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Professor Ricardo Trigo, investigador no Instituto Dom Luís da Universidade de Lisboa. Professor, começo por lhe perguntar se esta onda de calor que temos visto nos últimos dias no Canadá, principalmente na província de British Columbia, poderá estar de alguma forma ligada às alterações climáticas.

Aquilo que lhe posso dizer é que não há a mais pequena dúvida que sem a ocorrência das alterações climáticas, que têm vindo a permitir amplificar, quer em amplitude, quer particularmente na sequência destes fenómenos, a probabilidade de um fenómeno como este ocorrer seria muitíssimo mais baixa. Não seria impossível, mas à semelhança de muitas outras ondas de calor que o nosso instituto estuda para Portugal, para a Ibéria, para o Brasil, para os Estados Unidos, aquilo que se verifica é que a frequência, amplitude e extensão espacial destas ondas de calor têm vindo a aumentar de forma muito significativa. Só para ter uma ideia, o recorde de temperatura absoluto do Canadá, que é um país enorme, com mais de 9 milhões de quilómetros quadrados, passou de 45 °C para quase 50 °C, 49,6 °C. E esse tipo de saltos de recorde não ocorrem em situações normais. Normalmente, deveria subir 0,5 °C, 1 °C seria já muito. E, portanto, sim, a resposta definitiva é: a probabilidade de um acontecimento destes ocorrer naturalmente seria evanescente, nula, praticamente.

Professor, as temperaturas têm subido de uma forma mais ou menos uniforme. Todo o Canadá está a passar realmente por estas temperaturas tão elevadas, mas os recordes estão a ser batidos na parte oeste do país. Qual é a explicação para isto acontecer?

Eu diria que são duas principais. Toda a zona oeste dos Estados Unidos, particularmente os Estados Unidos, onde o calor é também muito sentido nas últimas duas semanas, com recordes desde o sul, na fronteira com o México, até aos estados do norte, Washington, Montana, está sobre uma das maiores secas de que há memória. Isto na sequência de duas grandes secas nos últimos 20 anos. Os Estados Unidos foram assolados nesta parte oeste, estou a falar da Califórnia, Nevada, Novo México, Utah, Colorado, por aí fora, por três grandes secas, 2002, 2006, 2013, 2016, e agora uma que parece vir a ser a maior de todas em extensão e em amplitude. E essas secas, quando ocorrem, facilitam a ocorrência simultânea de períodos com temperaturas muito elevadas. Portanto, é muito natural, isso ocorre em todo lado, desde a Austrália, Brasil, Mediterrâneo e agora nos Estados Unidos. Períodos de secas muito acentuadas favorecem a ocorrência de temperaturas muito elevadas. Isso por um lado. Por outro lado, a corrente de jato, que normalmente entra ali na zona mais da Califórnia, norte da Califórnia, parte do Oregon ou do Washington, ou mesmo no sul da British Columbia, atravessa de oeste do Pacífico para dentro do continente americano. E nesta situação, já há vários dias, que a corrente de jato, que é aquela corrente em altitude, 10, 12 km de altitude, com ventos muitíssimo fortes, 200, 300 km/h, e que até tornam as viagens da Europa pra América diferentes, tanto num sentido ou noutro, essa corrente de jato está a ir muitíssimo para norte, antes de chegar ao continente americano, atingindo latitudes muito elevadas, e isso faz com que o ar muito quente vindo do México e das zonas mais tropicais, penetre em toda a zona oeste dos Estados Unidos e do sul do Canadá. Portanto, saliento esses dois fatores estruturantes, por um lado, a seca e, por outro lado, a corrente de jato, que nós dizemos a meandrar, significa que em vez de atravessar de oeste para leste, como é usual, está a ir para latitudes muito mais elevadas e só voltando a descer pra latitudes mais usuais, já depois das Montanhas Rochosas, já no meio dos Estados Unidos.

E esta subida da corrente de jato seria de alguma forma evitável?

Isso é muito difícil de responder. Aquilo que nós sabemos é o seguinte: os ventos de oeste para leste resultam muito da diferença de temperatura entre os trópicos quentes e as zonas polares frias. E as alterações climáticas que se têm vindo a enfatizar nas últimas quatro décadas não são iguais para todo o planeta. Fazem aumentar mais a temperatura, como têm ouvido frequentemente nos media, nas zonas polares do que nas zonas tropicais. Ou seja, o Alasca e a Sibéria e a zona do Polo Norte já subiram cerca de 3,5 °C, e os trópicos subiram 1 °C ao menos. Isso significa que a zona polar está a aquecer muito mais rapidamente do que a zona tropical. Isso faz enfraquecer a intensidade destes ventos de oeste para leste. Ao enfraquecer, faz com que favoreça a migração destas massas de ar do sul para norte e, por vezes, do norte para sul. Por isso, tanto no verão como no inverno, temos visto com bastante frequência, tanto nos Estados Unidos como na Europa, situações de frio, aquelas massas polares que vêm até latitudes mais cá abaixo. Parece um pouquinho contraditório num mundo que está a aquecer. E temos visto também com muita frequência essas situações em que massas de ar mais tropicais tendem a subir para latitudes pouco usuais.

E então essa questão, dizia-me agora que a parte mais a sul também recebe ares mais frios, mas aqui concretamente no Canadá, está um pouco mais a norte, será que no inverno vamos continuar a ver este tipo de ondas de calor também, mais inesperadas?

Isso é muito difícil de dizer. Eu estava a me referir a ar mais frio durante o inverno, em que quando o vórtice polar se quebra, temos verificado nos últimos anos, com alguma frequência superior àquela que é normal, a entrada de massas de ar muito frio vindas do Canadá para a parte central dos Estados Unidos. Mas isso é um fenómeno de inverno, em parte também induzido pelo enfraquecimento destes ventos de oeste. Em relação à permanência desta situação, eu diria que nos próximos meses, se a situação de seca em toda a zona oeste dos Estados Unidos prosseguir, como é previsível que venha a acontecer, nós ainda estamos em junho e normalmente não chove muito nos meses de julho, agosto e setembro, é natural que a probabilidade de ocorrências de ondas de calor, ainda que não desta magnitude, continue a predominar na zona oeste dos Estados Unidos, sul do Canadá. Mas eu duvido que alguma venha a atingir a magnitude desta, porque é completamente fora de tudo aquilo que se viu nos registos históricos.

E, como disse, os recordes já estão a ser batidos, também podemos dizer assim, já há três dias seguidos. Hoje foram, salvo erro, 49,6 °C.

Exatamente.

E, entretanto, os próprios funcionários do Instituto de Meteorologia do Canadá já admitiram que a situação ainda pode piorar. Portanto, ainda podemos chegar aqui a temperaturas mais elevadas. Pergunto-lhe, professor Ricardo Trigo, estando o Canadá já tão próximo de bater os 50 °C, pergunto, dentro do seu conhecimento, se é possível fazer alguma estimativa da temperatura máxima a que o Canadá pode chegar agora nesta altura.

Não é possível saber. Isso é futurologia e não é o meu negócio. O que eu só posso dizer é quantos mais dias passarem com este tipo de anomalias, em zonas que não estão nada habituadas a grandes anomalias deste género, a probabilidade de ocorrerem mortes excessivas vai ser brutal em todas as cidades de Vancouver, Victoria, Seattle, Portland, que estão com temperaturas muito acima daquilo que é expectável e são cidades que não estão habituadas a funcionarem com este tipo de temperatura e, portanto, não há a mais pequena dúvida de que vão ocorrer mortes excessivas, até porque as pessoas têm muito menos ar-condicionado. As próprias casas normalmente têm janelas muito expostas para ter acesso a mais energia solar, o que é exatamente aquilo que não se quer nesta situação. E, portanto, quando se fizer o cômputo geral, por exemplo, da mortalidade excessiva daqui a uns anos, não é uma coisa que se faça de um dia pra outro, tem que se registrar com calma todos os mortos. Não há a mais pequena dúvida que as idades mais elevadas vão sofrer mortes excessivas muito acima daquilo que é expectável para esta altura do ano. Além de todos os impactos expectáveis em termos de incêndios florestais, de baixa produção de energia hídrica e de grandes impactos na produção agrícola. Esses, eu diria que são aqueles impactos que são mais expectáveis, particularmente nos estados dos Estados Unidos mais ao norte. Estou a pensar no Oregon, no Washington, Montana, assim como na British Columbia canadiana.