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Junta-se agora a nós neste jornal Observador, Fernando Nobre, presidente da AMI em Portugal. Muito boa tarde, Fernando Nobre.
Boa tarde.
Qual vai ser o papel também da Ajuda Médica Internacional, neste caso que tivemos notícia ontem, depois dessas explosões que levaram à morte já de 135 pessoas, número confirmado já pelas autoridades libanesas e que provocou também estragos de grande dimensão em Beirute.
Eu já estive no Líbano quatro vezes desde 1982, na altura cercado pelas tropas do general Sharon. Regressei no início dos anos 2000, em 2006, quando a parte sul de Beirute foi bombardeada, em 2012 com os refugiados sírios. Beirute é uma cidade moderna. Os números apontados temos que os ver sobre várias coisas. Primeiro, os feridos. Os mortos, infelizmente, não há nada a fazer, sejam eles 135 ou 200, a única coisa é desenterrá-los de sob os escombros e enterrá-los, porque para eles, infelizmente, não há mais nada a fazer. Quanto aos feridos, o nitrato de amônio, pode haver três tipos de feridos: os feridos ligeiros, devido aos estilhaços de vidros e outras quedas de objetos, dos escombros. Os politraumatizados, esses precisarão de intervenção cirúrgica. E a questão do nitrato de amônio, que pode provocar lesões, sobretudo respiratórias, dos olhos e da pele, enfim, não são graves. Por isso, há que imediatamente triar os feridos ligeiros, esses não devem sequer ir aos hospitais, e depois tratar-se dos feridos graves. Se houver 4 a 5 mil feridos, três quartos, de certeza, são feridos ligeiros e restam então os feridos graves, ou do foro cirúrgico ou do foro pulmonar. No que diz respeito à AMI. A AMI tem parceiros no Líbano, a Associação dos Médicos Libaneses. Temos estado em contacto com eles, já interviemos várias vezes com eles na zona de Beirute, e não só, em Tripoli, no norte também. E por isso, em função disso e em função do que nos irão solicitar, ou equipas de suporte que trabalharão com eles, ou apoio financeiro, assim atuará a AMI. Quanto aos deslocados, não nos esqueçamos que o Líbano acolheu mais de 2 milhões de deslocados do conflito da Síria desde 2012. E por isso os libaneses estão preparados e estão habituados a acolher das suas comunidades, sejam elas maronitas, essa região que foi atingida é mais a zona norte de Beirute, a zona Achrafieh, sejam drusos, sejam sunitas, sejam xiitas. Os deslocados juntar-se-ão às suas comunidades e isso não vai por o problema, porque eles desde a guerra civil que começou em 1975, infelizmente, o povo libanês mostrou uma capacidade de resiliência e de adaptação ímpares que eu pude testemunhar já algumas vezes.
Mas a verdade, Fernando Nobre, é que nesta altura o país vive também uma situação muito complexa do ponto de vista financeiro, do ponto de vista social. Notou-se também ontem que havia já dificuldades, por exemplo, nas principais unidades hospitalares para dar conta dos feridos em resultado dessas explosões. Esta é uma situação que pode levar aqui a uma crise humanitária. Houve quem falasse disso mesmo ontem.
Sinceramente, o que quero lhe diga, não creio que isso venha atingir a tal crise humanitária que se fala. Há mais de 42 anos que ando nesses combates e posso dizer, pelo que eu conheço os hospitais libaneses e conheço alguns, sobretudo no Líbano e no norte, em Tripoli, são modernos. Não nos esqueçamos que o Hospital Libanês de São Paulo, no Brasil, é um dos melhores hospitais do Brasil. Os libaneses têm uma tradição na saúde extremamente boa. O Hospital Americano de Beirute tem capacidades ímpares e eu acredito que não serão 1000, 1500 feridos graves, tendo em conta a parte cirúrgica e a parte médica, sobretudo pulmonar, que poderá por em causa esse país que há mais de 40 anos vive de sobressalto em sobressalto. De todas as maneiras, no que nos diz respeito, nós estamos permanentemente em contacto com os nossos parceiros. Trabalhámos com eles em 2006, trabalhámos com eles em 2012 e voltaremos a trabalhar com eles, porque já nos conhecem e atuaremos em função das solicitações que nos são feitas. Estamos prontos, sabemos trabalhar nas grandes emergências, sejam elas do foro cirúrgico, sejam elas do foro médico e se necessário for, também enviaremos apoio logístico ou apoio financeiro. O nosso parceiro in loco, repito, a Associação dos Médicos Libaneses, definirá as prioridades e em função dessas prioridades nós atuaremos.
Fernando Nobre, diga-me uma coisa, do ponto de vista de Portugal, há essa possibilidade de a AMI enviar ajuda médica no que diz respeito a recursos humanos para território libanês?
Com certeza que sim, já o fizemos no passado, repito. Já intervim eu pessoalmente no Líbano por quatro ocasiões. Conheço bem aquele país De norte a sul, da fronteira sul com Israel até à fronteira norte com a Síria, Tripoli, e de certeza estamos preparados e prontos para, se necessário for, e se fizerem um pedido nesse sentido, a nossa parceira local, com quem trabalhamos há mais de 14 anos, assim atuaremos. Estamos prontos e temos as capacidades para o fazer.
Tendo em conta a sua experiência também nesta região do globo e também neste tipo de situações, tem alguma previsão de quanto tempo pode demorar até que tudo esteja relativamente estabilizado do ponto de vista da ajuda internacional? Até porque já houve aqui também vários apelos para que a comunidade internacional se mobilizasse, as próprias Nações Unidas, até o Papa Francisco já apelou a que houvesse essa posição conjunta para ajuda da comunidade internacional. Quanto tempo pode demorar até que haja uma concertação de esforços e até que tudo esteja estabilizado no terreno?
Eu acredito, pelo que já disseram, a Turquia, os Emirados Árabes, a própria Arábia Saudita e a França, como ex-potência colonial, entre aspas, obviamente reagirão de imediato, porque têm in loco embaixadas extremamente poderosas e têm meios sofisticados à sua disposição para atuarem de imediato, tanto por via aérea como por via marítima. Eu fui habituado a conviver com esse povo, ímpar, repito, de uma resiliência que eu poucas vezes vi, e sempre fiquei espantado com a capacidade de recuperação do Líbano. Quem conheceu o Líbano em 1982 e viu arrasado, completamente arrasado, como a parte sul do Líbano foi arrasada em 2006, inclusive o aeroporto de Beirute, compreenderá que o povo libanês e a sua diáspora, que é extremamente importante, sobretudo nos países do Golfo, e tem capacidade financeira intrínseca, vão reagir rapidamente e quem chegar ao Líbano daqui a dois anos nem saberá que houve derrocadas de prédios naquela zona. É uma capacidade de recuperação que sempre me deixou espantado. E por isso, por proximidade, repito, a Turquia, os Emirados Árabes, a Arábia Saudita, o próprio Irão, porque há uma forte comunidade xiita, não esqueçamos que o Irão tem ligações com a Hezbollah, que é um poderio dentro do Líbano, acredito que os países sunitas, xiitas e a França vão rapidamente terem mais do que a ajuda necessária para suprir esse problema, que vem de uma detonação de um material explosivo quando as condições estão reunidas, como o calor, como a mistura com produtos orgânicos ou indutores como o cobre, o zinco, enfim, vários metais, e rapidamente a situação vai estar controlada. Duvido que se fale desse acidente daqui a um mês.
Muito obrigado, Fernando Nobre. É isso que esperamos também todos. Fernando Nobre, que é presidente da AMI, conosco neste jornal, para nos ajudar aqui a tentar perceber como é que pode ser feita essa ajuda, como é que pode haver também essa mobilização, esses esforços conjuntos também por parte de países próximos, para que esta recuperação neste país, que é resiliente, o Líbano, possa acontecer também o mais depressa possível. Fernando Nobre, que falava, por exemplo, de França. A França que já enviou dois aviões com apoio médico de emergência para o território libanês. Voltamos a dar conta desses números: 135 mortos confirmados até agora. Esse o número oficial na sequência dessas grandes explosões de ontem à tarde em Beirute, no Líbano.