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Os acordes da guitarra de Custódio Magalhães ecoam nas paredes da Casa do Alentejo. São a regra nas noites de fado. Desde o século XVII, este palácio já foi casino, consultório médico, barbeiro e até uma escola primária. Fica escondido atrás de uma fachada branca, numa das ruas mais conhecidas da cidade de Lisboa, na Rua das Portas de Santo Antão. Lá dentro, esconde-se um pátio árabe, pintado a tons de vermelho com a vegetação de um país tropical. É um sonho tornado realidade para Manuel Verdugo. Manuel, nós olhamos em volta e o que é que vemos?
O que eu vejo, sempre que entro aqui, é um deslumbramento e um sonho que se vem acumulando ao longo dos anos, desde a época do casino, até inclusivamente ao canto alentejano, que é aqui muito exibido.
Manuel Verdugo é vice-presidente da Casa do Alentejo. Hoje, esta mesma casa tem tanto de museu como de restaurante. Foi até escolhida como palco para as celebrações escocesas da equipa de futebol Celtic de Glasgow, em 2017, quando recordavam o único título europeu que foi conquistado há 40 anos na capital lusa.
O Celtic ganhou um título europeu no Estádio Nacional. Eles quando fizeram, salvo erro, 40 anos, sabe onde é que eles comemoraram esses anos do Celtic? Vieram cá de propósito a antiga equipa do Celtic, foi exatamente aqui. Foi aqui que eles entoaram as canções, aquelas canções emblemáticas dos escoceses, aqui neste pátio. Uma coisa magnífica.
São 97 anos de história na Casa do Alentejo. Mais que do espaço, é feita de pessoas que se sentaram muitas vezes nestas mesas que hoje são de restaurante. O pai de Marcelo Rebelo de Sousa foi um desses sócios e por isso, Manuel Verdugo deixa um apelo.
Dentro das possibilidades dele e daquilo que ele representa para o país, de olhar para a Casa do Alentejo não como uma entidade que está aqui para ganhar dinheiro com as refeições e obter lucro. Olhar que a nossa atividade comercial é acessória e complementar da atividade principal que é a cultura.
Marcelo Rebelo de Sousa vem hoje almoçar à Casa do Alentejo e já tem um prato sugerido.
Eu vou lhe sugerir uma lebre com feijão branco.
Não é o único. Rui Laranjeira trabalha na Casa do Alentejo há 16 anos, é administrativo e como o próprio admite, especialista em lay-offs e garante que a lebre é a especialidade da casa.
A mensagem que eu gostaria de deixar ao professor Marcelo Rebelo de Sousa é: desfrute do almoço, desfrute da Casa do Alentejo e reconheça que este é um sítio singular e como há poucos em Lisboa e quiçá no mundo. Por acaso a sugestão já lhe enviei e enviei-lhe por acaso uma feijoada de lebre, que é um prato de caça que não é fácil encontrar aqui em Lisboa. E o espaço que eu recomendava visitar, o Salão dos Espelhos, que é lindíssimo.
A escolha é comum. Maria Elizabete Cardoso dos Santos é a chefe do restaurante há 15 anos, é a responsável pela lebre com feijão branco, mas não revela segredos.
Posso lhe recomendar a lebre com feijão branco.
Tem sido unânime essa recomendação. Qual é que é o segredo para esse prato?
Não sei. Sinceramente, por acaso é um prato que toda a gente, se calhar, porque não há em muitos sítios, é um prato um bocado especial, se calhar deve ser por isso que as pessoas aderem. Não sei, se calhar é o sabor característico mesmo da lebre e a junção com o feijão que se calhar torna-o tão característico.
Uma visita de Marcelo Rebelo de Sousa, que acontece depois da Casa do Alentejo ter pedido €400 mil em empréstimos. O vice-presidente Manuel Verdugo admite que este é um problema vivido todos os dias, um problema que não o deixa dormir.
Diariamente, deito-me a pensar nisto e custa-me ver esta situação e o meu maior desejo era exatamente tentar que a Casa se mantivesse nos moldes, tal como ela está. Para mim, acho que sim, é dos momentos mais difíceis que a Casa do Alentejo está a atravessar.
O risco de falir e não conseguir manter este espaço nestas condições é real?
É muito real.