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Netanyahu e o seu partido, o Likud, são aqueles que estão em melhores condições para formar coligação em Israel. Em primeiro lugar, porque Netanyahu já demonstrou nos últimos anos que não tem problemas nenhuns em formar coligação com partidos nacionalistas, de extrema-direita, partidos religiosos. Mas é importante vermos esta instabilidade dos últimos dois anos, que levaram a quatro eleições distintas, é preciso olharmos para esta instabilidade como um sintoma de algo que está realmente podre já no sistema israelita. Ou seja, desde 1948 que nenhum partido conseguiu obter 61 lugares no Knesset, no Parlamento israelita. Nesse sentido, a instabilidade que estamos a observar agora é um sintoma, e a própria longevidade de Netanyahu é também um sintoma da viragem à direita em Israel, da fragmentação do panorama político, da fragmentação em vários partidos políticos e aquilo que eu também chamo de um esvaziamento ideológico por parte da esquerda sionista.
Quão provável é estas eleições não deem estabilidade suficiente para governar e Israel tenha que partir para umas quintas eleições num prazo um pouco mais largo que dois anos?
Eu acho que é muito provável. A questão aqui é sabermos realmente quanto tempo irá durar. Porque a instabilidade, como eu disse, não é algo extraordinário dentro destas coligações. Eu acho que a instabilidade vai persistir, porque ao mesmo tempo que temos forças dentro da sociedade israelita que apelam a uma maior reforma, nomeadamente, mais uma vez, sobre o papel da religião na vida pública, sobre a necessidade de ser adotada uma constituição israelita, que não existe, ao mesmo tempo que essas forças apelam a uma reforma, existem também outras forças cujo interesse é manter precisamente o status quo. Não consigo prever quanto tempo vai durar esta possível coligação, mas eu acho que em termos de instabilidade, esta instabilidade se vai manter e, na verdade, não acredito que esta coligação vá até ao final dos quatro anos. Acho que antes dos quatro anos teremos novas eleições em Israel.
Marta Silva, aproveito para lhe perguntar, estas eleições acontecem na mesma altura em que pelo mundo inteiro se fala do sucesso do plano de vacinação em Israel e no combate à pandemia. Serão estas eleições um referendo a esse sucesso ou fica aqui uma imagem mais negativa por causa das vacinas não terem sido administradas ou disponibilizadas a toda a gente em Israel, nomeadamente a pessoas palestinianas nos territórios palestinianos?
Eu acho que não será um referendo à atuação de Netanyahu, nem do governo, à atuação deles durante a pandemia. A forma como a coligação reagiu à pandemia foi muitas vezes criticada, mas parece que esse problema foi superado precisamente pelo sucesso e pela rapidez da vacinação. E acho que, na verdade, pode conquistar alguns votos, não será fundamental, ou seja, não é central à vitória do Likud, nem à vitória de Netanyahu, mas pode conquistar alguns votos. Relativamente à questão da má imagem internacional. Na verdade, eu acho que é precisamente o oposto. Ou seja, numa altura, quer dizer, este período de viragem à direita e de adoção de um discurso profundamente racista e abertamente militarizado em relação aos palestinianos, neste período que se iniciou já em 1967, eu acho precisamente o contrário, e acho que o facto de Netanyahu ter uma postura tão rígida e afirmar que Israel não tem a responsabilidade sobre a vacinação desta população, pode valer até alguns votos.