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É agora 12h16, André.
Bom dia, João. São 7h16 nesta altura nos Estados Unidos da América.
Arranca agora uma emissão especial para recordar o 11 de setembro de 2001. André, o dia que mudou o mundo.
Vamos reconstituir os principais momentos daquele dia, desde o momento em que o primeiro avião levantou voo até à queda da torre norte do World Trade Center.
E vamos também, André, recuperar memórias de quem estava em Nova York no dia do ataque às Torres Gêmeas.
João, como esta de Elizabeth Alves, que em conversa com o jornalista Miguel Cordeiro confessou que nunca mais regressou a Nova York.
Eu logo vi que o mundo estava a mudar. Nunca mais me senti segura aqui. Eu antes sentia-me segura nos Estados Unidos e estar em Manhattan, andar no metrô, eu sentia-me segura. Depois desse dia, não, nunca mais. Estava a tentar voltar para o normal, mas eu não pude. Eu comecei a ter ansiedade no metrô e estar lá, eu tive que deixar o trabalho depois de uns meses. Comecei a apanhar ataques de ansiedade. Quando isso aconteceu, eu não sabia o que era. Nunca tive isso. Mas depois quando descobri que era isso, eu andei de doutor para doutor, hospital para hospital, e quando descobriram o que era, eu deixei de ir para Manhattan. Eu não podia, porque eu cada vez que entrava no metrô, eu dava um ataque de pânico.
A vida de Elizabeth Alves mudou neste dia 11 de setembro de 2001, a dela e a de milhões de pessoas. Este momento único da nossa história deixou marcas em todo o mundo, como veremos mais à frente nesta edição, André.
E 20 anos depois, João, é impossível esquecer o que aconteceu naquela manhã.
Eu cheguei lá às 8h50, saí do metrô e comecei a caminhar pro lobby e quando cheguei perto do lobby, ouvi estalos muito altos. Eu até pensava que era alguma pessoa que estava a mandar tiros, porque segundos depois chegou um senhor do lado do lobby a gritar e a correr pra gente correr. Havia lá uma escada para ir para fora, para a rua e a gente subiu as escadas e quando eu cheguei à rua, estava lá muita gente a olhar pro ar espantada, de choque. E eu virei-me e vi um dos prédios cheio de fumo preto e chamas. E então eu estava a perguntar às pessoas qual era o prédio, porque eu não conseguia ver qual era o prédio, mas ninguém me podia responder. Então eu tirei o meu telemóvel e comecei a ligar pro meu escritório, mas o telefone não dava. E chegou-se a um ponto que um senhor ao meu lado começou a gritar: "Ai, meu Deus, ai, meu Deus!" E eu soube logo que foi algum corpo a cair, então virei de costas e comecei a andar fora dali.
Elizabeth Alves, uma portuguesa que vivia nos Estados Unidos, a recordar aquela manhã de 11 de setembro. Uns mais do que outros, André, todos temos lembranças daquele dia.
E ao longo do dia, várias personalidades vão passar pela antena da Rádio Observador e recordar memórias, mas também trazer aos ouvintes reflexões desse 11 de setembro de 2001.
E de repente começamos a olhar pra uma televisão e como a maioria das pessoas, a ficarmos muito impressionados com o que estávamos a ver.
O número de vítimas, mais de 3 mil, o coração de Nova York, o simbolismo daquele ataque tornaram claro que o terrorismo passou a ser uma coisa diferente.
Foi um ataque completamente inesperado no centro da nossa civilização.
Quase como se tivesse sido feito para ser transmitido em direto para todo mundo ver. Eu recordo-me que mentalmente a primeira associação que fiz foi com aqueles filmes de ação.
A transformação completa da forma como nós olhávamos para a segurança.
São excertos de entrevistas que realizamos e que vamos passar até às 16h. Eu sou o João Miguel Santos e em 2001 estava a dar os primeiros passos no jornalismo.
Eu sou o André Maia e o dia 11 de setembro foi para mim mais um dia de infantário.
Boa lembrança, André. Aquele dia foi, de facto, marcante a essa hora, por volta das 10h e pico da manhã, 11h, aliás, 12h30.
Nos Estados Unidos.
Aliás, em Portugal, 12h30, era início da manhã nos Estados Unidos. Por cá, o país preparava-se para almoçar e os pivôs dos noticiários da RTP, SIC e TVI ultimavam os jornais que iam apresentar daí a minutos. Juntam-se em direto a esta emissão especial os rostos desses jornais, André Neves, jornalista da RTP. Quando o primeiro avião embate na torre norte do World Trade Center, estava no ar com o jornal da tarde. Boa tarde, Andreia. Andreia, boa tarde.
Boa tarde.
Olá Andreia.
Boa tarde.
Estavas no ar no preciso momento em que o primeiro avião embate na torre norte do World Trade Center. Tens memórias desse dia? Claro que sim.
Tenho várias memórias desse dia, nomeadamente o facto de, pra mim, terem existido praticamente dois 11 de setembro, porque quando tudo começa a acontecer, eu estava na emissão e naquele momento a principal preocupação era tentar não reagir emotivamente ao que estava a passar, até porque não sabíamos o que se estava a passar, era tentar encontrar factos, testemunhas, pessoas que nos pudessem ajudar a explicar toda essa situação. Eu estive numa emissão especial até às 20h, cheguei a casa por volta das 22h, sentei-me no sofá, voltei a olhar pra as imagens e são às 22h que eu vivi realmente o 11 de setembro com todos os sentimentos e todas as emoções que toda mundo já tinha vivido antes.
Porque não tiveste tempo para digerir.
Não, não havia tempo pra isso, porque nós estávamos à procura e é preciso lembrar que há 20 anos a situação não é como agora, em que se tem acesso às redes sociais e à internet. Isso não existia nos estúdios também, era muito difícil, tínhamos acesso só aos telex, às agências, o que por um lado até é um benefício, porque nos permitia não especular tanto, mas dificultava a sensação de ter a certeza sobre o que é que estávamos a trabalhar. Claro que ligámos logo a especialistas em aviação civil, outros especialistas que nos pudessem tentar ajudar a explicar, porque ao princípio pensava-se que poderia ter sido, obviamente, um acidente, mas alguns minutos depois houve o embate do segundo avião e percebeu-se que era impossível ser um acidente e começamos a procurar explicações.
A Andreia que estava na RTP nesta altura, no ar, e na concorrência, na SIC, estava o Paulo Camacho, que estava a acabar o jornal da 13h. Paulo, bem-vindo, junta-se também agora a nós aqui na antena da Rádio Observador. O Paulo Camacho ficou até praticamente às 19h, se não estou a errar, até bem tarde nesse dia. Quando chegou a casa, depois de tantas horas seguidas de emissão, o que é que lhe passou pela cabeça?
Na altura, sinceramente, não lembro o que é que me passou pela cabeça depois. A experiência é parecida com a da Andreia. Eu lembro uma coisa muito bem: estava cheio de fome e a pensar onde iria almoçar nesse dia, quando aconteceu o embate do primeiro avião e portanto, em vez de ir almoçar, tive que continuar no estúdio onde estava desde antes da 13h, como a Andreia, como o Júlio, até muito perto das 20h, quando começou o jornal das 20h. O que aconteceu depois, não sei. Calculo que tenha acabado o dia de tal forma cansado.
Foi a emissão mais exigente da carreira, Paulo?
Do ponto de vista de trabalho de estúdio, foi, sem dúvida. Acho que é difícil ser tão exigente. Como a Andreia estava a referir, nós tínhamos acesso a muito pouca informação. A informação que tínhamos acesso era das agências, que sabiam basicamente o que nós sabíamos. Aliás, as pessoas em casa viam mais do que nós, porque nós não podíamos estar focados na imagem, tínhamos que estar à procura de coisas, a pensar, a ouvir recados de pessoas que nos falavam ao ouvido e portanto estávamos muito pouco concentrados na imagem. Eu fiz um esforço muito grande pra tentar recorrer à minha experiência pra tentar explicar aquilo. Desde o primeiro momento me pareceu muito difícil ser um acidente, devido às condições de visibilidade, devido ao fato de não ser nenhuma das rotas de aproximação dos aeroportos de Nova York. Agora, admitir que aquilo era um atentado, só admiti depois do segundo embate. E aí, digamos que atravessei, porque eu estava numa SIC, se estivesse numa CNN ou numa BBC, não me teria atravessado, e atravessei-me a dizer que aquilo só podia ser um atentado.
Claro. Júlio, estavas na TVI nesse dia. Tens obviamente memórias desse jornal da 13h do dia 11 de setembro de 2001. É um dia que nunca ninguém esquece, claro.
Sim. Estava lá. Aproveito para cumprimentar o Paulo e a Andreia.
Olá.
Olá, tudo bem? E um abraço, que já não vos vejo há muito tempo também, não os vejo pessoalmente. Sim, estava no ar, estávamos a fazer o jornal da 13h, numa posição mais difícil do que o Paulo e que a Andreia, seguramente, porque o jornal da 13h da TV era feito no Porto. Portanto eu estava nos estúdios do Porto a fazer o jornal e a regi era em Lisboa. E quando houve as imagens, havia um circuito que era da regi de Lisboa pra regi do Porto, da regi do Porto pra mim, e eu ia recebendo informações, começamos a meter imagens e não me custa nada admitir que devo dizer e confessar que disse uma série de asneiras na altura, no ar, no bom sentido, porque ninguém sabia o que é que estava a acontecer. Chegavam informações de que aquilo podia ser um avião da aviação civil.
Bom, perdemos a ligação com o Júlio Magalhães. Júlio, estás conosco?
Eu estou, estou a vos ouvir bem.
De repente, perdemos a tua voz. Estavas a explicar.
Estava a explicar que acabei por dizer algumas asneiras no ar, porque chegavam informações de que seria um avião da aviação civil, depois se era um avião da polícia, depois era um avião da Cruz Vermelha. Iam chegando muitas informações sem se saber o que era. Nós começamos a meter pessoas no ar que poderiam eventualmente explicar aquilo, e nenhuma nos falou no atentado, até que metemos um piloto da TAP no ar e ele foi o único que na altura disse: "Isto é impossível ser um acidente, isto é um atentado, não pode ser um acidente, é impossível." E nós até ficamos um bocado perplexos, porque ainda não havia essa informação e dissemos: "Como é que é possível agora vir dizer que é um atentado?" Porque não nos passava pela cabeça que alguma vez um atentado pudesse ocorrer daquela maneira. Acho que não passava na cabeça de ninguém atirar aviões contra um prédio. E a verdade é que depois confirmou-se, mas durante muitos minutos fomos dando informações Muito desencontradas, informações muito irrealistas, porque era o que estava a chegar e depois era comentar em cima das imagens e eu com esta dificuldade acrescida porque estava no Porto. Fui dizendo umas coisas e hoje eu já revi aquilo. Há uns tempos até estive a rever isso e dei conta da série das coisas que disse no ar, involuntárias, como é óbvio.
O que também é normal, porque trabalhar no elástico e no fio da navalha não é fácil.
É, e não estava em contacto directo com a redação de Lisboa, portanto era mais difícil. Fomos comentando as imagens, aconteceu a terminar a altura, acontece até um episódio que não dá para rir, mas é inusitado. Já depois disso tudo, ainda não tinham caído as torres, tínhamos um correspondente nos Estados Unidos e que às tantas de Lisboa me dizem: "Acho que há aqui um telex que a torre do mundo pode colapsar, pode cair." E eu perguntei ao correspondente da TV na altura nos Estados Unidos: "Olha, há aqui a informação de que pode colapsar o prédio, a primeira torre." E ele disse: "Não, isso é impossível. Quem conhece Nova Iorque sabe a estrutura destes prédios, a dimensão, o diâmetro, são estruturas muito sólidas, etc." A verdade é que passado um bocado o prédio caiu. Ele não disse aquilo por ignorância. Quem conhece Nova Iorque e conhece de facto a dimensão daqueles prédios, não está a ver um edifício daqueles a cair.
Ninguém esperava algo assim.
Não, ninguém esperava nada disto, de facto. É o jornal mais marcante, acho eu, para todos que viveram aquele momento.
Júlio, estamos já a queimar o nosso tempo, como se costuma dizer. Andreia e Paulo, gostava de vos ouvir rapidamente. Como é que se encontra o equilíbrio? É possível encontrar o equilíbrio jornalístico no meio de um carrossel como aqueles? Andreia.
Se não se importam. Olá, Paulo, olá, Júlio, que ainda não tinha cumprimentado.
Olá.
Tal como o Paulo disse, e o Júlio também explicou, encontra-se um equilíbrio porque não estamos propriamente tão centrados nas imagens como as pessoas em casa estavam. Nós estávamos à procura de informações, muitas contraditórias, é verdade, algumas que não faziam nenhum tipo de sentido. Portanto, nós não estávamos propriamente a sentir aquilo como as pessoas, estávamos mais concentrados nos factos e por isso o equilíbrio surge até com alguma naturalidade e se calhar até olhando agora para isso, se calhar às vezes pensamos: bem, se calhar eu fui completamente insensível naquele momento, estava o mundo a desabar através de dois edifícios e eu continuava, e suponho que o Paulo e o Júlio a mesma coisa, continuávamos a relatar factos e a não mostrar propriamente nenhum tipo de sensibilidade, eventualmente perante as imagens, precisamente porque nem tínhamos tempo para estar a sentir.
Claro. Paulo, no teu caso?
Eu acho que se algum responsável de redação sentisse que um pivô naquele momento estava a ser tomado pelas emoções, teria o substituído. E o facto de nós três termos ficado na emissão durante horas e horas parece que é prova de que não nos deixámos levar pelas emoções e conseguimos manter a frieza necessária para desempenhar aquele trabalho.
Claro que sim. Andreia Neves, Paulo Camacho e Júlio Magalhães, obrigado por partilharem com os nossos ouvintes as vossas memórias desse dia 11 de setembro de 2001. Obrigado.
Obrigada.
Obrigado, boa tarde.
Andreia, que horas são agora?
Ora, nesta altura nos Estados Unidos são 8h32.
Para já tudo normal nos Estados Unidos, mas daqui a 20 minutos o mundo vai começar a mudar. 12h35.
São 7h35 nos Estados Unidos. Daqui a 20 minutos, há 20 anos, no dia 11 de setembro, o mundo ia começar a mudar, mas por enquanto, João Miguel, estava um dia de sol, estavam cerca de 25 graus em Nova Iorque. Em Lisboa também estava bom tempo, onde é que estavas a esta hora?
Olha, eu estava a caminho da redação, trabalhava na altura, ia no autocarro e ia, lembro-me, a ouvir rádio.
Ouvir rádio. Então provavelmente, é bastante provável que tenhas ouvido alguma música do Rui Veloso neste dia perto daí.
Por quê Rui Veloso?
Rui Veloso, porque nesse ano de 2001, Rui Veloso era o único músico português a subir ao top 10 de vendas em Portugal e seguramente passava com alguma regularidade na rádio. Rui Veloso, que por acaso nesse dia 11 de setembro de 2001, e ouvimos aqui "Não Há Estrelas no Céu", um grande êxito que estava neste álbum, que chegou ao top. Rui Veloso, nesse dia 11 de setembro de 2001, estava em Oeiras e foi uma das pessoas que estranhou alguma confusão junto a uma televisão e foi ver do que é que se tratava.
Estava no Oeiras Parque, andava lá e comecei a ver uma coisa estranha, em direto, tipo CNN, e vi uma coisa nas Torres Gémeas. E aquilo a arder. Quer dizer, eu apanhei ainda o primeiro avião, depois fiquei ali a ver, não percebi muito bem. Eu tenho a ideia que não sabia se aquilo era montagem, o que é que se estava a passar ali. Fiquei muito intrigado com a situação.
Quando é que foi essa sensação, depois de se aperceber e quando de repente surge o segundo avião?
Eu só depois, eu tenho a impressão que saí, acho que não fiquei ali para ver, que aquilo ainda demorou um bocado. E depois vi em casa. Claro, depois o cara acompanhou aquilo o dia todo.
Teve a sensação que isto ia mudar o mundo com aquilo que estava ali a acontecer?
Quando me apercebi disso Ter a sensação de a América ter sido atacada na sua terra, porque normalmente a América participa em coisas, mas as coisas nunca são na terra deles. É sempre na terra dos outros. E de repente, alguma coisa muda, porque a partir do momento em que alguém tem a lata de atacar a América no seu próprio território, alguma coisa vai mudar. Eu fiquei completamente alerta para o que viria a seguir.
Mais fragilizado?
Não sei. Eu no dia 5 de outubro estava em Nova York. Três semanas depois fui a Nova York. Eu já conhecia minimamente Nova York e o que encontrei foi uma coisa devastadora. Desde restos daquilo tudo, fui lá ao sítio, inclusivamente. Jantei na avenida que ia dar precisamente ao World Trade Center, vi os holofotes para aquela zona toda iluminada, fumarada, e pó em tudo que era sítio, pó entrava por tudo que era lado. Lembro-me de Nova York estar totalmente enfeitada com bandeiras americanas, pequenas, grandes, médias e tal. E de haver uma sensação de impotência geral nas pessoas, na rua. Mas encontrei uma cidade completamente estarapantada com o que se vai passar. Uma coisa incrível.
O que as pessoas diziam nessa altura?
Dava uma ideia que eles estavam a acordar de um sonho mau e eles estavam imbuídos de um espírito patriótico, todo o tipo de americano que há em Nova York. Desde os vendedores de cachorros e daquelas coisas que são árabes e que são de variadíssimas nacionalidades, não havia um único que não tivesse uma bandeira americana no carrinho dos cachorros, dos hot dogs e dos pretzels e aquelas coisas todas. Toda a gente, as bandeiras penduradas nas janelas, em tudo que é sítio. Eu tenho variadíssimas fotografias que tirei nessa altura, precisamente alusivas a esse patriotismo exacerbado três semanas depois do 11 de setembro. Estava muito quente ainda, quentíssimo.
O que acha que se perdeu nessa altura? Perdeu-se privacidade?
Foi a coisa que todos nós mais notamos. Segurança nos aviões, segurança nos aeroportos. Não se pode levar isto, não se pode levar aquilo. Aquilo que era bastante livre, uma pessoa até podia levar uma garrafa de vinho e bebê-la no avião, como chegámos a levar, eu e amigos. E a partir daí deixou de se poder levar tudo, nem uma garrafa de água se podia levar. Continuam esses efeitos de segurança a existir nos aeroportos.
E na música, naquilo que é a sua vida, o que é que alterou também? Ou seja, nesta área do espetáculo, trouxe também muitas mudanças ou não? Tem essa perceção, nestes últimos 20 anos, motivado também por isso, por essa forma de estar?
Nunca refleti. O que mudou na música nos últimos 20 anos, com o 11 de setembro, eu acho que o que se passou e que se passa na música são diferentes, são fenômenos globais, tem a ver com as tecnologias e com tudo isto que apareceu. E portanto, mudou muita coisa e muita lógica na música.
Sentiu-se mais inseguro nessa altura?
O que acabou por alertar a malta foi que uma pessoa começou a ficar a olhar pessoal, tipo egípcios, um bocadinho de lado. Começou-se a ver terroristas em todo lado, mas isso não foi na música, foi em todo lado. De repente, apareceram aquelas fotografias de gajos com as azinhas: "Estes tipos são todos terroristas." O que obviamente não é verdade. Houve ali um frenesi de: "Onde é que eles estão? Será que eles estão no meio de nós?"
Passamos a olhar mais por cima do ombro.
Pois claro, e ainda continuamos, isto ainda não parou.
Rui Veloso, a entrevista ao jornalista do Observador, Aníbal Rebelo, ele que falava aqui também um pouco destes efeitos do 11 de setembro, por exemplo, a islamofobia. Durante muito tempo, quem circulasse no Ocidente com, por exemplo, vestes do Médio Oriente, com aparência árabe, era sempre olhado de lado, não é João, e com muita desconfiança.
O 11 de setembro mudou comportamentos e mudou também atitudes e obrigou a mudar tudo no que diz respeito à segurança. Mais à frente nesta emissão iremos ver o que mudou na aviação, porque se há setor onde podemos dizer que há um antes e um depois do 11 de setembro, é precisamente o setor da aviação. André.
E por falar em aviação, João Miguel, nesta altura são sete horas e 42 minutos nos Estados Unidos da América. O grupo de cinco piratas do ar do voo 11 da American Airlines prepara-se para embarcar no aeroporto de Boston.
Aparentemente um embarque normal, sem sobressaltos. A esta hora da manhã lá nos Estados Unidos, nada fazia antever o que iria acontecer a seguir. Quem eram estes cinco piratas, André?
O principal era Mohamed Atta, era o único do grupo que não era oriundo da Arábia Saudita, era do Egito. Mohamed Atta era mesmo considerado o líder tático de todos os ataques do 11 de setembro, para além de ter pilotado o primeiro avião, este American Airlines 11, onde estiveram com ele Abdul Aziz al Omari, também o Wale e o Walid al Sheri e ainda Satam al Sukami, todos da Arábia Saudita. E já agora, que não disse há pouco, o líder Mohamed Atta, de que falávamos, o piloto deste American Airlines 11, fazia parte daquela que iria ser chamada depois de Célula de Hamburgo. É uma célula radical islâmica que ficava na cidade de Hamburgo, como diz o nome, na Alemanha. Diz-se mesmo que Mohamed Atta passou por aqui perto também, por Espanha, e por isso, João, tivemos um dos responsáveis dos atentados aqui na Península Ibérica.
Ou seja, mesmo aqui ao lado. Estamos a falar de pessoas com vidas aparentemente normais, como tu e eu. Pelo menos não eram soldados ou combatentes. E isso fez, André, aumentar o receio sobre o outro. De repente, qualquer pessoa podia ser um terrorista e o medo, naquela altura, enfim, não traz lembrança, seguramente isso, mas o medo parece que tomou conta de nós, não é?
Sim, e tomou conta de nós quase até aos dias de hoje. Principalmente o medo de voar. Muita gente ficou traumatizada com isto logo a seguir. Ao 11 de setembro, por exemplo, multiplicaram-se as histórias de aviões comerciais que tiveram de aterrar de emergência. E o antigo piloto da TAP, José Correia Guedes, ia precisamente aos comandos de um desses aviões.
Vamos ouvir.
A primeira mudança, que nos afetou a todos, é o susto
E a preocupação. Durante as primeiras semanas, a informação sobre o que estaria na base daquilo era escassa. Nem nós, nem o planeta inteiro sabia o que estava por trás daquilo, se era o desencadear de uma ação a nível global, ou seja, qualquer avião, em qualquer país, qualquer companhia, era um alvo potencial, podia ser atacado e íamos bater em São Paulo ou em qualquer cidade do mundo, ou em Cingapura, ou Hong Kong. Era isso que ia acontecer a partir de agora?
Passou a ter medo?
Eu não vou mentir. Eu fui voar uma semana depois do 11 de setembro. Como lhe disse, quando aconteceram os factos, eu tinha acabado de chegar de uma viagem. E então tive uns dias de repouso, como é normal, e a minha próxima viagem era para o Brasil, para São Paulo, no Airbus 340. E é evidente que todos nós íamos preocupados, o avião ia cheio, 300 passageiros, e notava-se um constrangimento, um silêncio anormal. Portanto, as pessoas estavam cheias de medo. Eu não vou dizer que estava cheio de medo, mas não vou negar que estava preocupado. Todos nós estávamos preocupados e estávamos muito preocupados. E a comprová-lo está um incidente que eu conto no livro que escrevi, "O Aviador". Nós partimos para o Brasil, atravessamos o Atlântico e depois rumo a Fortaleza. A maior parte das vezes, essa é a rota normal, pode diferir um pouco de tempos a tempos, mas entramos no Brasil, à vertical de Fortaleza, e depois voamos sobre terra até São Paulo. Mas até aí, o percurso é todo feito sobre o mar e uma meia hora antes de sobrevoarmos Fortaleza, vêm me dizer que há uma grande cena de pancadaria a bordo, que há passageiros em pânico, que há sangue espalhado pelas bagageiras, que há gritos. Quer dizer, é a última coisa que a gente quer ouvir uma semana depois do 11 de setembro. A preocupação é grande. O que eu havia de fazer perante isso? Pedi à tripulação de cabine para tentar controlar o que se estava a passar. Eram dois homens, como diziam, com sotaque estrangeiro, que estavam a agredir toda a gente à volta. E quando me falam em estrangeiros, às vezes a gente assume logo o pior. Quem são estes tipos? Vamos ter aqui um ataque. Primeira coisa que eu fiz, foi um bocado ingênua, eu hoje reconheço que foi um bocado ingênua, mas era algo que eu tinha que fazer. Pedi ao supervisor de cabine para me pôr dois rapazes, dois comissários, à porta do cockpit com instruções para não deixar entrar ninguém. Isto é um bocado ingênuo porque apesar dos rapazes serem bem constituídos, um assaltante profissional armado rapidamente dava cabo deles. Mas de facto não podíamos fazer mais nada. As portas do cockpit até então eram feitas de uma espécie de cartolina, até por razões de segurança, no caso de haver um acidente, os pilotos para poderem sair davam um pontapé naquela porta e ela desintegrava-se. Era uma porta muito leve, muito ligeira e portanto era muito fácil abrir aquela porta e entrarem por ali dentro.
Mas quando tomou essa decisão de pedir a esses dois elementos da tripulação para ficarem à porta, tinha o 11 de setembro na cabeça?
Claro que sim. Era para proteger o cockpit. Eu quero o cockpit protegido, não quero que entrem uns tipos armados que façam com o meu avião, a primeira coisa que eles fariam seria matar-me, como é óbvio, mas que façam com o meu avião aquilo que os outros fizeram em Nova Iorque. O avião é um míssil carregado com combustível, os estragos que faz, aliás, que viu-se bem em Nova Iorque, destruíram dois prédios inteiros, gigantescos, dos maiores que havia no mundo, que foram destruídos por dois aviões com o impacto e com o derrame de combustível.
E como é que acabou essa história do voo para São Paulo?
Acabou de forma bastante divertida. Perante este quadro, eu obviamente decidi aterrar no aeroporto mais próximo, que era Fortaleza. Eu avisei Fortaleza que ia aterrar de emergência, que tinha um incidente grave a bordo, pedia a assistência da Polícia Federal e que ia aterrar para já pôr os passageiros e o avião a salvo e desovar, tirar aqueles dois de bordo. Entretanto, já durante a descida e com a autorização do controle de tráfego aéreo, vieram me dizer que os próprios passageiros se tinham mobilizado e caíram em cima dos delinquentes e que os amarraram com os cintos das calças, amarrados dos pés, das mãos. Portanto, isto é uma cena de filme de caubóis. Isto não pode acontecer num avião.
Portanto, não era só o comandante que estava atoladado pelas imagens do 11 de setembro, todas as pessoas que estavam no avião também tinham essa-
Estava toda a gente em pânico. Ou seja, pensariam os passageiros: "Nós só nos safamos se conseguirmos liquidar estes indivíduos". E quando digo liquidar, é imobilizá-los. Só quando conseguimos neutralizar estes indivíduos é que nos safamos.
O antigo piloto da TAP, José Correia Guedes, André, com a memória de um voo particularmente difícil no rescaldo do 11 de setembro.
E o medo de voar, João, acentuou-se. Cresceu também a islamofobia, como também nos recorda e falámos com ele, o imã da Mesquita de Lisboa, Sheik David Munir
Muita coisa mudou desde as nossas viagens que nós fazíamos. Os lugares de culto passaram a ser mais protegidos, podemos dizer assim, mas não muito visível, porque felizmente em Portugal nós não tivemos nenhum ataque direto nem indireto. Haviam algumas poucas que as pessoas diziam e comentava-se, porque o fato de ver uma senhora com lenço ou, por exemplo, uma pessoa com uma túnica comprida ou com uma barba comprida, associava-se logo ao Talibã.
Sente que a islamofobia aumentou em Portugal desde esse dia?
Eu acho que aumentou nas redes sociais. Eu não sou muito fã das redes sociais, mas por aquilo que percebo, nota-se que há algumas coisas que são ditas que demonstra, além de uma ignorância, alguma islamofobia a crescer. Mas a comunidade islâmica portuguesa existe desde 1968, portanto, não é uma coisa nova. É claro que tudo que se passa, que não seja agradável, choca a todos nós, como seres humanos. E quando alguém faz em nome de uma religião, nós tentamos separar. Imaginemos se um cristão comete alguma loucura, ou se um judeu, ou hindu, ou agnóstico, seja o que for, choca e lamentamos. Nos dias de hoje, tem que haver condições e nós temos que estar preparados para convivermos uns com os outros. A multiculturalidade é uma coisa saudável. Eu tenho que saber os meus limites e os outros também têm que saber os seus limites. Eu não posso impor a uma outra pessoa a minha identidade religiosa, nem cultural. Culturalmente somos todos portugueses. A única coisa que poderá diferir é a identidade religiosa, é uma coisa muito pessoal, é uma coisa espiritual. Agora, só para acrescentar, é interessante, por exemplo, nós vimos pessoas que professam Islão ou qualquer outra crença cometerem atos de violência, mas também nós vimos, por exemplo, adeptos de futebol, adeptos de desporto, a cometerem atos de violência. Nós não deixamos de gostar do desporto só por ver alguns adeptos serem violentos com os outros. Este ano ainda, quando os ingleses vieram cá jogar no Porto, os estragos que eles fizeram, a violência que eles deixaram, nunca nós deixamos de gostar de futebol. Aqui conseguimos separar.
E acha que, por exemplo, desde esse dia 11 de setembro de 2001, acha que os portugueses, numa maioria portugueses católicos, conseguiram separar aquilo que foi o ataque que partiu da cabeça de algumas pessoas, sejam fiéis ou não do Islão? Acha que os portugueses conseguiram separar aquilo que foi um ato isolado daquilo que é o Islão como religião?
Infelizmente, o que se passou após 11 de setembro? Nós tivemos 11 de março e depois tivemos alguns ataques suicidas ou bombistas em Londres, depois foi o Bataclan, depois foi a Bélgica. Portanto, isto tudo, infelizmente, ao acontecer, nós tivemos um papel muito importante de transmitir e tentar separar as coisas. Infelizmente, há muçulmanos radicais que deturpam versículos do Alcorão. Não podemos negar, há. A verdade é esta. Eu não posso negar que não haja. Há. E por que eles o fazem? Tiveram conhecimento errado do Islão, deturpam alguns versículos do Alcorão, estão a ser manipuladas, fazem-lhes uma lavagem cerebral. São pessoas que foram perturbadas ou que são perturbadas. Portanto, tudo isto é questionável.
O xeque David Munir, imã da Mesquita Central de Lisboa, a recordar, André, aqui o impacto do 11 de setembro na comunidade islâmica. São agora 12 horas e 55 minutos.
São 7 horas e 55 minutos na América. O mundo ainda não sabe, mas daqui a instantes, vários radicais islâmicos vão sequestrar quatro aviões nos Estados Unidos. Um desses aviões estava a esta hora, João, na pista para partir com 92 pessoas a bordo.
Meio-dia e 59.
São 7h59 em Nova York, no dia que mudou o mundo.
E a esta hora, André, no dia 11 de setembro de 2001, levantava voo do aeroporto de Boston o Boeing 767-223AR da companhia aérea American Airlines.
Era o voo número 11, devia ligar as cidades de Boston, na costa leste, e Los Angeles, na costa oeste dos Estados Unidos, mas a meio do percurso foi desviado. A bordo seguiam 81 passageiros e 11 tripulantes.
Foi este avião, André, o primeiro a ser usado como arma no 11 de setembro.
O mundo, João, vai mudar daqui a 46 minutos, no momento em que este avião, que saiu agora de Boston, chocar com a torre norte do World Trade Center.
1 hora com 14 minutos.
São 08h14 nos Estados Unidos.
O ataque à América está a caminho. Para já, o céu continua azul no país, o sol brilha. André, o voo 11 da American Airlines já está no ar.
Mas em terra, João, e também na cidade de Boston, de onde saiu o voo número 11 que falavas, está na pista agora o voo 175, um sete cinco, da American Airlines. Está atrasado 14 minutos, mas vai descolar a qualquer instante e mudar a paisagem da cidade de Nova York e também o mundo. Este segundo avião é o que vai chocar daqui a 51 minutos com a torre sul do World Trade Center.
E quantos passageiros, André, e quantos terroristas vão a bordo deste voo?
Vão a bordo seis membros da tripulação, 58 passageiros, cinco deles piratas do ar. No total, são 64 pessoas.
A esta hora ainda não sabemos quem são e o que se preparavam para fazer. Quem eram estes homens, André?
São dois dos Emirados Árabes Unidos e três da Arábia Saudita. Dos Emirados tínhamos Fayez Banihammad e Marwan al-Shehhi, ele que foi o piloto e que pertencia à célula de Hamburgo, de que já falamos aqui, uma célula terrorista que estava na Alemanha. E depois Ahmed e Ameh al-Ghamdi e ainda Moherd al-Shehhi, os três da Arábia Saudita.
Cinco sequestradores do voo 175, que acaba de descolar de Boston. Este avião vai juntar-se ao voo 11 da American Airlines.
Esse voo 11 vai com 15 minutos de viagem. É nesta altura que a tripulação deixa de comunicar com as autoridades aeronáuticas americanas.
Apesar das insistências, o voo 11 da American Airlines deixou de responder, como ouvimos aqui na chamada do controlador aéreo, e começam a surgir suspeitas de que algo não estaria certo e não estava. A esta hora, o avião da American Airlines, André, já estava tomado pelos piratas do ar.
Uma tomada do avião que foi violenta. Betty Ong, uma hospedeira de bordo, viu dois colegas de profissão serem esfaqueados pelos terroristas. Não hesitou e ligou a partir do avião para a linha de emergência da companhia aérea.
Betty Ong aqui explicava à operadora o que se tinha passado, João. Temos duas pessoas esfaqueadas, temos gás pimenta lançado no interior do avião e os terroristas, nesta altura, já estão trancados no interior do cockpit. Por isso o avião, nesta altura, estava tomado.
E nesta altura, o egípcio Mohamed Atta, que tinha recebido aulas de voo nos Estados Unidos e que é o presumível líder da operação, estava a pilotar este Boeing 767.
E como é que sabemos que era ele o piloto, João?
Porque é o próprio Mohamed Atta que usa as comunicações do aparelho, comunicações que ficaram gravadas na caixa negra do avião. Vamos ouvir.
Mohamed Atta a responder sem querer, André, à chamada do controlador aéreo.
Sim, João, sem querer, porque achava que estava a comunicar com os passageiros através das colunas do avião. Mohamed Atta acabou por falar com o controlador aéreo sem querer e até revelou aqui uma informação vital, não sei se reparaste, João: "We have some planes".
"We have some planes", que quer dizer "temos alguns aviões", assim no plural. A partir daqui, a segurança aérea dos Estados Unidos, todo o sistema ficou com uma dúvida no ar: será que há mais aviões sequestrados?
A resposta ia chegar mais tarde, mas o mais difícil estava feito. O mais difícil que neste caso até foi fácil, ou seja, tomar os aviões. Hoje, por causa do 11 de setembro, há 1001 medidas de segurança que evitariam uma situação destas, mas em 2001, e longe de imaginar que um avião comercial pudesse ser usado como uma arma contra uma cidade, por exemplo, a segurança nos Estados Unidos era mais relaxada.
E o antigo piloto da TAP, José Correia Guedes, que já tivemos a oportunidade de ouvir aqui na Rádio Observador, é testemunha disso mesmo. A segurança passou a ser apertada e há hoje pequenos gestos que passaram a ser proibidos. Olha, como por exemplo, esticar as pernas no corredor do avião.
Qualquer falha que pudesse haver, felizmente nunca aconteceu comigo, mas lembro do caso de um colega meu que ia pra Nova York e já estava na área de controle aéreo de Nova York e atrasou-se A fazer um reporte de posição. Um reporte de posição é dizer: "Eu vou estar na posição tal, às tantas horas e não sei o quê, a determinada altitude". Isso é mandatório ser feito. E ele atrasou-se uns minutos, por qualquer razão, que eu desconheço. E passado uns minutos tinha dois caças ao lado, que obrigaram o avião a descer numa base americana. Um avião da TAP, um Airbus A340, 100 passageiros, devido a um esquecimento, a uma falha de tripulação, que foi apenas isso, esquecimentos que acontecem a todos, mas que na área de Nova Iorque não podem acontecer. A partir do 11 de setembro, não podiam acontecer. À mínima coisa, nós tínhamos dois caças a mandarem-nos ir atrás deles e aterrar numa base aérea qualquer. E isso gerava também uma enorme tensão em nós, pilotos, porque sabíamos que a margem de erro era praticamente inexistente, que estávamos todos a ser rigorosamente vigiados. Os americanos não brincam em serviço, como toda a gente sabe, nessa matéria. E como já tinha havido uma falha grande no 11 de setembro, eles não queriam que a história se repetisse. De maneira que, à mais pequena dúvida, mandavam avançar os aviões. Aliás, eu acho que os aviões andavam em permanência no ar. Havia sempre aviões militares no ar, na zona de Nova Iorque, se calhar nos Estados Unidos todos, não faço ideia, não tenho preparação nem conhecimentos para falar sobre isso. Agora só terminando a história da TAP.
Sim, força.
Era uma coisa que nós, pilotos, gostávamos muito e que até era recomendada em termos de saúde. Podíamos levantar a meio da noite ou a meio do voo e não só ir à casa de banho, mas ir tomar um café na galley da frente ou passear.
E esticar as pernas.
Esticar as pernas, que a expressão é mesmo essa, porque estamos ali nove, 10 horas, 11 horas, nos voos de longo curso. É péssimo pra saúde, provoca tromboses nas pernas. Não se deve fazer isso. Nós fartamo-nos de dizer aos passageiros pra não ficarem muito tempo sentados. Não podemos ser nós, pilotos, a estar ali amarrados. E portanto, esse prazer e essa necessidade foi nos coartada, foi nos tirada. Era das coisas que eu mais gostava, a meio da noite, saía do cockpit, deixava o copiloto encarregue de tomar conta do avião, vinha até cá atrás, tomava um café, conversava com os colegas de cabine, se tivesse algum passageiro, conversava com o passageiro, dava uma volta pelo avião. Os passageiros gostam de ver o comandante ou os pilotos, porque isso dá-lhes tranquilidade. Se o comandante anda aqui é porque está tudo bem.
Não é o contrário? Não ficam a achar quem é que está a conduzir o avião?
Não. O efeito é o contrário. Tem um efeito tranquilizador. O comandante anda por ali, é sinal que está tudo tranquilo. Um sorriso pra aqui, uma conversa pra acolá. Portanto, isso é uma operação de relações públicas, mas também é uma espécie de tranquilizante. E isso acabou. Nós fazíamos muito isso nos aviões antigos, até ao 11 de setembro de 2001. Fazíamos muito isso e isso acabou. E tornou-se então imensamente chato estarmos ali dois. Ainda por cima os aviões, quando eu comecei a voar, havia cinco homens, na altura só havia homens, no cockpit. Agora só há dois. Portanto, estamos ali os dois fechados durante aquelas horas todas. É bastante chato.
Um sacrifício para os pilotos, para proteger quem voa, medidas que poderiam ter evitado o sequestro a esta hora, que continuava no voo 11, André.
Sim, vamos então a um ponto de situação. A esta hora são 08h23 nos Estados Unidos, são 01h23 em Portugal. Está no ar o voo 175 há 15 minutos e o voo 11 já tem meia hora de viagem. É o único avião que nesta altura já está sequestrado. Foi tomado há 15 minutos. A estes dois aviões vai juntar-se um terceiro que, João, descolou há poucos minutos.
American Airlines, voo 77, é este o terceiro voo usado no ataque aos Estados Unidos, que saiu de Washington há 01h20, hora portuguesa, portanto, há sensivelmente quatro minutos naquela manhã exata, nos Estados Unidos, de 11 de setembro de 2001.
E estamos a falar de um Boeing 757, que levava 58 passageiros, mais seis tripulantes para Los Angeles. Agora o destino vai passar a ser outro. Este é o terceiro avião de ataque. É este que vai chocar com o Pentágono e uma vez mais tomado por um grupo de terroristas. Novamente, são cinco.
E quem são eles, André?
São Hani Hanjour, que foi o líder desta operação do voo 77. Foi ele quem pilotou a aeronave até Washington e comandou outros quatro atacantes, Nawaf e Salem al-Hazmi, também Khalid al-Mihdhar e ainda Majed Moqed, todos da Arábia Saudita. Todos chegaram aos Estados Unidos no ano anterior, no ano 2000.
Temos, por isso, a esta hora, nessa manhã de 11 de setembro, três aviões no ar. Um acabou de sair, o voo 77, que vai para o Pentágono, o voo 175, que vai em direção à torre sul do World Trade Center, e o voo 11.
E o alvo desse voo 11 é a torre norte, é a torre gêmea um, e daqui a 15 minutos vamos ver pela primeira vez a imagem que pôs um ponto final no século XX.
135 minutos em Portugal, André.
São 08h35 nos Estados Unidos.
Estamos em missão especial para recordar os 20 anos do 11 de setembro. A esta hora e naquela manhã de terça-feira já estavam no ar três dos quatro aviões usados no ataque terrorista.
O mundo ainda não sabe o que vai acontecer, João, mas em algumas torres de controle dos Estados Unidos já começam a aparecer alguns sinais de alerta.
Indícios de que algo estaria para acontecer e que aconteceu mesmo.
Daqui a sensivelmente 12 minutos, às 08h46, 13h46 em Portugal, o voo 11 da American Airlines vai chocar com a torre norte do World Trade Center.
E nesse voo, e por enquanto apenas e só nesse voo, o sequestro já está em andamento e começam a chegar os primeiros pedidos de ajuda.
"American Airlines emergency line. Please state your emergency."
"Hey, this is Niddy, American Airlines calling. I am monitoring a call in which flight 11, the flight attendant is advising our reps that the pilot, everyone's been stabbed."
"Flight 11?"
"Yeah."
"We contacted air traffic control. They are going to handle this as a confirmed hijacking, so they're moving all the traffic out of this aircraft's way."
"Ok."
"He turned his transponder off, so we don't have-"
Aqui ouvimos uma chamada da linha de assistência da American Airlines para a linha de emergência da transportadora. É mencionado o pedido de ajuda que ouvimos há pouco. Não sei se se lembram de uma assistente de bordo, Betty Ong, que tinha ligado a pedir emergência no avião.
E como ouvimos, André, as comunicações com o avião estão embaixo, mas há uma conclusão: o voo já está a descer e daqui a 15 minutos vai fazer a descida final, mas isso é só daqui a cerca de 10 minutos. Voltemos então à Terra.
São quase 08h42 nos Estados Unidos. Aliás, já passa um bocadinho, por isso, nesta altura já está na pista, prestes a levantar voo, o voo número 93. Vai ser este o quarto e último voo a ser usado como arma neste atentado.
O voo 93 da United Airlines. Temos, por isso, dois voos da American Airlines e um da United. Este último, um Boeing 757 que levava a bordo 44 pessoas com destino à cidade de São Francisco.
Está na pista neste momento, João, este voo 93, no aeroporto de New York, perto de Nova York, mas o destino vai ser outro, João. Os terroristas queriam usá-lo para destruir ou o Capitólio ou a Casa Branca.
Não temos certeza do alvo, porque este voo é especial. Este foi o tal que foi desviado pelos próprios passageiros, que combateram o medo e enfrentaram o grupo de quatro sequestradores.
E vamos lá saber, João, quem é que são eles.
Os sequestradores são três sauditas e um libanês. Este último foi mesmo o líder e piloto da operação neste voo. Chama-se Ziad Jarrah, foi apoiado por Sahid al-Ghamdi, Ahmed al-Haznawi e também Ahmed al-Nami.
Foi a única equipa de terroristas que não teve sucesso no ataque, mas já lá vamos, porque o voo 93 acaba de levantar voo nesta altura. Temos agora os quatro aviões terroristas no ar, João, por isso vai começar agora mesmo também o sequestro de mais um dos voos. É no segundo avião, no voo 175 da United Airlines, o segundo, o tal que foi desviado na zona de Nova Jérsia para ir em direção à torre sul do World Trade Center. Rapidamente os passageiros, neste momento do sequestro, perceberam que alguma coisa estava errada.
"Jules, this is Brian. Listen, I'm on an airplane that's been hijacked. Things don't go well. Nothing good. I just want you to know, I absolutely fuck you."
Esta é a voz de Brian Sweeney para a mulher Jules, uma despedida à distância. Diz que as coisas estão feias nesta chamada feita a partir do avião.
Brian diz à mulher que as coisas não estão com bom ar, que está num avião sequestrado e diz uma série de palavras doces, enfim, possíveis de dizer numa circunstância como esta.
Nem imaginamos, João. Palavras fortes de um passageiro em tom de despedida. Brian seguia no avião que daqui a minutos iria embater na torre sul do World Trade Center.
É 13h46 em Portugal.
São 08h46 em Nova York.
No dia 11 de setembro de 2001, o mundo acabava de mudar.
Estamos a recordar os momentos decisivos do 11 de setembro. A esta hora, naquele dia, em 2001, o voo 11 da American Airlines, vindo de Boston e com 92 pessoas a bordo, embate agora na torre norte do World Trade Center.
O embate é ouvido a quilômetros de distância, mas poucos percebem, André, verdadeiramente o que aconteceu.
Os Naudet brothers, dois irmãos e realizadores franceses, estavam a fazer um documentário em Nova York com os bombeiros. Só eles e um imigrante checo foram os únicos civis que filmaram o primeiro choque. O som que ouvimos é dessa filmagem dos realizadores franceses. As imagens não deixam dúvidas: um avião, e não tão pequeno quanto parecia ao início, tinha chocado com um dos mais emblemáticos edifícios do mundo.
Na altura, o embate levantou muitas dúvidas. Teria sido uma bomba, um avião, um monomotor? Enfim, havia muita especulação sobre o que teria acontecido.
"I just saw flames inside. You can see the smoke coming out of the tower. We have no idea what it was. It was a tremendous boom just a few moments ago. You can hear around me emergency vehicles heading towards the scene. Now, this could have been an aircraft or it could've been something internal."
Ouvíamos a reportagem em direto da Fox 5, de Nova Iorque, o primeiro canal de televisão do mundo a entrar em direto do canal apenas dois minutos depois do primeiro avião.
Mas com muitas dúvidas ainda sobre o que tinha acontecido, porque ninguém tinha visto o embate do avião em si. Mas sabes o que ajudou a tirar dúvidas, André?
Diz-me.
O tempo. Alguns canais entraram no ar mais tarde e já com informações mais compostas. Por exemplo, a CNN foi a segunda mais rápida, três minutos depois do ataque, imagina, três minutos, e abriu com uma emissão com a informação de que teria sido um avião a chocar com a torre.
"This just in, you are looking at obviously a very disturbing live shot there. That is the World Trade Center and we have unconfirmed reports this morning that a plane has crashed into one of the towers of the World Trade Center."
Mesmo assim, muitas dúvidas sobre aquilo que se teria passado. Ouvimos aqui nesta emissão da CNN, desde que este canal deu a informação de que seria um avião, a partir daí, a notícia começou a passar assim de meio a meio.
Claro. Aliás, André, em Portugal a notícia foi dada praticamente às 14h, 20 minutos depois do choque, e a RTP dava assim a notícia na altura.
É uma notícia de última hora, acaba de nos chegar e podemos fazê-la acompanhados a imagens que nos chegam via CNN. Um avião comercial colidiu com uma das torres do World Trade Center.
É a voz de Andreia Neves, jornalista da RTP, que também já entrou aqui em direto a partir de Bruxelas na Rádio Observador nesta emissão. A SIC, que era concorrente, já existia na altura, claro, deu a notícia também por volta das 14h.
São imagens de uma das duas torres do World Trade Center. O edifício está em chamas, como podemos ver.
Nesta altura ainda ninguém percebia verdadeiramente a dimensão deste impacto, André.
Mas que já ganhava alguma forma. João, só com este choque terão morrido pelo menos 92 pessoas a bordo do avião e mais algumas que estavam nas torres na zona do impacto. O voo 11 da American Airlines chocou com a torre norte, a torre um do World Trade Center, entre os pisos 93 e 99 do edifício, a uma velocidade de 790 km/h. Até foi o avião que tinha uma menor velocidade de todos aqueles que chocaram.
Mesmo assim, não deixa de ser impressionante. Gerou-se naturalmente uma enorme confusão naquele dia, com gritos, agitação, dúvidas, enfim, e mesmo mais longe, ninguém conseguiu ficar indiferente.
Quão longe? A 30 km da ilha de Maneta, um português, na altura professor nos Estados Unidos, estava numa sala de aula durante o primeiro impacto. Paulo Pereira era professor de História e percebeu de imediato que este era um daqueles momentos que ia dar nas aulas e que ficam nos livros.
O que eu tento fazer é, não faço a mesma coisa todos os anos, também depende da idade dos alunos que eu dou aulas.
Porque ao longo dos anos também foi mudando. Acabou por ter alunos que viveram o 11 de setembro enquanto crianças e agora tem alunos que não eram nascidos quando aconteceu o atentado.
Exatamente. Então eu tento, de alguma forma, trazer uma parte pessoal, contar-lhes como contei hoje ao Miguel a minha história, onde eu estava, o que eu estava a fazer, e eu pergunto-lhes se eles falam com os pais, se eles perguntam aos pais, onde é que estavam os pais. Tenho falado sobre o meu colega, o João Aguiar, tenho falado sobre o presidente da Câmara, o Scott Strauss, e às vezes mostro-lhe vídeos no YouTube sobre o que o presidente da Câmara fez e sobre outras pessoas que foram heróis naqueles dias. Então em vez de mostrar as imagens dos aviões a bater contra as torres, aquilo tudo que eles já viram, as torres caírem, eu tento focar na parte humana, na parte depois, na parte de ajudar o vizinho. Portanto, eu tento focar não tanto no ato em si, porque isso eles podem ler, mas mais no feeling, no sentido que existiu no país nos dias a seguir. Também muitos deles interessam-se em desporto, portanto, eu mostro alguma coisa de como é que o desporto reagiu, os Yankees e futebol americano. Eu lembro-me, fui ao Super Bowl nesse primeiro ano, em 2002, que foi o primeiro Super Bowl depois do atentado, e os U2 é que tinham o programa ao intervalo e eles ao cantarem tinham a lista dos nomes daqueles que morreram no atentado, tanto nas torres como no Pentágono e no avião, no Flight 93. E lá está o nome do meu amigo e ele como era Aguiar, era um dos primeiros e eu lembro-me de chorar como um bebê, porque aquilo parece que de repente tudo caiu e ver aquelas imagens, aquela lista dos nomes a subirem nunca mais acabavam, porque nós quando pensamos em 3 mil pessoas, 3 mil é muita pessoa. Porque também não é só aquelas 3 mil, é as 3 mil e quantas centenas de milhares de familiares, amigos, próximos e futuros que desapareceram de um momento para o outro. Portanto, eu tento com os meus alunos fazer, de alguma forma, isto mais pessoal e não tanto sobre o ato em si, quantas pessoas é que morreram, em que andar é que o avião, ou quem é que eram os terroristas, de onde é que eram. Eu não foco nisso, eu tento focar mais na parte humana, na parte do bom que se tirou disto. E para eles também, se calhar, pensar de alguma forma, porque nesse dia houve muitos heróis. Muitos. E então eles se calhar pensarem não tanto, os americanos têm sempre essa Imagem ou essa coisa de ser egoístas, de ser selfish. Não, nem todos, nem sempre.
E o João Aguiar, português que morreu, que foi também um dos heróis desse dia 11 de setembro. Falava dessa forma como descreve aos alunos, como leciona o 11 de setembro. E falávamos há pouco também dessas visitas que faziam ao estado de Nova York. Continuam a fazer essas visitas de forma regular?
Sim, essa turma ainda continua, é uma das cadeiras mais populares na nossa escola. E aliás, esse ano de 2001, claro que o nosso distrito escolar tinha muito receio em nos deixar continuar a fazer isso. Então tivemos que nos adaptar. Em setembro éramos para ir ao Central Park, não fomos. Em outubro, éramos para ir às Torres, não fomos. O que acabamos por fazer? Acabamos por fazer visitas a este lado da ponte, portanto, Brooklyn, Queens, etc. Até mudou da maneira que nós lecionávamos certas cadeiras, era óbvio que naquele instante tinha que ser assim, porque os pais tinham receio de mandar os filhos para o centro onde isto aconteceu. Eu lembro-me, em dezembro de 2001, eu fiz uma formação de professores na Pace University, foi logo no início de dezembro, e na Pace University vi-se as Torres, completamente, fica dois ou três quarteirões e tem a igreja que ficou icônica, porque foi lá onde muitos dos bombeiros e polícias que trabalharam os dias, semanas e meses depois disso, iam para descansar, para dormir, etc. St. Paul's Church, a Igreja de São Paulo, e à volta disso tinha uma vedação, e a vedação tinha fotografias das pessoas desaparecidas, e naqueles primeiros dias ainda havia esperança que se encontrasse alguém que se perdeu ou que não tem contato telefônico. E ver isso foi muito triste, mesmo em dezembro. E depois começou-se a ver cartazes com apoio aos first responders, mas também me lembro dessa cena, estar na baixa de Manhattan em dezembro, só uns meses depois disso, e ver esta imagem da igreja com a vedação coberta em bandeiras, em cartazes, em fotografias.
Isso foi a primeira vez que foi ao centro de Nova York depois do atentado?
Sim, foi uns meses depois, mas realmente a primeira vez, e é difícil descrever isto a quem não conheça, mas quem vem de Brooklyn, pela margem do rio, chega-se a um ponto em que não se vê nada e de repente abre-se e vê-se a baixa da cidade, aquela imagem icônica da Estátua de Liberdade, das Torres e da baixa de Manhattan, o Hudson River.
O horizonte novaiorquino.
Aquele típico que todas as pessoas têm uma fotografia dessas. E eu lembro-me a primeira vez, que se calhar foi em outubro ou novembro desse ano, em que fiz essa viagem, não a propósito, mas sem querer, e quando dei essa curva a conduzir, de repente, é como se alguém tivesse apagado, porque o resto estava tal igual. Era como se alguém tivesse feito tipo Photoshop e tivessem tirado as Torres da imagem, do skyline. Foi impressionante. Foi mesmo aí que eu disse: "Desapareceram para sempre, nunca mais vai ser..." Imagina, vens de Cascais ou do Estoril, ao longo da Marginal, e depois chegas a um ponto onde a Ponte 25 de Abril está e tu até passas por aquilo mil vezes, mas quando ela lá não estiver, aquilo até é estranho. É porque os teus olhos estão habituados a ver aquilo de uma forma que aquilo já faz parte do background. E agora imagina, de um dia para o outro, desaparece. Parece que a fotografia está incompleta, parece que alguém pintou aquilo e agora só tem que adicionar as Torres. Isso também me marcou, eu lembro-me perfeitamente disso. A primeira vez que vi o skyline sem as Torres.
Paulo Pereira, na altura professor de História, agora é vice-presidente de Mineola, a vila mais portuguesa de Nova Iorque, em entrevista aqui ao jornalista Miguel Cordeiro. Nesta altura, João, já passaram quase 15 minutos desde o momento desse primeiro choque. A confusão é muita nas ruas de Manhattan, mas o pior ainda estava por vir.
São agora duas horas e três minutos em Portugal.
São 21h03 nos Estados Unidos.
A esta hora, no dia 11 de setembro de 2001, já não havia dúvidas: a América estava sob ataque.
Estamos a recuperar o filme do dia 11 de setembro de 2001. A esta hora, o voo 175 da United Airlines, vindo de Boston e com 65 pessoas a bordo, acaba de chocar com a Torre Sul do World Trade Center. 950 km/h, quase 1000 km/h, era esta a velocidade a que o segundo avião que chocou com a Torre Sul, entre os pisos 77 e 85. O impacto foi tão forte e tão violento que o motor do United 175 foi parar a seis quarteirões de distância das Torres Gêmeas.
E foi uma violência que passou em direto em praticamente todo o mundo. Desta vez, nas ruas ou em casa, milhões de pessoas assistem em direto ao momento e ninguém esconde o choque.
Oh, my goodness! There's another one
Oh my goodness, there's another one.
This seems to be on purpose.
Oh my goodness. Now it's obvious. I think that there's a second plane just crashed into the World Trade Center. I think we have a terrorist act of proportions that we cannot begin to imagine at this juncture.
É a reação da Fox 5 em direto, o canal de Nova Iorque da Fox. Os jornalistas e pivôs de televisão, foi fácil perceber aqui neste som, ficaram completamente boquiabertos.
Tal como aqui na ABC.
Oh, my God! Oh, my God.
That looks like a second plane.
I did not see a plane go in. That just exploded.
We just saw another plane coming in from the side.
You did. That was absolutely-
Yes, and that's the second explosion. You could see the plane come in just from the right-hand side of the screen.
Nesta altura, o mundo assistia em direto e os familiares das pessoas que trabalhavam na baixa de Manhattan, André, claro, obviamente, ansiavam por notícias.
Também na NBC, por exemplo, ouvíamos o som da redação, também com muita emoção. E cá fora, longe das televisões, também quem estava nas ruas de Nova Iorque e também em casa, olhava para tudo aquilo que se passava com espanto, com surpresa, com algum sofrimento. Uma dessas pessoas era a Avalon Juliano, uma americana que vive em Portugal e que nunca vai esquecer o momento. A altura em que leu no rodapé da CNN, durante a cobertura dos ataques, que o pai, um ator e escritor, tinha morrido. Geoffrey Juliano, o pai, não morreu, mas a dor, essa nunca foi esquecida.
Well, I actually was skipping the fourth grade that day. My mom said I could stay home to help my sister. She asked me to take out the garbage. So I took out the garbage, I was listening to the radio on my headphones, and the radio announced that the World Trade Center had been hit by a plane. So at that time, I was like nine years old. I didn't even know what the World Trade Center was. So I ran inside to my mom and we turned on the television and we saw the second plane hit the towers.
E tinha um familiar que supostamente estaria no World Trade Center no momento dos ataques.
Sim, o meu pai chama-se Geoffrey Juliano, é biógrafo e ator e é famoso, e estava sempre em reuniões. Nessa manhã, supostamente, foi a uma reunião com a editora nas Torres Gémeas, mas decidiu não ir. Eu não percebi bem por quê, mas decidiu não ir a essa reunião porque era o seu aniversário. Foi uma loucura, porque nós vimos um anúncio no rodapé da CNN: "O ator Geoffrey Juliano morreu no ataque", o que não era verdade.
Ficou certamente aterrorizada quando viu as notícias de que ele tinha morrido ou naquela altura sabia que o seu pai não estava lá in the World Trade Center?
Eu sabia que ele não estava lá, mas o meu irmão estava em casa dele. Ele tem mais 10 anos que eu, por isso já vivia sozinho e não sabia. Todos os amigos dele começaram a ligar-lhe e também à minha irmã mais velha, que também vivia sozinha e não sabia.
Mas dessa vez, o seu pai decidiu não ir. Alguma vez lhe disse por que não foi a essa reunião?
Para ser sincera, nessa altura, meu pai era muito famoso por causa dos livros que escrevia. Nunca estava em casa. Era muito raro ele dizer que não a uma reunião. Ele põe sempre os negócios primeiro, mas no que toca ao Natal e aos aniversários, ele tenta sempre ficar em casa. E desta vez decidiu ficar em casa. Honestamente, não fizemos nada. Foi o pior aniversário de sempre para ele e para todos. Durante várias semanas, por ele ser um escritor famoso, na verdade, durante vários anos, nós recebíamos chamadas de jornalistas de todo o mundo e cartas dos fãs a dizer que lamentavam a morte do meu pai. Lembro-me de uma revista de notícias, eu tinha 10 anos e atendi. Eles disseram: "As minhas condolências pelo seu pai." Eles até estavam a ter dificuldades em falar comigo, porque sentiam que era um tema muito sensível. Eu disse-lhes: "Esperem um bocado", e passei o telefone ao meu pai.
E como é que ele reagiu depois de ter sido noticiado em todos os jornais e televisões que ele tinha morrido? Como é que ele responde a isso?
Ele foi sempre muito bom com a comunicação social. Esteve nas notícias de todos os jornais sempre que saíam dos livros. Este acontecimento trouxe muita fama a um dos livros que estava para sair. Na verdade, foi muito desconfortável para nós, filhos, porque as pessoas vinham ter conosco a dizer: "Lamento a morte do teu pai", quando isso não era verdade. Foi mais confuso para os familiares. Depois, o meu pai começou a responder a várias perguntas e explicou que não estava no World Trade Center porque decidiu ficar com a família para festejar o aniversário. E honestamente, enquanto millennial, foi um momento trágico e eu nem percebia o que era a morte. Mas agora tenho 34 e consigo ver como afetou a nossa geração, e especialmente as crianças em Nova Iorque. Agora que percebo o que é a morte, foi absolutamente horrível. Só estou muito feliz que o meu pai não tenha partido. A minha vida teria sido totalmente diferente. Esta teria sido uma história diferente.
Avalon Juliano, entrevistada pelo jornalista Tomás Ancinho Chagas, ela que sentiu na pele o drama de não saber se os familiares estavam vivos nos atentados do 11 de setembro.
Que foi, de resto, o drama de muitas pessoas espalhadas pelo mundo. Por exemplo, em Portugal, João Soares, na altura presidente da Câmara Municipal de Lisboa, tinha uma filha nos Estados Unidos da América.
E foi para lá que foi o primeiro pensamento, obviamente, a filha de João Soares estudava no Connecticut. Assim que cancelou as reuniões que tinha sobre o Estado da Ordem 2004, João Soares ligou de imediato para os Estados Unidos.
Eu lembro-me bastante bem das circunstâncias em que tomei conhecimento do que estava a acontecer
Primeiro em Nova Iorque e depois em Washington, nos arredores de Washington, com o ataque ao Pentágono. Eu tinha ficado na Câmara à hora do almoço, isto deu-se de manhã nos Estados Unidos, portanto à hora do almoço em Lisboa. Eu tinha ficado na Câmara, no gabinete que ocupava, e as minhas principais colaboradoras, nomeadamente Paz Vasques, que era meu chefe de gabinete, e a Patrícia da Silva Teixeira, que era minha assessora directa e que passava o dia praticamente todo comigo em coisas de trabalho, tinham-me dito: "Não aguentamos mais esta coisa, não se almoça nunca". E eu tinha dito: "Não, eu fico aqui", porque estávamos na altura a discutir com os clubes de futebol as questões que tinham a ver com as construções dos estádios e as modulações dos estádios para o Euro 2004, e era suposto haver uma reunião, já não me lembro se com o Benfica, se com o Sport ou até com os dois nessa tarde, e eu queria afinar ali as questões que se colocavam nessa altura. E portanto, decidi ficar ali nos Passos do Conselho, no gabinete do presidente da Câmara, que continua a ser o mesmo, a afinar as coisas para uma reunião que teria lugar só pelas 15h ou 16h, e que acabou por não ter lugar, dado o que se passou no 11 de setembro. E eu tinha recomendado sempre a uma ou duas senhoras, minhas secretárias, que acabaram por se tornar minhas amigas também, que estavam sempre ali em permanência, de manhã, de tarde e à noite, até altas horas, que tivessem sempre uma das televisões. Foi na altura, já a SIC tinha um canal de informações, que era a SIC Notícias, em permanência. E os outros canais também estavam a procurar corresponder ao desafio que tinha sido lançado, salvo erro, pela SIC, que foi pioneira ainda no tempo de Ramiro Rangel e, claro, com o Dr. Balsemão, como canal de informação em 24 horas, sobre 24. E eu não tinha a televisão ligada, evidentemente, eu vivia tão instável, raramente tinha a televisão ligada, mas tinha recomendado que nessa sala de apoio de secretariado, mesmo ao lado do gabinete do presidente da Câmara, que houvesse sempre, mesmo que sem som, um desses canais de televisão ligado. E assistimos ao segundo embate em direto, convencidos que era, na primeira visão que eu tive, a repetição da imagem que ela me tinha reportado poucos minutos antes. Mas foi o segundo embate.
Que foi uma sensação que muita gente teve na altura, os próprios jornalistas.
Eu tive essa sensação, que era uma repetição e portanto ainda liguei para os Estados Unidos, onde era cedo, e acordei a minha filha que estava na Universidade do Connecticut, numa cidadezinha onde aliás há bastantes portugueses, é uma cidade chamada Bridgeport, e disse: "Olha, atenção, houve ali uma coisa séria em Nova Iorque", mas eu não tinha percebido e consegui a ligação com grande facilidade. "Atenção, cuidado com Nova Iorque, houve ali um acidente grave." E depois é que comecei a perceber o que se tinha passado.
Na altura foram recomendadas algumas medidas de segurança por ser uma cidade como Lisboa, por exemplo?
Não houve nenhuma recomendação especial, mas eu lembro que o Ministério da Administração Interna, salvo erro, o ministro Alberto Costa, e lembro-me de ter falado com ele ou ter falado com alguém do governo, e que eles disseram que já estavam a tomar medidas no que diz respeito a... Mas isto já deve ser uma hora depois ou coisa assim. Eu não sei também dizer já hoje qual foi a hora exata do primeiro embate, porque eu sei que isso correspondeu àquilo que era a hora do almoço. E portanto, nós aí falámos com a Polícia Municipal e com o Ministério da Administração Interna, que nos disse que estava a tomar medidas no que diz respeito à proteção das embaixadas e alguns pontos mais sensíveis da cidade. E eu transmiti isso também ao comando da Polícia Municipal para ver o que a Polícia Municipal podia quanto a essa matéria fazer, nomeadamente eles falaram das embaixadas e de alguns pontos públicos mais sensíveis, nomeadamente os grandes centros comerciais. E lembro-me que se tomaram algumas medidas no sentido de recomendar prudência e fizeram-se alguns telefonemas em relação aos principais centros comerciais para tomarem medidas de cautela e eventualmente até fecharem. Não me lembro se houve alguns que tenham fechado ou não, mas sei que se tomaram algumas medidas. E depois, claro, falei com os outros responsáveis da Câmara, também para que cada um em seu setor fosse procurando saber exatamente o que se passava e o que eventualmente se poderia passar em Portugal. Embora as indicações que vinham do Ministério da Administração Interna e dos Serviços de Informações Portugueses funcionam muito melhor do que se pensa. Eu depois estive durante quatro anos, por via parlamentar, na Comissão de Fiscalização dos Serviços de Informações, no SIED e no SIS, eram de tomar precauções, mas não exagerar, porque não havia nenhum risco visível de ameaça imediata.
Uma reunião sobre o Euro 2004 que se transformou num dia inesquecível, não só para João Soares, mas para todos nós. E João Miguel, ainda só vamos a meio.
São nesta altura 14h16, aliás, em Portugal.
São nesta altura 9h15 nos Estados Unidos da América.
Se só agora se juntou a nós, estamos a viajar no tempo até ao dia 11 de setembro de 2001. A esta hora, já dois aviões chocaram com as duas Torres Gémeas em Nova Iorque. A América está a ser atacada e em direto com o mundo a ver.
Mas no ar continua o perigo, João Miguel. Nesta altura há mais dois aviões que têm a bordo radicais islâmicos. Num deles, no voo 77, já começou o sequestro que vai desviar o voo para o Pentágono.
No outro voo, o voo 93, ainda ninguém imagina o que iria acontecer dentro de alguns minutos. O United Airlines 93 iria ser desviado por volta das 9h30, hora americana, portanto 14h30 da tarde em Portugal.
São muitos acontecimentos de uma vez. Por enquanto, o mundo só conhecia dois deles, esses dois choques nas Torres Gêmeas. Toda a gente assistia ao incêndio nas torres pela televisão e Portugal não era exceção, nem o governo português, Nuno Severiano Teixeira, que era na altura secretário de Estado da Administração Interna.
Era hora de almoço e eu estava almoçar tranquilamente e soube da notícia porque fui informado do que estava a acontecer pelo meu próprio gabinete. Eu, na altura, tinha responsabilidades políticas. Fui avisado pelo gabinete de que qualquer coisa de muito grave estava a passar em Nova Iorque, mas ainda sem a certeza se se tratava de um acidente ou se se tratava de um atentado. Eu imediatamente deixei o restaurante onde estava a almoçar, dirigi-me ao meu gabinete e ainda vi em direto na CNN o embate sobre a segunda Torre Gémea.
E qual foi a primeira reação que teve quando viu esse embate?
Reação, imagino que seja comum a quem a viu, ou seja, em primeiro lugar, surpresa e estupefação. Depois, quando começam a aparecer as imagens das pessoas feridas, mortas, um sentimento de horror. Depois a preocupação sobre o que se vai passar do ponto de vista pessoal. E finalmente, eu tinha responsabilidades na altura, responsabilidades políticas sobre a segurança dos portugueses, era Ministro da Administração Interna, e portanto, aí vem o peso da responsabilidade porque como é natural, nós sabemos que uma coisa é a segurança objetiva, outra coisa é a segurança subjetiva. E apesar do atentado se passar a milhares de quilómetros de distância de Portugal, aquelas imagens e a hipótese de que um acontecimento desse poderia acontecer em qualquer lugar, a qualquer hora no mundo, obviamente, isso gera um enorme sentimento de insegurança. E portanto, naturalmente, para mim foi também uma experiência de grande responsabilidade sentir que era responsável pela segurança dos portugueses.
Era cerca de 13h46 da tarde, hora de Lisboa, quando o voo da American Airlines com destino a Los Angeles embateu na primeira torre, na torre norte do World Trade Center, em Nova Iorque. Dizia-me que estava a almoçar, era hora de almoço quando tal aconteceu. Parou o almoço de imediato para se agarrar à televisão?
Claro. Para perceber o que é que estava realmente a acontecer. Obviamente que a primeira fonte de informação são as cadeias de televisão, eu estava a seguir a CNN. E depois, progressivamente, começam a surgir as informações através dos canais próprios, dos canais institucionais, do ponto de vista diplomático, e vamos criando uma noção mais sólida, mais aproximada do que realmente estava a acontecer e a certeza de que não se tratava de um acidente, se tratava de um atentado com a dimensão que acaba por ter de transformação a vários níveis, quer dizer, do ponto de vista da segurança internacional e do ponto de vista da segurança interna dos países.
Obviamente que do ponto de vista institucional, e porque era na altura Ministro da Administração Interna, em representação do governo de Portugal, na altura o governo de António Guterres, teve muitos contactos para fazer. Disse também que foi o próprio gabinete que acabou por fazer esse contacto inicial a avisá-lo. Do ponto de vista mais pessoal, família, amigos, foi um corrupio também de mensagens, de telefonemas nessa altura?
Sim, naturalmente, porque a dimensão do que estava a acontecer era uma dimensão transversal e que estava a ter um impacto global. E nesse sentido, também a família e os amigos estavam preocupados e havia, naturalmente, uma comunicação muito próxima.
Até do ponto de vista também daquilo que eram as suas funções enquanto Ministro da Administração Interna, por algum momento, logo desde o início, nessa altura em que estava ainda a tentar perceber exatamente o que é que estava a acontecer, começou logo a perceber que teria muito trabalho nos dias seguintes, tendo em conta as suas funções?
Olhe, tive logo desde o início a confirmação de alguma coisa que enquanto analista, enquanto teórico, que há muitos anos olhava para as questões da segurança, eu tive a noção clara, concreta e a confirmação de algo que era uma tendência que se vinha a desenhar há muito tempo e eu tive nesse momento a confirmação disso. E que era a transformação completa da forma como nós olhávamos para a segurança. Porque se se lembra, até ao 11 de setembro, havia duas dimensões completamente diferentes da segurança. Uma coisa era a segurança interna, que era uma questão de criminalidade e era tratada pela polícia. Outra coisa era a segurança internacional, que era uma questão de conflito, de guerra e que era uma matéria para as Forças Armadas. A partir desse momento, em que um atentado daquela dimensão é feito vindo do exterior, mas dentro do próprio território Nós ficamos com a certeza de que as ameaças são transnacionais e isso muda tudo na nossa maneira de olhar para a segurança. E eu nesse momento tive a confirmação, tive a certeza de que era essa a ideia que os teóricos vinham a desenvolver há algum tempo, que essa ideia estava concretizada, tinha se tornado histórica.
Pode dizer-se que os acontecimentos acabaram por dar razão àquilo que eram também alguns dos seus receios?
Sim, algumas das teorias que tínhamos sobre a evolução da situação internacional. E depois, naturalmente, houve um trabalho imenso, quer do ponto de vista nacional, quer do ponto de vista europeu, para adaptar todos os mecanismos da segurança, quer do ponto de vista legislativo, quer do ponto de vista operacional, quer do ponto de vista da União Europeia. Lembre-se, por exemplo, o mandado de captura europeu só foi possível aprovar na sequência do 11 de setembro e sob o impacto do 11 de setembro, aliás, com papel importante do então comissário António Vitorino. Mas quer dizer, a partir daí foi um intensíssimo trabalho que durou mais de um ano e que transformou completamente a nossa maneira de viver.
Um momento que mudou o mundo, a nossa forma de viver, como dizia aqui Nunes Severiano Teixeira, na altura secretário de Estado da Administração Interna, em entrevista ao jornalista João Alexandre.
Um momento que mudou o mundo, como dizia, que apanhou toda a gente de surpresa. Manuel Alegre, histórico dirigente socialista e antigo candidato à presidência, admite que ficou surpreendido tanto pela natureza do ataque como pela lentidão da resposta inicial dos Estados Unidos.
Estava em casa, já não me lembro quem, suponho que um dos meus filhos me avisou que algo de estranho estava a acontecer. Eu liguei a televisão e vi o segundo ataque. Assisti a pessoas a atirarem-se da janela, as torres a caírem. Terrível tragédia que não se apagará nunca da memória das pessoas que viram. Só depois se percebeu de facto do que se tratava, mas inicialmente não. Na altura em que eu liguei a televisão e vi o segundo avião, podia haver uma suspeita, mas só depois é que se teve a certeza de que era um ataque terrorista. Surpreendeu-me um pouco a lentidão da reação, uma certa desproteção do Pentágono, o facto de haver um avião no ar e não haver reação. Os Estados Unidos, principal superpotência e garantia da nossa segurança no Ocidente, não estava tão prevenida, nem tão preparada, nem foi tão rápida a reagir.
E isso foi uma surpresa?
Isso foi uma surpresa, porque sem dúvida nenhuma que eles estavam desprotegidos. Mas o que conta nesse momento é a terrível tragédia, a maneira como se ceifaram ali três mil e tal vidas humanas.
Que sentimentos o assaltaram ao olhar ou ver aquelas imagens?
Principalmente o horror, a revolta e a repugnância por quem é capaz de fazer uma coisa daquelas. Nesse dia todos foram americanos, todos foram solidários com os Estados Unidos, com o povo americano e sobretudo com aqueles que foram vítimas desse atentado. Aquilo criou um certo sentimento de insegurança, mas também de horror e de revolta e de solidariedade e de perceber que uma era tinha acabado e outra era ia começar.
Partindo do pressuposto que de facto estes ataques representam um marco na história recente da humanidade, que mudanças decorrem do 11 de setembro de 2001?
É aquela que conhece. E não penso que tenha sido melhor, porque depois veio o ataque ao Iraque, ao Afeganistão, mas sobretudo ao Iraque, com a ideia de que havia armas de destruição maciça que nunca foram encontradas. Eu lembro-me de ainda ter tido um debate com o professor João Barroso na Assembleia da República. Ele disse que tinha visto as provas. Eu disse: "Então, mas conte lá, mostre as provas." Mas ninguém as tinha visto. Havia uma vontade que assim fosse, mas não era esse o combate. O combate era outro. Este é um combate muito difícil. O fundamentalismo e o fanatismo são coisas terríveis de combater, sobretudo em relação a um mundo que tem a sua crise de civilização, a sua crise de valores, um grande complexo de culpa, uma extrema condescendência em relação às coisas que se passam dentro de nós próprios, etc. É um combate desigual. Nós podemos ter uma grande superioridade tecnológica. Agora, do outro lado, há fanatismo, há pessoas dispostas a morrer e a fazerem-se explodir por aquilo. Portanto, os povos têm que travar os seus próprios combates. Há uma parte que são aqueles que estão fanatizados, os fundamentalistas que estão dispostos a bater-se. Os outros, os que são contra, têm de se bater também.
O fundamentalismo hoje tem uma expressão maior do que tinha aquando dos ataques ao World Trade Center em 2001, na sua perspectiva?
A morte do Bin Laden foi uma machadada grande. Foi um sucesso, aliás, dos poucos nessa matéria que o Obama conseguiu, mas foi. Agora, estes 20 e tal anos de guerra no Afeganistão, com este resultado, vêm dar uma nova força, não aos talibãs. São os grupos fundamentalistas que ali proliferam, porque o Talibã não é um Estado, não é uma nação, aquilo é um grupo de senhores da guerra, de senhores feudais, que vão ter muita dificuldade em governar. Agora é muito provável que os grupos fundamentalistas e terroristas ali agora vão proliferar e projetar-se cá para fora.
Senhor doutor, em função daquilo que me está a dizer, e tendo em conta aquilo que foi a resposta dos Estados Unidos aos ataques terroristas ao World Trade Center, a invasão do Afeganistão, que já fez referência, mas também Guantánamo, por exemplo, considera a esta distância que foram ultrapassadas linhas vermelhas no combate ao terrorismo internacional?
Amigo, eu tenho dificuldade em lhe responder isso com toda a verdade. Quando se faz um atentado como aquele que foi feito, quando se fazem atentados como outros que foram feitos na Inglaterra, em Paris, em todo lado e mesmo em países muçulmanos, de sunitas contra xiitas ou de xiitas contra sunitas. Quando se fazem atentados e quando não há respeito pela vida humana, numa guerra desta natureza, as linhas vermelhas são sempre ultrapassadas. Evidentemente, causa uma grande repugnância saber que foi utilizada a tortura e com o gozo da CIA, mas se isso não tivesse acontecido, o que é que teria sucedido?
Considera que os fins justificam os meios?
Não. Nós não podemos combater o terrorismo tornando-nos iguais ao terrorismo. A democracia tem que defender-se e travar o combate contra o terrorismo sem recorrer aos métodos que eles utilizam. Portanto, sem recorrer à tortura, sem passar aquelas linhas vermelhas que se foram passadas, colocam em causa a própria natureza da democracia.
Manuel Alegre, em entrevista ao jornalista do Observador, Miguel Videira. A ameaça terrorista que nesta altura também George W. Bush percebia que o mundo onde vivemos, que a América nunca mais seria os mesmos. Vamos ouvi-lo já a seguir.
São duas horas e 30 minutos.
São 9h30 nos Estados Unidos.
No dia 11 de setembro de 2001, a América está a acordar ferida.
Dois aviões chocaram com as torres do World Trade Center, outros dois aviões vão cair. O país e o mundo estão em suspenso a esta hora, 47 minutos depois do primeiro embate. George W. Bush, o presidente dos Estados Unidos, fala pela primeira vez ao país e o mundo.
E o presidente norte-americano estava de visita a uma escola em Sarasota, no estado da Flórida, nesse dia, 11 de setembro de 2001. Foi a partir de lá, da Emma E. Booker Elementary School, que deixou as primeiras palavras aos americanos e ao mundo, André.
Declarações que ouvimos agora, João Miguel, na íntegra, tal como foram ouvidas no dia 11 de setembro de 2001, pela primeira vez, às duas horas e 29 minutos.
Thank you! Ladies and gentlemen, this is a difficult moment for America. I, unfortunately, will be going back to Washington after my remarks. Secretary Rod Paige and Lieutenant Governor will take the podium to discuss education. I do want to thank the folks here at the Booker Elementary School for their hospitality. Today, we've had a national tragedy. Two airplanes have crashed into the World Trade Center in an apparent terrorist attack on our country. I have spoken to the Vice President, to the Governor of New York, to the Director of the FBI, and I've ordered that the full resources of the Federal Government go to help the victims and their families, and to conduct a full-scale investigation to hunt down and to find those folks who committed this act. Terrorism against our nation will not stand. And now, if you join me in a moment of silence. May God bless the victims, their families, and America. Thank you very much.
Uma tragédia nacional. É o que dizia George W. Bush, o presidente norte-americano na altura, na primeira declaração pública, a partir da escola Emma E. Booker, em Sarasota, na Flórida.
Uma escola que saltou para as notícias por causa do 11 de setembro, porque George W. Bush, como dissemos há pouco, visitava essa escola numa iniciativa de promoção da educação. George W. Bush, sentado numa cadeira de criança frente a uma sala de pequenos meninos e meninas, foi informado dos ataques.
E nesta altura, lia uma história, lia um livro com as crianças. Ouvimos aqui um pouco desse momento.
Uhum.
O livro chama-se "Pet Goat!" Ficou também pra história precisamente por causa deste momento e por causa do 11 de setembro.
Foi durante este momento, enquanto as crianças liam o livro com a ajuda da professora, que Bush soube dos atentados. O chefe do gabinete de Bush, Andrew Card, baixou-se junto ao presidente norte-americano e sussurrou-lhe uma frase que ficou pra história. Que frase foi essa, André?
"Um segundo avião chocou com a segunda torre. A América está sob ataque."
Palavras que George W. Bush provavelmente nunca irá esquecer. "The Pet Goat!" Bush também nunca irá esquecer este livro. E por falar em livros, em 2001, André, o Prêmio Saramago, em Portugal, ia para o escritor José Luís Peixoto. A Rádio Observador também falou com ele.
José Luís Peixoto não esquece onde estava durante os ataques, tal como a maioria de nós. Já fizemos esse exercício também. Foi almoçar com um amigo que o escritor, na altura com 27 anos, soube da notícia dos atentados.
Lembro muito bem, acho que toda gente se lembra. É uma data daquelas que toda gente tem alguma ideia de onde é que estava quando se apercebeu do que estava a acontecer. No meu caso, estava a almoçar com um amigo que estava em Lisboa. Estávamos a almoçar e de repente começamos a olhar pra uma televisão
E como uma maioria das pessoas, a ficarmos muito impressionados com o que estávamos a ver. Acredito que talvez tivéssemos começado por achar que era um filme ou alguma coisa, mas depois nos apercebemos de que realmente era a realidade. E depois quando terminou esse almoço, fui ter com outros amigos meus que também ainda estavam a acompanhar tudo. Estava a passar em directo nas televisões e foi todo aquele choque quando o segundo avião atingiu a outra torre.
Já em directo, não é?
Sim, claro. E acho que todos tivemos consciência de que estávamos a viver ali um momento que definia muito este tempo e que era absolutamente histórico e foi realmente um enorme choque. Foi uma mudança de paradigma a muitos níveis.
Esse dia mudou a forma como via e interpretava o mundo, José Luís Peixoto?
Sim, porque foi um ataque completamente inesperado no centro da nossa civilização. Nova Iorque, naquele momento, foi absolutamente claro que era o ponto central de tudo aquilo que estrutura as nossas vidas em termos culturais, em termos políticos, em termos do que é a nossa visão do mundo.
As memórias de José Luís Peixoto desse dia 11 de setembro de 2001.
João, olha as horas, a América prepara-se para tremer outra vez.
São agora 2h37min em Portugal.
São 9h37min nos Estados Unidos.
A esta hora, no dia 11 de setembro de 2001, terceiro avião, André, embate contra o símbolo do poder militar americano.
Oh my goodness! We're looking at a live picture from Washington and there is smoke pouring out of the Pentagon. It would appear that there has been another major explosion, this one in the nation's capital. You are looking at a scene of apparent blast aftermath. There is smoke in the air over the Pentagon.
Ouvimos aqui a emissão da CBS alertar para este incêndio no Pentágono. Um incêndio que foi dado conta minutos depois de o American Airlines 77, onde seguia estes passageiros, deixou de responder ao controle aéreo. Os cinco radicais islâmicos tinham cumprido a missão. O avião atinge o Pentágono em Washington a 853 km/h.
E no total morrem 189 pessoas, 64 a bordo do avião e 125 que trabalhavam no Pentágono. Tal como no primeiro embate nessas torres, nem toda a gente percebeu o que se tinha passado no momento, André.
Exatamente. Houve quem falasse de um carro-bomba, quem dissesse que era só um incêndio. A própria CNN, que tinha um produtor no local, no Pentágono, não conseguiu dizer na altura o que tinha acontecido no imediato.
Chris Plante, a CNN producer, is at the Pentagon, where there is a significant fire. Chris, you're on the phone. Can you hear me okay?
Yes, I can hear you just fine.
Tell me what you know.
Well, arriving at the Pentagon a short time ago, there was a huge plume of smoke which continues to rise from the west side of the Pentagon. It's impossible for me to say from this side of the building whether the building itself is on fire or up in flames, or exactly what caused this. I did not hear an explosion, but there is certainly a very significant fire in this enormous office building on the west front.
Chris Plante não tinha ouvido nenhuma explosão, não sabia se o fogo era dentro ou fora do edifício. Ainda ninguém sabia do ataque na sala de crise da Casa Branca, que reunia por esta altura por videoconferência.
Isto porque, André, os olhos de todos continuavam colados em Nova Iorque, nas Torres Gémeas, seja pela televisão ou também na rua.
E foi na rua, no metrô, que uma luso-descendente tomou uma decisão que a salvou. Elizabeth Alves trabalhava no Windows of the World e entrava às 08h30 da manhã. Nesse dia, chegou atrasada. Saiu do metrô quatro minutos depois do primeiro embate na Torre Norte, onde trabalhava. O jornalista Miguel Cordeiro falou com Elizabeth, que nos descreve a visão, o cenário de quem sai do metrô, levanta a cabeça e vê dois arranha-céus em chamas.
Eu cheguei lá às 08h50, saí do metrô e comecei a caminhar pro lobby e quando cheguei perto do lobby ouvi estalos muito altos. Eu até pensava que era alguma pessoa que estava a mandar tiros, porque segundos depois chegou um senhor do lado do lobby a gritar e a correr pra gente correr, ir ao correr. Havia lá umas escadas pra ir pra fora pra rua e a gente subiu as escadas e quando eu cheguei à rua, estava lá muita gente a olhar pro ar com cara de espantados, de choque, e eu virei-me e vi um dos prédios cheio de fumo preto e chamas. E então eu estava a perguntar às pessoas qual era o prédio, porque eu não conseguia ver qual era o prédio, mas ninguém me podia responder. Então eu tirei o meu telemóvel e comecei a ligar pro meu escritório
Mas o telefone não dava. E chegou-se a um ponto que um senhor ao meu lado começou a gritar: "Ai, meu Deus! Ai, meu Deus!" E eu soube logo que foi algum corpo a cair. Então virei de costas e comecei a andar fora dali.
Não entrou em nenhum momento dentro do edifício depois de ver o que se estava a passar?
Não, depois não.
Nessa altura, o que achou que se estava a passar?
Eu achava que foi algum fogo no prédio que perdeu o controle. Chegou-se a um ponto que eu ouvi alguém dizer que foi um avião que tinha batido no prédio, mas eu não queria acreditar que uma coisa dessas podia acontecer. Pensei que a pessoa estava à toa.
Sim. E nesse momento, conta que chegou atrasada nesse dia, que costumava entrar às 08h30. Por que chegou atrasada nesse dia?
Não sei. Eu estava lá para apanhar o metrô perto das 07h. Então tinha bastante tempo para chegar cedo, mas quando veio o metrô para ir para Manhattan, eu ia para entrar e depois parei e disse: "Pronto, vou apanhar o próximo, não vou apanhar este". Não sei porquê. E esperei pelo outro.
As declarações de Elizabeth Alves e um atraso ao trabalho que salvou a vida, mas que deixou para sempre esta imagem das torres em chamas.
E lá em cima, André, ninguém imagina o sofrimento de quem está dentro dos prédios em chamas a esta hora. Nessa manhã de 11 de setembro, o desespero começa a tomar conta de quem está preso nas Torres Gêmeas.
"Sean, it's me. I just want to let you know I love you and I'm stuck in this building in New York. There's lots of smoke and we just wanted you to know that I love you always."
São agora 02h43 em Portugal.
São 09h43 nos Estados Unidos.
A esta hora, no dia 11 de setembro de 2001, o desespero começa a tomar conta de quem está preso nas Torres Gêmeas.
People are jumping out the windows. Over there they're jumping out the windows, I guess because they're trying to save themselves. I don't know.
Bodies started dropping from the top floors of the tower closest to the highway. Obviously, they had two choices, to be burned in flames or to leap and end it all. It was quite tragic.
Há dezenas de minutos que as torres ardem. Às 09h41, hora de Nova York, Richard Drew dispara uma fotografia histórica. O fotojornalista da agência noticiosa Associated Press capta um homem a atirar-se, a lançar-se de uma janela do World Trade Center.
A entidade deste homem nunca foi oficialmente confirmada. Suspeita-se que seria um técnico de som, mas aquela imagem aterradora, diga-se, de um homem a cair do alto de um arranha-céus é isso mesmo, André, aterradora.
Nunca houve números oficiais, mas estima-se que entre 100 a 200 pessoas terão saltado das janelas das Torres Gêmeas para escapar ao fumo e também ao fogo.
Lá embaixo, centenas de pessoas, senão milhares, assistem horrorizadas, claro, à queda dos corpos.
A portuguesa Isabel Coelho Marques trabalhava no consulado português em Nova York. Nunca vai esquecer o que viu e o que ouviu naquela manhã.
Uma das coisas que eu digo sempre, todas as vezes que sou entrevistada, a pergunta que fazem: o que marcou mais nesse dia? Que imagem é que foi ver um edifício a cair, deparar primeiro com o edifício que caiu e depois ver o segundo a cair. Mas talvez das imagens que mais me marcaram desse dia foi o trajeto até casa. Eu olhar ao meu redor e ver que as pessoas nos carros estavam a dar boleias a pessoas para saírem da cidade. Não ouvias ninguém a falar. Aquilo que deviam estar a ouvir, tentar ouvir rádio, mas ninguém falava. Não havia movimento, as pessoas estavam num género de choque. E a imagem mais forte desse dia, realmente, foi: eu moro a norte da cidade de Nova York, cerca de 30 milhas, e era trânsito, carro atrás de carro, que não dava para movimentar. Demoraram oito horas para chegar a casa. No trajeto contrário, para a entrada da cidade, eram bombeiros, ambulâncias, polícia, tudo no sentido para irem socorrer. E também eles engarrafados em trânsito. Todo o percurso até chegar à minha casa, deparei-me com essa imagem. Era trânsito e engarrafamentos para os dois lados. Só que para um lado éramos nós a fugirmos e para o outro lado eram as pessoas a irem tentar socorrer ainda.
Como é que foi para casa?
Consegui, antes de eu me aperceber que o telefone tinha caído, entrar em contato com meu ex-marido e ele deu umas instruções, porque ele estava na baixa da cidade, para eu ir ao encontro do West Side Highway, que ele ia tentar fazer o percurso até esse local para apanhar-me, para poder sair da cidade. E foi a última vez que ouvi dele e entretanto desci-me ao local e fiquei ali. E entretanto, passado um tempo, ele conseguiu chegar lá.
Quando é que viu as primeiras imagens? Conseguiu ver, de facto, a segunda torre a cair?
Mas não se vê. Quer dizer, viu-se aquela nuvem de poeira. Mas agora quando cheguei à casa e vi televisão, sim, completamente num choque mesmo.
Ao chegar a casa, ver essas imagens, perceber o impacto que tudo aquilo tinha na cidade em que trabalhava, em que vivia, em que fazia a sua vida, percebeu que aquele dia ia acabar por mudar tudo.
Sim. Também fiquei superpreocupada, porque eu tinha um grande amigo meu, que é o doutor Sérgio Capela, que estava para abrir o banco BANIF, na altura no World Trade Center. Eles estavam na fase de obterem as licenças para abrirem a banca do BANIF no World Trade Center. Eu fiquei superpreocupada. Apesar de aquilo ainda não estar a trabalhar, eu sabia que já estava a utilizar o espaço para o banco, para fazer as reuniões, pré-lançamento do banco. E eu pensei: "Meu Deus, o doutor Sérgio Capela de certeza estava lá". Felizmente, passados uns dias, consegui saber que ele se encontrava sim em Lisboa e as pessoas que já estavam contratadas não estavam no escritório. Portanto, isso foi uma das coisas que me chocou e fiquei muito preocupada, porque era alguém que eu conhecia pessoalmente e que sabia que estaria num dos andares bem altos, numa das torres.
Mas conhecia alguém, de facto, que estava lá ou que tivesse familiares lá?
Conheci, mas o maior impacto foi aqueles lusodescendentes que faleceram. Portanto, ao trabalhar para o Consulado-Geral de Portugal, em Nova Iorque, cabe também a responsabilidade, enquanto uma missão diplomática, de prestar auxílio a qualquer cidadão que se encontre em apuros. Por parte das famílias, não houve um contacto para com o consulado, mas depois houve, sim, muitas pessoas a tentar localizar familiares ou amigos que tinham naquela zona de Nova Iorque. Muitas pessoas confundem Nova Iorque, pensam que é New Jersey ou vice-versa. Então o Ministério dos Negócios Estrangeiros abriu uma linha em Lisboa para fazer o pedido de paradeiro. E nós, enquanto funcionários do Consulado-Geral de Portugal, tínhamos que fazer uma localização dessas pessoas. O mundo era completamente diferente do que é hoje, muito mais difícil localizar pessoas dessa forma. Restou-nos, sim, o trabalho importante de organizações como a NAIPAL, que na altura era a Associação Cívica do Estado de Nova Iorque, que tinha um network juntamente à comunidade, onde foi-nos possível contactá-los e eles, através do seu network, localizar grande parte dessas pessoas. As outras, que não conseguimos localizar, aí recorremos às autoridades locais. Mas demoraram meses. Nós tivemos milhares de pedidos para paradeiros das pessoas.
Era esta a minha questão. De facto, acredito que tenham sido dias muito difíceis e muito atribulados, com muito trabalho nessas circunstâncias.
Muito mesmo. Aliás, a primeira semana depois dessa terça-feira, havia só duas pessoas que trabalhavam mesmo, que viviam em Nova Iorque, que puderam ir trabalhar para o consulado, que era eu, vivia em Nova Iorque e tinha os acessos abertos para entrar na cidade, e o senhor embaixador, cônsul-geral da altura, que era o senhor embaixador José Carlos Cruz Almeida. Entretanto, fomos as duas pessoas que pudemos trabalhar. Por quê? Os outros funcionários do consulado viviam todos em New Jersey. Ao saírem da cidade, não conseguiram entrar durante uma semana. As pontes e os túneis ficaram todos encerrados durante uma semana. Portanto, o trabalho que o senhor embaixador realizou naquela altura e o meu foram dias muito longos de trabalho, porque realmente éramos o único ponto de contato entre o governo português e a nossa comunidade no estado de Nova Iorque.
Isabel Coelho Marques, portuguesa em Nova Iorque, aqui em entrevista ao jornalista Miguel Cordaro.
Estamos em emissão especial para recordar os 20 anos do 11 de setembro. A esta hora e naquela manhã de terça-feira, as duas torres já ardiam há quase uma hora. O Pentágono também já tinha sido atingido, mas pairava ainda uma ameaça no ar, André.
É o voo 93, João Miguel, por enquanto continua dominado por quatro terroristas, mas dentro de alguns minutos esse controle vai acabar.
Toda a gente continuava colada ao ecrã, nesta altura já em cada canto do mundo e Portugal, claro, também não era exceção.
Era hora de almoço por cá, o que também ajudava a aguçar a curiosidade. É verdade que já são 14h50, mas Rui Pereira, na altura secretário de Estado da Administração Interna, estava com os olhos na televisão. Antes disso, tinha também sido diretor-geral do Serviço de Informações de Segurança. Deixou a experiência e o primeiro pensamento foi de alguém como tu e eu, João. Isto é uma autêntica cena de um filme.
Eu me recordo muito distintamente desse dia. Na realidade, estava almoçar num almoço de trabalho com o doutor Carlos Monsardino. Por quê? Porque era secretário de Estado de Administração Interna e tinha a responsabilidade das fundações. E estava justamente a preparar legislação sobre as fundações. E, portanto, estava a ouvir os responsáveis ou os dirigentes, de forma simplificada, de grandes fundações portuguesas. E era um almoço a dois, de trabalho, e recordo-me distintamente de ter sabido do ataque às Torres nessa exata situação. Eu era secretário de Estado, tinha sido diretor-geral do Serviço de Informações de Segurança até 2000, e foi uma notícia absolutamente devastadora, sobretudo quando vi aquelas imagens, que são imagens inesquecíveis, são imagens indeléveis.
O que lembra mais dessas imagens? Obviamente que foram imagens impactantes para todos os que puderam acompanhar na televisão, nos canais internacionais, nacionais. Estava a ver que canal nessa altura, lembra-se como é que foi esse momento? Percebeu logo também aquilo que seria depois o lastro deixado por esse momento?
Francamente, não me recordo o canal. As imagens produziram um impacto profundo em mim, porque eu recordo-me que mentalmente a primeira associação que fiz foi com aqueles filmes De ação, em que Bruce Willis é ator sobre arranha-céus que ficam a milhares de quilómetros de distância do que aconteceu naquele 11 de setembro. Claro que não se podia prever tudo o que se seguiu ao 11 de setembro, mas eu percebi imediatamente que aqueles ataques, pela sua dimensão, pelo número de vítimas que calculei que haveria, teriam consequências muito relevantes.
Como é que foram também esses minutos entre o embate do primeiro avião e do segundo avião na outra torre do World Trade Center? Muita ansiedade, muita apreensão?
Na realidade, o segundo embate foi novamente uma surpresa, porque eu penso que todas as pessoas que assistiram ao primeiro embate, sem nenhuma informação adicional, pensavam que a história tinha acabado e já era uma história suficientemente má para ser contada e ser vista. Portanto, o segundo embate foi mais uma surpresa e agravou, como é óbvio, toda aquela situação. Porque o número de vítimas, mais de 3 mil, a localização dos prédios no coração de Nova York, o simbolismo daquele ataque, tornaram claro que o terrorismo passou a ser uma coisa diferente, de certa maneira. Nós passamos a falar do terrorismo como um agente à escala internacional, como um inimigo de direito internacional, um inimigo de todos os Estados de direito, que exige uma cooperação forte entre os Estados, que exige uma cooperação forte de agências, polícias, serviços de informações, as próprias forças militares, pôs em causa, de certa maneira, a distinção tradicional entre segurança interna e defesa, e que trouxe à ribalta as pressões guerra ao terrorismo, utilizada por George Walker Bush, mas depois também, por exemplo, por François Hollande muitos anos depois, ou direito penal do inimigo, que tinha sido crismado em 1985 por um penalista alemão de orientação funcionalista, Gunther Jacobs, e que depois ganhou foro de cidadania, de forma muito criticável, com a generalização da tortura em Guantánamo, por exemplo.
Como disse, era secretário de Estado da Administração Interna e falava-me depois dessa fusão, dessa mistura entre os dois planos, o interno e o externo, que até ao momento estavam de alguma forma um pouco mais separados. Percebeu também nesse momento que do ponto de vista legislativo era preciso uma ação imediata? Como é que foram também essas semanas seguintes?
Nas semanas seguintes, houve algo que já estava, de certa maneira, na ordem do dia e que ganhou mais acuidade: a necessidade de pensar nos modelos dos sistemas de informações. Por quê? Porque uma das críticas que se faz aos Estados Unidos é que a pluralidade das agências, um grande número de agências, torna difícil a circulação de informação. E portanto, diz-se que em relação ao 11 de setembro, havia alguma informação útil, pertinente, que talvez pudesse de alguma forma antecipar os ataques e que não foi devidamente utilizada. Isso por quê? Porque foi difícil passar a informação de agência para agência, porque as agências são muito ciosas da informação.
E não falamos apenas da CIA e do FBI.
Não, falamos de muitas outras. E falamos daquele velho princípio de informação é poder e as pessoas serem muito agarradas, às vezes, à informação e não perceberem que ela só é útil se for partilhada por quem tem necessidade dela. Portanto, o esquema, o modelo dos serviços de informações esteve em causa e essa discussão também se espalhou a Portugal, porque em Portugal aquele sistema que hoje vigora de um sistema de dois serviços com secretário-geral a dirigir os dois serviços através dos dirigentes máximos, é um fruto do 11 de setembro, bem como a aproximação do sistema de informações ao centro do poder político, ao primeiro-ministro. Até então, os serviços de informações respondiam, embora por delegação, perante o ministro da Administração Interna, SIS, ou da Defesa, SIED. E portanto, isso foi alterado. Mas também houve outras alterações. Por exemplo, a lei antiterrorista foi modificada para punir atos preparatórios, reforçar a punição de organizações, prever o terrorismo internacional, prever o financiamento, a apologia do terrorismo e por aí fora.
Olhando aqui para um título da altura, de 11 de setembro de 2001, podia ler-se: "António Guterres apela ao sentimento de segurança." Na altura, Guterres era primeiro-ministro de Portugal. Rui Pereira fazia parte deste governo. Sentiu-se seguro? Sentiu que era possível fazer esse apelo ao sentimento de segurança num momento tão complicado?
Claro que é correto fazer esse apelo ao sentimento de segurança e, sobretudo, à segurança. E portanto, penso que a mensagem foi correta e foi bem entendida. Agora, há uma coisa muito simples que eu creio que qualquer pessoa compreende. O conceito de perigo é um conceito, na minha perspectiva, ontológico, não é um filho da nossa ignorância, não é um ente imaginário. E nós não podemos dizer que Portugal não esteve em perigo desde então por não ter havido nenhum atentado de inspiração fundamentalista, desses atentados perpetrados pelas organizações globais, Al-Qaeda primeiro, Daesh depois, que não esteve em perigo por não ter havido nenhum atentado, não é? Porque o perigo é uma situação de insegurança, de insegurança existencial. E portanto, Portugal, pelos seus compromissos internacionais, pela integração na União Europeia, pela Aliança Atlântica, é um país que teve que tomar medidas.
Rui Pereira, ele que era secretário de Estado da Administração Interna em 2001, em entrevista ao jornalista João Alexandre, nesta altura já com alguns receios sobre aquilo que poderia vir a acontecer.
Mas André, de entre todos esses receios, poucas pessoas pensaram no que viria a seguir.
Oh my God! Oh my God!
We're not sure exactly what happened, but it was another explosion on the far side of one of the buildings from where we're standing, the reverberation and another explosion.
São agora 15h em Portugal.
São 10h nos Estados Unidos.
Na manhã de 11 de setembro de 2001, Nova York vai ser engolida por uma gigante nuvem de pó e também dor.
O pior cenário acontece a esta hora, 56 minutos depois do segundo embate. A torre sul, a segunda a levar com este choque do avião, não aguenta os danos e desaba mesmo.
E de acordo com dados oficiais, pelo menos 614 pessoas terão morrido com a queda e impacto desta torre. Um momento trágico transmitido em direto para todo o mundo. Continuamos aqui com a emissão.
Atenção, o World Trade Center caiu. O World Trade Center caiu.
Era o colapso que se adivinhava.
Era o colapso que se adivinhava parcial, mas que neste momento e talvez dada a gravidade do impacto e com o volume de combustível que o avião continha, não havia hipótese de acontecer outra coisa.
Em português, foi assim que se assistiu à queda da primeira torre em direto. O som que ouvimos é da TV.
E uma das vozes é do nosso Júlio Magalhães, neste caso, o jornalista nos Estados Unidos. André percebeu rapidamente o que tinha acontecido.
Tal e qual, João. E em muitos canais norte-americanos, nem toda a gente percebeu qual era a dimensão da situação, o que tinha acontecido. O medo era tanto que muitos pensaram que este estrondo era de outra bomba, de outro avião. A ABC, o canal de televisão, deixava mesmo a pergunta no ar.
Let's go to the Trade Tower again, because John, we now have a, what do we have? We don't.
It looks like a new plume, a new large plume of smoke.
Andavam todos aos papéis, como se costuma dizer, André. Já a CNN ficou mesmo sem palavras nos primeiros instantes.
There was a cascade of sparks and fire, and now this, it looks almost like a mushroom cloud. What is behind it, I cannot tell you. But just look at that. That is about as frightening a scene as you will ever see.
Foi observar o momento, nada a dizer, porque toda a gente sabia que naqueles segundos centenas e centenas de pessoas perderam a vida.
E de acordo com dados oficiais, apenas sete pessoas da torre sul foram retiradas com vida dos escombros antes da queda da torre. Só 18 pessoas que estavam nos pisos destruídos pelo avião conseguiram sair já nos pisos acima do embate, André.
Ninguém sobreviveu. Um autêntico rasto de morte e destruição que a esta hora, João, se preparava para continuar.
É o penúltimo momento da maior agonia nesta tarde de 11 de setembro de 2001 e para o podermos contar, temos de voltar um bocadinho.
Lá acima.
Lá acima.
Hi, baby. Baby, you have to listen to me carefully. I'm on a plane that's been hijacked. I'm on the plane. I'm calling from the plane. I want to tell you I love you. Please tell my children that I love them very much. And I'm so sorry, babe. I hope to be able to see your face again, baby. I love you. Bye.
São agora 15h03 em Portugal, André.
São 10h03 nos Estados Unidos da América.
A esta hora, no dia 11 de setembro de 2001, caía o último de quatro aviões sequestrados para atacar a América.
We are all going to die. We are all going to die.
"We are all going to die here". Vamos todos morrer aqui. Foi esta a última comunicação entre o voo 93 da United Airlines e o controle aéreo de Cleveland.
E depois disto, chega a confirmação.
United 93, have you got information on that yet?
Yeah, he's down.
He's down?
Yes.
When did he land?
He did not land.
Oh, he's down?
Yes, somewhere up northeast of Camp David.
O voo 93 da United Airlines cai a 926 km/h numa planície em Pittsburgh, no estado da Pensilvânia. O destino original deste voo era a cidade de São Francisco, mas os terroristas queriam atirar o avião contra a Casa Branca ou o Capitólio, símbolos do poder político dos Estados Unidos. André.
E por que desta vez não conseguiram, João?
Não cumpriram, porque naquele voo havia bravura e coragem a bordo. Este é o som do filme Voo 93, que conta a história do grupo de passageiros que tomou a iniciativa de contra-atacar os terroristas. Terá sido mesmo a luta que aconteceu no cockpit que levou à queda do avião neste condado da Pensilvânia, o quarto avião usado nos ataques do 11 de setembro.
No total, morreram neste voo 44 pessoas, os 37 passageiros, entre eles os terroristas e ainda os sete membros da tripulação.
Um rasto de morte que tinha o expoente máximo em Nova York. Vamos regressar à cidade que nunca dorme.
São nesta altura 15h05 em Portugal, 10h05 no Estados Unidos. Manhattan está debaixo de uma enorme nuvem de pó e de dúvida no ar. Fica a pergunta.
Será que a torre norte também vai cair?
Era certamente essa uma das questões que estava na cabeça de Tiago Bacasis. É engenheiro civil, estava em Londres no momento dos atentados e explica-nos o porquê das torres terem caído.
Nesse dia 11 de setembro, curiosamente, estava em Londres. Tinha viajado pra Londres na noite anterior para ter um dia de reuniões Com um conjunto de arquitetos e engenheiros portugueses, ingleses e até dois ou três australianos. Estávamos precisamente numa reunião quando os telemóveis de todos os participantes, ou de quase todos, começam a receber mensagens. Ficou tudo um bocado parado, a olhar para os telemóveis. Quando viram, começou toda a gente a falar ao mesmo tempo, todos a direm: "Vamos já diretos para um televisor, para um monitor onde se possa ver o que está a dar". Não sei que canal era. E fomos todos para um corredor ou para uma sala onde estava o monitor de televisão, e ainda vimos, infelizmente, o avião a bater na segunda torre.
Tiago Becasias, deixe-me perguntar-lhe, de um olhar de um engenheiro civil, quando viu as imagens do embate dos aviões nas Torres Gémeas, sabia imediatamente, conseguiu perceber logo que as pessoas que estavam no edifício não iam conseguir sair?
Não consegui perceber isso. Devo dizer que estranhei que as torres não tivessem caído na altura. Não tinha a percepção do que era a estrutura das torres. Pura e simplesmente estranhei que elas caíssem. É curioso, enfim, isso tudo tem uma explicação, mas as pessoas teriam à espera: as torres caíram porque aquela estrutura metálica, onde os aviões embateram diretamente, ruiu. Mas não foi esse o caso. Claramente, aquilo foi uma situação em que as torres se escoaram por dentro, quer dizer, a envolvente metálica acabou por resistir bastante bem, ficou danificada na zona do embate dos aviões, mas aguentou-se. O miolo das torres, que era mais débil, tinha a zona dos elevadores central e depois os pisos, e essa zona é que, fruto das altas temperaturas que suportou, acabou por se esboroar e as torres ruíram por dentro. E foi por isso que caíram. Aliás, há imagens, fotografias posteriores em que se vê, pelo menos numa das torres, que a grande estrutura metálica envolvente acabou por ficar ainda com um certo número de pisos de pé.
Tiago, deixe-me perguntar-lhe, as Torres Gémeas eram edifícios icónicos na paisagem urbana de Nova Iorque. Este desastre do 11 de setembro trouxe lições para a engenharia, para a arquitetura. Acha que se mudou um pouco a forma de fazer edifícios depois deste atentado terrorista?
Eu acho que na generalidade dos edifícios, não. Em edifícios de grande altura, sim. O que mudou muito foram duas questões. Foi a questão securitária, praticamente deixou de ser possível fazer uma aproximação a edifícios destes, por exemplo, com veículos pesados. Todos estes edifícios têm à volta uma zona de proteção, estes edifícios e não só, aeroportos, estádios, tudo isso, todo esse tipo de construções e infraestruturas que sejam fundamentais. Houve o cuidado de impedir o acesso de veículos, por causa dos explosivos. E no que diz respeito a edifícios altos, o que aconteceu-
Os arranha-céus, como as Torres Gémeas, eram um bom exemplo.
Exatamente. Desse ponto de vista, mais no que diz respeito à engenharia estrutural, o que aconteceu foi que se criaram condições para que um edifício destes, se houver uma parte dele que entre em colapso, digamos, que seja fortemente danificada, o edifício não caia. Basicamente, foi isso. Criou-se aquilo que a engenharia designa por redundância. Ou seja, há uma parte da estrutura que cai, que rompe, que colapsa por motivo de uma explosão, por exemplo, mas o restante edifício tem capacidade para ficar de pé.
As explicações do engenheiro Tiago Becasias para a queda das Torres Gémeas a esta hora. Por enquanto, já tinha caído uma, ele que estava em Londres neste momento, no dia 11 de setembro de 2001.
Mas a esta hora, André, e vamos com 10h10 nos Estados Unidos, 3h10 em Portugal, a torre norte do World Trade Center ainda está de pé. São agora 3h19 em Portugal.
São 10h17 nos Estados Unidos.
Estamos em emissão especial para recordar os momentos-chave dos 20 anos do 11 de setembro e a esta hora, André.
Naquela manhã de terça-feira, já todos os aviões terroristas caíram, bem como uma das torres, a torre sul. Quanto à torre norte, continuava de pé, mas estava a gerar muita preocupação. Será que ia aguentar o impacto e o embate do avião e também o poder destruidor das chamas?
Ora, em Lisboa, a esta hora, Isabel Alçada estava num dos complexos de torres mais emblemáticas de Lisboa, as Amoreiras. Como viveu a escritora e antiga ministra da Educação aquelas horas de angústia? É o que vamos ouvir.
Estava numa produtora que estava a fazer um casting para a série "Uma Aventura", da SIC E nós tínhamos um acordo em que víamos os vídeos das crianças para fazerem as personagens da coleção Uma Aventura. E quando estávamos a ver os vídeos das personagens para comentar, apareceu uma das pessoas que lá trabalhava, que viu o que se estava a passar no ecrã de televisão, em direto. E a partir daí, nós mudámos imediatamente para os ecrãs, pusemos num canal, já não me lembro qual, e ficamos a ver, absolutamente estarrecidos. Inicialmente, parecia uma coisa de ficção. A primeira imagem que vi foi a primeira torre que foi atingida, que estava com fumo a sair. Aquela imagem que fica na mente de todos nós. Eu julgo que todas as pessoas que já viram, ficam com aquela imagem gravada com uma força incrível. E o que é mais horrível é que ficámos todos, a produtora não tinha assim tanta gente, nós estávamos todos juntos a ver o que se estava a passar e, de súbito, aparece outro avião e vai furar a outra torre. E foi uma coisa absolutamente aflitiva. Estávamos num silêncio. Os comentários eram: "Não é possível, isto não está a acontecer". Mas ouvíamos realmente os jornalistas a dizer o que estava a acontecer e a descrever a situação em direto.
Teve a sensação que iria mudar alguma coisa?
Tive, porque logo aquele embate me deu a ideia de que, primeiro, os Estados Unidos da América é um país que nós sabemos que tem uma organização de segurança muito apertada. Eu já tinha ido várias vezes aos Estados Unidos da América e lembro-me como era entrar na fronteira com os documentos que eram vistos, escrutinados, de fio a pavio, que sabemos perfeitamente que os americanos têm muito cuidado com a segurança. Nós não sabemos exatamente os pormenores, mas sabemos que existem e que dão muita atenção. E se tinha acontecido aquilo num país como os Estados Unidos, o mundo não era seguro. Foi esta a sensação que nós tivemos, que eu tive e que as outras pessoas tiveram, que todos estávamos vulneráveis a uma coisa daquela natureza. E também tivemos consciência de que o terrorismo internacional era muito presente na nossa época e que tinha meios que eram inimagináveis antes de ter acontecido uma coisa daquelas. E esse atentado foi um atentado brutal do ponto de vista do confronto e foi brutal também do ponto de vista simbólico, porque aquelas duas torres eram um dos ícones de Nova York, como a Estátua da Liberdade. Enfim, uma ou outra, não tantas outras, não. Uma ou outra. Mas ao mesmo tempo, eu estava numa torre, menor, evidentemente, em Amoreiras, e ficamos todos a pensar que, de fato, estes prédios que a nossa civilização constrói são muito vulneráveis, coisa que nós também não tínhamos consciência antes de acontecer uma coisa daquelas.
Que efeitos trouxe este ataque, na sua opinião?
Ficámos numa situação, nós naquela altura, julgo que para os muçulmanos deve ter sido muitíssimo mau também, porque a imagem que em nome de uma religião, não é em nome de uma religião, eu sei que não é, mas eles invocam a religião, os terroristas. E, portanto, invocar uma religião para fazer uma coisa daquelas, os fiéis dessa religião devem ficar absolutamente chocados com uma coisa dessas.
Que outras coisas mudaram devido a isso? Na sua percepção, em termos sociais.
Quer dizer, nós ficamos todos com consciência de que havia riscos que nós nem sequer imaginávamos. E o que acontece é que depois algumas pessoas têm mais tendência a manter uma atitude de autoproteção e de proteção da família e proteção da sua organização, etc. E outras vão se esquecendo. E quando surgem novos acontecimentos, então voltamos a ter mais cuidado, etc.
Nestes seus livros de Uma Aventura, alguma vez pensou escrever alguma coisa semelhante a isto, a isto que aconteceu?
Nunca. Absolutamente fora de questão, porque eu acho que a informação sobre o que se passa, sobre estas situações terríveis, não se deve omitir das crianças, nem lhes deve explicar, não esconder. Mas centrar uma narrativa num acontecimento desta natureza era, para mim, de tal maneira aflitivo, que nem imagino transmiti-la às crianças. E além disso, eu e a Ana Maria Magalhães, nos nossos livros, o que nós pretendemos é, em primeiro lugar, que gostem de ler. E em segundo lugar, que os temas que veiculamos lhes deem alegria de viver e sentimentos de segurança. Com os nossos livros, a última coisa que queremos é que os jovens se sintam ameaçados e se fechem sobre si próprios.
Isabel Alsada aqui com a visão de quem estava numa das torres mais altas também de Lisboa, a olhar pra aquilo que estava a acontecer a partir daquele momento. Naquela altura, em 2001, era o oitavo edifício mais alto da cidade de Lisboa, com 75 metros, ainda assim, nem rivalizava com o World Trade Center, não é, João?
Muito longe, porque 541 metros era esta a altura da torre norte do World Trade Center. O mesmo não podemos dizer da torre sul, que a esta hora, André, já tinha caído.
E os acontecimentos, João, estão a entrar numa vertigem. Fazemos um ponto de situação. Por enquanto, já todos os aviões sequestrados estão destruídos. O primeiro, o American Airlines 11, foi contra a torre norte do World Trade Center. O segundo, o United Airlines 175, foi contra a torre sul. O terceiro, o American Airlines 77, chocou com o Pentágono. E por último, há cerca de 20 minutos, no dia 11 de setembro de 2001, o United Airlines 93 caía na Pensilvânia também nos últimos minutos. Atenção, desabava no dia 11 de setembro de 2001 a ala oeste do Pentágono.
É muita informação para absorver. Os atentados que estão quase a ter o último capítulo de uma história trágica, André, que leva já quase quatro horas.
Se se juntou agora a nós, está na Rádio Observador. Estamos a viajar no tempo, reconstituímos passo a passo, momento a momento, os ataques do dia 11 de setembro de 2001, há 20 anos, e nesta altura falta o momento mais trágico de todos, pelo menos o que retirou a vida a mais pessoas.
O relógio estava quase a marcar essa hora. Nesta altura, toda a gente assistia pela televisão à cobertura em Nova York e na cabeça de todos só ecoava uma pergunta: a torre norte também vai cair? São agora três horas e 28 minutos em Portugal.
São 10h28 nos Estados Unidos.
Milhares de pessoas estão prestes a perder a vida em segundos e o mundo vai assistir em choque.
Uma hora e 46 minutos depois do primeiro embate, a torre norte, a primeira a ser atingida, cai. Colapsa, desaba, com ela perdem a vida mais de 1300 pessoas. É o momento de maior fatalidade de todo o ataque terrorista do 11 de setembro de 2001.
É nesta torre que, por exemplo, está a empresa que perdeu mais funcionários, a Cantor Fitzgerald, um banco de investimentos. Perdeu em segundos 658 colaboradores.
Depois da queda da torre sul, este era um momento já esperado, previsto, como conseguimos perceber também pelo relato feito pela cobertura da Fox News na altura.
20 anos depois, estes sons ainda arrepiam. Nos dias e semanas seguintes, André, a América entrava num profundo luto e o mundo mudou.
Perderam a vida nos atentados de 11 de setembro de 2001, 2977 pessoas, 2606 na cidade de Nova York.
344 eram bombeiros, 71 eram polícias, muitos morreram a tentar socorrer os feridos nas duas torres do World Trade Center.
O polícia de Nova York, Scott Strauss, participou nas buscas, tirou os últimos dois polícias com vida dos escombros, um feito que este herói do 11 de setembro recordou em conversa com o jornalista Miguel Cordeiro.
"No dia 10 de setembro, fui trabalhar à meia-noite, fiz o turno da madrugada e deixei o trabalho na baixa de Manhattan por volta das 08h00 da manhã do dia 11 de setembro. Estava a ir pra casa, ouvindo a rádio, quando disseram que um avião tinha atingido uma das torres do World Trade Center. Eu não consegui perceber qual a dimensão da destruição, qual o tamanho do avião. Só me apercebi quando cheguei à casa e liguei a televisão. Nesse momento, vi todo aquele fumo e aquele buraco na torre. Gritei pra minha mulher que um avião tinha atingido as torres. Os meus dois filhos tinham começado a escola nesse dia, tinham nove e seis anos, e já com a minha mulher ao lado a ver a televisão, assisti ao segundo embate. Soube ali imediatamente que estávamos a ser atacados e que tinha de voltar pro trabalho."
Portanto, viu essas imagens pela televisão, já em casa, depois de trabalhar toda a noite.
Yes, sir.
E o que fez?
"Entrei no meu carro e voltei para Manhattan. Quando entrei nos túneis, estava imenso trânsito. E aí os civis estavam a tentar desimpedir a passagem para as autoridades. Foi assim que eu consegui passar. Cheguei ao meu edifício na Rua 21. Eu era na altura membro da divisão de serviços de emergência da Polícia de Nova York, que é a equipe que trabalha com situações de resgates. Os polícias que me renderam o turno da manhã já estavam junto do World Trade Center a realizar resgates. Estavam dentro dos edifícios. Os restantes polícias, como eu, que estavam fora de serviço, juntámos e começámos a juntar também armas e até metralhadoras, porque estávamos sob ataque. Não sabíamos o que poderíamos enfrentar."
Porque we were under attack. We had no idea what was going to happen next. They had to protect the city.
Portanto, estavam equipados não só com utensílios para realizar os resgates, mas também com várias armas.
Yeah, absolutely.
Sim, na altura não existiam militares em Nova Iorque, cabia à polícia proteger a cidade. E recolheram o material necessário, organizaram as equipas e foram para o Ground Zero?
That's correct. We raced down to the Trade Center and it was called the Trade Center for many, many weeks.
Sim, fomos para o Trade Center. Na altura ainda lhe chamávamos assim, durante semanas, depois passou a ser The Pile e só depois Ground Zero. O meu grupo chegou a essa zona pouco depois da segunda torre ter colapsado.
My group got down to the Trade Center just as the second tower had finished collapsing.
E o que encontraram?
Two collapsed massive buildings. Two nine-story buildings, building four and building five were burning from top to bottom. Other buildings were on fire. Other buildings were demolished from the collapse.
Dois edifícios gigantescos colapsados, dois edifícios de nove andares a arder do chão ao topo. Outros edifícios também estavam em fogo, outros tinham colapsado. Muitas pessoas cobertas de pó. Os meus colegas que resistiram juntaram-se a nós. Juntámo-nos numa área segura e dividimo-nos em equipas. Fizemos duas equipas, uma de tática e outra de resgate.
And then we would divvy up into teams. We were assigned to two groups, one being tactics and the other being rescue.
E o Scott estava na de resgate.
I was on the rescue side. The police officers assigned to tactics were set up a perimeter around the Trade Center.
Sim, os polícias na equipa de tática estabeleceram um perímetro de segurança para responder a um eventual ataque. Eu fui para a equipa de resgate e fomos à procura de sobreviventes. Procurei durante todo o dia e não encontrei ninguém até ao período da noite. Portanto, trabalhou toda a noite, de madrugada, foi a casa, voltou para trabalhar, para Manhattan, e trabalhou todo o dia para encontrar sobreviventes. Encontrou? Durante todo o dia procurámos sobreviventes, mas não encontrámos ninguém. Só encontrávamos corpos e partes de corpos. Depois, por volta das 17h, 17h20, o edifício sete, outro dos edifícios, colapsou. Voltámos a sair, voltámos a organizar e voltámos a entrar.
And then we were notified there were two police officers trapped in the center of the pile.
Nesse momento, fomos informados que estavam dois polícias presos no meio dos escombros. Pensámos que eram polícias como eu, que tinham vindo depois do edifício colapsar e que não conseguiam sair por estarem feridos de alguma forma. Mas quando lá chegámos, percebemos que estavam enterrados, dois polícias muito enterrados, com graves ferimentos, e decidimos começar a operação de resgate.
They were buried incredibly deep. They were severely injured, and we began a rescue attempt to get them out.
Estava sozinho ou com ajuda?
No, there was a group of police officers with us. These two police officers were found by two former Marines who during the day saw the tragedy of what happened in Lower Manhattan.
Não, esses dois polícias foram encontrados por dois Marines que durante o dia souberam da tragédia e foram até aos escombros para ajudar. Foi quando estavam à procura que se cruzaram com estes dois polícias e comunicaram-nos. Nesse momento, o meu grupo, éramos cerca de seis, avançámos. Começámos por subir o monte de escombros, a trepar por todo aquele pedaço de metal. Chegámos a eles e descemos até ao buraco em que conseguiram alcançá-los. Um dos Marines foi conosco e começámos a escavar, a tentar aproximar-nos. Estamos a falar de que distância?
The first hole was about six to eight feet down, and then after that, we had to climb down about 20 feet.
O primeiro buraco era de cerca de 2,5 metros e depois daí tínhamos de avançar mais uns 6 metros. Estamos a falar de um buraco com pequenas passagens entre o metal, aberturas minúsculas. Não tinham mais espaço do que a distância entre o chão e a cadeira em que está sentado. Tínhamos de nos contorcer entre o metal.
And we had to pull ourselves around this twisted steel. And as I'm climbing down headfirst into this pile of rubble, I, to myself,
Enquanto estávamos a descer, eu, para mim, disse adeus aos meus filhos. Nenhum de nós achou que iria sair dali com vida.
I, to myself again, I asked my boys
Novamente para mim, pedi aos meus filhos para tomarem conta da mãe, para me deixarem orgulhoso e para estudarem.
And do good in school. We found ourselves in an area, in a situation that nobody should be in.
Nós estávamos numa situação em que ninguém deveria estar. Encontrámos o polícia Dominic Pozzulo, que estava esmagado, estava morto, e ao lado, a cerca de 5 metros, estava o agente Williamjimano, que estava enterrado. Parecia que tinha saído de um caminhão do lixo. Estava coberto de destroços, exceto a cabeça e o braço direito.
He looked like he was poured out of a dump truck. He was completely encased in rubble, with the exception of his head and his right arm. We could only get to him through a tiny opening where only one person can fit in.
Só conseguimos chegar até ela por uma pequena passagem onde apenas uma pessoa conseguia passar. E com as nossas mãos começamos a escavar por essa passagem. Eu e meu colega fizemos turnos. Só podíamos estar naquela área por alguns minutos, por causa do fumo, do pó e do calor do fogo.
E conseguiram ver o que se passava? Por vezes, mas muitas vezes, por causa do fumo, não conseguíamos. O local estava a arder.
Sim, o monte em que estávamos estava a arder. A certa altura conseguimos tirar o agente Will Jimeno, demorou cerca de três horas. Depois, outros policiais precisaram de quase nove horas para retirar o sargento McLoughlin. Eles estavam tão mal que nós achávamos que não iam conseguir sobreviver à tentativa de resgate, mas sobreviveram. Sobreviveram todos, os que estavam presos e os que fizeram o resgate. Eles dois sobreviveram, ainda estão vivos, mas com ferimentos. Muitos dos policiais e bombeiros que estiveram no resgate acabaram por morrer com doenças relacionadas com o 11 de setembro, como cancro.
Tem alguma doença?
Eu tenho. Não tenho cancro ainda. Tenho vários problemas respiratórios, já fiz várias cirurgias e provavelmente vou ter mais. Mas com isto dito, eu estou vivo, vi os meus filhos crescerem. Muitos dos meus colegas não viram. Espero conseguir ver os meus filhos a casar e terem filhos. Se a minha vida for reduzida, e tenho certeza que vai ser, estou bem com isso. Muitos amigos meus não tiveram essa oportunidade.
A emoção do herói do 11 de setembro, o polícia Scott Strauss, 20 anos depois do dia em que o mundo parou. Nas últimas horas estivemos juntos a recordar os principais momentos daquela manhã de terça-feira de céu azul e brilhante, desde o momento em que o primeiro avião levantou voo até à queda da segunda torre do World Trade Center. Esta emissão não teria sido possível sem a entrega da redação da Rádio Observador, Aníbal Rebelo, Diogo Teixeira Pereira, João Alexandre, João Gama, Miguel Videira, Tomás Anjinho Chagas, Rui Casanova e Miguel Cordeiro nas entrevistas e também recolha de depoimentos, Mariana Oca Ferreira e Inês Santos na produção, Bernardo Almeida, Beatriz Martelo Garcia e João Ribeiro na sonoplastia e, claro, com a tua camaradagem e entrega, André Maia, bom parceiro destas longas horas de trabalho. Eu sou o João Miguel Santos. Que o terror seja apenas e só um fantasma do passado. Nas últimas horas estivemos juntos a recordar os principais momentos daquela manhã de terça-feira de céu azul e brilhante, desde o momento em que o primeiro avião levantou voo até à queda da segunda torre do World Trade Center. Esta emissão não teria sido possível sem a entrega da redação da Rádio Observador, Aníbal Rebelo, Diogo Teixeira Pereira, João Alexandre, João Gama, Miguel Videira, Tomás Anjinho Chagas, Rui Casanova e Miguel Cordeiro nas entrevistas e também recolha de depoimentos, Mariana Oca Ferreira e Inês Santos na produção, Bernardo Almeida, Beatriz Martelo Garcia e João Ribeiro na sonoplastia e, claro, com a tua camaradagem e entrega, André Maia, bom parceiro destas longas horas de trabalho. Eu sou o João Miguel Santos. Que o terror seja apenas e só um fantasma do passado.