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Bem-vindos ao "Realpolitik", uma conversa sobre política e atualidade todas as semanas aqui na Rádio Observador e em podcast. Eu sou o Miguel Pinheiro.

Eu sou o Sérgio José Pinto.

E hoje nós vamos ver se conseguimos ter tempo para falar sobre tudo, sobre a polêmica das refeições diferentes para alunos que entram em colégios privados pela mão do Estado e dos contratos de associação, sobre as novas regras para o arrendamento, que não são conhecidas em detalhe, mas sabemos qual é o grande objetivo do governo. Mas antes, Sérgio, a ideia era conversarmos sobre a guerra no Medio Oriente e uma das grandes perguntas é: será que a guerra no Irão pode ser o novo Vietnã? É isso que está na tua cabeça.

Sim, bem, na minha.

Se fosse só na tua...

Se fosse só na minha, não havia problema nenhum. O que é um novo Vietnã, o que isso significa? Significa uma guerra na qual os Estados Unidos vencem todas as batalhas e no fim perdem a guerra.

Vitória em vitória até a derrota final.

Vitória em vitória até a derrota final. Quando não é possível, pura e simplesmente, vencer a guerra, até porque os objetivos que nós identificamos como vitória não foram claramente explicitados, nem identificados. Agora sabemos que o sistema ósseo do presidente americano tem um papel na condução estratégica, porque vai sentir nos ossos, diz Trump, o momento em que a guerra chegou ao fim.

Só falta ir ver nas vísceras de animais mortos.

Os osteopatas também estão sentados no centro de comando e controle. Toda gente percebe que uma operação de ocupação do território física com presença de tropas é impossível num país com 92 milhões de habitantes. Imagine-se o que seria um esforço desta natureza. As capacidades táticas do Irão foram subestimadas. O fecho do estreito de Ormuz não foi ponderado.

Incrivelmente.

Qualquer pessoa normal imagina o fecho do estreito de Ormuz como uma possibilidade.

Qualquer analfabeto olhava para o mapa e diria: "há aqui um problema."

De facto, há ali um problema. E os objetivos de guerra do Irão são evidentes: resistir. Resistir e flagelar os seus vizinhos, que considera serem uma espécie de satélites dos Estados Unidos, e lançar neles a dúvida: será que a aliança com os Estados Unidos é aquela que melhor serve os nossos interesses? Estes países fazem o que podem para convencer Trump a acabar com esta ofensiva, com esta guerra de agressão, como agora se diz. A base americana do presidente também já começa a ceder. Esta semana assistimos à demissão de uma figura importante do movimento MAGA, o chefe do Centro de Contraterrorismo, um tal Joe Kant, que será demitido porque se há algo que define aquele movimento é a ideia de que a América deve priorizar os seus próprios interesses e do povo americano e a economia e as coisas internas, e evitar guerras ruinosas. E de todas as guerras ruinosas possíveis, este conflito com o Irão arrisca ser a pior de todas. Entretanto, o apoio russo ao Irão vai se materializando e vai se exibindo de forma cada vez mais despudorada na comunicação social. Não se sabe o que a China andará a fazer, mas não é preciso um grande esforço criativo de imaginação para imaginar que alguma coisa está a fazer para apoiar o esforço de guerra do Irão. E cá estamos nós, que vamos pagar. Os americanos também vão pagar, vão pagar muito menos do que nós, os custos deste conflito. Porque embora os preços dos combustíveis subam nos Estados Unidos, porque os preços dos combustíveis são determinados pelos mercados internacionais, e a vida se torne pior para os americanos, Trump tem sempre a possibilidade de libertar as enormes reservas americanas pra tentar contrariar a subida dos preços, e está, naturalmente, como país exportador de petróleo, os Estados Unidos são o maior produtor mundial, também está a beneficiar com a subida dos preços. Benefício, aliás, que partilha com a Rússia de Putin, agora aliviada de uma série de sanções, e que está a reconstruir as condições materiais para manter indefinidamente o conflito na Ucrânia. Portanto, não se vislumbram boas notícias nenhumas e ninguém consegue imaginar um fim para esta crise do qual os Estados Unidos não saiam profundamente enfraquecidos na sua credibilidade como hiperpotência global. O mundo vai sair desta crise com mais uns milhares de mortos, de vítimas. Israel faz o que pode também para dar o seu contributo humanitário, destruindo e bombardeando a torto e a direito Beirute O mundo é um sítio cada vez mais infr frequentável e a luz do bom senso, da paz, do diálogo, das soluções encontradas à volta de uma mesa, do espírito de compromisso, vai perdendo terreno.

Sabes que eu não fiquei muito confortável com a carta de demissão do Joe Kent.

Até isso foste ler.

Porque há ali uns traços de-

Antissemitismo

Pois. E portanto, em que ele fala do lobby judaico, da influência nos media. Enfim, nós já ouvimos esses suspiros, esses ventos vindos de sítios menos recomendáveis, e portanto fiquei um pouquinho desconfortável com isso. Agora, eu acho interessante ler a imprensa normalmente pró-Trump, ou pelo menos que não é anti-Trump. Porque, de facto, é muito fácil o Guardian criticar o Trump, mas até entre os grandes jornais americanos tens o Wall Street Journal, que é o jornal mais favorável à intervenção americana no Irão, e tens tido uma série de artigos que começam a apontar algumas críticas. E tu estavas a falar há bocadinho dos objetivos políticos, eles tiveram um colunista que escreveu isso de forma muito interessante. Eu lembrava aquela velha frase, eu quando o vi citar a frase "a guerra é a política por outros meios", eu pensei: "Não vou continuar a ler isto."

Podes ler.

Pronto. Já vem com a frase outra vez, mas depois continuei e ele deu a sequência lógica da frase, que é: como a guerra é a política por outros meios, o objetivo de uma guerra não é ter uma vitória militar, é ter uma vitória política. E portanto, lá está, não serve de nada a Trump ter uma série de vitórias militares, não serve de nada a Trump estraçalhar a marinha iraniana, arruinar a capacidade de lançar mísseis do exército e das forças armadas iranianas, não lhe serve de nada essas vitórias militares se não conseguir traduzir isso numa vitória política. E a grande dificuldade de Trump, de facto, é traduzir tudo isto numa vitória política. E ele até ao fecho do Estreito de Ormuz tinha a capacidade de a qualquer momento fazer isso, essa citação que tu estavas a fazer dele, de declarar a vitória e ir-se embora. "Sinto nos meus ossos que nós ganhámos, vamos embora." E com o fecho do Estreito de Ormuz, ele perdeu essa capacidade, porque se ele se vai embora e o Estreito de Ormuz continua fechado, ele não pode declarar uma vitória. Mas realmente é interessante perceber como vários jornais e revistas de direita, que não renegaram Trump, começam a olhar para uma série de coisas com ceticismo. Ainda ontem, o grande anúncio de Israel, que foi a morte, o assassinato do Ali Larijani, que era visto como a grande figura, neste momento, no Estado iraniano, a figura mais influente. E quando tu vais ler o Wall Street Journal, eles lembram que ele era relativamente moderado e que era a pessoa que poderia querer chegar a um acordo com os Estados Unidos. E até lembram que a filha dele era professora universitária nos Estados Unidos e que só se foi embora há pouquíssimo tempo, depois de umas contestações, claro, como é normal, da diáspora iraniana, com certeza. Enfim, eu não a conheço, não sei se ela era a favor do regime ou não era a favor do regime, não é esse o ponto. O ponto é: o Larijani, pelos vistos, era no meio daquela desgraça alguém.

Muito loquitou possível.

Muito loquitou possível, que foi tentando nos últimos anos falar com os Estados Unidos, no Telegraph, no jornal inglês, que é um jornal que tem muita opinião pró-Trump. Há um artigo de um correspondente no Medio Oriente que diz: "Eu conheci, encontrei-me com o Larijani e ele teria feito um acordo para sobreviver." E desapareceu. Portanto, com quem é que se vai falar agora? Há vitórias militares incontestáveis, ou seja, há uma supremacia militar e uma vitória militar incontestável.

Quer dizer, é incontestável ao controle do espaço aéreo e à destruição de importantes infraestruturas militares, algumas civis, de acordo com a velha conceção medieval de que vence quem fica senhor do terreno, mas não há vitória nenhuma. O que há é uma troca de mísseis de cruzeiro, balísticos e drones de parte a parte, e ninguém sabe quem é que vai chegar mais depressa ao fim das suas reservas. Também temos conhecimento que os tais projéteis de interceção são caríssimos, enquanto os mísseis e os drones iranianos aparentemente são mais baratos.

Feito com meia dúzia de tostões.

Meia dúzia de tostões. Pronto, mas voltando ao teu ponto O Irão é governado por aquilo a que eles chamam mártires vivos. Ou seja, mártires vivos são pessoas que estão à espera da morte. E portanto, é preciso perceber o mindset de um país que se habituou ao assassinato dos seus dirigentes como uma forma legítima de guerra, que não é. Quem não compreender estes quadros mentais, não percebe a resistência do Irão. O líder supremo, cuja saúde não se sabe exatamente qual é o-

O novo

...o novo, o Khamenei 2.

Certo.

É um homem que perdeu a mulher, um filho, o pai, a mãe. Imagino que não seja, se calhar, a figura mais inclinada ao compromisso e ao diálogo.

Já não era antes disso, porque era visto como-

Já não era antes disso

...um flexível.

Mas agora a vida dele já não tem valor, porque é um homem que perdeu tudo o que lhe era mais caro. Esse é o mártir vivo, que pelos vistos, ainda não foi assassinado. Nós dizemos: será que estamos no impasse? Qual impasse? Não há impasse nenhum na guerra do Irão. O impasse está sempre ameaçado pela escalada. A escalada está lá. Nós não nos podemos esquecer que é um conjunto de infraestruturas civis críticas para muitas populações da região, desde logo as estações de dessalinização de água, as infraestruturas petrolíferas, que não foram praticamente atingidas. Puseram um míssil pra aqui, outro pra acolá. Nem as do Irão, nem as dos países do Golfo foram até agora seriamente danificadas. Portanto, nós podemos sempre evoluir nesse sentido. O que teria consequências catastróficas, não só para a economia, para o ambiente, para as condições de vida naquele território ingrato da Península Arábica e do próprio Irão. E no meio disto tudo, perseguindo objetivos próprios, se calhar este tem objetivos, vimos Netanyahu, um homem que diz que passou 40 anos da sua vida à espera disto. Quarenta anos. Ele pacientemente esperou pela morte, pela destruição, pelo caos, pela pulverização de toda aquela região. Se isto não é um homem perigosíssimo.

Já não temos tempo para falar sobre o Irão nesta primeira parte, mas na verdade, sempre que os Estados optaram por reconhecer o direito à existência de Israel e optaram pela paz, e vai desde o Egito há décadas, até mais recentemente com os Estados árabes que começaram a chegar a acordos de paz com Israel, sempre que se chegou a acordos de paz, as coisas passaram a funcionar pacificamente. Agora, o Irão é, e sempre foi, um perigo existencial, este regime iraniano, um perigo existencial para Israel, por isso eu não sou tão rápido como tu a condenar.

É um perigo que está ali desde 1979.

Certo.

Com o qual foi possível celebrar um acordo de não fabrico de ogivas nucleares.

Não, mas isso resolve-nos o nosso problema.

Se calhar estávamos melhor desta experiência histórica desde 79.

Está bem, mas isso resolvia o nosso problema com o Irão, não resolvia o problema de Israel com o Irão.

Pronto, mas ela está a resolver muito bem com Israel.

O Hezbollah no Líbano, o Hamas em Gaza.

Está a resolver, com o Líbano também já está a resolver, com a Síria também já resolveu.

Claro, está a tentar resolver militarmente.

Está a tentar resolver com o Irão. Está a destruir morte e devastação. Como diria Tácito: "Matam-me todos e chamam-lhe paz".

Sérgio, já voltamos para falar sobre o papel da Europa esta semana no "Desenvolvimentos", sobre o papel da Europa e sobre os outros temas. Voltamos já. Bem-vindos de volta ao "Realpolitik". Sérgio, esta semana Trump pediu ajuda aos aliados, nomeadamente aos aliados europeus. Pediu-lhes que enviassem navios de guerra para escoltarem navios na passagem do Estreito de Ormuz, para os proteger de ataques iranianos. Com algumas nuances, a França, apesar de tudo, não foi definitiva, admitiu ajudar, mas depois, de resto, toda a gente fez de conta, não só na Europa, também os japoneses. Na realidade, quando Trump decidiu avançar para esta ação militar, não falou com ninguém, entendeu que não precisava de ninguém, só falou com Israel. E portanto, agora as pessoas disseram-lhe: "Bem, não temos nada a ver com esse assunto". Isto provoca alguma mudança fundamental Na relação entre a Europa, vamos concentrar-nos na Europa, entre a Europa e os Estados Unidos em matérias de defesa ou não.

Como é que diz isso? Provoca. E de que maneira. Isto parece assinalar o momento em que a Europa deixou de acreditar no appeasement em relação ao presidente americano, portanto, a acomodação, a sujeição em relação à atual liderança americana e a compreensão de que a persecução dos seus próprios interesses no mundo tem que depender de uma capacidade de autodeterminação estratégica e de uma maior independência a todos os níveis e também militar em relação aos Estados Unidos. Convém recordar, já na guerra do Iraque, Dominique de Villepin, Joschka Fischer e uma série de figuras destacadas daquilo a que os americanos depreciativamente chamavam de velha Europa, como uma coisa decadente e decrépita, recusaram-se a participar e a apoiar a guerra do Iraque em nome do direito internacional, enquanto que os pupilos dos americanos na altura, que era a Europa que há menos 10 anos tinha abandonado o bloco soviético, festejava com alegria e mandava tropas para ajudar o esforço militar americano, juntamente com o Reino Unido. Também teve o apoio político da Espanha e de Portugal. Portanto, acho que está aqui a ocorrer uma grande transformação. Há um problema prático, nós não estamos em 1980. É que entre 1980 e 1990 deu-se a chamada Guerra Irão-Iraque, em que o Irão também bloqueou o Estreito de Ormuz, mas nessa altura, desbloquear e assegurar o trânsito no Estreito de Ormuz era muito mais fácil de garantir do que hoje. E portanto, não se vê exatamente como é que lidando com estes barcos suicidas e os drones, enfim, estamos a falar de navios praticamente incandescentes, quer dizer, navios altamente inflamáveis. Entretanto, convém recordar que os navios iranianos continuam a sair, os petroleiros, a caminho da China alegremente pelo Estreito de Ormuz.

E alguns navios chineses, alegadamente também.

Lá está. Felizmente, os assessores de Trump não lhe deram instruções para bombardear um petroleiro chinês. Vamos lá ver, estamos dependentes deste problema osteopático. Vemos que se regista gravemente a condição clínica.

Mas a sério, apesar disso, não há uma posição europeia sólida.

Sim, mas estamos à espera de uma posição europeia sólida que já não existe desde a queda do Império Romano. Portanto, não vale a pena estarmos agora a incomodar-nos com isso. Mas há um paralelo histórico engraçado, que eu acho que é pertinente trazer à nossa conversa, que é a Guerra do Suez, 1956, uma guerra que foi a última guerra imperial, portanto, a última guerra clássica em que as potências ocidentais, agora já fraquinhas e todas juntinhas, França e o Reino Unido tentaram, em conluio com Israel, inventar um pretexto para atacar o Egito para impedir a nacionalização por Abdel Nasser do Canal do Suez. Os americanos disseram: "Não participamos." Não participamos e causaram o colapso da libra nos mercados internacionais. De repente, o Reino Unido e as outras potências puseram-se a mexer. Tinham mais uma guerra que estava ganha. Estava ganha. A Batalha do Suez foi ganha, as forças egípcias foram dizimadas. Mas pronto, lá está, a vitória estratégica-

Sim, mas depois era preciso mais, haver uma sustentação.

A vitória estratégica não era possível. Os Estados Unidos disseram: "Voltem para Londres defender a libra, que nós ajudamos." Então continuou o colapso. Onde a Europa ficou a saber que contra os americanos não valia tentar nada, não valia a pena tentar nada. Nada era possível sem a boa vontade americana e contra os americanos.

Mas agora queremos que seja possível.

É isso. Agora chegamos a um ponto em que parece que estamos num Canal do Suez ao contrário. Só não estamos num Canal do Suez ao contrário, porque eu tenho as maiores dúvidas que os atuais ativos militares, como eles dizem, assets europeus, se realmente fariam alguma diferença naquele teatro. Ou seja, o geopolítico é sempre muito importante. Agora, será que o porta-aviões Charles de Gaulle faria a diferença numa guerra com estas características? Não sei, tenho que esperar para que algum especialista militar me ilumine, porque não faço ideia.

Suspeito que a ideia fosse presumir que se o Irão atingisse algum navio militar de outro país, isso poderia ser interpretado como uma declaração de guerra.

E depois?

E seria mais difícil. O Irão poderia pensar três vezes antes de atacar um navio militar europeu.

O Irão já estava a imaginar a França a desembarcar no Líbano, atravessar a Jordânia e por ali fora.

Vontade não lhe faltava, não há quanto tempo para intervir no Líbano.

À procura das setas a apontar para o Irão. Quer dizer, pelo amor de Deus, o Irão quer lá saber disso, na situação em que se encontra. Agora, há um ponto muito interessante que tu há pouco abordaste Que é o problema do antissemitismo. Realmente, é preciso uma grande coragem pra criticar Israel, porque uma pessoa está exposta a esse horroroso apodo do antissemitismo.

Tá, mas existe antissemitismo.

Também existe.

Pronto.

Mas o melhor é não brincarmos com o tema, que é pra não acabarmos com um rótulo em cima.

Tens que admitir que quando alguém começa a falar do lobby invisível, que tudo influencia, que domina os jornais, aquela velha ideia de que os judeus americanos controlavam a imprensa e controlavam Hollywood e juntavam-se todos. Temos que admitir que existem aí alguns sinais.

Era por isso que eu queria dizer qualquer coisa a esse respeito. Há uma figura que tu conheces, certamente, que é o John Mearsheimer, que é a figura liderante do pensamento estratégico realista. Ou seja, é um homem que acredita muito pouco na utilidade do direito internacional. Acha que ele tem um papel a desempenhar, mas ele prefere poder e força. Quem tem força, dorme em paz. Quem só tem o direito internacional, não dorme tão bem. É um realista puro e duro, e é daqueles que, não sei, se uma pessoa lhe falar de uma ordem internacional pacífica e ordeira fundada nas normas, deve ter convulsões, convulsões de riso. Cai pro chão, não sei o que lhe acontece. É um grande pensador estratégico. Basta dizer que percebe as razões russas, opõe-se à intervenção americana na Ucrânia. Enfim, isso só pra explicar quem é John Mearsheimer. E o John Mearsheimer é um grande crítico da influência do chamado lobby judaico na política americana. Ele diz: "Os interesses dos Estados Unidos não são coincidentes com os interesses de Israel. No entanto, o ascendente que o lobby judaico tem sobre as instituições americanas é de tal ordem que os Estados Unidos não conseguem fazer essa dissociação." Eu não conheço o livro, nem sequer é um tema que me interesse especialmente. Mas já me tenho interrogado: "Mas como é que este Mearsheimer tem a coragem de escrever isto?" Quer dizer, numa época em que por muito menos uma pessoa é acusada de antissemitismo. Mas percebi que o Mearsheimer é filho de uma família judaica. Aliás, o nome devia alertar-nos pra essa. E, pelos vistos, a mãe é de origem judaica. Ele está escudado, quer dizer, ele pode dizer coisas que mais ninguém pode dizer. É a minha explicação, porque o ambiente de intimidação é de tal ordem em relação à questão do antissemitismo. Porque, de fato, muito daquilo que vem sendo dito tem sinistras semelhanças com o que os nazistas diziam nos anos 20 e 30. O discurso racista antijudaico era um discurso que não tinha só a ver com a pseudociência, muito em voga na altura desde a segunda metade do século XIX, da superioridade racial e da inferioridade racial de uns e de outros. Disparates muito em voga, não só na Alemanha, mas por toda a Europa e sobretudo nos Estados Unidos. É o país verdadeiramente pai do racismo moderno. Mas também com a ideia de que há uma grande conspiração global e os líderes soviéticos, os grandes líderes do comunismo internacional, são judeus, e os grandes plutocratas americanos, que mandam bem com os jornais e que manipulam a política dos Estados Unidos, são judeus. Portanto, os nazistas e os fascistas tinham um discurso anticapitalista, antiplutocrático, porque associavam os judeus a uma espécie de quintessência da finança, do capitalismo e do dinheiro. Era o poder do dinheiro. Portanto, essas críticas todas que nós vamos vendo têm realmente semelhanças com o discurso sinistro do antissemitismo moderno, ou seja, do século XX. Mas também não podemos cair numa situação em que toda a crítica de Israel... quer dizer, se nós virmos um autocarro, que não vamos ver certamente, com uma grande placa a dizer: "Lobby judaico à procura da sala oval", nós não vamos dizer que é a guerrinha dos ovos. Tem que ser possível falar das coisas, sem levarmos logo com insulto em cima.

Não, claro que é possível, e aliás, mesmo nesta guerra, várias pessoas apontaram o facto de, possivelmente, Trump ter sido levado a uma precipitação, forçado por Netanyahu, que foi construindo ao longo dos últimos dois anos, um caso, um processo, um argumento a favor da guerra no Irão, com objetivos próprios, legítimos e que eu não descarto.

E jamais pensaste se isto não é apenas um caso banal do regresso da hybris, tão bem descrita pelos gregos. As coisas correram-lhes bem na Venezuela. Correm bem em toda a parte. Somos os masters do universo, tudo nos corre bem.

Do Trump, acho que há hybris. No lado de Israel, acho que a situação é diferente. Aliás, o próprio Trump já admitiu.

Será que ainda estamos na hybris ou já estamos a entrar na nêmesis? É essa que é a questão.

Vamos deixar-nos com essa grande dúvida. Temos cinco minutos, acho que já não vamos conseguir ir ao arrendamento, mas só dizer uma ou duas coisas sobre este caso Dos Salesianos de Manique. O ponto é: os Salesianos de Manique têm metade dos alunos que os pais pagam uma mensalidade para terem os filhos lá, a outra metade estão lá por via dos chamados contratos de associação.

É.

Quando não existem escolas numa determinada área geográfica, o Estado paga para que os alunos frequentem colégios privados. É um caso atípico, porque na maior parte das situações, esses colégios privados até só têm alunos de contratos de associação. Neste caso, é metade, metade. E surgiu uma polêmica porque os alunos dos contratos de associação têm refeições diferentes ao almoço dos alunos que pagam as propinas. Houve uma primeira indignação inicial, passe a redundância, e depois a escola foi explicar que até há dois anos havia a possibilidade dos alunos dos contratos de associação pagarem um pouco mais, e é mesmo pouco mais, para terem o outro almoço, por assim dizer, e que o Ministério da Educação proibiu isso, puniu a escola, obrigou a escola a devolver o dinheiro e aplicou-lhe uma coima. E o que eles dizem é que não é possível termos alunos de um lado almoçarem juntamente com os do outro. Ao mesmo tempo, o dinheiro que recebemos do Estado para estas refeições, não queremos alargá-las a toda gente e, portanto, estamos aqui atados. A que se junta um segundo detalhe, que é o de que as turmas também são separadas por obrigação da lei. Segundo a lei, as turmas dos contratos de associação não podem ter nenhum aluno que não seja de contrato de associação e, portanto, eles nem sequer podem misturar alunos em turmas. Só estava a querer descrever aqui a coisa. Sérgio, como é que tu foste olhando para isto?

Acho tudo uma demência pegada. Não percebo porque é que os alunos estão separados, não percebo qual é que é a justificação. A questão das refeições é mais complicada pela simples razão de que as refeições na escola pública são muito fraquinhas, no mínimo, o que se pode dizer é que são muito fraquinhas. São muito fraquinhas porque aquilo que o Estado está disposto a pagar por elas é ínfimo. E é natural que nas escolas privadas, que têm mais recursos, os miúdos tenham refeições decentes. Essas situações acontecem. O ideal era que as refeições fossem decentes em toda a parte, e não são. Devem ter achado que era um grande avanço, no sentido da economia e da racionalização de despesas, fechar as cozinhas escolares e agora recorrer àquelas empresas. Há empresas e empresas, mas a tradução prática disto tem sido uma alimentação muito pior. Provavelmente as escolas também já não cumprem as 450 diretivas sobre higiene, segurança, etc. Portanto, não se pode fazer nem um ovo estrelado sob pena de alguém incorrer num ilícito, no mínimo numa coima. É um país que, ao contrário de outros, como por exemplo, na Suécia, a comida nas escolas é boa. Ninguém sabe se a comida é privada, se é pública. Provavelmente a pública é melhor que a privada. As pessoas não se põem. E nós sempre aqui na nossa miséria, na nossa indigência e sempre a achar que tudo são direitos que nós conquistámos. Portanto, já temos direito de comer refeições horríveis, os nossos filhos na escola, são más. Não quer dizer que não sejam equilibradas. Não são boas, não as comem, fogem delas. Por alguma razão é. Depois verifica-se esta disparidade de um país que, com maior ou menor sacrifício, vai conseguindo passar pra parte onde se vive melhor. E há o outro que fica sempre amarrado à doutrina. É público, é de todos. É público, é de todos. É público, é de todos, mas depois há problemas com alimentação, com a falta de professores.

A suprema vitória da burocracia e da miséria do Estado é esta: é que as escolas públicas, obviamente, o dinheiro que o Estado central paga também não é suficiente. E então o que acontece? Nós temos as autarquias a ajudarem a pagar para se ter refeições melhores. E então, neste momento, temos esta situação. Poderias dizer assim: "Bem, perante esta miséria, o Estado central vai pagar mais, porque o básico é haver refeições decentes." Mas não, porque o Estado central pensa assim: "Espera aí, as autarquias estão a pagar do seu bolso isto. Se eu vou pôr dinheiro, as autarquias poupam e eu gasto. Portanto, eu vou ficar aqui quietinho, pago este absurdo e alguém das autarquias há de lá ir pôr dinheiro e assim, pronto, eu não tenho que gastar mais." E isto, de facto, é a miséria financeira transformar-se numa miséria moral.

É a miséria. As nossas discussões vão sempre dar ao atraso português, à miséria nacional, às leis mal feitas. Imaginem quantos teóricos do socialismo avançado não colaboraram na confecção, estamos outra vez na cozinha, na confecção desse preparado que se traduziu numa lei. Imagine-se essa lei, pra que essa lei? Pra que ela foi feita com esses contornos?

Estamos nisto. Voltamos na próxima quarta-feira, em direto ao meio-dia, em podcast. Já sabe também que pode seguir-nos nas plataformas de podcast. Até pode receber um alerta a cada novo programa, que é seguramente o sonho de muitos de vocês. Até para a semana, Sérgio.

Até para a semana.