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A Ministra da Saúde confirmou que a urgência de obstetrícia e ginecologia do Hospital do Barreiro vai encerrar. Perguntava-lhe, Frederico: que avaliação faz desta decisão e que consequência antevê, na prática, para as grávidas e famílias do Barreiro e dos concelhos vizinhos?

É muita gente num território que são quatro concelhos que têm cada vez mais população jovem. Já falámos sobre isto, infelizmente, várias vezes. Eu digo infelizmente, porque foi sempre sob a perspectiva de fecho e não sob uma perspectiva de resolução de problemas. E aqui também nesses territórios que estão concentrados os grandes investimentos nacionais, a nova terceira travessia, o novo aeroporto, por isso, são territórios que ainda vão crescer mais. E aquilo que temos na perspectiva é fechar serviços públicos. E o serviço público desta região não afeta só estes quatro concelhos. Afeta todo o distrito de Setúbal, inclusive do Litoral Alentejano, onde passam a ter só as urgências que têm e para aquilo que nós cada vez vemos demais, dos partos em ambulâncias, ou é São Bernardo ou é Garcia de Orta, que vão ter que ter a capacidade de receber toda esta gente. E gente que diria, cada vez serão mais, porque há mais população, mais população em idade jovem, e como vamos já ver, com os grandes projetos nacionais a focarem-se aqui, não custa perceber que este ritmo de crescimento ainda vai acelerar mais.

Frederico, referiu o Hospital Garcia de Orta. É exatamente este hospital que a ministra avança que irá acolher a nova urgência regional, de preferência a partir de março, diz Ana Paula Martins. Se isto se verificar, considera que está posta em causa a segurança clínica e o acesso em tempo útil das grávidas, sobretudo em situações de emergência?

Eu diria que a tendência que temos visto... primeiro, gostava de dizer, Deus queira que não, mas estas coisas não podem ser deixadas ao Deus queira que não, como é óbvio, porque acima de tudo tem que estar a segurança na saúde de todos nós, e neste caso para as grávidas em situação de urgência. Mas eu temo que aquilo que nós temos verificado, que já não é uma coisa isolada, que já é um padrão, que é os partos em ambulâncias, em ambiente quase de, eu queria dizer transferência hospitalar, mas de chegada a uma unidade, vão se acentuar. E digo isto, que fique bem, Deus queira que não, mas aquilo que me parece evidente é que isto vai se acentuar. É que nós temos cada vez mais gente nesses territórios, na península e no distrito. Deixe-me fazer um comentário.

Sim, diga, Frederico.

Nós já falámos tantas vezes sobre isto e eu queria mais uma vez frisar, não me vou cansar de dizer. Este alinhamento de crescimento populacional com medidas de fundo que passam pela valorização dos profissionais e retenção dos profissionais no Serviço Nacional de Saúde, são medidas estruturantes que nunca foram feitas. E já agora, deixa-me lhe dizer, que agora percebo porque é que há quase um ano, pelo menos oito, nove meses de certeza, que a ministra se furta aos nossos pedidos de reunião. Constantemente. Desde junho do ano passado que estamos a pedir reuniões à senhora ministra.

E pretende tomar alguma iniciativa agora junto do governo, depois deste anúncio da ministra?

Claro, todas, como sempre fizemos. Desde logo, mostrar o sentimento de que estas medidas são medidas que muitas vezes as pessoas dizem: "Mas isto é só as urgências de obstetrícia, a obstetrícia vai continuar a funcionar." Vamos lá. Qual será o passo seguinte? Como é óbvio, nós percebemos que o passo seguinte será também, por ausência de profissionais também, que o serviço de obstetrícia encerra. E por aí fora. Nós já assistimos no Barreiro a isso, por exemplo, com as questões da cardiologia. Nós temos que estar a pensar em sim, reforçar os serviços públicos, nomeadamente o Serviço Nacional de Saúde. E volto a dizer, em reforçar, conseguindo valorizar e retendo profissionais aqui. E quanto a estas medidas, eu gostava de lhe dizer que vi várias, mas não vi nenhuma. E sim, vamos fazer o possível, inclusive alertando todas as outras forças políticas, obviamente, para perceberem a centralidade que é a península, o distrito e a capacidade de oferecer a uma zona que já está a ter e que vai ter um grande crescimento e rápido crescimento, serviços públicos, nomeadamente no Serviço Nacional de Saúde.

E olhando para o concelho e para o distrito, nesta reorganização que o governo está a tentar fazer do Serviço Nacional de Saúde, que posição considera que o Barreiro deveria ter no âmbito hospitalar da rede da península de Setúbal?

Sabe que nós temos que olhar isto sempre de uma perspectiva, obviamente, também local, mas muito de estratégia, neste caso regional. E como é óbvio, estes três centros hospitalares são fulcrais, e não são só os três centros hospitalares, são os centros hospitalares, são a rede de cuidados primários, que é quem faz o segmento das grávidas para não haver situações de gravidez de risco por risco desconhecido quando chegam à última fase. É fundamental os médicos de família, que têm um papel decisivo. E a toda esta articulação se chama estratégia. E é isto que eu vejo em falta nesta região, porque não podemos estar a falar... para mim, para a região, é tão importante o Hospital do Barreiro. A gente diz Hospital do Barreiro, mas ele é Unidade Local de Saúde Arribarino, Barreiro, Moita, Almada, Montijo e Alcochete. É tão importante este serviço, como é importante São Bernardo, como é importante Garcia de Horta, como é importante, porque também faz parte do distrito e tem papel importante, o Litoral Alentejano. Como é fundamental a rede de primeira linha nos cuidados de saúde primários dos médicos de família. Tudo isto é fundamental e a isto se chama estratégia. E parece-me que infelizmente, olhando só aqui assim, que a estratégia passa por quê? Por assumir uma incapacidade de resolver problemas de fundo, valorizando profissionais e retendo o serviço de saúde. E então vamos, como costumo a dizer, vamos de derrota em derrota. Fechamos agora aqui para reforçar do outro lado. E eu sempre disse, e já falámos várias vezes na Rádio Observador sobre isto, eu percebo que às vezes há medidas de curto prazo que têm que ser implementadas para dar previsibilidade ao sistema. Sempre o disse. Matérias estruturais de longo prazo não se resolvem de um dia para o outro, sempre o disse. O problema é que o tempo passa e nós só vivemos de medidas de curto prazo. O tempo vai passando e nós o que temos é a mesma circunstância com mais tempo decorrido. E isto parece-me, sim, que é uma falta de estratégia integrada para a região gritante. Vamos ter mais fechos agora, continuamos a ter falta de médicos de família, continuamos a ter falta das medidas de fundo que alinhem uma estratégia nacional, regional, também com os serviços públicos, nomeadamente com o Serviço Nacional de Saúde.

Frederico Costa Rosa, ficam então estes alertas. Muito obrigado mais uma vez pela sua disponibilidade em falar com a Rádio Observador.