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E aqui numa primeira leitura com o editor de política do Observador, Rui Pedro Antunes. Rui, notas, realces desta intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa.
Miguel, foi um discurso muito curto. Eu estava aqui agora a olhar precisamente para ver, nós costumamos habitualmente fazer um entrelinhas com base no que são as reflexões do presidente que não tão evidentes. Aqui pareceu-me que ele quis centrar em três grandes ideias. Passou pelo tal recordar, recriar e depois agradecer. E não quis, como já tinha acontecido noutros 10 de Junho, fazer uma grande reflexão sobre o estado do país, o que não significa que não tenha passado uma imagem. Parecia, pelo menos se não falaram disso, também alinhado com Lídia Jorge na ideia de que-
Parece que houve ali um encadeamento das intervenções
...sim, que não há ninguém que possa dizer que é mais puro e português do que qualquer outro. Tem havido uma tendência nos últimos tempos por algum nacionalismo mais primário, por exemplo, colocar jogadores da seleção sub-17, que são todos de ascendência africana e dizer que não são portugueses. Tem havido uma certa tendência por uma ala mais nacionalista, até nas redes sociais, a defender a pureza do que é ser português e o presidente da República quer, naturalmente, contrariar isso e tal como Lídia Jorge lembrou aqui, enumerou os vários povos que levaram àquilo que é hoje o povo português, contrariando essa ideia da pureza da raça, da pureza lusitana e portanto, como discurso ideológico, isso seria um dos grandes destaques. É claro que poderemos saber se é propositado ou não, mas na final da Liga das Nações, Portugal venceu, um dos melhores jogadores em campo foi Nuno Mendes, André Ventura partilhou uma fotografia em que só estavam os jogadores da seleção, digamos assim, caucasianos. Dirá André Ventura que provavelmente não foi propositado, mas tendo em conta algumas das figuras da rede do Chega e os comentários que têm feito sobre a seleção de sub-17, não deixa de ser relevante. André Ventura irá falar, de certeza que não gostou do discurso de Lídia Jorge, mesmo que ele não seja o mais radical na questão da pureza lusitana, naturalmente que o discurso ou o facto de Marcelo Rebelo de Sousa enaltecer isso será uma coisa que não irá ao encontro daquilo que é pretendido pelo líder do Chega nessa matéria. Depois, Marcelo Rebelo de Sousa também priorizou essa pertença à Europa nessa recriação de que ele fala e também ao tentar cuidar da relação com os países de língua oficial portuguesa. E portanto, nesse aspecto, Marcelo Rebelo de Sousa quis dar a ideia que nós também não podemos deixar de cuidar e de tratar daquilo que é uma posição que por acaso até vem desse tal império do qual se fez coisas más e também coisas boas, mas que toda a ideia de que, de repente, já não é importante apostar nessa e nos países que partilham a língua conosco, não pode vingar. E portanto, é preciso, de alguma forma, também cuidar desse relacionamento e Portugal não perder a sua base, porque da sua história também vem o seu futuro e portanto faz um pouco essa ligação. Se me perguntares se é dos melhores discursos de 10 de Junho de Marcelo Rebelo de Sousa, só pode ser dos melhores porque nenhum foi bom, no sentido em que, pelo menos do ponto de vista de pôr a nação a refletir. Acho que há aqui uma importância, que é no atual contexto, em que já vai deixando de haver algum pudor, até com partidos que são democraticamente eleitos de forma absoluta avassaladora e com valores muito grandes, têm nas suas fileiras e publicamente não têm pudor de criticar jogadores ou de dizer que são representantes nacionais, de dizer que são menos portugueses que outros por causa do tom de pele. Eu creio que é sempre importante, e destacaria isso no discurso, esta lembrança permanente em que não há uma pureza da raça, não há uma pureza da nacionalidade portuguesa e portanto que a ideia do português puro não existe. Nós portugueses somos feitos de muitas coisas, somos descendentes de vários povos, somos uma mistura desses vários povos e isso sem dúvida que foi uma tónica do discurso. Também dará mais uma vez pólvora a André Ventura para vir dizer que em vez de estar concentrado nos problemas do país, anda com este tipo de reflexões que não dizem nada ao dia a dia dos portugueses, mas faz parte do jogo político.
Sendo que o Presidente da República também, com essa evidência, e não foi a primeira vez ao longo destes dois mandatos, a questão daqueles que estão a ficar para trás. Disse o presidente, não sei se será esta a citação "ipso verbis", mas é preciso cuidar dos que ficaram para trás ou estão a ficar. São dois ou três milhões, isso são muitos, são demais. É preciso não esquecer estas pessoas, esta que também tem sido uma marca da presidência de Marcelo Rebelo de Sousa.
Sim, Marcelo Rebelo de Sousa sempre teve uma preocupação em que houvesse alguma coesão social e que de alguma forma, durante o seu mandato, reduzisse o número de pessoas no limiar da pobreza Por outro lado, reduzir o número de sem-abrigo. Eu creio que ele chega aqui ao fim, ao seu último 10 de junho, sem ter conseguido pressionar os governos a reduzir de forma significativa o número de pessoas que dependem de subsídios do Estado para não estar numa pobreza razoável, pobreza extrema. Na verdade, sobre aquilo que eram os grandes desígnios do presidente quando chegou à chefia do Estado, de haver menos gente dependente do Estado, haver menos gente na pobreza sem ter essa dependência de prestações sociais e também haver menos sem-abrigo, eu creio que nesse aspecto desses portugueses ficaram para trás e são esses que sofrem mais. Eu creio que Marcelo Rebelo de Sousa não terá dado, não sei, também seria limitado, não tem o poder executivo, mas não terá conseguido ajudar muito a mudar o estado das coisas. Claro que em 2016 a situação era diferente. O país financeiramente está melhor do que estava na altura, descontando aquilo que é a instabilidade da conjuntura internacional, mas de qualquer das formas, muitos dos problemas que Marcelo Rebelo de Sousa diagnosticou em 2016 vão continuar em 2026. E portanto, ele também não foi a figura, a catalisadora e mobilizadora, que ajudou a levar o país pra frente ou tenha pressionado os dois chefes de governo, só lidou com António Costa e com Luís Montenegro em nove anos e meio de lei, e não conseguiu mudar muito o estado das coisas, pressionar o poder executivo para que, nesse aspecto, os que ficam sempre atrás tivessem hoje um pouquinho mais à frente, porque creio que não são muitos os que estão e, portanto, o estado das coisas continua a ser o mesmo.
Foi Pedro Antunes, é o editor de política do Observador e que nos juntou