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Seja muito bem-vindo ao "Português Suave", episódio de dúvidas, à quarta-feira. Eu sou o João Costa e Silva. Marco Neves, bem-vindo.
Cá estamos mais uma vez. Obrigado.
Vamos a isto.
Bem-vindo também.
Sim, sou sempre.
Estamos aqui os dois.
Estamos, juntos. Vamos a isto. Há muitas dúvidas para esclarecer hoje. Uma dúvida do Ivo Leal, que eu já também passei por esta dúvida e quero vê-la esclarecida por ti, neste caso.
A dúvida do Ivo é: a palavra história sem H e com E, tenho que dizer, porque nós pronunciamos da mesma maneira.
Pois.
Existe de forma distinta de história, com H e com I. Em tempos ouvi dizer que seria como na língua inglesa, onde story é um conto e history é a história da humanidade. E ele depois tem mais duas dúvidas, mas vamos concentrar-nos nesta aqui.
Sim.
É uma questão curiosa, porque na nossa língua, na ortografia, nos primeiros séculos, nós escrevíamos tanto com H, sem H, com E, com I, tanto esta palavra como outras. Não havia uma distinção de sentido.
Entre as duas.
Nós vemos nos primeiros séculos pessoas a escrever com E e sem H, com H, com I. Mas depois a palavra estabilizou e ficou com H e com I, com dois sentidos. Aliás, mais do que dois. Tanto a pequena história, ou seja, a story inglesa, como a história da humanidade, a história de Portugal. Ou seja, nós temos uma palavra que tem esses dois sentidos e essa palavra passou a escrever-se ao longo do tempo com H e com I. No século XX, houve uma proposta vinda do Brasil e no âmbito até do estudo das narrativas tradicionais para criar a palavra história com E e sem H, que teria então o sentido que a palavra story tem em inglês. Esta proposta foi seguida por alguns falantes, por alguns escreventes, se quisermos dizer escreventes, mas nunca foi assumida pela generalidade dos falantes e das pessoas que escrevem. E por isso eu, por exemplo, pessoalmente, escrevo sempre com H e com I.
Eu também.
Agora, história já está nos dicionários, a palavra história sem H, mas não há nenhuma obrigação de fazer esta distinção na escrita, até porque nós na oralidade também não a fazemos.
Ok, exato. Não dizemos: "Estou a dizer história sem H."
Portanto, não é que fosse impossível termos uma distinção que só existe na escrita, acontece noutros casos, mas não vejo essa necessidade, é a minha perspectiva e é a perspectiva da maior parte dos falantes e das pessoas que escrevem. Até porque, por vezes, há um certo deslizar dos sentidos. Quer dizer, às vezes nós estamos a falar da história que aconteceu e até queremos que não seja claro qual é o sentido. Há uma outra distinção que é habitual, que é pôr a palavra História, quando significa disciplina, com H maiúsculo.
Ok. Sim, a disciplina, quando falamos aqui, por exemplo, na escola.
Exatamente. O meu filho tem aulas de História, com H.
Sim, exato.
Resumindo e concluindo, podemos manter sempre com H e com I. Se a pessoa quiser usar a outra palavra, terá de perceber que é um uso muito particular e minoritário dentro da nossa língua.
Um abraço ao Ivo Leal, que é um ouvinte assíduo do "Português Suave". Enviamos muitas dúvidas. Camilo Carneiro também tem uma dúvida, Marco, não é assim?
Tem uma dúvida, e eu vou lhe pedir desculpa por não responder já à dúvida, porque isso vai merecer, provavelmente, um programa inteiro, mas eu vou só ler, porque gostava de comentar. Ele diz: "Viva, antes de mais, muito obrigado pelo vosso programa, é ótimo para aprender curiosidades da língua portuguesa. Desde que descobri o Marco Neves que presto mais atenção às palavras e expressões". Eu agradeço, também eu. "Tenho uma filha de um ano e quatro meses e muitas vezes dou por mim a refletir nas coisas que lhe digo. Isto também porque ela aprende português principalmente de mim, já que a mãe é estoniana e vivemos na Estónia. Sinto então uma responsabilidade especial em falar corretamente". E depois, o Camilo pergunta por que nós dizemos "vamos vestir as calças e calçar as meias" e deveríamos dizer "calçar as calças e vestir as meias". Isto é uma pergunta típica de um pai. Eu também quando comecei a ter filhos, comecei a ter estas perguntas e estas dúvidas. Mas como eu lhe disse, não vou responder já. Vou só comentar isto que ele nos escreveu sobre ele ser a fonte da língua portuguesa para a filha. Porque acontece muito nas comunidades de imigrantes, e agora, neste caso, emigrantes, estamos a falar dos portugueses que estão noutros países, que os filhos aprendem a língua do país onde estão ou de um dos pais ou até da comunidade onde estão e os pais transmitem o português. E isto tem alguns reflexos curiosos. Primeiro, a língua é como se estivesse ali afunilada pelo pai que ensina. Portanto, a filha vai aprender a língua só por uma pessoa, o que não tem nada de mal. Ainda bem que está a aprender português, já cá com mais línguas. Mas temos fenómenos curiosos, como muitos sotaques que se vão aguando, perdendo pelo país fora.
Essa expressão eu adoro, aguando.
Ficam aguados. Ficam preservados em comunidades de imigrantes, porque os pais mantêm o sotaque mais tempo e com mais intensidade do que cá em Portugal, onde os sotaques ficam às vezes um pouco mais aguados, como estava a dizer. Eu não faço ideia qual é o sotaque do Camilo. Terá um sotaque, certamente, como todos temos.
Claro.
Mas se calhar, a filha vai acabar por falar de forma muito mais próxima do pai do que o meu filho de mim, porque ele está numa situação diferente.
Exato. E nós somos sempre influenciados por aquilo que aprendemos, por aquilo que ouvimos, portanto, daí também essa preocupação. Marco Neves, nós temos mais dúvidas, inclusive um áudio, e vamos-
Vamos ouvir?
Vamos até Viseu.
Vamos até Viseu.
Olá, Marco Neves. Eu sou Abel Santos, de Viseu, um dos seus seguidores. Tenho muitas dúvidas, mas obviamente só vou colocar uma. Devemos dizer "Viseu é lindo" ou "Viseu é linda"? Eu entendo que, como Viseu é uma cidade, deveria ser "Viseu é linda". No entanto, "Viseu é lindo" parece soar melhor. Muito obrigado.
É uma ótima pergunta.
Como é que devemos dizer? Nunca me tinha passado pela cabeça, por acaso.
Nós temos dois tipos de topónimos, tanto nas cidades, como nos países, como nas regiões. Aqueles que levam artigo e aqueles que não levam artigo. E dentro dos que levam artigo, nós usamos ou o artigo feminino ou o masculino. Portanto, temos Lisboa, que não leva artigo. Portugal não leva artigo. Angola não leva artigo. Mas depois temos: o Porto, leva artigo. O Brasil, leva artigo. Eu estou a misturar os países e cidades de propósito.
Sim.
A Alemanha leva artigo. Por que razão é que uns levam e outros não? Não vamos por aí. Agora a questão é: o que acontece com aqueles que não levam artigo quando nós temos de decidir o género? E neste caso, há duas grandes teorias. No Brasil é muito comum mesmo linguistas dizerem isto, que estas palavras são palavras sem género ou com género neutro, que são as únicas do português em que têm o género neutro, género gramatical, e outras pessoas, nas quais eu me incluo, dizem que estas palavras têm género, só que o género só é revelado em certas situações. Por que eu digo que todas têm género? Porque os nomes em português têm de ter género, porque nós pomos os adjetivos. Inclusive há construções, por exemplo, se eu disser: "A Lisboa da minha infância". Eu vou dizer: "A Lisboa da minha infância". E eu, neste caso, percebo a questão da cidade. É uma cidade e portanto deveria ser feminina, mas Angola é um país e nós nunca diríamos: "O Angola da minha infância". Ou: "Angola é bonito". Não vamos dizer isso. Portanto, a categoria não tem diretamente que ver com o género da palavra. Eu diria que são palavras que têm género. Agora, as pessoas poderão atribuir-lhes um género diferente, dependendo das preferências. Eu atribuo o género masculino a Viseu. Eu vou dizer, tal como eu digo: "A Lisboa da minha infância", que não é o caso, porque eu não vivi cá na minha infância.
És de Peniche.
Sou de Peniche. Peniche também é um dos casos em que as pessoas não sabem muito bem onde encaixar a palavra. Eu diria: "A Peniche da minha infância", mas eu sei que pessoas em Peniche que dizem: "O Peniche da minha infância", que eu não gosto nada, porque parece-me que é algo para limpar o pó. Vou confessar. E por isso eu diria: "O Viseu da minha infância, a Lisboa, a Angola, o Portugal da minha infância". Eu não diria "a Portugal", como me parece óbvio. Portanto, tudo somado, é uma questão de preferência, porque como nós não temos o artigo, os falantes enquanto comunidade não decidiram. Então, às vezes é cada falante que vai ter de decidir por si.
Conclusão, Viseu.
O Viseu.
O Viseu.
Eu vou votar no Viseu e espero que as pessoas que ouvem o "Português Suave".
Se vai ter aceitação.
Vamos ver, as pessoas de Viseu digam. Atenção.
Digam a sua justiça.
Vou só sublinhar, eu não estou a defender que as pessoas digam: "O Viseu é a minha cidade". O que estou a dizer é, quando têm de pôr um adjetivo, põe no masculino ou põe no feminino. "Viseu é bonito" ou "Viseu é bonita". Digam da vossa justiça.
Temos mais um áudio, uma curiosidade.
Olá, daqui vos fala Marco Lopes e sou um grande fã portuense do "Português Suave". Sou também fã do Tintim, o personagem criado por Hergé. Acontece que Tintim, o nome do repórter aventureiro, está ali mesmo a roçar a palavra "tintins", o termo informalmente usado para testículos. Afinal, qual é a origem da palavra "tintins" e da expressão "tintim por tintim", que significa ao pormenor? Existe sequer alguma relação entre a expressão "tintim por tintim" e os tintins? E será que há alguma ligação ao personagem Tintim? Enfim, um abraço a todos e com ele raios e trovões. Se forem praticar desporto hoje, lembrem-se de proteger bem os vossos tintins.
E eu iria respondendo tintim.
De Marco para Marco.
Sim, eu iria respondendo tintim por tintim a esta pergunta, mas a verdade é que o tempo está a terminar e por isso vamos ter de deixar isto para o próximo episódio.
Mas foi aqui uma bela curiosidade.
Uma bela curiosidade.
Do Marco Lopes, que nos trouxe aqui esta questão. Tintim por tintim, por acaso, é algo que eu também quero saber, a origem disto.
Fica marcado.
Fica marcado para breve. Vamos falar sobre isto.
Até domingo.
Não, ia só lembrar os nossos ouvintes para enviarem dúvidas para o "Português Suave" através do e-mail portuguesSuave@observador.pt e através do nosso número de telefone 91 002 4185. Enviar para o nosso WhatsApp dúvidas e áudios até 30 segundos.
Como diz o Marco Lopes, protejam-se. Até domingo.
Exatamente. Até lá.