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Que avaliação é que faz deste último ano? O que é que mudou? Se mudou alguma coisa, tanto a nível nacional como se calhar na zona específica do Zambujal ou da Grande Lisboa.

Ok, muito bem. Para já, muito obrigado pelo convite. O que balanço é que faz? Ainda não estamos em condições de fazer o balanço final deste ano. Normalmente, costuma-se dizer que os balanços são no final do ano. Eu diria que a nossa preocupação é que não se tem visto, desde os acontecimentos trágicos do Largo do Zambujal e a morte do Odair, que se tenha feito grandes coisas relativamente do ponto de vista da segurança, de forma a modificar quer a intervenção nestas zonas, nas zonas com necessidade de um tipo de policiamento, patrulhamento diferenciado, e depois, por outro lado, também as condições que os próprios agentes das forças de segurança, e no caso concreto da PSP, têm ao seu dispor para fazer face a este tipo de situações. O que eu quero dizer com isto? Quero dizer que nós advogamos que deveria haver um trabalho mais próximo junto das comunidades, no sentido de perceber as dinâmicas das próprias zonas, de que forma é que junto com as comunidades se poderia melhorar mesmo as condições de vivência, as condições sociais e de interação das forças policiais com a própria comunidade. E depois, por outro lado, também a questão, como eu estava a referir, dos instrumentos ao dispor das polícias para que situações como esta não se voltassem a repetir. Por quê? Porque as forças de segurança tendo ao seu dispor, como instrumento, a última possibilidade, a última ratio, que é a utilização da arma de fogo para resolver um incidente tático-policial, quando deveria ter, por exemplo, instrumentos que têm sido propalados ao longo do ano, a utilização de armas não letais, como é o caso do Taser, que naquela situação em concreto se calhar podia ter sido utilizado e tinha-se evitado uma morte. Portanto, é todas estas questões, questões de interação junto às comunidades e a questão dos equipamentos que as polícias dispõem. De certa forma, de uma forma resumida também, é isto que nos apraz dizer sobre a questão.

E queria lhe também perguntar, não sei se podem já fazer essa avaliação, mas acha que esta onda de criminalidade agora na última semana aqui na Grande Lisboa, com várias mortes, pode estar de alguma forma relacionada, ou acha que é simplesmente um foco agora que está a acontecer por algum outro motivo?

Eu acho que é uma triste coincidência. O que eu quero dizer com isto? De facto, nesta última semana, temos assistido a um conjunto de eventos que nos devem preocupar, quer pela dimensão, portanto, pelo número de eventos, assim como pela violência que estes eventos têm demonstrado. O caso da utilização de arma de fogo, que se pretendia que houvesse um decréscimo, que é sempre essa a pretensão das autoridades, é a não utilização, a inexistência ou a utilização reduzida desta tipologia de instrumento por parte dos criminosos, das pessoas que perpetram este tipo de ações, porque, em boa verdade, cria uma dificuldade acrescida também depois à própria atuação da polícia. No fundo, vai quase que bater também ao caso do Odair, embora, naturalmente, no caso do Odair, não tenha havido a presença de uma arma de fogo por parte do Odair. Mas isto para dizer o quê? Para dizer que, de facto, eu acho que é uma coincidência a existência de todos estes casos nesta última semana. Não significa, porém, que eu não considere que se calhar os dados, o tal balanço que iremos fazer do ano em curso e que irão ser naturalmente reproduzidos no RASI, no Relatório Anual de Segurança Interna do próximo ano, nos venham trazer a triste notícia que houve um aumento da criminalidade grave ou violenta.

E já agora queria lhe perguntar, por acaso não sei, quando é que vão divulgar esse relatório?

Normalmente, o relatório surge ali no mês de março, abril, portanto, eu diria que podemos esperar que o próximo relatório também surja nesse período, portanto, será sempre no início, março, abril, são normalmente os meses, por norma, em que o relatório é divulgado.

Ok. E não sei se lhe posso chamar operação, mas queria também saber se por acaso estão a fazer algum tipo de operação ou de estudo para perceber que consequências é que a morte do Odair teve, ou não estão a fazer nada assim de especial para isso?

Está a falar quem é que está a fazer? Quem? As forças de segurança?

Não, o Observatório.

O Observatório acompanha os fenómenos e analisa e procura naturalmente extrir deles conclusões. É evidente que cada caso é um caso, cada situação merece ser vista individualmente, e nós consideramos que todos estes casos não têm ligações entre eles. Portanto, são casos isolados, são casos que têm origem em motivos diferenciados em cada um deles. Não há aqui a concertação de um crime organizado, o mesmo grupo que tem vindo a perpetrar este tipo de situações. Agora, nós acompanhamos, naturalmente, e eu espero que no próximo ano também possamos continuar a contribuir com as nossas análises para a reflexão sobre este tipo de situações.

Mas a expectativa então, do que tem visto até agora, acredita que os resultados vão ser piores?

Eu não diria tanto que eu acredito. Eu temo é que nós venhamos exatamente a constatar essa triste realidade, que é o aumento do crime de homicídio e o aumento do crime violento ou grave, perpetrado através da utilização de arma de fogo. Eu acho que verdadeiramente há necessidade de as forças de segurança, no caso concreto, começando pelo governo, repensarem formas de actuar, reequiparem as forças de segurança com instrumentos apropriados para cada situação em concreto, repensarem as condições em que está a fazer o recrutamento e a cativação dos nossos jovens para se juntarem às forças de segurança. Portanto, eu acho que havia necessidade, de facto, de se começar a fazer uma reflexão mais séria, mais profunda sobre a questão da segurança interna.