura, adotamos aquela postura que todos nós já ouvimos, Edite, que já não vale a pena dizer. Para quê? Estou-me a cansar e a pessoa não ouve. E portanto, quando as pessoas deixam de reclamar é porque deixaram de acreditar que houvesse nem que fosse um bocadinho da outra pessoa para escutar. E portanto, é como se desistissem muito antes de formalmente desistirem. Eles ainda não desistiram e por isso é que não reclamam. Eu se calhar ficava mais contente que eles reclamassem mais, porque era como se nós fôssemos obrigados a sentir que afinal, apesar de todos os ses, de todas as reservas, eles ainda acreditavam muito em nós, mas se calhar não acreditam tanto como deviam.
Estes dados são do Portal da Queixa, que só no primeiro trimestre acumulou 13 mil reclamações. Quem reclama mais é o sexo feminino, talvez porque tenha mais paciência para preencher a queixa, digo eu. Mas segundo estes dados analisados, isto é um aumento de 17% face ao ano passado. Das duas, uma: ou há mais razões de queixa ou os jovens estão com vontade de mudar alguma coisa.
Olhe, Edite, eu tenho saudades do doutor Moisés Soares quando falava do direito à indignação. Eu acho que há uma diferença entre a indignação, entre uma pessoa indignada e uma pessoa rezingona. Não estou a dizer que alguns destes jovens não sejam só rezingões, alguns poderão ser. Mas aquilo de que eu gostava mesmo é que eles reclamassem só porque têm direito a ter pessoas que admiram, que reclamassem muito mais com uma atmosfera de indignação. Eu adorava que eles se indignassem e que se indignassem por tudo, porque nós não temos sido decentes com eles em relação ao mundo que lhes estamos a deixar nas mãos, a Segurança Social que lhes estamos a deixar nas mãos, o ambiente que lhes estamos a deixar nas mãos, a política que lhes estamos a deixar nas mãos. Nós somos uns peneirentes que passamos a vida a dizer que eles fazem isto e fazem aquilo, e nós vamos patifando em suaves prestações a vida que eles poderiam ter. E portanto, para a indignação que eles deviam ter, nomeadamente em relação a nós, eu acho que eles se indignam pouco ainda assim. Se começam a protestar, eu fico contente. Que eles sejam rezingões, não acho graça nenhuma, porque para rezingões já bastam as pessoas crescidas quando não são capazes de se indignar com elas próprias. Mas eu tenho muita esperança que eles se indignem, porque é sinal que nos estão a dizer, independentemente das porcariazinhas que vocês são capazes de fazer, ainda temos esperança que vocês tenham ali um rebate de consciência e que sejam capazes de emendar a mão e de mostrar o caminho, coisa que nós precisamos que vocês nos mostrem. Tão simples quanto isto.
Esperemos que essa inquietação e essa reclamação não termine facilmente. Eduardo, um grande abraço, um bom fim de semana.
Para vocês, Edite.
E já sabem, continuem a escrever-nos para eduardosa@observador.pt. Eduardo, bom fim de semana.
Um bom fim de semana para si, Edite. Um abraço também.