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É domingo e, por isso, é dia de Português Suave na Rádio Observador. Eu sou o João Costa e Silva e estou com o ninja da língua portuguesa mais consagrado, aliás, é o único: Marco Nunes.
Tu também és. Já falámos aqui das duas vezes.
Eu, pra ser ninja, falta-me o curso.
Mas pronto. Bem-vindo.
Pelo menos de língua portuguesa. Não é que eu não saiba falar, mas para estar ao teu nível é preciso estudar muito.
Todos nós sabemos falar bem.
Tem dias.
Pois, todos nós também temos dias que dizer.
Tem dias. Há dias que uma pessoa, às vezes, engana-se numa palavra e a partir daí é uma espiral. Isso acontece muitas vezes em direto.
E também uma coisa que acontece, que não tem que ver com a nossa língua em particular, mas com as outras línguas, eu não sei se tens esta experiência, quando estamos cansados, eu tenho mais dificuldade em falar outras línguas. O português também, obviamente. O português é natural. Sai mais naturalmente. Quando eu tenho que falar inglês, por exemplo, às vezes tenho que falar, se eu estiver cansado, é muito mais difícil. Eu sinto isso de uma forma muito marcada. Não sei se sou o único.
De certeza que não és o único. Para os ouvintes que nos ouvem, tantos e tantos, cada vez mais. Obrigado a todos. Fica aí o agradecimento. O que temos hoje?
Hoje vamos falar da campanha eleitoral e dos candidatos. Não vou falar de nenhum deles.
Hoje é dia de voto antecipado. Eu vou votar hoje.
É?
Sim.
Muito bem. Então, voto bem. Vou pegar aqui o desejo. Vamos também ao Brasil. Às vezes fazemos isso. Nossa língua também está muito ligada.
Quanto eu queria estar no Brasil.
Não estás, estás cá por votar. E depois vamos falar de uns mitos e ainda vamos acabar no mirandês se tivermos tempo. Não sei se temos tempo pra isso hoje.
Ok. Então vamos começar, como habitual, na Língua nas Notícias.
Se estamos na campanha eleitoral, decidi trazer a palavra campanha e a palavra candidato. A palavra campanha, não sei se associas a alguma coisa.
A palavra campanha dá pra muita coisa, é muito abrangente.
Sim, mas tens alguma ideia do que será a origem?
Vês, é aqui que eu falo que me falta o curso. O canudo.
Eu não tenho um dicionário, quem tem que ver. Há muitas palavras que eu não faço ideia qual é a origem. Ninguém tem um dicionário etimológico na cabeça, nem quem cria esses dicionários. Mas, por exemplo, há uma palavra que é champanhe, que está associada à campanha, porque champanhe também vem da mesma origem.
Estão as duas associadas?
Estão associadas do campo. Por que está associado ao campo? Porque era, no fundo, o sítio onde se faziam campanhas militares. Os militares iam pelo campo afora nas suas campanhas. E daí depois, metaforicamente, acabou por se associar à campanha eleitoral e à campanha publicitária, e mais umas quantas campanhas. A campanha está despachada, quer dizer, esta campanha ainda não está.
Ainda não está, ainda vai a meio.
Ainda temos muito pra andar. Quanto aos candidatos, temos um número particularmente elevado de candidatos nestas eleições.
São 11. Eram 14, três ficaram de fora, são 11 no total.
Mas no boletim, foi uma das polêmicas.
Vamos ter os 14. Eu também não percebo. Tanto seja cá como noutro país qualquer, como é que não se corrige esta questão? Somos tão desenvolvidos em inteligência artificial e como é que vamos ter no boletim três candidatos nos quais não podemos votar. Aliás, se votarmos, o voto não conta.
Penso que há ali um problema de prazos que têm que ser alterados para que isto possa ser resolvido da próxima vez. E já não é a primeira vez, há cinco anos.
Sim, aconteceu a mesma coisa.
Quanto ao candidato, de onde é que vem a palavra candidato? Este candidato está associado a Cândido.
Ah, é? Ao nome Cândido?
Ao nome Cândido e também Cândido no sentido de toga cândida. Era uma toga que era branca, cândido de branco, de claro. A toga cândida era uma toga branca que os candidatos tinham de vestir na altura do Império Romano, quando eram candidatos a algum cargo político. E Cândido, o nome, também vem dessa mesma origem. Portanto, é uma descrição da cor que os candidatos vestiam. Hoje, os candidatos não se vestem todos de branco.
De todo.
Imagina que havia uma lei que ainda obrigava que todos os candidatos tivessem de andar de branco, se calhar tínhamos menos do que 11. Não sei.
Possivelmente. Não sei.
Vem, de facto, da cor que as pessoas que queriam ter algum cargo na altura do Império Romano vestiam a toga cândida, deu origem ao candidato. E depois de candidato, temos candidatura, como sempre, as palavras depois nunca param.
Muitas variantes. Muitas variantes, não, muitas palavras que depois acabaram por vir à boleia dessas todas.
Podemos imaginar os vários candidatos vestidos de branco com uma toga a andar pelo campo.
Cenário bonito.
É essa a origem destas duas palavras.
Todos a correr assim num prado.
Exato.
E todo mundo dentro.
De mãos dadas. Amigos, têm que ser todos amigos. Aproveito para desejar uma boa campanha a todos e vamos ver o que vai acontecer.
Sim, vamos ver o que vai acontecer dia 18 de janeiro. Vamos avançar. É agora que vamos até ao Brasil?
Vamos ao Brasil.
Então vamos lá.
Mas antes de chegarmos ao Brasil, eu ia te fazer uma pergunta. Vamos ver se consegue responder. Nós temos alguns casos de marcas, nomes de marcas, que se transformaram em nomes comuns, que nós usamos todos os dias. Não sei se tens algum exemplo que queiras dar.
Já que estamos no Brasil, Havaianas.
Havaianas.
Por exemplo. Eu falo com muita gente que já se Refere aos chinelos, aqueles que usamos no verão, de dedo, como Havaianas.
Às vezes as marcas, não sou especialista nesta questão, mas sei que há marcas que consideram isto um problema, porque de repente a sua marca dilui-se.
Sim.
Outras que não. Mas acontece, é um fenómeno linguístico.
Por acaso gostava de perceber se é algo bom pra marca.
Eu penso que depende da fase em que estamos do processo. É um bom sinal, ou seja, quer dizer que a marca teve muito sucesso. Digo eu, estou dizendo.
Porque, por exemplo, nós vamos a um restaurante e pedimos Coca-Cola. E se não houver Coca-Cola, dão-nos logo outra opção, neste caso que é a Pepsi, mas Coca-Cola é aquela que nós referimos sempre mais, até podemos se calhar até gostar mais de Pepsi, não sei, ou de um produto gaseificado, mas referimo-nos sempre à Coca-Cola.
Eu penso que é um bom sinal pra Coca-Cola, porque quer dizer que é o líder, mas ao mesmo tempo, há esta diluição da marca. Sinceramente, não sei, algum especialista em marketing.
Se quiser vir aqui ao Português Suave, escreva-nos: portuguessuave@observador.tv.
E diga-nos se as marcas gostam deste processo de tornar a marca no nome comum. Bem, mas tens mais algum exemplo?
Jeep.
Jeep é uma palavra curiosa, porque chegou-nos através da marca dos carros Jeep.
Eu acho que há muita gente, aquelas pessoas que se calhar não ligam tanto a marcas, que nem sabem que Jeep é uma marca, acham que é só pra definir o carro.
Mas é curioso que em inglês a marca ganhou o nome que era comum. Passou o nome comum Jeep, que era atribuído a um certo tipo de carros, Jeep, e depois passou a ser uma marca, e a marca espalhou-se pelo mundo, e depois da marca criamos estas palavras todas. Eu posso dar mais dois exemplos. A Gillette, penso que também. E depois um que talvez muitas pessoas não associam a uma marca, mas é, que é o X-ato. O nosso X-ato começou com uma marca em inglês, que era lida em inglês, então era X-ato. Eles queriam dizer que era uma coisa muito exata. No entanto, nós depois vimos aquela marca, era uma espécie de trocadilho gráfico, eles punham X-ato e liam Exato. E nós vimos aquele X e começamos a ler o X como X, e ficou X-ato. E esta marca tornou-se uma palavra comum portuguesa.
Acho que devíamos usar Exato.
Mas o que isto tem a ver com o Brasil?
Exato. O que isto tem a ver com o Brasil?
O que acontece é que no Brasil, há uma marca que também se tornou uma palavra comum para fita adesiva. E a palavra é a Durex, a marca Durex.
Sim.
Cá em Portugal, não.
Sim.
Claramente.
Cá em Portugal sabemos bem o que significa.
Que não é uma fita adesiva. E eu recebi, ao contar isto num daqueles vídeos que faço nas redes sociais, recebi dois comentários muito engraçados, dois brasileiros que vieram pra Portugal e que contaram que isto levou a alguns problemas. Um deles conta que: "A minha sobrinha entrou numa papelaria em Portugal e pediu Durex, e a senhora da papelaria disse que isso tem de ser ali na farmácia, não aqui. E o mais engraçado foi uma amiga que bateu na porta do vizinho à noite, recém-chegada a Portugal, a pedir Durex, porque precisava de colar algumas coisas em casa".
Isto da língua dá-nos situações muito inusitadas, às vezes.
São os chamados falsos amigos. E agora isto leva-me aos mitos e dúvidas, e por isso se calhar avançamos pra terceira parte.
Isto tá tudo ligado, enfim.
O mito aqui é: isto são falsos amigos dentro da mesma língua. Nós temos falsos amigos entre espanhol e português, entre inglês e português, entre muitas línguas. Entre o português do Brasil e o português de Portugal, há também falsos amigos, como é este o caso do Durex. A questão é que muitas pessoas acreditam que isto é prova de que já estamos perante duas línguas. Eu não acredito nisso, não acredito que seja prova disso. Eu diria que quando temos variedades linguísticas muito próximas, a divisão entre línguas acaba por ser convencional, ou seja, os brasileiros podiam declarar a língua brasileira se quisessem, não era impossível, mas não é por causa destas diferenças. Até porque eu diria uma coisa: é precisamente porque estamos dentro da mesma língua que estas diferenças são tão visíveis e tão engraçadas, porque se fossem línguas diferentes ninguém achava estranho. Nós quando vamos a uma língua diferente, achamos curioso é o facto de haver algumas coisas parecidas, não o facto de haver coisas diferentes. Portanto, eu até acho que é mais o contrário. Rirmo-nos todos com estas questões prova que ainda estamos a falar a mesma língua, que podemos estar rindo com o brasileiro que conta que chegou a Portugal a pedir Durex na papelaria. Portanto, dito isto, eu não sei se temos tempo.
Ainda temos tempo, sim. Fica à vontade.
Eu gostava de falar de uma outra língua, que nós já falamos aqui várias vezes, e que algumas pessoas, precisamente porque isto é convencional, ao longo da história achavam que era um dialeto português, mas não é. E aqui é mais do que ser convencional ou não, temos diferenças suficientemente marcadas para não ser possível pôr esta língua no âmbito do português. Estou a falar do mirandês.
Já recebemos aqui uma sugestão para trazermos um falante de mirandês. Sugestão do Paulo Lopes. Eu nunca mais me vou esquecer do Paulo Lopes.
Exato.
Que me chamou de Diego Teixeira.
Eu, por acaso, conheci um falante de mirandês, Alcides Meirinhos, que é escritor e tradutor. Ele acabou de traduzir um dos livros do Tintim pra mirandês, o que é curioso. E ele enviou-me uma mensagem com os nomes das refeições em mirandês. Eu vou te dizer os nomes das refeições.
Pronto, isto é pra-- ok.
E tu vais adivinhar o que quero dizer.
Não sei.
Tu vais conseguir. Nenhum de nós é especialista em mirandês.
De todo.
Eu também não conseguia.
Mas refeições?
Refeições.
Mas como assim, pratos?
Não, refeições ao longo do dia.
Ok.
Tu vais me dizer qual é que corresponde no nosso português, porque o português também varia, há zonas do país onde não se diz as refeições da mesma forma como nós dizemos cá mais no litoral. Então eu vou dizer ao calhas. Merenda, esta é fácil.
Merenda é aquela fim de tarde.
Sim. Nós dizemos lanche, e merenda é uma palavra até muito bonita, que eu acho que poderíamos recuperar, porque também existia em português, existe em português. Cena.
É jantar?
Sim, é o jantar. Jantar
Almoço.
Almoço, exatamente. Almoerzo. Estou em mirandês, repare. Almoço.
E se é o pequeno-almoço?
Não. Esta é mais difícil.
É a ceia?
Não.
Então.
É uma refeição que nós hoje chamamos usando uma palavra inglesa.
O brunch?
Exato.
Oh, não, não ia chegar lá.
Porque antigamente, mesmo em português, o almoço era uma refeição ao meio da manhã.
Não ia chegar lá.
Que hoje chamaríamos brunch.
O brunch é um conceito muito recente.
Exatamente. É um conceito muito recente que só há ali espaço para que haja este anglicismo, porque o almoço era comido nessa altura, começou a andar pra frente, isto tanto no mirandês como no português. Quer dizer, no mirandês, não. O mirandês manteve os usos que também existiam em português, mas que foram sendo mudados. Portanto, nós tínhamos essa refeição ao meio da manhã. E essa refeição ao meio da manhã deixou de ter nome, porque o almoço foi aproveitado para passarmos a designar aquilo que era o jantar antigamente. E a última é zaíuno.
Essa é pequeno-almoço.
Pequeno-almoço. Tem ali uma proximidade de zaíuno, mas essa proximidade é normal em variedades que estão próximas. Portanto, é zaíuno, almoerzo, jantar, merenda e cena. Ainda são cinco, e nós em português também tínhamos cinco. Aliás, tínhamos mais, tínhamos o matabicho, que também se chamava em português.
Matabicho, pois é.
Ainda se usa em África para designar o pequeno-almoço.
E usa-se em muitos pontos do país ainda, de certeza.
Sim, exatamente. E ainda há zonas do país onde chamamos jantar ao almoço. Isso não mudou ainda completamente.
Então quando às vezes me engano. Ok, isto é bom. Afinal não estou errado.
Na Galiza, por exemplo, jantar é almoço, e eu já tive casos em que tinha amigos galegos, foi muito confuso eles convidarem pra jantar e dizerem-me depois que era às duas da tarde. E eu: "Às duas da tarde? É um bocadinho cedo, não?" "Não, mas é a hora normal do jantar." E eu: "Tá bem, pronto, tudo bem". Pronto, hoje já fomos ao Brasil, já fomos a Miranda do Douro, já falámos de candidatos.
E ficamos por aqui nesta nossa viagem no "Português Suave". Há mais para ouvir na quarta-feira, só com dúvidas que podem enviar para o e-mail, Marco?
portuguessuave@observador.pt. E qual o telefone? Perguntei a ti.
Muito bem, hoje estiveste bem. O número de telefone é o 910024185. Vou repetir: 910024185. Podem enviar dúvidas através do nosso WhatsApp, um áudio até 30, 40 segundos, e depois aparece aqui no episódio de quarta-feira. Marco, um grande abraço e até quarta.
Até quarta.