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Vanessa, o director executivo do SNS diz que os constrangimentos nas urgências são menores este ano do que no ano passado. Sim, está a referir-se a este período de Páscoa. Ontem, o PS disse exatamente o contrário. O CEO do SNS, Álvaro Santos Almeida, admite agora que há uma escassez estrutural de recursos humanos e que o problema das urgências não se resolve de uma vez só.

Há uma escassez estrutural de recursos humanos na região de Lisboa e Vale do Tejo, sobretudo. Na área da obstetrícia, essa é uma característica marcada. E o que acontece é que, habitualmente, as unidades para preencherem as suas escalas e garantirem a abertura recorrem a prestadores de serviços. Nos fins de semana de feriado, os prestadores de serviços não estão disponíveis ou não têm tanta disponibilidade para prestar serviço. Portanto, são nessas alturas que os problemas se fazem sentir mais. Obviamente, não vamos resolver tudo de uma vez só, mas estamos gradualmente a melhorar. Por exemplo, este ano o problema foi menor do que no ano passado.

É o que diz o CEO do SNS, de visita ao Hospital Amadora-Sintra. Explica que, ao olhar para o portal do Serviço Nacional de Saúde, quando vemos que há oito ou 10 urgências fechadas, não significa que o SNS esteja fechado, mas sim que das 168 portas de entrada que a rede de urgências tem, 10 estão encerradas. Está conosco em direto nesta edição o antecessor de Álvaro Santos Almeida. Foi diretor executivo do SNS no último governo de António Costa, é o cabeça de lista do PS no círculo eleitoral do Porto. Fernando Araújo, muito obrigada por estar conosco.

Muito boa tarde, muito obrigado.

O PS queixava-se ontem que a Ministra da Saúde e o Primeiro-Ministro andavam desaparecidos em mais uma época festiva, com problemas nas urgências. O senhor já esteve no lugar de CEO do SNS, como eu estava aqui a dizer. Estas explicações que ouvimos agora de Álvaro Santos Almeida fazem jus à realidade? O SNS está a trabalhar e ninguém deixa de ser atendido.

Eu gostava de deixar duas ou três informações que acho relevantes. A primeira é que estamos muito preocupados com a situação. É uma situação de elevado risco, uma situação grave. E por quê? Porque, primeiro, o número de blocos de parto encerrados nesta Páscoa é o dobro do que aconteceu no ano passado. E eu sublinho, para não haver dúvidas, é o dobro do que aconteceu no ano passado. Estamos a falar de cerca de 25 blocos de parto fechados, da capacidade assistencial instalada, 25% fechados na mesma altura. E o problema, além deste valor, que é muito elevado, é que em algumas zonas não há nenhuma resposta. São zonas negras. Volto a dizer, por exemplo, a Península de Setúbal, em que estão fechados os únicos três blocos de parto. O que significa que uma grávida que possa estar no litoral alentejano, em Setúbal ou Alcacena, vai demorar mais de uma hora e meia a chegar ao Hospital Alfredo da Costa ou ao Hospital de Santa Maria. E este impacto é brutal, porque não é apenas na questão dos blocos de parto, depois é nas unidades de neonatologia, na capacidade de resposta. Estamos aqui a falar de uma situação de elevada insegurança, em que não é conhecido nenhum plano de contingência, nenhum plano que acautelasse estas situações, apenas se constatam as mesmas. O risco neste momento, em termos de rede e de resposta nesta Páscoa, é muito grande. Apesar de tudo, fico admirado com algumas das afirmações, que eu percebo que tenham o objetivo de tentar dar algum conforto às famílias. Mas volto a dizer, estamos a falar de cerca de 25% dos blocos de parto encerrados e há zonas em que não há nenhuma resposta.

Mas como é que chegamos até aqui, Fernando Araújo?

Isso teria que se perguntar, eventualmente, à Ministra da Saúde, que não tenho visto ultimamente. Como disse ontem a Ana Vereira Silva, não tenho visto ultimamente fazer nenhuma avaliação do processo. Como é que um ano depois vamos verificar que o número de situações, que já não era bom, quando estamos a falar de blocos de parto fechados, não é uma situação boa, não é uma situação que nos deixasse seguros ou que nos deixasse tranquilos. Agora, o problema é que um ano depois, a situação agravou-se. Estamos a falar, volto a dizer, do dobro dos blocos de parto encerrados. O que eu acho é que não houve nenhuma capacidade, vontade ou motivação de, percebendo que iríamos ter problemas, tentar acautelá-los de alguma forma. Não é conhecido nenhum plano de contingência nesse sentido. Esperar que a rede per se responda é ter muita fé, mas estamos a falar, volto a dizer, de áreas em que não há nenhuma resposta aberta durante este período.

O senhor esteve também sensivelmente um ano à frente do Serviço Nacional de Saúde. Tendo em conta que há um ano a Páscoa foi no final de março e este governo tinha sido eleito há 15 dias, ainda não tinha sequer tomado posse. Num ano era possível reverter esta situação?

Era possível num ano e era isso que estávamos a fazer. O que tínhamos preparado do nosso lado era um plano no sentido de tentarmos acautelar, preparar o conjunto de respostas para tentar reverter situações que também não eram as ideais. Nunca dissemos que era uma situação boa, dissemos que eram situações complexas, exigentes, que demoravam tempo, para as quais tínhamos um plano que estávamos a trabalhar e implementar. Mas depois, entretanto, houve mudanças. Não está muito satisfeito com o nosso plano, tinha um plano muito melhor, um plano que ia produzir resultados a curto prazo e fico muito preocupado, fico profissional e como utente do SNS, que um ano depois, as situações que tinham realmente problemas ficaram muito piores, muito mais graves. Esta situação, a gente olhar para ela e pensar que tendo um em cada quatro blocos de parto fechados em zonas muito concentradas e que a resposta está assegurada, não estamos a falar da mesma coisa. Quer dizer, uma grávida não virá de Setúbal seguramente para o São João ou para o Santo António, em trabalho de parto. A questão da rede do SNS é uma questão que tem que ser vista de acordo com as suas especificidades, leis e especificidades, de acordo com a sua região, área geográfica, para termos depois que a rede possa responder às necessidades.

Fernando Araújo, obrigada por ter estado em direto nesta edição das 14h da Rádio Observador. O ex-diretor executivo do Serviço Nacional de Saúde, que agora é candidato a deputado nas próximas eleições legislativas, é o cabeça de lista pelo círculo eleitoral do Porto. Aqui a criticar o atual governo por agravar, diz Fernando Araújo, a situação nas urgências. Este sábado há oito que estão fechadas, a maioria na região de Lisboa. Amanhã, dia de Páscoa, é o pior dia com 10 serviços encerrados.