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Está no ar o "Português Suave" na Rádio Observador. É quarta-feira, por isso, Marco Neves, olá, bem-vindo.
Olá, tudo bem?
Tudo bem. À distância, mas estamos sempre juntos. É sempre assim.
No passado domingo estive aí mesmo no estúdio em direto. Agora estou um pouco longe, mas cá estamos nós para responder.
É para balançar, no fundo, é para a nossa relação não ficar estagnada. Precisamos de ter estes momentos de pausa.
Vamos variando.
Vamos às dúvidas, não é?
Sim, vamos às dúvidas. Vamos ouvir a primeira dúvida, se calhar.
As dúvidas são engraçadas. Isto é estranho de se dizer: queres começar pelo pai ou pelo filho?
Pode ser pelo pai.
Então vamos lá.
"Olá, bom dia, estou aqui com meu filho Vasco. Temos duas dúvidas. Uma que é relacionada com a Quaresma, que é: a palavra abstenção e abstinência têm o mesmo verbo. Eu abstenho-me. Não sei se acontece muitas vezes em português. E outra questão que eu tenho tem a ver com a palavra molhos versus molhos. Molhos de comida versus molhos. Qual é a forma mais correta? Eu acho que é molhos para molhos de comida, mas muita gente, que até fala bastante bem português, diz molhos. São estas duas dúvidas. Obrigado."
Temos aqui esta dúvida do Vasco e do Ricardo. Já vamos ouvir a outra, Marco, mas esta dúvida dos molhos e molhos é muito recorrente, não é?
Sim, e nós já falámos dela aqui, já foi há bastante tempo, mas eu vou repetir. Em relação à abstenção e abstinência, o que eu posso dizer é que muitas vezes a mesma raiz dá origem a palavras diferentes com sufixos diferentes e depois os falantes vão usando um para uma coisa e outro para outra. Não consigo dizer muito mais do que isto. Nós temos o "ção", o "ência" como sufixos e vão sendo usados como se fossem materiais. Já falei disso aqui várias vezes. Nós temos materiais nas gavetas da língua e os falantes, de vez em quando, abrem uma gaveta, tiram uma peça, montam e depois, se for preciso, outros falantes vão à gaveta e pegam noutra peça e ficamos com duas palavras. E depois os falantes começam a usá-las de forma um pouco diferente, ou seja, em contextos diferentes. É algo natural. Portanto, abstenção, abstinência, têm origens parecidas, mas acabaram por ser usadas em contextos diferentes. E quando eu digo aqui os falantes, não é só da nossa língua. Muito daquilo que nós falamos aqui também já vem do latim e das fases medievais da língua, mas são sempre os falantes que vão fazendo este tipo de malandrices.
Muito bem.
Quanto aos molhos e aos molhes. Nós, por vezes, temos palavras que têm um O diferente no singular e no plural. Ovo, ovos. No caso do molho, temos duas palavras que são parecidas e que depois levam a estas confusões, mas basicamente temos um molho, que pomos na comida, e temos molhos, que pomos na comida. E depois temos um molho, ou seja, um conjunto de qualquer coisa. E depois temos os molhes, vários conjuntos. Isto são duas palavras separadas, mas como são tão parecidas e na nossa cabeça nós temos esta ideia de que há palavras que no singular é de uma maneira, no plural é de outra, acabamos por misturar estas duas palavras.
Eu, por acaso, tenho sempre tendência em abrir a vogal e referir-me, ou seja, digo molho, mas para o plural já digo molhos.
Sim, é perfeitamente natural por analogia, porque nós temos, de facto, muitas palavras em que nós fazemos isso, em que nós dizemos ovo, ovos, avô, avós. Que depois cria outra situação de que já falámos aqui. Espero que o Ricardo tenha ficado satisfeito com a resposta. Agora vamos ao Vasco.
Sim, vamos ao filho, vamos ouvir o mais pequeno.
"Olá, sou o Vasco, tenho 11 anos e gostava de perguntar qual é a origem da palavra ressurreição. Obrigado."
E parabéns pelo-
"Parabéns pelo programa".
Tão bom ouvir aqui o pequeno Vasco.
Obrigado, Vasco.
E com uma palavra difícil, Marco. Ressurreição.
É uma palavra difícil de dizer. A palavra tem uma origem latina e é muito dita em contexto religioso, como nós sabemos.
Sim.
Neste caso, a origem vem de algo que nós podemos traduzir para português como "re" e depois "surgir", que é o "surrexio", é surgir. Este surgir já tinha vindo de "sub rego", ou seja, de levantar de baixo. Este "rego" deu origem também a reger, ou seja, tem a ver com algo que controla, mas também que se levanta. E, por isso, o "sub rego" é algo que se levanta a partir de baixo. Ressurreição, no fundo, quer dizer levantar-se de novo do chão.
Sim.
É surgir de novo. No fundo, voltar à vida. É uma metáfora muito visual do que acontece se alguém estiver morto e deixar de estar. Basicamente, é esta a resposta. Espero que o Vasco tenha ficado satisfeito.
Sim, um abraço para o pequeno Vasco, que nos ouve, e também o pai, que ouve o Português Suave. Fizeram questão de nos enviar estas duas mensagens.
Muito obrigado pelos parabéns, também. João, não vamos falar disso hoje, porque não temos tempo, mas posso te dizer que recebi uma dúvida do Henrique Pereira dos Santos sobre um erro de concordância que fiz num dos programas, e ele tem razão. Ele perguntou-me se teria razão, às vezes poderíamos não estar a ver bem, mas eu de facto cometi um erro de concordância há dois episódios. Mas vou deixar isto para domingo, para nós falarmos deste erro de concordância.
E para as pessoas irem ouvir e tentar identificar.
Exatamente. Vão ao episódio em que falamos das meias.
É um exercício prático, no fundo. É um trabalho de casa, TPC.
Ouçam esse episódio e vejam onde é que está o erro de concordância. Depois nós no domingo revelamos.
Muito bem.
Fica combinado.
Fica combinado. Dúvida, já sabe, para o e-mail portuguessuave@observador.pt, mas também pode fazer uso do nosso WhatsApp, como fez aqui o Ricardo e o Vasco. É enviar para o 91 002 41 85. Marco, um grande abraço e até domingo para falar sobre esse trabalho para casa.
Até domingo.